sábado, 7 de novembro de 2009
A revolução sem sangue
Há vinte anos, os alemães-orientais derrubaram o Muro de Berlim, libertando-se de quatro décadas de totalitarismo e enterrando parasempre a experiência comunista. Os efeitos do regime falido são sentidos até hoje na antiga Alemanha Oriental, mas prevê-se queem dez anos não haverá diferenças no país reunificado
Diogo Schelp, de Berlim
Em Berlim, para lembrar é preciso olhar para baixo. As cicatrizes estão marcadas no chão da capital da Alemanha. Discreta, quase imperceptível, uma estreita faixa de paralelepípedos corta uma avenida de asfalto impecável, invade a calçada e desaparece sob a parede de um moderníssimo prédio. Em outros trechos, a menção ao símbolo maior da Guerra Fria traz uma mensagem mais direta: placas de metal encravadas no solo com a inscrição "Muro de Berlim – 1961-1989" informam que por ali passava a barreira que dividiu a Alemanha, a Europa, a Terra. A queda do muro, em 9 de novembro de 1989, foi um desses eventos raros em que a ruptura com o passado é tão brusca que uma única data marca o início de uma nova era. O efeito mais óbvio daquela noite de outono berlinense, em que os alemães-orientais forçaram a abertura das fronteiras para o oeste, foi dar um fim ao conflito entre Estados Unidos e aliados no mundo civilizado e União Soviética. A Guerra Fria, como se chamava esse conflito, se não resultou em embate direto entre as duas superpotências nucleares, por causa do risco de aniquilamento total, configurou o planeta em metades capitalista e comunista que descarregavam a tensão permanente em guerras localizadas, como a da Coreia e a do Vietnã. Com a queda do muro, a Alemanha voltou a ser uma só nação e ficou evidente quem eram os vencedores: o capitalismo, a democracia, a liberdade. O ano de 1989 representou, assim, o fim da história para o comunismo, um regime que, nos países em que se instalou à força de baionetas, ceifou 100 milhões de vidas e eliminou o horizonte de progresso material e espiritual de quem estava sob seus tacões. Nos dois anos seguintes, o império soviético esfacelou-se por completo. Hoje, o sistema que o engendrou sobrevive como curiosidade quase que zoológica apenas numa ilha do Caribe e na metade de uma península asiática. Até a poderosa China, nominalmente comunista, aderiu ao capitalismo, embora esteja a milhões de anos-luz de ser democrática.
Evidentemente, não foi preciso esperar até 1989 para constatar o fracasso do socialismo. A própria construção do Muro de Berlim, iniciada em 13 de agosto de 1961, foi motivada pela incapacidade do sistema de cumprir as promessas de uma vida melhor à população. Até aquela data, 3 milhões de pessoas haviam fugido da Alemanha Oriental para a Ocidental. "Para evitar o colapso do país por falta de gente, o regime comunista precisou prender os seus cidadãos, e não havia maneira mais barata de fazer isso do que construir um muro", diz o historiador inglês Frederick Taylor, autor de Muro de Berlim – Um Mundo Dividido – 1961-1989. Na órbita soviética, cultivava-se a ideia de que, como os alemães eram um povo eficiente, seriam capazes de fazer o socialismo funcionar e, assim, transformar o seu país numa vitrine do sistema. De fato, os alemães-orientais eram mais eficientes do que os seus companheiros do Leste Europeu. Tanto que exacerbaram, mais do que em qualquer outra latitude, o único atributo comunista: o total controle do estado sobre os cidadãos. Controle este que se estendia aos intestinos das crianças. Na pré-escola, todas eram obrigadas a ir ao banheiro na mesma hora.
