domingo, 19 de fevereiro de 2017

Delações premiadas: uma grande oportunidade para os países latino-americanos.

Em artigo publicado no El País, o escritor Mário Vargas Llosa se diz surpreso pelo fato de o juiz Moro ainda estar vivo e afirma que as delações da Odebrecht abrem uma oportunidade aos países latino-americanos de advertirem presidentes corruptos:


Algum dia será preciso erguer um monumento em homenagem à empresa brasileira Odebrecht, porque nenhum Governo, empresa ou partido político fez tanto quanto ela na América Latina para revelar a corrupção que corrói seus países nem, é claro, trabalhou com tanto empenho para fomentá-la.

A história tem todos os ingredientes de um grande thriller. O veterano empresário Marcelo Odebrecht, dono da empresa, condenado a dezenove anos e quatro meses de prisão juntamente com seus principais executivos, depois de passar um tempinho atrás das grades anunciou à polícia que estava disposto a contar todas as malandragens que havia cometido para ter sua pena reduzida. (No Brasil, isso é chamado de “delação premiada”). Ele começou a falar e de sua boca – e das bocas de seus executivos– saíram cobras e peçonhas que estremeceram todo o continente, começando com seus presidentes atuais e passados. O senhor Marcelo Odebrecht me recorda o tenebroso Gilles de Rais, o bravo companheiro de Joana d’Arc, que, chamado pela Inquisição da Bretanha para ser perguntado se era verdade que havia participado de um ato de satanismo com um comediante italiano, disse que sim, e que, além disso, havia estuprado e esfaqueado mais de trezentas crianças porque só perpetrando esses horrores sentia prazer.

A Odebrecht gastou cerca de 800 milhões de dólares em propinas a chefes de Estado, ministros e funcionários para ganhar licitações e contratos que, quase sempre escandalosamente superfaturados, permitiram-lhe obter lucros substanciais. Isso vinha ocorrendo há muitos anos, e talvez nunca tivesse sido punido se entre os seus cúmplices não estivesse boa parte da diretoria da Petrobras, a companhia petrolífera brasileira, que, investigada por um juiz fora do comum, Sergio Moro – é um milagre que ele ainda esteja vivo–, abriu a caixa de Pandora.

Até agora, são três mandatários latino-americanos envolvidos nos sujas maracutaias da Odebrecht: do Peru, Colômbia e Panamá. E a lista está apenas começando. Quem está na situação mais difícil é o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, a quem a Odebrecht teria pago 20 milhões de dólares para garantir contratos de dois trechos da Rodovia Interoceânica, que liga, pela floresta amazônica, o Peru ao Brasil. Um juiz decretou contra Toledo, que está fora do Peru, na condição de fugitivo, uma prisão preventiva de dezoito meses, enquanto o caso é investigado; as autoridades peruanas notificaram a Interpol; o presidente Kuczynski telefonou ao presidente Trump pedindo que o extradite para o Peru (Toledo tem um emprego na Universidade Stanford), e o Governo israelense fez saber que não o admitirá em seu território enquanto sua situação jurídica não for esclarecida. Até agora, ele se recusa a voltar, alegando que é vítima de uma perseguição política, algo que nem mesmo seus mais ardorosos partidários –já restam poucos– podem acreditar.

