domingo, 20 de agosto de 2017

Che, um dos maiores criminosos da História.

Os jovens imbecis cujas camisetas ostentam a efígie de Che Guevara desconhecem a folha criminal desse frio assassino, uma "máquina de matar":


Tengo que confesarte, papá, que en ese momento descubrí que realmente me gusta matar 

(Ernesto Che Guevara)

El pasado siglo será recordado, entre otras cosas, por haber alumbrado a los peores criminales que ha conocido la historia. Muchos, la mayoría, fueron comunistas. Y entre ellos se encuentra Ernesto Guevara de la Serna, el Che.

Pero este estudiante de medicina argentino añade un factor que le diferencia de sus colegas: sigue siendo, aún a día de hoy, un ídolo para muchísimas personas. Aunque no se puede decir, por citar solo unos ejemplos, que Lenin, Stalin, Mao o Fidel Castro hayan sido juzgados socialmente con la severidad que merecerían, es raro contemplar, salvo en los residuos que todavía abrazan la fe marxista, una reivindicación de sus figuras. 

Con el Che, en cambio, se acepta con toda naturalidad que no escasos sectores de la sociedad exhiban su efigie, como si se tratara de Gandhi o de John Lennon.

En ese sentido, son de alabar iniciativas como la de nuestros amigos de la Fundación Bases en Rosario (Argentina), ciudad natal del tristemente célebre Guevara. Este think tank liberal ha emprendido una campaña para que las autoridades políticas de esa localidad retiren una estatua en honor al Che porque “es un asesino que no merece homenajes”. Nos unimos, sin duda, a tan encomiable cometido.

Y es que, ciertamente, Guevara, más allá de haber pasado a la posteridad como un icono para millones de jóvenes despistados, fue eso, un asesino.

No dudó, por ejemplo, en apretar el gatillo con sus propias manos en Sierra Maestra para acabar con la vida de aquellos compañeros que generaban alguna duda en su celo revolucionario. Y, posteriormente, tras el triunfo de los barbudos, ordenó ejecutar, sin ningún atisbo de garantías, como reconocía sin rubor alguno, a casi dos centenares de personas en la fortaleza de La Cabaña. La mayoría de los detenidos eran inocentes y ninguno se había hecho acreedor del fatal desenlace.

Además de un asesino múltiple confeso, el Che, en su posterior paso por la política cubana, destrozó el país, tanto desde el Banco Nacional como en los diversos ministerios que dirigió. También colaboró desde un primer momento en la creación tanto del Estado policial castrista como de los campos de concentración, lugar al que iban a parar los enemigos de la revolución comunista, entre ellos los homosexuales. Y todo ello jalonado por escritos profundamente racistas. Un sujeto al que nada bueno se le puede atribuir.

Guevara fue un fanático de unas ideas, las comunistas, que inexorablemente conducían a la muerte y la destrucción. No fue un libertador ni un luchador por la justicia social, signifique eso lo que signifique. Tan solo buscó implantar sanguinarias dictaduras, ya fuese en Cuba, en el Congo o en Bolivia, donde finalmente hace casi 50 años la CIA lo capturó y el ejército del país andino puso fin su atroz trayectoria. (Instituto Independiente).

Do lado de dentro da janela, vendo a morte passar.

Helena Matos, no Observador: tudo resultou em mais gritos de "Alá é grande", mais vans descontroladas, mas conduzidas por mãos firmes, mais lobos solitários nem tão sós. "Nós não temos medo". Ah, claro que temos:


Fechadas em casa. Olhando o inimigo que inflexível avança.

O que viram pela janela por onde espreitavam? A morte – respondeu uma delas a uma jornalista. A tranquilidade com que proferiu aquele “a morte” era desconcertante. Quase grotesco.

As mulheres que fechadas em casa viram passar a morte estavam numa aldeia de Mação. Mas podiam estar fechadas num restaurante em Barcelona, num mercado de flores na Finlândia, numa rua dos EUA…

Ver passar a morte, cruzarmo-nos com ela numa rua cheia de turistas, numa manifestação ou numa estrada rodeada de árvores tornou-se o encontro que tememos aconteça nas nossas vidas ou na dos nossos filhos. Porque garantidamente sabemos que ela, a morte, vai voltar a passar. Apenas esperamos que não se cruze connosco. Com os nossos. Com os que conhecemos. Com os que apenas vimos… Esperamos sobretudo estar longe ou que, acabando a seu lado, ela não nos entreveja do lado de dentro da janela. Não nos ouça o bater descontrolado do coração. Sim, porque o medo existe. Cheira-se. Sente-se. Mas não se pode falar dele.

Oficialmente nós não temos medo. Felipe VI garante que a Espanha não tem medo. Os independentistas catalães que apostaram na migração proveniente de Marrocos em detrimento da dos países da América Latina. porque acreditam ser os magrebinos mais sensíveis à causa da secessão, também declaram que não têm medo. E claro espera-se que também digam que não há razões para ter medo aqueles que fugiram à frente da carrinha, os que por trás janelas os viram passar e os que viviam no bairro onde os supostos refugiados/migrantes de ocupação profissional indefinida acumulavam bilhas de gás numa casa que tinham ocupado. Contudo quem recorda a forma como o estado espanhol reagia de imediato aos atentados da ETA ou a qualquer acontecimento que pudesse denunciar a presença daquele grupo terrorista, como uma explosão acidental similar à que teve lugar na casa de Alcanar, não deixa de sentir medo perante a actual bonomia das autoridades espanholas face ao quotidiano destes alegados migrantes. E medo maior se experimenta quando se constata que nas horas que seguiram à explosão da casa de Alcanar não se reforçou a sério a segurança na Catalunha. Mas é no “Não temos medo” que por agora estamos.

Na verdade não é só é profundamente falso dizer que não temos medo como subjacente a essa aparente fanfarronice está a convicção de que a ameaça não é relevante. Ou pelo menos suficientemente grave para se poder assumir publicamente que se sente medo.

Afinal é no assumir do medo que está a grande clivagem do nosso tempo. Um mundo dividido entre uma casta privilegiada que legisla sobre tudo e que controla tudo desde o pensamento à linguagem mas que nos momentos cruciais falha rotundamente na sua obrigação de garantir a segurança dos cidadãos.

Nesse mundo da casta é proibido falar de medo. A criminalidade dita pequena por quem não a sofre directamente é um assunto para demagogos. Os paióis são roubados mas todos os procedimentos, dizem, foram cumpridos. Os atentados acontecem mas ficamos a saber que pelo menos um dos protagonistas já estava sinalizado pelas nossas polícias. O fogo chama-se incidente pirotécnico e no limite tudo resulta das ignições. Em conclusão, não há razões para ter medo.

Este seria um mundo assepticamente perfeito de procedimentos e sinalizações não fosse a realidade. Daí a importância do negar a realidade e do diabolizar qualquer tentativa de a mostrar: falar da sustentabilidade da segurança social implica ser rotulado como estando contra os pensionistas. Indagar da capacidade da Europa para receber todos os imigrantes que a procuram vale de imediato ser acusado de xenofobia. Referir o crescimento da dívida leva à acusação de insensibilidade social. Questionar o que acontece nas escolas para que isto seja possível é de imediato transformado numa discussão sobre o populismo…

Esta transformação da testemunha num réu funciona: ninguém gosta de ser acusado para mais de um aleijão moral que se cola ao corpo.