Não havia uma Polônia Ocidental ou uma Hungria Ocidental, mas havia uma Alemanha Ocidental. Para além de se haver com a total irracionalidade de um sistema que havia banido a propriedade privada e a liberdade de opinião e associação, a República Democrática Alemã (RDA), como era chamada oficialmente a Alemanha Oriental, tinha de se confrontar com a laboriosidade dos alemães-ocidentais, que, dos escombros da II Guerra, construíram uma das nações capitalistas mais pujantes do planeta. No fim da década de 70, os dirigentes da Alemanha Oriental admitiram, para sua vergonha, que o desenvolvimento tecnológico da RDA estava duas décadas atrasado em comparação ao da República Federal da Alemanha (RFA). Provavelmente o abismo era ainda maior, e ele só fez aumentar com o passar do tempo. Em Berlim Oriental, a paisagem urbana era dominada por Trabants, um modelo de carro da década de 50 produzido na RDA. Enquanto no Ocidente a indústria automobilística equipava os veículos com acessórios eletrônicos cada vez mais modernos, o Trabant funcionava com um motor de dois tempos. Para comprar um, era preciso colocar o nome numa lista e esperar quinze anos. "Como resultado, um Trabant usado era mais caro do que um novo", diz o historiador berlinense Hanno Hochmuth. Uma contradição mais do que dialética.
A baixíssima produtividade da indústria da RDA é considerada um dos principais fatores que levaram à queda do muro. Não havia imprensa livre no país, mas não era preciso recorrer aos jornais para verificar o desastre econômico. As fábricas obsoletas, muitas das quais com equipamentos da década de 30, ora não contavam com peças de reposição para as máquinas, ora ficavam sem matéria-prima para produzir. A oferta de produtos era muito limitada. Café e banana, por exemplo, eram artigos de luxo. Como em outros países comunistas, as pessoas acostumaram-se a sair de casa sempre munidas de sacolas. Se encontrassem uma fila na porta de uma loja, entravam, mesmo sem saber o que estava à venda.
A falta de produção e, consequentemente, de recursos explica em parte por que a RDA gostava tanto de fazer presos políticos. A liberdade de cada um deles podia ser vendida por até 100 000 marcos ao governo da Alemanha Ocidental, o equivalente hoje a 50 000 euros. Entre 1963 e 1989, 3,5 bilhões de marcos ocidentais foram parar nos cofres do regime comunista por causa desse tipo de sequestro oficial. O principal objetivo do estado policial da Alemanha comunista, no entanto, era manter a submissão ideológica de seus cidadãos. Nisso, a eficiência também era germânica. A Stasi, corruptela em alemão para Segurança de Estado, era um ministério que abarcava inúmeras funções de repressão, desde a espionagem internacional e doméstica até a investigação criminal. Seus mais de 90 000 funcionários diretos e 180 000 informantes vasculharam em detalhes a vida de um em cada três habitantes da Alemanha Oriental. "Não dava para saber em quem confiar, pois houve casos de dedos-duros entre casais, irmãos e até pais e filhos", diz o historiador Bernd Floriath, pesquisador da repartição pública que administra os arquivos da Stasi. "Na minha ficha, por exemplo, descobri que minha vizinha contava até o número de garrafas de vinho da minha lata de lixo." Uma questão incômoda na Alemanha atualmente é se pessoas que espionaram para a Stasi no passado podem ocupar cargos públicos de destaque. Muitos ex-colaboradores da repressão comunista estão hoje ascendendo na política. A maioria é filiada ao partido Die Linke (A Esquerda), um herdeiro do Partido Comunista da RDA cuja representação no Parlamento alemão aumentou em 30% após as eleições deste ano. A chanceler Angela Merkel é um dos poucos políticos oriundos da Alemanha Oriental sem um passado a esconder.
As informações recolhidas pela Stasi eram usadas para punir os cidadãos que não se mostrassem "bons comunistas". Função semelhante tinham as diversas organizações militares ou paramilitares da RDA. "A militarização da sociedade tinha como objetivo quebrar a vontade própria do indivíduo e começava já no jardim de infância", diz Tom Sello, um dos 3 000 alemães-orientais que se arriscaram a fazer oposição na Alemanha Oriental. Entre outras atividades, as crianças tinham de fazer simulações de manobras contra hipotéticas invasões capitalistas. Na adolescência, os alunos eram pressionados a aderir à Juventude Livre Alemã, uma organização paramilitar que tinha entre suas atividades quebrar as antenas de TV dos moradores que assistiam aos canais ocidentais. Impedidos de viajar, era assim que os cidadãos sob o regime comunista verificavam que a vida do outro lado era muito melhor. A região de Dresden, onde as características topográficas dificultavam a captação de sinais de TV do Ocidente, era chamada de Vale dos Inocentes.