Estou muito triste com o caso de Toledo porque, como lembrou Gustavo Gorriti num de seus excelentes artigos, ele liderou com grande carisma e coragem, dezessete anos atrás, a formidável mobilização popular no Peru contra a ditadura assassina e cleptomaníaca de Fujimori e foi um elemento fundamental para sua queda. Não só eu; toda a minha família se dedicou a apoiá-lo com denodo. Meu filho Gonzalo gastou as economias que tinha na grande Marcha dos Quatro Suyos [termo inca para designar os pontos cardeais], na qual milhares, talvez milhões, de peruanos se manifestaram em todo o país em favor da liberdade. Meu filho Álvaro deixou todos os seus empregos para apoiar em tempo integral a mobilização pela democracia e, com a queda de Fujimori, sua campanha presidencial até o primeiro turno, e foi um dos seus colaboradores mais próximos. Então algo estranho aconteceu: rompeu com ele, de maneira precipitada e ruidosa. Alegou que tinha ouvido, numa reunião de Toledo com amigos empresários, algo que o alarmou muito: Josef Maiman, o ex-potentado israelense, disse que queria comprar uma refinaria que era do Estado e um canal de televisão (Maiman, segundo os relatos da Odebrecht, foi o testa de ferro do ex-presidente e serviu como intermediário fazendo chegar a Toledo pelo menos 11 dos 20 milhões recebidos por baixo dos panos para favorecer essa empresa). Quando aquilo aconteceu, pensei que a susceptibilidade de Álvaro era exagerada e injusta, e até nos distanciamos. Agora, peço desculpas a ele e exalto suas suspeitas e seu olfato justiceiro.

Espero que Toledo volte ao Peru motu propio, ou que o façam voltar, e que seja julgado com imparcialidade, algo que, ao contrário do que acontecia durante a ditadura de Fujimori, é perfeitamente possível em nossos dias. E, se for considerado culpado, que pague por seus roubos e pela enorme traição que teria perpetrado aos milhões de peruanos que votaram nele e o seguiram em sua campanha a favor da democratização do Peru contra usurpadores e golpistas. Eu tive muitos contatos com ele naqueles dias e me parecia um homem sincero e honesto, um peruano de origem muito humilde, que por seu esforço tenaz havia –como gostava de dizer– “derrotado as estatísticas”, e tinha certeza de que faria um bom governo. A verdade é que –pilantragens à parte, se as houve– o fez bastante bem, porque naqueles cinco anos as liberdades civis foram respeitadas, começando pela liberdade para uma imprensa que se enfureceu com ele, e pela boa política econômica, de abertura e incentivos ao investimento que fizeram o país crescer. Tudo isso foi esquecido desde que foi descoberto que tinha adquirido imóveis caros e deu explicações –alegando que tudo aquilo tinha sido adquirido por sua sogra com o dinheiro de Josef Maiman!– o que, ao invés de inocentá-lo, aos olhos de muita gente pareceu comprometê-lo ainda mais.

As “delações premiadas” da Odebrecht abrem uma soberba oportunidade aos países latino-americanos de fazer uma grande advertência aos presidentes e ministros corruptos das frágeis democracias que substituíram na maioria dos nossos países (com exceção de Cuba e Venezuela) as antigas ditaduras. Nada desmoraliza tanto uma sociedade quanto admoestar os governantes que chegaram ao poder com os votos das pessoas comuns e aproveitaram esse mandato para enriquecer, pisoteando as leis e degradando a democracia. A corrupção é, hoje em dia, a maior ameaça para o sistema de liberdades que está abrindo caminho na América Latina depois dos grandes fracassos das ditaduras militares e dos sonhos messiânicos dos revolucionários. É uma tragédia que, quando a maioria dos latino-americanos parece estar convencida de que a democracia liberal é o único sistema que garante um desenvolvimento civilizado, na convivência e na legalidade, conspire contra essa tendência a rapina frenética de governantes corruptos. Aproveitemos as “delações premiadas” da Odebrecht para puni-los e demonstrar que a democracia é o único sistema capaz de se regenerar.

Bill Gates alerta: bioterrorismo pode matar milhões de pessoas em pouco tempo.