Mas o terrorismo islâmico na sua imensa e óbvia brutalidade está a colocar sob pressão esta transposição automática da discussão dos problemas para o julgamento moral de quem os denuncia: no 11 de Setembro as vítimas eram americanas e como tal responsáveis por várias iniquidades mundiais. Já as primeiras vítimas europeias do terrorismo islâmico como aconteceu com o realizador Theo Van Gogh explicavam-se pelo seu “perfil controverso” ou por integrarem essa falácia que dá pelo nome de “anti-Islão”. (O conceito do “anti-Islão” reproduz passo a passo o antigo esquema da diabolização do anti-comunista naturalmente primário: admitia-se que algumas pessoas fossem contra o comunismo mas jamais se encontrou algum anti-comunista que não o fosse por más razões. Uns eram de extrema-direita, outros reaccionários, outros corruptos… e todos eles invariavelmente primários.)

À medida que cresce o número de vítimas aumenta a percepção de que qualquer um pode ser esfaqueado ou decapitado. E aumenta o medo que, dizem, não temos. Ciclicamente um novo slogan entra em cena poupando-nos ao ridículo do falhanço do anterior: antes do “Não temos medo” era o “Je suis…” Um mantra que por sua vez sucedeu ao “Terrorismo, nunca mais”, que por sua vez sucedeu ao “Imagine”…

Esse nosso versejar teve o efeito contrários às nossas intenções: tudo resultou em mais gritos de “Alá é grande”, mais facadas, mais carrinhas descontroladas afinal conduzidas por mão firme, mais lobos solitários que afinal tinham quem os apoiasse e escondesse, mais desequilibrados mentais que estavam de perfeito juízo…

(A estupefacção pelo falhanço da nossa retórica apesar de tudo não deve ser tão grande quanto a perplexidade dos dinamarqueses ao constatarem que nas suas mesquitas se ensina o ódio. Isto apesar de a Dinamarca ter acolhido milhares de refugiados muçulmanos particularmente jovens rapazes provenientes da Síria e de ter lançado um programa destinado aos que abraçaram o terrorismo significativamente intitulado “Abrace um terrorista”. Nos vídeos promocionais do dito “Hug a Jihadi”, cujo visionamento aconselho vivamente, ensinam-nos que os jovens se tornam terroristas porque ao emigrarem dos seus países de origem para a Europa, no caso para a Dinamarca, se sentem apanhados entre dois mundos. Espantosamente nem os protagonistas do recurso à bomba porque se sentem apanhados entre duas culturas nem as autoridades da Dinamarca se interrogaram um segundo sequer sobre o assombroso facto de jamais chineses, portugueses, vietnamitas, moçambicanos, espanhóis, brasileiros… que tanto têm migrado para países tão diferentes dos seus, terem alguma vez optado por mitigar a sua desorientação cultural esfanicando os cidadão dos seus países de acolhimento ou doutros quaisquer. Pelo contrário aceitam trabalhos que mais ninguém faz, poupam para enviar dinheiro para as suas famílias e para o melhoramento das suas terras. Bombas é que não há notícia que tenham pago ou custeado.)

O porquê desta anomia face ao terrorismo islâmico é conhecida: a esquerda trocou os operários pelos muçulmanos e esquecidos nas periferias urbanas os operários acabaram atrás da janela a ver o que oficialmente não existe. Em países como a França vêem todos os dias o fundamentalista que, sem pegar em facas, causa conflitos para que a sua mulher use burka na rua, para que as suas filhas não sejam atendidas por um médico, para que no refeitório da escola não se cozinhe carne de porco, para que os judeus deixem de passar por aquela rua, para que os comerciantes não vendam álcool, para que a festa de Natal não se realize…

Agora que os amanhãs já não cantam a Internacional a caminho de uma sociedade sem classes, a fúria da rua árabe e toda aquela litania da colonização, as cruzadas e tudo o que mais lembrar, configuram-se como o anúncio do admirável mundo novo que mais uma vez se anuncia: uma sociedade em que as comunidades substituíram os cidadãos; as minorias impõem as suas particulares circunstâncias como regras e os revolucionários se tornaram reguladores dos ressentimentos.

Luloburguesia: conluio entre Maduro e Odebrecht aceleraram fuga da procuradora rebelde.

Matéria do El País (edição brasileira) informa que horas antes de fugir de barco, via Aruba, para a Colômbia, a procuradora Luísa Ortega denunciou a corrupção entre o círculo do ditador Nicolás Maduro e a construtora brasileira, que sempre teve Lula na sua linha de frente:


Os meses mais recentes da vida de Luisa Ortega foram como um filme, e cinematográfica foi também a fuga da Venezuela da procuradora rebelde, declarada inimiga pública número 1 do regime de Nicolás Maduro.

Na manhã de sexta-feira, na mesma hora em que na cidade mexicana de Puebla se iniciava uma reunião de promotores de todo o continente na qual estava prevista a participação de Ortega, ela cruzava em alta velocidade o mar do Caribe para vencer os quase 30 quilômetros entre a península venezuelana de Paraguaná e a ilha de Aruba, três horas com o mar em boas condições.

Quando chegou a hora de sua intervenção, a promotoria mexicana reproduziu um áudio, gravado em lugar não revelado, em que Ortega denunciava os elos de corrupção entre o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e seu círculo, e a construtora brasileira Odebrecht.

Quando o áudio foi mostrado, Ortega, procuradora geral da Venezuela até algumas semanas atrás, já estava a salvo em Aruba, onde se preparava para embarcar num voo que a deixou no aeroporto El Dorado, em Bogotá, às 15h30 (horário local), segundo as autoridades migratórias.

A procuradora, que desafiou o regime ao se opor à Assembleia Constituinte de Maduro, aterrissou na Colômbia acompanhada por seu marido, o deputado da situação Germán Ferrer, e por outras pessoas que trabalhavam com ela: Gioconda del Carmen González e o promotor anticorrupção Arturo Vilar.

A situação de Ortega e de seu marido na Venezuela se tornou insustentável quando ela foi destituída de seu cargo por se opor à Constituinte. Além de invadir seus escritórios e sua casa, a nova Assembleia também cancelou a imunidade parlamentar de seu marido e pôs em marcha uma máquina de repressão ao pedir que ele fosse processado por, supostamente, fazer parte de uma rede de extorsão que exigia dinheiro de criminosos para evitar que prosperassem acusações contra eles.

Com a chegada à Colômbia de ambos ficam no ar duas perguntas. Fugiram, ou o regime abriu o caminho para ela e seu marido? Quem organizou o voo fretado, em avião pilotado por dois homens de nacionalidade colombiana, para que chegasse a Bogotá? Teoricamente, Ortega estava sob vigilância desde que o Governo de Nicolás Maduro a proibira de deixar a Venezuela.

Na hora da difusão de seu programa de televisão da tarde, já se sabia da fuga de Ortega. Mas Maduro, que até atacou o maestro Gustavo Dudamel por criticá-lo, não fez menção a ela.

Fora a cinematográfica escapada, o áudio de cinco minutos enviado por Ortega a seus colegas de todo o continente incluía uma grave denúncia, feita pela mulher que foi a mais poderosa no Ministério Público da Venezuela.

Segundo Ortega revelou a seus colegas na gravação, a razão de fundo para a “perseguição sistemática” do Governo Maduro a ela e a sua equipe de confiança estaria nos subornos da Odebrecht a funcionários do Governo venezuelano.

E isso os deixa muito preocupados e angustiados porque sabem que temos os dados e os detalhes de todas as operações e quantias”, afirmou na gravação divulgada durante a Cúpula de Promotores da América Latina.

“Temos os detalhes de toda a cooperação, quantias e personagens que enriqueceram, e essa investigação envolve o senhor Nicolás Maduro e seu círculo”, destacou a mulher mais perseguida pelo chavismo.

A presença da Odebrecht na Venezuela não é tema de pouca importância. Durante a era de Hugo Chávez a Odebrecht se tornou a construtora favorita do regime. Nos últimos 20 anos ganhou contratos importantes, coincidindo com o idílio político entre o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o comandante bolivariano.