Muro derrubado, a Alemanha voltou a ser um só país em 1990. Até agora, o custo da reunificação já bateu em 1,5 trilhão de euros. No início, o processo produziu uma espécie de milagre alquímico: os alemães-orientais puderam trocar seu dinheiro por marcos alemães-ocidentais, então uma das moedas mais fortes do mundo, na proporção de 1 para 1. No mercado negro a proporção era de 1 para 5. Quase vinte anos depois, os efeitos são vistosos na infraestrutura. A porção oriental de Berlim reluz como a parte ocidental e as rodovias no antigo território oriental são melhores do que as do resto da Alemanha. Mas os problemas permanecem, se não insuperáveis, bastante grandes. Os subsídios governamentais atraíram empresas para o leste, mas não na proporção necessária para empregar todos os trabalhadores. Além disso, os sindicatos alemães não aceitaram que os salários fossem mais baixos nos estados que compunham a Alemanha Oriental, o que seria natural dada a menor qualificação dos trabalhadores de lá. Desse modo, as empresas em busca de mão de obra mais barata preferiram instalar-se, em sua maioria, nas outras ex-repúblicas comunistas – que adoraram, é claro, receber o investimento.
O corolário do sindicalismo míope é que o desemprego entre os alemães-orientais é o dobro do registrado no restante da Alemanha e, nos últimos vinte anos, a migração para a parte ocidental fez a região perder 8% de sua população. Um passeio a pé por Halle, uma importante cidade industrial nos tempos da RDA, deixa claro o perfil dos que saem do leste: há poucas mulheres jovens nas ruas. Uma em cada cinco residências de Halle está abandonada, e o governo chegou a demolir modernos conjuntos habitacionais cons-truídos após a reunificação, por falta de gente para morar. "O erro maior é acreditar que os problemas econômicos e demográficos são culpa da reunificação ou da transição para o capitalismo", diz Udo Ludwig, do Instituto de Pesquisas Econômicas de Halle. "Na verdade, tudo isso ainda é efeito das décadas em que estivemos apartados do resto da Alemanha." É como um braço amputado: depois de reimplantado, custa a fun-cionar normalmente.
A Alemanha Ocidental tornou-se uma potência exportadora nos anos 50 e 60, quando tinha pouca concorrência internacional. Já a Alemanha Oriental fez a transição para a economia de mercado em um momento em que a disputa é bem mais acirrada: além de todo o Leste Europeu, há a China, o novo chão de fábrica do mundo. Pouco a pouco, no entanto, a diferença entre os alemães está diminuindo. O PIB per capita no leste da Alemanha é de 75% da média nacional. "Os alemães-orientais devem alcançar a proporção de 85% em dez anos", diz Wolfgang Tiefensee, até o mês passado titular do Ministério para a Reconstrução do Leste. Desde 2005, as ofertas de emprego na região aumentaram. E mesmo os que não têm trabalho vivem melhor com a renda do seguro-desemprego do que há vinte anos sob o comunismo. Como explicar, então, a onda de "ostalgia" (neologismo que une as palavras ost, leste em alemão, e nostalgia)? "A questão é que centenas de milhares de pessoas perderam a posição de destaque que tinham na RDA e hoje têm de se contentar com atividades de status mais baixo", diz Rainer Eckert, diretor do Fórum de História Contemporânea de Leipzig.
Como não poderia deixar de ser, a reunificação alçou a Alemanha a um novo patamar de liderança externa e a queda do muro deu impulso à União Europeia. "A UE expandiu-se rapidamente para o leste, onde se mostra fundamental para melhorar a gestão pública e manter a estabilidade", diz o historiador inglês Tony Judt, especialista em Europa. O fim do comunismo, representado pela derrubada do muro, também propiciou a aceleração do processo de globalização econômica e o enfraquecimento das visões estatizantes em países como o Brasil e a Índia, hoje duas potências emergentes. Há vinte anos, porém, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand tinham calafrios ao imaginar a possibilidade da reunificação do país. "Gosto tanto da Alemanha que prefiro duas", dizia Mitterrand. Recentemente, a divulgação de gravações feitas pelos russos revelou que Thatcher chegou a pedir ao líder soviético Mikhail Gorbachev que impedisse a reunificação. Em 1990, Thatcher disse a Gorbachev: "Toda a Europa está assistindo a tudo isso não sem uma dose de temor, lembrando muito bem quem começou as duas guerras mundiais". Lothar de Maizière, o último governante da RDA, diz que foi o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, quem conseguiu convencer Mitterrand de que não era preciso se preocupar com as ambições da Alemanha. Thatcher era mais resistente. "Eu próprio tentei tranquilizá-la, dizendo que ninguém na Alemanha pensava em fazer reivindicações de território ou colocar em dúvida as fronteiras existentes", conta De Maizière.
As preocupações de Thatcher eram perfeitamente justificadas para alguém que conheceu as agruras da II Guerra e se criou politicamente no período de tensões da Guerra Fria. Para não causar mais problemas, a Alemanha derrotada em 1945 emergiu do conflito partilhada pelas forças de ocupação. Foram criados um setor americano, um francês, um inglês e um soviético. Esse padrão se repetiu na capital, Berlim, encravada no coração do território alemão sob influência soviética. Em 1949, a Alemanha foi dividida em dois estados, um comunista e um capitalista. Nesse contexto, Berlim tornou-se o palco de alguns dos momentos mais críticos da Guerra Fria. Em 1948, Stalin, que queria Berlim inteira para si, ordenou um bloqueio à parte ocidental – furado por uma ponte aérea organizada pelos americanos. Ninguém resumiu tão bem o significado de Berlim como centro de resistência ao totalitarismo comunista quanto o presidente americano John Kennedy, em visita à cidade, em 1963. Em discurso aos moradores da parte ocidental, ele disse: "Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim. E é assim, como um homem livre, que me orgulho dessas palavras: eu sou berlinense!".
O Muro de Berlim não teria caído em 1989 se não fosse pelo líder soviético Mikhail Gorbachev. "O russo, ele próprio às voltas com reformas na União Soviética, deu espaço às outras repúblicas comunistas do Leste Europeu para experimentarem algum tipo de abertura", diz o americano Michael Meyer, autor do livro 1989 – O Ano que Mudou o Mundo. O presidente americano Ronald Reagan, Thatcher e Kohl souberam aproveitar a disposição de Gorbachev de reduzir as tensões entre os blocos comunista e capitalista, e a nova realidade política foi interpretada da seguinte forma no Leste Europeu: "O líder soviético não está disposto a usar a força para salvar o comunismo". Em maio de 1989, Miklós Németh, o primeiro-ministro reformista da Hungria, mandou desativar a cerca elétrica na fronteira de seu país com a Áustria. Estava aberta a primeira brecha na Cortina de Ferro. Atropelado pelas reformas iniciadas nos países vizinhos e pela crescente onda de protestos, o governo da RDA ensaiou uma tímida lei que permitiria aos cidadãos viajar ao exterior. No dia 9 de novembro, ao final de uma entrevista coletiva com jornalistas ocidentais, o porta-voz do regime Gunter Schabowski comentou as novas regras para viagens. "Quando isso entra em vigor?", perguntou um jornalista. "Imediatamente", respondeu Schabowski, um pouco confuso.
Na verdade, o plano era que as viagens pudessem ser feitas a partir do dia seguinte e de maneira organizada. Mas, logo nas primeiras horas após a entrevista, uma multidão começou a se aglomerar nos postos de controle do muro e a exigir o direito de passar para o outro lado. Um chefe da guarda acabou cedendo. A festa atravessou a madrugada e continuou no dia seguinte, quando marretas e picaretas começaram a ser empregadas para arrancar os primeiros pedaços do muro. A razão imediata que levou à queda dessa barreira ignóbil foi a mesma que justificou a sua construção: o desejo dos cidadãos de deixar para trás a claustrofobia do regime comunista. Vinte anos após a queda do muro, os pés dos berlinenses ignoram as linhas que sinalizam a localização da barreira da vergonha. Eles cruzam de um lado para outro sem tomar conhecimento da extinta divisão entre leste e oeste. Não podia haver exaltação maior à liberdade.