Segundo as investigações em marcha no Brasil, a Venezuela é o segundo país em que a empresa distribuiu mais dinheiro em propinas, cerca de 98 milhões de dólares (310 milhões de reais), entre 2006 e 2015, a “funcionários e intermediários do Governo” para “conseguir e manter contratos de obras públicas”.

Atualmente a empresa de Marcelo Odebrecht toca 11 importantes projetos em território venezuelano, entre os quais a linha 5 do metrô de Caracas, a modernização do Aeroporto de Maiquetía, em Caracas, a construção de uma usina hidrelétrica, o teleférico La Dolorita e uma ponte sobre o lago Maracaibo, todos eles com a obra pela metade.

As investigações em curso no Brasil, com efeitos em países como o Brasil e o Peru, onde foram presos os ex-presidentes Ollanta Humala e Alejandro Toledo, e no México -onde o ex-diretor da petroleira Pemex Emilio Lozoya teve que comparecer diante da Procuradoria - encontraram um muro de silêncio e obstrução do chavismo, que, longe de colaborar, persegue os procuradores que investigam a participação nas propinas.

Segundo o áudio dirigido por Ortega, 64 procuradores venezuelanos especializados em corrupção estão proibidos de deixar o país devido ao caso Odebrecht. Como consequência, a ex-procuradora alertou seus colegas que “qualquer informação que enviarem ao Ministério Público (da Venezuela) servirá para exatamente o contrário (...) atentar contra a fonte”, ressaltou na gravação.

A ex-procuradora foi destituída em 5 de agosto de seu posto pela Nova Assembleia Nacional Constituinte, depois de ter sido aprovado pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) o mérito. O parlamentar Pedro Carreño pediu que houvesse investigação de Ortega Díaz por “atentar, ferir e ameaçar a ética pública e a moral administrativa”, segundo declarou.

O atual procurador geral da Venezuela, Tarek William Saab, um dos homens mais próximos a Maduro, pôs Ortega na mira ao acusá-la de ser a “autora intelectual” das mortes e ferimentos das últimas semanas. “Poderão inventar crimes, mas me defenderei até o último alento da democracia”, disse a seus colegas latino-americanos ao explicar as razões por trás da perseguição.

A chegada de Ortega à Colômbia coincide com um papel cada vez mais ativo dos países de América Latina contra a guinada totalitária de Maduro. Nos últimos meses o governo colombiano de Juan Manuel Santos passou de um dos principais esteios de Maduro por sua contribuição para o processo de paz com os guerrilheiros das Farc a exigir o retorno da democracia. “Maduro talvez pensasse que, por nos ter ajudado no processo de paz, taparíamos os olhos” escreveu recentemente em artigo publicado no EL PAÍS intitulado Lloramos por ti, Venezuela (Choramos por você, Venezuela).

Paralelamente, o México, país que lidera a oposição diplomática aos planos de Maduro de dissolver a Assembleia oposicionista, age em Cuba, principal aliada de Maduro.

O ministro das relações exteriores do México, Luis Videgaray, viajou na sexta-feira a Havana, onde se reuniu com seu par Bruno Rodríguez para pressionar o regime da ilha a mudar de atitude em relação a seu parceiro bolivariano.

Sem rumo, esquerda tenta reescrever a História.

Surpreendentemente, editorial do Globo critica - ainda que cheio de dedos - o bloco dos partidos de esquerda, que nada aprendem, mas também nada esquecem. "Não admite ter trazido de volta a inflação, contra os pobres, e se mantém ao lado da ditadura de Maduro":


Sem rumo, partidos como o PT, o PSOL, o PCdoB, o PDT e outras organizações autodenominadas de esquerda, como a Central Única de Trabalhadores, têm dado exemplos diários de perda de capacidade de formular propostas realistas, construtivas, para o país. Esvaiu-se a vivacidade com que somavam ideias ao debate nacional, mesmo quando inspirados em modelos fracassados no século passado, como se viu na extinta União Soviética. É lamentável, porque a vitalidade da democracia depende da participação construtiva de todos.

Antes fecundo, o PT se mostra desértico em proposições para o país. Subsiste em estado de negação da própria crise, de fundamentos éticos. Limita-se à tentativa de reescrever o passado, com evidentes falsificações da História.

O PSOL, o PCdoB, o PDT e parcela da Rede aderiram à autodesconstrução. Está visível na Câmara e no Senado a virtual conversão desses partidos em satélites petistas, alinhados nos dogmas e na destruição da identidade.

Esses agrupamentos denominam-se de esquerda. É compreensível no atual e gelatinoso universo parlamentar, mesmo quando desfilam com ideias apropriadas do liberalismo, como é o caso das políticas de renda mínima.

Grave, porém, é a perene negativa à História. Na tentativa diária de reescrevê-la, renegam o direito à verdade, conceito que invocaram no campo jurídico para construir uma narrativa do passado sob a ditadura.

Abjuraram o exercício da política com o maniqueísmo. Cooptaram os movimentos sociais. Omitem os erros nas políticas de saúde e educação — o sistema educacional está devastado, sobretudo nas universidades, por uma pedagogia que alinhou a didática e a formação à negação do debate, admitindo-se apenas as ideias originadas na autodenominada esquerda.

Desequilibraram as contas públicas e reacenderam o estopim da inflação punitiva dos mais pobres. Nos governos de Lula e Dilma premiaram empresas financiadoras de campanhas — as “campeãs nacionais” —, com subsídios do Tesouro em volume dez vezes maior que o destinado aos programas sociais. Essas relações incestuosas emularam a corrupção sistêmica. No Congresso, PT, PSOL, PCdoB, o PDT e parte da Rede uniram-se na interdição do debate, debitando a culpa pela quebra do país na conta do PMDB, antigo sócio no poder e que governa há apenas 14 meses.

Dissimulam, também, na sedução totalitária. Exaltam Getúlio Vargas e abstraem a ditadura do Estado Novo. Apoiaram o autoritarismo de Hugo Chávez na Venezuela até com negócios extremamente prejudiciais ao Brasil, como no projeto da refinaria de Pernambuco. E, agora, solidarizam-se com a ditadura de Nicolás Maduro abduzindo a centena de mortos neste ano e os incontáveis presos políticos. Sem aprender com os erros, tentam mudar a História.

Noves fora, zero zero zero.

Coluna de Carlos Brickmann, publicada hoje em vários jornais do país - e aqui surrupiada -, comentando a "caravana" de Lula nordeste adentro:


Lula está disposto a tudo para ser candidato – e, ao menos por algum tempo, livrar-se de Curitiba. E, para mostrar a seus adeptos que fora ele não há salvação, admitiu na Bahia a possibilidade de ser impedido de disputar a Presidência (é a primeira vez que fala em público sobre esta hipótese). Seu substituto, disse a Mário Kertesz, da Rádio Metrópole, seria escolhido entre os governadores Fernando Pimentel (Minas), Rui Costa (Bahia), Camilo Santana (Ceará), Wellington Dias (Piauí), e o ex-governador baiano Jaques Wagner. Fernando Haddad, que tenta viabilizar-se como candidato, não é citado: claro, perdeu a reeleição por ampla margem, e no primeiro turno.

Nas palavras de Lula, “o golpe (o impeachment de Dilma) não fecha” se ele não for judicialmente impedido de se candidatar. O risco é alto: Lula já foi condenado em primeira instância, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a nove anos e meio de prisão, e se seu recurso for recusado pelo Tribunal Regional Federal cai na Lei da Ficha Limpa. O problema é que, apesar da alta rejeição (que dificultaria sua vitória no segundo turno), ele é o primeiro colocado nas pesquisas. Os nomes que sugere como substitutos nem foram lembrados pelos pesquisadores. E, depois de Dilma e Haddad, a era dos postes, que só existiam por seu apoio, parece ter chegado ao fim.

Lula está em campanha – oficialmente, “caravana”, porque campanha antecipada é ilegal – por nove Estados do Nordeste. Visita 25 cidades.

...com quem andas

A comitiva de Lula na campanha – quer dizer, “caravana” – inclui Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, acusada de crime eleitoral, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, acusado de improbidade administrativa, e o ex-governador baiano e ministro Jaques Wagner – contra quem o Supremo determinou a abertura de processo, acusado de participação no esquema Odebrecht.

A bainha dos tucanos

O PT pode ter candidatos de menos, mas todos farão o que Lula mandar. Já o PSDB tem candidatos demais, três deles já derrotados pelo PT, outro derrotado dentro do partido quando quis se candidatar; e um que aparece bem, mas que por isso mesmo vem sendo sabotado pelos outros. No PSDB todos são amigos desde os bancos escolares, mas ainda acham que as costas uns dos outros são a bainha para seus punhais.

Geraldo Alckmin e Aécio Neves, ambos já derrotados por Lula, vêm conversando sobre como anular João Dória Jr., com prestígio em alta (e com o dobro das intenções de voto de Alckmin, nas pesquisas). José Serra, surrado por Lula e Dilma, quer ser lembrado como candidato e não fala mal de Dória; mas seu aliado José Aníbal fala mal por ele. Tasso Jereissati, atropelado por Serra no PSDB quando quis se candidatar, é o presidente do partido – e mandou sozinho no programa de TV, criticado pelos demais tucanos (entre outras coisas, o programa atacou o Governo, em que o PSDB tem quatro ministérios dos bons). Todos querem derrubar Tasso; aceitam até Aécio de volta.

Ao mestre, com carinho

Mas Aécio teve de se licenciar da Presidência do PSDB quando foi alvo das gravações de Joesley Batista, a quem pediu R$ 2 milhões. Joesley diz que era suborno, Aécio diz que era empréstimo. E o Supremo, a pedido do procurador Janot, analisa a possibilidade de mandar prender o senador.

Outra possibilidade é antecipar para outubro a convenção nacional, que escolherá o presidente. E, inicialmente, antecipar as convenções estaduais. No caso, o favorito para presidente é o governador goiano Marconi Perillo.

O PSDB, como sempre, decidiu não decidir. Vão consultar Fernando Henrique, que não é candidato nem quer ser, para que decida por todos.

Quem parte e reparte...

Todos querem votar depressa a reforma política, mas só para garantir a mamata dos R$ 3,6 bilhões de financiamento público de campanha. Como fica a eleição (distrital, distrital misto, distritão, proporcional), não importa muito. Mas, sem decidir esses detalhes, como garantir já a dinheirama? Os parlamentares estudam qual o sistema que melhor lhes facilite a reeleição.

...fica com a melhor parte...

Na terça, promete o presidente do Senado, Eunício Oliveira, entra na pauta o pedido de urgência para extinguir o sigilo dos empréstimos do BNDES. O projeto é do senador Lasier Martins, do PSD gaúcho; e o PT é totalmente contra, com certeza por motivos técnicos e patrióticos. Lasier Martins cita casos em que o fim do sigilo permitirá que se entenda tudo: o porto de Mariel, em Cuba, empréstimo de US$ 682 milhões; o metrô do Panamá, US$ 1 bilhão. As empreiteiras são as de sempre.

...e conhece a arte

Do portal Quanto Custa o Brasil: lista de deputados federais e senadores em débito com a União (goo.gl/Xbxh5f).

Réquiem para o PSDB

Propaganda do partido sustenta de forma vulgar a nefasta ideia de que a política brasileira está completamente destruída. Não deixa de ser um réquiem para o próprio PSDB. Editorial do Estadão:


A propaganda levada ao ar em rede nacional pelo PSDB na quinta-feira passada, em que o partido diz que “errou” e que “é hora de pensar no País”, soou como a cerimônia fúnebre de uma agremiação política que hoje não tem liderança, proposta ou direção reconhecíveis. Produzida e divulgada por insistência do presidente tucano interino, o senador Tasso Jereissati (CE), a peça é um desastre completo não apenas para o partido, mas para o País, pois sustenta de forma vulgar a mensagem deletéria segundo a qual a política brasileira está integralmente danada. Essa demagogia barata não combina com um partido que sempre se julgou moderno e que pretendia inspirar em seus eleitores a esperança de que a política podia ser feita sem o apelo fácil às paixões populares. Se antes o PSDB “errou”, como diz, cometeu um erro muito pior agora.

Enquanto elenca as conquistas que o PSDB diz ter legado, como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, o vídeo intercala a frase, dita em tom grave, “mas o PSDB errou”. Em seguida vem a explicação, na forma de uma confissão: os tucanos “cederam ao jogo da velha política” quando aceitaram “como natural o fisiologismo, que é a troca de favores individuais e vantagens pessoais em detrimento da verdadeira necessidade do cidadão brasileiro”.

O programa não dá um único nome, donde se presume que, para a direção do partido, a maioria dos tucanos se envolveu no mais rasteiro toma lá dá cá. Os parlamentares do PSDB foram colocados pelo próprio partido na categoria dos políticos interesseiros ou ladravazes. Nem o mais bem pago marqueteiro petista poderia ter imaginado algo que fosse tão favorável ao partido de Lula da Silva, este sim, o mentor intelectual do desastre político, econômico e moral que atingiu o Brasil. Afinal, a se acreditar no discurso disseminado pela propaganda tucana, todos os partidos e todos os políticos são iguais – uma afronta ao fato inegável de que foi o PT, associado ao que há de mais atrasado no País, que inaugurou uma era de profundo desrespeito pelas instituições democráticas, resultando na quase completa desmoralização da política. E não se ouvirá nenhum líder petista – muito menos Lula da Silva – dizer que “errou”.

Com sua iniciativa, a direção do PSDB parece interessada em alinhar o discurso do partido ao clamor gestado pela irresponsabilidade dos que, a pretexto de acabar com a roubalheira de dinheiro público, tentam mobilizar a opinião pública contra todos os políticos. O PSDB aceitou colocar a cabeça dos seus parlamentares na guilhotina do tribunal popular em que se converteu a chamada “luta contra a corrupção”, enquanto os corruptos de fato, muitos já condenados, saem pelo País a bradar que são perseguidos políticos.

Mais do que isso: a direção do PSDB entendeu que era o caso de incluir o governo do presidente Michel Temer – do qual participa com quatro ministros e cujas propostas de reformas formalmente apoia – no rol dos desastres nacionais, dizendo que “o Brasil está parado há quase três anos por conta de uma crise política que parece não ter fim”. E então a propaganda emenda com a proposta de instituir o parlamentarismo, dizendo que, nesse sistema, “um governo sem base de apoio no Congresso, sem condições de governar, é imediatamente destituído, sem processo de impeachment, sem batalhas jurídicas, sem sacrificar o povo e sem minar as energias do País”. Um desavisado poderia supor que, para o PSDB, o governo Temer já deveria ter sido destituído – e só não o foi porque o regime atual é presidencialista e Temer se segura na base do fisiologismo e das chicanas.

Muitos tucanos de destaque manifestaram profunda contrariedade com a iniciativa da direção do PSDB. O chanceler Aloysio Nunes Ferreira lembrou não só a participação do PSDB no governo, mas também o esforço de Michel Temer para levar adiante a agenda de reformas. E disse que essa agenda avançará “se o PSDB deixar de ser um fator de crise e de desorganização da base parlamentar”. Ou seja, se o PSDB voltar a pensar no País.