O herói das fugas
A história do muro é a história de Hartmut Richter. Aos 13 anos, ele viu a barreira ser construída. Em 1966, aos 18 anos, foi preso em uma tentativa frustrada de fugir do país pela fronteira da então Checoslováquia com a Áustria. Foi condenado a dez meses de cadeia, cumpriu três por demonstrar arrependimento e, no mesmo ano, fez uma nova fuga. Dessa vez, bem-sucedida: Richter cruzou a nado o canal de Teltow, ao sul de Berlim, em quatro horas, sem ser visto pelos guardas de fronteira, que tinham ordens para atirar. "Eu fugi porque não suportava ter de reiterar o tempo todo a submissão ao estado e à ideologia comunista", diz. Na década de 70, uma anistia permitiu a fugitivos como Richter visitar novamente a RDA. Ele aproveitou a oportunidade para ajudar outros alemães-orientais a fugir. Ao todo, Richter contrabandeou 33 pessoas para o lado ocidental, todas escondidas em seu carro. Em 1975, ele foi pego pela polícia secreta enquanto tentava cruzar a fronteira com a irmã e o cunhado no porta-malas. Durante meses, Richter foi pressionado nas masmorras do regime comunista para entregar o nome de outras pessoas que planejavam escapar para o oeste. "Eu passava várias semanas na solitária e era interrogado quase diariamente", diz Richter. Condenado a quinze anos de cadeia por "tráfico humano", o herói do muro passou cinco anos e sete meses preso até ter sua liberdade comprada pelo governo da Alemanha Ocidental. Ainda hoje, Richter, de 61 anos, comemora o dia de sua fuga pelo canal de Teltow como se fosse seu aniversário.
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Medicina ainda fala em raça
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Arbex, um jornalista que viu tudo e nada aprendeu.
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Pelegos dos Kirchner bloqueiam jornais
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O retrovisor de Caetano
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O poder da estupidez
Retorno ao historiador Marco Cipolla, que, nas supostas horas de folga, escreveu um belo livro de humor sobre a estupidez humana (Allegro ma non troppo, ao lado). Não sem razão, ele considera as pessoas estúpidas mais perigosas que os bandidos (entre os quais há estúpidos também, claro). Escreve o historiador:
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Ninguém é pobre no Grotão lulista
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Fora, "Adolfinejad"!
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Yoani e Ayaan: um contraponto.
"Batizei meu novo espaço de exorcismo "Generación Y", um blog inspirado em gente como eu, cujo nome começa por (ou contém) um "ipsilon" (Yoani Sánchez - De Cuba com carinho).
A blogueira cubana merece as loas que vem recebendo pelo mundo afora, seja pela pena dos comentaristas do seu aclamado blog, seja através do reconhecimento expresso através do prêmio Ortega y Gasset que lhe foi outorgado, seja pelo destaque que a imprensa, de maneira geral, vem dando a ela. Em primeiro lugar por escrever muitíssimo bem, com leveza e bom humor, e não fazer do seu blog um novo muro virtual das lamentações, apesar de viver no perseverante absurdo cubano, que não passa - na mais tétrica e temível realidade - de um presídio a céu aberto. Em segundo, pelo empenho voraz em superar
toda a sorte de obstáculos, dos materiais aos ideológicos, e assim ter conseguido ser ouvida "desde Cuba" (que é, aliás, o nome do site onde se encontra o Generación Y).E o que foi, então?
Vale um exemplo: Eu também acreditei que tinha nascido em uma ilha privilegiada, sob um sistema social superior, guiada pelo melhor dos líderes possíveis. Não eram "ários" os que nos governavam, mas se autoproclamavam "revolucionários" e isso parecia ser um estágio mais evoluído - o degrau mais alto - do desenvolvimento humano (p.46).