Autonomia e patrimonialismo

A independência entre os Poderes não pode ignorar que o cofre é um só, e para ele vai o dinheiro do contribuinte. O patrimonialismo vigente ignora esse fato, diz editorial do Estadão:


Recentemente, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou o mau uso que se dá à autonomia financeira concedida pela Constituição Federal de 1988 a cada um dos Três Poderes. “A preocupação, na época, era evitar que o Executivo asfixiasse o Judiciário e o Legislativo. Não era para dar a eles o poder de fazer contracheques gordos”, disse o ministro.

Como exemplo da distorção da garantia constitucional, Gilmar Mendes citou o caso da Defensoria Pública da União: “Todo mundo quer autonomia financeira. A Defensoria Pública conseguiu e a primeira coisa que fez foi dar-se auxílio-moradia”. De fato, logo após ser agraciada em 2013 com a autonomia funcional e administrativa, a Defensoria expediu resolução fixando ajuda de custo para moradia.

Tem razão o ministro Gilmar Mendes quando menciona a necessidade de rediscutir a autonomia financeira dada aos Três Poderes pela Assembleia Constituinte de 1988. Ele observa que a garantia constitucional “virou baguncismo. No Judiciário, um festival de maluquices”. Há casos em que mais de 90% dos funcionários de determinada categoria profissional ganham acima do teto constitucional. E o mais esdrúxulo é que ainda se tenta justificar os gordos rendimentos recorrendo ao princípio constitucional da autonomia financeira de cada Poder. Tal absurda argumentação faz parecer, em completa inversão de valores, que a Constituição de 1988 veio assegurar privilégios de algumas castas.

Não há dúvida de que a Assembleia Constituinte concedeu especial cuidado à separação dos Poderes, como uma decorrência necessária do Estado Democrático de Direito. Já em seu art. 2.º, a Constituição estabelece que os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são “independentes e harmônicos entre si”. E no art. 60, § 4.º, ao determinar as matérias que não podem ser objeto de emenda constitucional, a Carta Magna menciona a separação dos Poderes.

Ciente da importância dessa independência entre os Poderes, a Assembleia Constituinte assegurou expressamente a “autonomia administrativa e financeira” do Poder Judiciário. Era a forma de garantir, por exemplo, que os salários dos juízes estaduais não dependeriam da boa vontade do governador. Se isso ocorresse, não haveria independência do Judiciário, que estaria sujeito a eventuais pressões do Executivo.

Como é evidente, a proteção constitucional não representa uma autorização ao Judiciário para inventar salários acima dos limites legais. Tanto é assim que a própria Constituição determina que as propostas orçamentárias dos tribunais devam se adequar aos “limites estipulados conjuntamente com os demais Poderes na lei de diretrizes orçamentárias”. Ou seja, a autonomia não é um cheque em branco para que cada órgão público fixe o valor de seus rendimentos.

A necessária independência entre os Poderes não pode ignorar o fato de que o cofre do Estado é um só. Se cada Poder tivesse o direito de determinar, sem qualquer restrição, os valores de seus gastos, não haveria equilíbrio fiscal possível. Infelizmente, há quem venha se aproveitando de garantias institucionais previstas na Constituição para fazer vista grossa a essa realidade e assim pôr mais dinheiro do que o previsto pela lei no bolso próprio e no dos colegas.

Essa enviesada interpretação é mais uma manifestação da praga do patrimonialismo, que tantos males causa ao País. Fenômeno com múltiplos sintomas, o patrimonialismo tem como traço comum a apropriação do público para fins privados, como se constata na perversão da independência dos Três Poderes em mera alavanca para gordos contracheques.

Nessa insidiosa mutação, a população não perde apenas os recursos públicos, que se esvaem em velocidade estonteante. Ela fica desprovida das tão necessárias instituições de Estado, que despudoradamente se tornam meras corporações, enredadas em seus imediatos interesses particulares. A Constituição não existe, como é óbvio, para dar sobrevida a esse tipo de imoralidade.

sábado, 19 de agosto de 2017

Gilmar, o libertador.


Lula, Dilma e o PT não choraram por Barcelona.

Para o partido que virou organização criminosa, os terroristas do Estado Islâmico sempre foram bons comparsas. Augusto Nunes:


Em dezembro de 2014, ao baixar em Nova York para a Assembleia Geral da ONU, a ainda presidente Dilma Rousseff resumiu em dilmês castiço o que achava da ofensiva militar dos Estados Unidos, então em curso, contra os terroristas do Estado Islâmico. “Lamento enormemente os ataques na Síria. Nos últimos tempos, todos os últimos conflitos que se armaram tiveram uma consequência: perdas de vidas humanas dos dois lados”. Os lamentos de Dilma sempre foram condicionados pela posição do morto frente aos Estados Unidos. Como todo petista, ela só chora a partida de inimigos do imperialismo ianque.

Os devotos da seita jamais derramaram uma única lágrima pelas vítimas do bando de fanáticos, tantas delas decapitadas em repulsivos rituais filmados pelos carrascos e transmitidos como se fossem programas de TV. Dilma, Lula e todos os companheiros não deram um pio sobre os massacres brutais, os estupros selvagens, a pena da morte por heresia aplicada a quem não se rende aos dogmas dos terroristas que matam em nome do Islã. Os soldados petistas só “lamentam enormemente” a perda de aliados na guerra perdida que travam desde o século passado contra o Grande Satã Americano.

Na continuação do besteirol em Nova York, Dilma defendeu o diálogo com o Estado Islâmico. Como se decepadores de cabeça soubessem o que é isso. Como se houvesse algum caminho que leve à vitória sobre o exército assassino sem passar pela ofensiva militar por terra que retome o território ocupado pelos psicopatas à caça de alguma das 11 mil virgens. Quem defende o diálogo é cúmplice dos terroristas que, com a erupção do horror em Barcelona, ampliaram o acervo de massacres em países europeus.

Lula, Dilma e o resto do partido que virou bando não abriram o bico sobre o atentado em Barcelona. Preferem comemorar sem muito barulho a ousadia do atropelador de civis distraídos, outra prova que ninguém pode deter um serial killer solitário. O apoio enviesado ao Estado Islâmico não deixa de ser um sinal de coerência. Só poderia ser esse o comportamento de gente que fez há muito tempo a opção preferencial pela treva.

Gênio, machista ou petista. Quem é o Chico em 2017?

No final do mês será lançado o CD "Caravanas" , novo álbum de Chico Buarque, e o single "Tua cantiga" já divide opiniões num país cada vez mais repartido, escreve o repórter Luís Freitas Branco, do Observador, numa reportagem mais ou menos. Bene, Chico é tudo isso: gênio, machista e petista:


“Essa é também para quem é preconceituoso”, arrisca Mallu Magalhães no principal programa da manhã brasileiro, “e diz que branco não pode tocar samba”. A introdução à canção foi breve, e serviu de fogo posto para incendiar a internet durante os últimos meses. A primeira labareda chegou com o vídeo do single “Você Não Presta”, acusado de racismo pela forma como representa os dançarinos negros. Considerada culpada, a cantora quase-lisboeta é agora persona non grata em terra brasilis, facto que passou despercebido a Valter Hugo Mãe, quando decidiu publicar o controverso single no Facebook. “E como andam as discussões de racismo por além mar?”, insurgiu uma internauta, para total surpresa do escritor. A verdade é que ainda existe um tanto mar que nos distancia, e antes que Valter Hugo Mãe elogie “Tua Cantiga”, novo single do branco mais famoso que toca samba, Chico Buarque, vale ressaltar que pela primeira vez na carreira o compositor está a ser acusado de machismo, com alguns defendendo que este país não mais é para o velho Francisco, e outros que ele nunca esteve tão astuto.

“Quando teu coração suplicar/ 
Ou quando teu capricho exigir/ 
Largo mulher e filhos/ 
E de joelhos/ 
Vou te seguir”

Estes versos do single “Tua Cantiga”, primeira amostra do próximo álbum Caravanas (que tem edição marcada para dia 25), colocaram o escritor de “Construção” numa posição incomum, alvo de críticas de machismo e de letrista ultrapassado. “Acho que foi a primeira vez na vida que vi mulheres fazendo restrições a Chico Buarque”, escreveu o jornalista Luciano Trigo no G1, “Chico parece preso a uma visão da mulher – e da relação homem-mulher – dos anos 70 do século passado. Para as mulheres lacradoras com menos de 30 anos, essa ladainha de promessas e súplicas não diz mais nada: elas não querem um homem que largue mulher e filhos”.

Érico Andrade, colunista do Diário de Pernambuco, foi ainda mais longe e insurgiu: “Quero falar dos homens de Chico que controlam, subjugam e dominam as suas mulheres. Quero sublinhar que as mulheres de Chico estão em função desses homens”. Segundo o colunista Ancelmo Gois, Ana de Hollanda, irmã de Chico, argumentou que “condenam o autor da frase, sem terem se dado conta de que os personagens das canções de Chico — aliás, de qualquer ficcionista — não costumam ser autobiográficos. Que o compositor descreve situações e sentimentos corriqueiros, e até comuns, concordando ou não com eles”.

Romântico? Sim, claro, mas…

A polémica está lançada, e a aparente canção suave sobre um romance extraconjugal colocou a música e a posição de Chico em cheque, depois de anos proclamado como dotado de uma singular perspetiva feminina, celebrado até pela banda carioca “Mulheres de Chico”. Nas redes sociais, mulheres identificadas como fãs não aceitaram receber essa “Tua Cantiga”, que chegou como um balde de água fria, ou melhor, como o famoso meme de Chico, tendo uma cara sorridente antes de ouvir o single, e sisuda depois do controverso verso.

Entre os textos mais compartilhados está “O amor datado de Chico Buarque”, de Flavia Azevedo, produtora e colunista do jornal “Correio”. “O datado está se referindo ao personagem criado pelo compositor para a música ‘Tua Cantiga’”, explica ao Observador, “esse personagem diz coisas que não me emocionam como mulher, não são coisas que são românticas aos meus ouvidos, e ouvidos de outras mulheres, pela primeira vez eu percebi uma música de Chico não ser unanimidade”. A colunista reitera que a sua opinião não é “patrulha ideológica”, e muito menos querer abalar a carreira do cantor que tanto admira, mas considera fundamental explicar que o sentimento expresso na canção “é datado, porque esse sentimento já pode ter sido sedutor noutro momento de feminino, e agora a gente pode estar mudando”.

Mauro Ferreira, crítico musical do G1, adiantou na sua coluna que o álbum de “Tua Cantiga” é lançado dia 25 de Agosto e que vai ser composto por sete canções inéditas e duas regravações. “Chico passou a gravar menos a partir dos anos 90”, lembra ao Observador, “são discos feitos com intervalos de cinco, seis anos. Observa-se então uma produção fonográfica pautada por um maior requinte harmónico, mas com músicas de menor apelo popular.” Sobre a controvérsia, Mauro reafirma que o cantor “escreve letras com base em amores fictício”, e que “por mais que a visão do compositor sobre a relação homem-mulher possa estar ultrapassada, face às conquistas femininas, é bobagem e perda de tempo julgar o comportamento de um artista por conta de uma letra de música que narra caso fictício de amor”.

Apesar das recentes críticas de estar fora da realidade romântica atual, o colunista revelou recentemente que entre as duas regravações no Caravanas está a canção “Dueto”, com a neta Clara Buarque, onde os dois brincam de improviso sobre amores de Tinder e Instagram. “Cabe lembrar que o novo repertório apresenta conexão com um compositor jovem, neto de Chico, parceiro em ‘Massarandupió’”, explica. “A colaboração de um compositor jovem, de outra geração é uma novidade na obra de Chico. Mas que ninguém espere uma revolução estética como as feitas comumente por Caetano Veloso. O fato de ‘Caravanas’ ter sido gravado com os mesmos músicos do álbum anterior, ‘Chico’, já demonstra que o artista vai se manter fiel ao som do disco de 2011.”
Com (menos?) açúcar e afeto

Prestes a lançar o 23º álbum da carreira, a questão aqui é sobretudo quem é, e o que representa Chico Buarque em 2017. Há 50 anos, o autoproclamado “macaco de olhos verdes” cantava “Com Açúcar, Com Afeto”, uma das suas primeiras tentativas da perspetiva feminina, onde um operário se perdia pela noite em copos, enquanto a esposa desesperava em casa.

“Quando a noite enfim lhe cansa/ 
Você vem feito criança/ 
Pra chorar o meu perdão/ 
Qual o quê!”
[…]
“Logo vou esquentar seu prato/ 
Dou um beijo em seu retrato/ 
E abro os meus braços pra você”

Será esta canção mais uma prova cabal que Chico defende a devoção eterna da mulher ao homem, uma grande ironia, ou um retrato fiel do país retrógrado em 1967? Ou mirem-se no exemplo de “Mulheres de Atenas”, quase um bê-á-bá de como ser machista, ou melhor, de como representar liricamente um machista. E hoje, será que existe compreensão para um letrista de nuances?

“Chico sempre tem um olhar lírico e crítico sobre o Brasil”, explica-nos Cacá Machado, “Neste sentido, ‘Tua Cantiga’ que acabou de sair é um bom exemplo”. Além de historiador e músico, Cacá é um dos colaboradores de A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, o modelo máximo de como tratar a música brasileira atualmente. Machado pertence ao grupo de pensadores e críticos que proclama esta fase da carreira de Chico como cada vez mais elaborada, astuta, detalhada e subtil.

“Numa leitura mais superficial pode parecer uma canção de um amor anacrónico”, sugere sobre o controverso single. “Mas, quando ouvimos com mais atenção, percebemos que a música composta por Cristóvão Bastos flirta com o lundu, género do século XIX que carrega todas as questões da escravidão no Brasil.” A visão do historiador cria uma linha entre o single e “Sinhá” de Chico (2011), uma referência mais óbvia ao antigo regime esclavagista. “Em ‘Tua cantiga’ o tema é mais velado, mas traz a memória crítica de um Brasil profundo”, continua. “Chico, às vezes mais lírico, às vezes mais ácido, sempre procura vasculhar e embaralhar a memória do país.”

Ao lado de Lula

A memória do país e o nome Chico Buarque é outro verso altamente polémico. No ano passado, com um Brasil politizado, e completamente dividido entre “coxinhas” (filiados ao PSDB) e “petralhas” (PT), não havia dúvidas para ninguém em que posição estava o cantor. Enquanto a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) discursou na fatal sessão de impeachment, Chico sentava na arquibancada do Senado, ao lado de Luiz Inácio Lula, o mal encarnado para uma parte da população. Antes disso, o cantor já tinha apoiado em propaganda a eleição de Dilma, assim como fez nos eleitorados anteriores por Lula, dando a cara e corpo ao Partido dos Trabalhadores.

Essas imagens ficaram presas na retina de alguns “coxinhas”, que já gritavam “vai trabalhar vagabundo” desde que se convenceram que o cantor recebia dinheiro através de leis estaduais de incentivo à cultura (lembrando que Ana de Hollanda foi ministra de cultura no primeiro governo de Dilma). “Acho que o tempo brutalmente polarizado que vivemos hoje em dia fizeram do Chico refém dessa imagem”, concorda Cacá, “mas vejo a obra dele muito maior do que posicionamentos partidários”. Mauro Ferreira defende que não pode existir mais nada a provar para um cantor de 73 anos. “Podem atacá-lo pelo mero prazer de falar mal, mas nada afeta o prestígio do compositor a essa altura do campeonato.”