E outro: Tenho 33 anos e dois fios de cabelos brancos. Passei pelo menos metade de minha vida desejando mudanças na minha ilha. (...) As caras ansiosas de meus familiares pressagiavam que logo a situação melhoraria, mas em vez disso os problemas se tornaram crônicos e as soluções foram proteladas. Depois veio meu filho e, entre apagões e frases do tipo "não se desespere", compreendi que só iria acontecer o que pudéssemos desencadear de nós mesmos (p.62).
Um terceiro: Depois de várias décadas escutando a mesma coisa, estou cansada do macho envolto no seu uniforme verde-oliva, do adjetivo "viril" associado à coragem, dos pelos no peito mandando mais que as mãos na escumadeira. Toda a minha progesterona aguarda que essa parafernália tão robusta dê lugar a palavras como "prosperidade", "reconciliação", "harmonia" e "convivência" (p.116).
Um quarto - e basta: Levantei revirando uma dessas quiméricas palavras de ordem - que tanto escutamos pela televisão - para torná-la mais real. Um mundo possível é melhor - disse a mim mesma - e começo a sentir que vamos consegui-lo. Que o planeta, a minha ilha e a minha cidade encontrem soluções realizáveis, não outra saraivada de utopias (p.141).
Muitos outros exemplos semelhantes poderiam ser dados. O que observei ao ler De Cuba com carinho é que a autora rejeita veementemente o atual e tremendo declínio da sua ilha, mas reverberam nas entrelinhas dos seus textos algumas miragens da utópica "terceira via", ou algo semelhante. Ela parece recusar a ideia de que o erro não ocorreu no processo de decadência do país em que nasceu e que ama, com todo o direito de amar. O erro não está no processo que levou à atual decadência cubana e, sim, no princípio, na fundação, nas archés totalitárias da tresloucada revolução, na qual as palavras "prosperidade", "reconciliação", "harmonia" e outras que tais são de todo inconciliáveis com a ditadura que por lá foi implantada desde meados do século passado. O erro está no velho contexto político-ideológico que não retrocedeu nem evoluiu e que continua sendo o mesmo que sempre foi.
Yoani fala em uma "saraivada de utopias", como se o velho Fidel fosse, de fato, um utopista. Fidel Castro não é um utopista, mas um tirano. Será que Yoani modera a linguagem para salvar a própria pele? Creio que minha dúvida faz sentido. De qualquer maneira, o sucesso do seu blog ajuda indiretamente o governo cubano no atual arremedo de abertura democrática que tem sido propagado por Raúl Castro, assim como também pode vir a fomentar nos leitores jovens de todo o mundo a ideia – deturpada - de que a revolução cubana infelizmente se perdeu dos seus propósitos iniciais, mas que "com carinho", pode vir a entrar nos bons trilhos do equilíbrio, da justiça e da igualdade para todos.
Quanto ao Y do problema de Ayaan, ele se mostra bem diverso. Para Ayaan, o erro é basilar, de fundação, não está localizado em processos históricos e sim nas raízes da política teocrática exercida pelo islã. E ela não dá mostras, em seu livro Infiel, de crer na mais ínfima possibilidade de diálogo entre esse tipo de pensamento radical e algo próximo das liberdades democráticas. Ayaan defende com todas as letras a democracia, para ela condição sine qua non do exercício da liberdade, principalmente a liberdade das mulheres que no mundo islâmico são submetidas a barbaridades ainda mais violentas do que as que ocorrem em Cuba.
E como me foi inevitável estabelecer comparações entre esses dois atuantes ipsilons, eu diria que o sonho de Yoani é ver a abertura em duas linhas do seu ypsilon conciliada com a linha que originou a bifurcação da letra. Quanto a Ayaan, ela sabe que a conciliação da radical bifurcação do seu Y é de todo impossível.
Yoani quer transformar seu Y em um I, de inocência. Ayaan que separar as duas linhas bifurcadas ao máximo e transformar seu Y em um T, de testemunho.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A auto-premiação de Lula
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Senadores acima da lei
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terça-feira, 3 de novembro de 2009
Lula estadista? Não, "estradista".
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Criminosos prosperam com o chavismo
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Recordando Lucio Colletti
Há oito anos, num três de novembro, morria o filósofo italiano Lucio Colletti. Ele foi um dos mais importantes pensadores italianos contemporâneos, construindo uma obra que desmontaria o marxismo, parágrafo por parágrafo. Marx não passava, no fundo, de um epígono do filósofo idealista Hegel - sem a coerência deste último.
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A era da estupidez
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
Bem-vindo ao clube, FHC.
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Chávez e seus criados
E, no Estadão: Se a adesão da Venezuela for aprovada pelo Senado brasileiro e, em seguida, pelo paraguaio, os próximos acordos comerciais do bloco ficarão sujeitos às pretensões políticas de Chávez e aos critérios do bolivarianismo. O currículo de Chávez, incluídas as suas desastrosas participações em eventos internacionais na América Latina, autoriza todos os temores. Sua incapacidade de reconhecer limites é notória, assim como sua disposição de criar conflitos. Nem é preciso mencionar a costumeira submissão do presidente Luiz Inácio Lula aos desejos do caudilho venezuelano nem, tampouco, os favores feitos por Chávez, com petrodólares, ao casal Kirchner. (Continua).
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sábado, 31 de outubro de 2009
Alô, Veja: Lula nem precisa ser editor.
Por onde se olha na América Latina, há um governante com a ideia fixa de que seus fracassos seriam menos gritantes se só existisse a imprensa oficial. O Brasil vinha sendo a excepcionalidade na região. Agora o próprio presidente Lula está desenhando o que ele imagina ser a imprensa ideal. "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar", disse Lula há duas semanas. Na quinta-feira passada, ele voltou à carga com o seguinte discurso, direcionado a repórteres que cobriam uma cerimônia que reunia catadores de papel, em São Paulo: "Hoje vocês têm a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês. Se vocês esquecerem a pauta do editor de vocês e se embrenharem no meio dessa gente (…) Publiquem apenas o que eles falarem. Não tentem interpretar".
É espantoso. Lula não lê jornais. Mas quer ensinar como editar jornais. Má notícia, senhor presidente. Ter 80% de popularidade não credencia ninguém a ser repórter ou editor. Não existe jornalismo a favor. Não existe jornalismo feito pelo estado. Não é atributo do Poder Executivo traçar limites para o exercício da imprensa. A liberdade de expressão não pertence ao universo oficial dos gabinetes executivos, não tangencia os planos de governo e não obedece às orientações dos ministérios da propaganda. Seus limites estão estabelecidos na Constituição e eternizados na cultura dos países democráticos. Os próprios leitores e a Justiça punem os jornalistas que ultrapassam os limites éticos.
A imprensa tem sido vilanizada no Brasil por duas razões principais. A primeira decorre da noção primitiva que alguns ideólogos do petismo têm do Brasil, que para eles é uma grande e simplória terra ideal: a "PTópolis", habitada por pessoas que têm papéis claramente definidos, como a Patópolis, de Walt Disney. Os habitantes de PTópolis também são divididos em classificações rígidas. Existem os que ocupam o andar de cima e os do andar de baixo; os pretos e os brancos; os ricos e os pobres; os bons e os maus; os produtores e os usurários; os amigos e os inimigos do rei... A segunda razão é o fato de que, quando a cúpula de PTópolis e seus corruptos do coração produzem escândalos – e eles os produzem aos montes –, a culpa nunca pode ser do líder ou de seus próximos. A imprensa livre é um estorvo em PTópolis. Ela insiste em investigar, fiscalizar e dar nome aos bois. Em PTópolis, idealmente, só deveriam exercer o jornalismo as pessoas designadas para isso pelo estado. No mundo perfeito de PTópolis não há lugar para algo imperfeito, barulhento, enxerido, investigativo, teimoso, livre, falível e, algumas vezes, até irresponsável como é a imprensa. PTópolis: ame-a ou deixe-a!
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Orlando Tambosi
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