“Para quem mora em Paris é fácil”, ouvia-se em 2015 num restaurante no Leblon, bairro do Rio de Janeiro onde mora o cantor. “Você mora em Paris?”, responde Chico. “Todo mundo era seu fã”, contínua o jovem irritado, como podemos ver também em vídeo. Pode ser estranho para grande parte dos portugueses, sobretudo a geração de Abril, que associa o cantor de “Tanto Mar” à libertação democrática de um povo, porém, se passar pelo teste de espreitar uma caixa de comentários de qualquer artigo sobre o cantor, vai deparar-se rapidamente com um ódio desmedido, que já faz parte do discurso político brasileiro nos últimos tempos.

Mesmo fora da internet, alguns jornalistas de direita, como Reinaldo Azevedo, ex da revista Veja, vivem numa cruzada ideológica contra o cantor, com títulos de crónicas como “Que Chico Buarque e Caetano descansem em paz no túmulo da impostura” ou “Mas, afinal de contas, Chico Buarque é ou não é um merda?”. Para o eterno defensor da “gente humilde” isto representa uma situação inusitada, num mundo onde já não existe um “nós” (povo) contra “eles” (ditadura militar), mas uma guerra civil de comentários ofensivos de 140 caracteres.

“Hoje em dia na internet as pessoas falam o que vem na cabeça”, disse o próprio em grandes gargalhadas num documentário de bastidores, “a primeira vez que vi isso não sabia como era o jogo e fiquei espantadíssimo, o artista geralmente acha que é muito amado”. Hoje, ver o cantor em público é cada vez mais raro, deixando até de fazer as participações surpresa no bar Semente (Lapa, Rio de Janeiro), apesar de alguns crédulos continuarem a visitar o estabelecimento com fé na aparição.

E aí, Brasil?

Quando Augusto Boal, o grande dramaturgo brasileiro, estava exilado em Lisboa, o seu amigo Chico Buarque deixou notícias em verso, que infelizmente voltam a fazer todo o sentido em 2017, num eterno roda vida que são estas canções:

“Aqui na terra tão jogando futebol/
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/
Uns dias chove, noutros dias bate o sol/
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”

A coisa está mesmo preta, e além de quem acusou o cantor de machismo, elogiou a subtileza da nova fase, ou condenou de comunista, existe um quarto grupo de ouvintes atentos, que esperava que Chico Buarque retornasse da neblina para fazer música de protesto sobre a coisa preta, cantar “Apesar de Você” em vez de “Samba e Amor”. “Eu acho que devemos tomar cuidado com cobranças e polarizações, a rigor Chico nunca fez música de protesto”, indica Cacá, ‘‘‘Apesar de Você’ é uma canção de protesto? Pode até ser entendida como tal, mas o contexto de sua criação tem mais a ver com a poética lírica da obra do Chico do que com um conteúdo programático de protesto do CPC (Centro Popular de Cultura, grupo estudante de resistência) da época.”

Se as letras recentes de Chico não agradam quem deseja gritos de guerra para marchar pelas ruas, podem contentar-se com a presença eventual do cantor em alguns comícios. No ano passado, um grupo de protestantes ocuparam o Canecão, o famoso palco abandonado no Rio de Janeiro, e convidaram o próprio Chico a participar no movimento “Ocupa Minc” (Minc é o Ministério da Cultura, e o protesto eram atos culturais contra o iminente impeachment). Quando o cantor sobe ao palco, improvisa “Apesar de Você”, para uma plateia que acompanha em uníssono, crente na imortalidade de canções sobre dias melhores. Depois, a assessoria explicou que ele não cantava “Apesar de Você” desde os anos 70 e que, por norma, evita o reportório fortemente associado aos tempos da ditadura militar, o que é razoável para quem foi perseguido e exilado.

Para ouvir os pensamentos de Chico sobre a atualidade política, o melhor é mesmo tentar acompanhar esses momentos fortuitos, porque de entrevistas o compositor é famoso por ser desconfiado, estando numa suposta “guerra” com a poderosa rede Globo desde que participou num documentário internacional que apontava o dedo à participação ativa da emissora no regime militar.

O último álbum de originais foi Chico em 2011, e depois se seguiu o livro O Irmão Alemão em 2014, e até ao final do mês vamos poder ouvir o esperado Caravanas. Se ainda só existe um single, e já se debate com este afinco a importância ou degradação da obra, isso só pode significar que a discografia continua relevante hoje como era há 50 anos. “Chico Buarque é a prova mais evidente de que a canção autoral no Brasil não é mero entretenimento, ao contrário, um modo de transformação cultural e social”, lembra Cacá. Em 2018, quando já estiver provavelmente preparando seu próximo livro, desconfiamos que para o velho Francisco deve seguir tudo igual, indiferente aos latidos das caixas de comentários. Enfim, os cães ladram e o Caravanas passa, e em breve vamos todos poder discutir novamente quem é Chico Buarque.

A lei da selva se instala na Venezuela do bufão Maduro

O ditador Nicolás Maduro, ex-condutor de ônibus e cria de Chávez, com quem fala através de um passarinho, consolidou o fascismo do século XXI no país ao eliminar o Parlamento. Não, o Brasil não rompeu com o bufão socialista. Sim, o PT, o Psol e o PCdoB continuam apoiando o tirano. Bufão, para esses obstinados antiamericanos, é Trump. Leiam a ampla matéria da revista Exame:


A Assembleia Constituinte, dominada inteiramente pelos chavistas, assumiu nesta sexta-feira os poderes da Assembleia Nacional, de maioria oposicionista. O ato consumou o projeto chavista de esvaziar o poder da oposição na Venezuela, conquistado por meio da última votação na qual cada eleitor teve direito a um voto, em dezembro de 2015. Em contraste, a Constituinte foi eleita no dia 30 por um sistema desenhado para garantir a vitória do governo, e sob boicote da oposição.

Por sua convocação não ter sido aprovada por referendo, como prevê a lei, a Constituinte não é reconhecida por Brasil, Estados Unidos, União Europeia e outros países. Segundo boletim de apuração dos votos obtido pela agência Reuters, até as 17h30, uma hora e meia antes do fechamento das urnas, apenas 3,7 milhões de pessoas haviam votado, de um universo de 19 milhões de eleitores.

O decreto que toma posse da Assembleia, aprovado por unanimidade, foi lido pelo vice-presidente da Constituinte, Elvis Amoroso. Ela assume “as competências para legislar sobre as matérias dirigidas a garantir a preservação da paz, a soberania, o sistema socioeconômico e financeiro, os fins do Estado e preeminência dos direitos dos venezuelanos, assim como para ditar atos parlamentares em forma de lei vinculados às referidas matérias”. Ou seja, pode fazer tudo.

A oposição rejeitou a decisão. “A Constituinte é nula e seus atos, ilegais e inconstitucionais”, reagiu, pelo Twitter, o deputado Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional (AN). “A decisão de anulação não será acatada pela AN, comunidade internacional ou o povo.”

Guevara convocou os oposicionistas a um ato de repúdio à sua dissolução na sede do Parlamento, que funciona no mesmo prédio da Constituinte. Ele disse que o corpo diplomático acreditado em Caracas foi convidado a participar do ato.

Em nota, o Mercosul condenou “a decisão da Assembleia Constituinte de usurpar atribuições da Assembleia Nacional da Venezuela, que foi eleita democraticamente pela maioria dos venezuelanos e é a única e exclusiva titular do Poder Legislativo naquele país”.

EXAME consultou a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores sobre se a embaixada brasileira enviaria representante. Mas o Itamaraty estava avaliando, e até o fim da tarde de sexta-feira, não havia respondido.

O embaixador Ruy Pereira e o conselheiro José Solla estão no Brasil, mas poderia ir o encarregado de negócios no país, ministro João Marcelo de Aguiar Teixeira.

Depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, que apoiava incondicionalmente o regime venezuelano, o Brasil passou a ter uma posição crítica em relação ao chavismo, e liderou o processo de suspensão da Venezuela do Mercosul, denunciando ruptura da ordem democrática no país vizinho.

O embaixador Ruy Pereira, no entanto, indicado por Dilma, tem uma boa interlocução com o governo em Caracas. Com a destituição definitiva de Dilma, em 31 de agosto do ano passado, a Venezuela retirou seu embaixador em Brasília, Alberto Castellar. Seguindo a regra da reciprocidade, o Brasil também chamou de volta seu embaixador.

Pereira reassumiu o posto em 5 de julho, embora a embaixada venezuelana continue acéfala. Como líder regional, o Brasil aspira a mediar uma eventual negociação entre governo e oposição, e por isso tem evitado romper com a Venezuela.

Pouco antes da leitura do decreto, a presidente da Constituinte, Delcy Rodríguez, alegou que o órgão havia convidado na véspera a Assembleia Nacional a participar da sessão de sexta-feira, mas a direção do Parlamento recusara.

“Aí está a resposta da direção opositora: seguir desconhecendo a vontade do povo da Venezuela, pela paz, pela independência nacional e a tranquilidade pública”, criticou Rodríguez, que deixou o cargo de chanceler em julho para se candidatar à Constituinte, e foi descrita pelo presidente Nicolás Maduro como “tigre em defesa do socialismo”. Ao lado do próprio presidente, a ex-chanceler foi a que atacou com mais agressividade o governo de Michel Temer, acusando-o de “golpista”.

Para Rodríguez, a Constituinte “não é uma convivência para fazer caretas à direita venezuelana, mas para lhes ensinar de uma vez que o povo manda na Venezuela e que se deve respeitar sua vontade”. E acrescentou: “Chegou a Constituinte para pôr ordem, trazer benefícios ao povo da Venezuela e felicidade a nosso país.”

Entre o discurso e a realidade

Pouca gente acredita que ela o fará, mas bem que o país está precisando. Quando comparados consigo mesmos, países sob regimes ditatoriais costumam ter índices de criminalidade mais baixos do que quando usufruem das liberdades democráticas. A falta de direitos civis, a brutalidade e o controle policiais acabam inibindo bandidos comuns. Não é assim na Venezuela, cujo caos institucional e econômico criou um ambiente no qual a violência do Estado e a dos criminosos comuns se confundem.

Os venezuelanos aprenderam a não registrar queixa na polícia quando são assaltados, para não correr o risco de serem extorquidos e roubados de novo na própria delegacia. E se acostumaram com episódios bizarros.

Um capitão da truculenta Guarda Nacional Bolivariana (GNB), encarregada de reprimir as manifestações oposicionistas, foi flagrado esta semana no Estado de Falcón, junto com seis funcionários da companhia elétrica Corpoelec, roubando fios da rede, com ajuda de um caminhão da empresa.

Índios da aldeia White Water, na Guiana, perto da fronteira com a Venezuela, denunciaram que soldados venezuelanos roubaram sua comida. Os soldados justificaram que estavam com fome, pois não recebiam mantimentos havia 45 dias.

Nesse cenário composto pelo pior de dois mundos — Estado policial e desmoralização da autoridade —, o massacre de 37 presos no Estado do Amazonas, na quarta-feira, aprofundou a politização da violência. O governador do Estado, Liborio Guarulla, que é de oposição, acusou efetivos da Unidade Especial do Ministério da Justiça de invadir o presídio de Puerto Ayacucho e cometer a matança.

Já o ministro da Justiça, general Néstor Luis Reverol, um dos 13 funcionários do governo alvos de sanções dos Estados Unidos, responsabilizou o governador, uma vez que o presídio está sob administração estadual. Ele disse que soldados do Exército e da Guarda Nacional invadiram a prisão para debelar um motim, e foram recebidos com mais de 20 granadas e fuzis. Quinze soldados ficaram feridos, antes de abrir fogo e matar 37 dos 105 presos.

O Amazonas esteve no epicentro da ruptura da ordem institucional na Venezuela. No final de março, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) assumiu os poderes da Assembleia Nacional por não obedecer uma ordem de destituir três deputados do Estado, que supostamente teriam sido eleitos de forma irregular.

A procuradora-geral, Luisa Ortega, considerou a ação inconstitucional, marcando a ruptura dela com os chavistas, que a nomearam em 2007. O Tribunal recuou. Mas começou a nova onda de manifestações, que já deixou 152 mortos, e o regime convocou à eleição da Assembleia Constituinte, para substituir a AN.

Antes do decreto da sexta-feira, a presidente Delcy Rodríguez já havia declarado que todos os poderes do país estavam subordinados à Constituinte.

A repressão cresce 

A partir de sua instalação, no dia 4, intensificou-se a repressão aos oposicionistas. Diosdado Cabello, vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela e uma das figuras mais poderosas do regime, apresentou uma denúncia perante o TSJ contra o deputado Germán Ferrer, marido da procuradora-geral. Em seguida, o tribunal emitiu ordem de prisão do deputado e o apartamento do casal foi alvo de uma operação de busca e apreensão do temido Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), a polícia política. Os agentes levaram dois computadores, impressoras e várias maletas. O casal não estava em casa, mas a empregada foi detida.

“Neste momento a Sebin invade minha casa como parte da vingança desse governo por lutar contra o totalitarismo que existe na Venezuela”, tuitou a procuradora-geral, que considerou inconstitucional a eleição da Constituinte, cuja convocação segundo ela deveria ter sido aprovada em referendo. “Desta forma é que o governo de Maduro e Cabello pretendem acabar com nossa luta pela democracia e a liberdade dos venezuelanos.”

A Constituinte destituiu Ortega, e nomeou em seu lugar o chavista Tarek Saab. O novo procurador-geral acata integralmente as acusações de Cabello, e as encaminha ao presidente do TSJ, Maikel Moreno, que sempre atuou dessa forma também. Foi assim com o procurador Pedro Lupera, que investigava as delações da Odebrecht sobre propina para funcionários do governo venezuelano. A pedido de Cabello, o procurador não só foi destituído, como é alvo de uma ordem de prisão.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, publicada no dia 30, a procuradora-geral disse que a Odebrecht pagou 30 milhões de dólares em propinas a funcionários venezuelanos, em troca dos contratos de 11 grandes obras de infraestrutura, que não foram concluídas.

A Constituinte ameaçava retirar a imunidade parlamentar de Ferrer. É provável que considere isso desnecessário, depois de assumir os poderes da Assembleia Nacional. O presidente da AN, Julio Borges, declarou que a ação contra o deputado “não existe, é nula”, e que o fato seria denunciado perante o alto comissário dos Direitos Humanos da ONU e a União Interparlamentar Mundial.

Borges e outros líderes oposicionistas serão investigados pela Comissão da Verdade. Criada por decreto de Maduro e implementada pela Constituinte, a Comissão vai investigar “as causas do terrorismo”, que é como o regime qualifica as manifestações da oposição.

Enquanto as instituições disputam poder e legitimidade, os venezuelanos seguem lutando pela sobrevivência. E para isso recorrem a seus instintos mais selvagens. No último ano, dez animais foram roubados do Zoológico de Maracaibo, capital de Zulia, o Estado mais rico do país.

Segundo os funcionários, os ladrões vendem a carne, alimento raro e cobiçado no país. No último roubo, foram levados uma anta, um búfalo e um porco-do-mato. É a lei da selva.