Bill Gates, o fundador da Microsoft, participou da Conferência de Segurança de Munique, alertando para uma possível versão de laboratório de um vírus como a varíola, o que seria fatal para milhões de pessoas. Isto pode acontecer, segundo ele, nos próximos 10 a 15 anos". De fato, não se trata de catastrofismo:


Bill Gates deixou um aviso este sábado, na Conferência de Segurança de Munique, de que um ataque de bioterrorismo poderia matar “mais de 30 milhões de pessoas em menos de um ano“. O homem mais rico do mundo — que tem dedicado o trabalho da sua fundação nos últimos 20 anos a uma campanha global de saúde — alerta que “é perigoso” continuar a ignorar “a ligação entre a segurança na saúde e a segurança internacional”.

O fundador da Microsoft, citado pelo The Guardian, alerta que “uma versão sintética [alterada por terroristas em laboratório] de um vírus como a varíola” poderia matar dezenas de milhões de pessoas em pouco tempo. Bill Gates acrescentou ainda que há uma “probabilidade razoável” de um ataque desse género ser operado “nos próximos 10 a 15 anos.” O norte-americano alertou ainda que o mesmo pode acontecer por “capricho da natureza” e que teria o mesmo grau de mortalidade.

Bill Gates considera que as precauções que o mundo deve tomar para se “proteger contra uma pandemia de origem natural são as mesmas de um ataque biológico intencional. ”Para o multimilionário, é tão importante o mundo preparar-se para “uma pandemia global” como para uma “dissuasão nuclear ou evitar uma catástrofe climática.”

Na sua intervenção em Munique, Gates lembrou que as agências de inteligência norte-americanas e britânicas alertaram que o Estado Islâmico tem tentado desenvolver armas biológicas na Síria e no Iraque. As secretas acabaram por desvalorizar a ameaça apenas porque consideram que os terroristas precisariam de pessoas com capacidades técnicas evoluídas, bons laboratórios e um ambiente calmo, o que não é possível nas zonas de conflito em que opera o Daesh. No entanto, o fundador da Microsoft adverte que especialistas em segurança já alertaram que as modificações na biologia molecular das últimas décadas tornou mais acessível o desenvolvimento de armas biológicas. (Observador).

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Aberração: STF pune contribuinte pela superlotação nas prisões.

A sociedade é duplamente punida: sofre com o banditismo e, ainda por cima, tem que pagar a conta dos vagabundos nas prisões, que terão direito a indenização - uma indenização que suas vítimas jamais tiveram. "É um círculo vicioso sem fim", critica editorial do Globo:


Guarda uma certa coerência com a cultura de um país em que há uma miríade de bolsas sociais e similares a decisão tomada pelo Supremo, por maioria de votos, na quinta-feira, de estabelecer uma indenização financeira a preso que esteja na cadeia “sem condições mínimas de humanidade”. Por exemplo, com superlotação — a maioria delas.

O veredito foi dado em processo movido por Anderson Nunes da Silva, condenado a 20 anos de prisão por latrocínio (roubo seguido de morte). Nos oito anos passados em regime fechado, na penitenciária de Corumbá, Mato Grosso do Sul — Nunes está em liberdade condicional —, onde não havia as tais condições mínimas de humanidade, ele, devido à superlotação, foi obrigado a dormir com a cabeça no vaso sanitário, alegou.

O primeiro voto a favor de Anderson Nunes foi proferido por Teori Zavascki, recém-falecido, em dezembro de 2014, antes de pedido de vista de Luís Barroso.

No fim do julgamento, quinta, Barroso se opôs à indenização financeira — citou as implicações fiscais —, e, junto com Celso de Mello e Luiz Fux, foi voto vencido, porque sete ministros acolheram a tese do pagamento ao preso, fixado em R$ 2 mil (a presidente do STF, Cármen Lúcia, Edson Fachin, Rosa Weber, Marco Aurélio e Dias Toffoli).

Para aumentar a ameaça ao caixa do poder público, a decisão tem repercussão geral, ou seja, terá de ser seguida por todos os tribunais.

O desfecho do processo terminou sendo, infelizmente, um exemplo de falibilidade do juiz.

É correta a preocupação de Barroso com o impacto fiscal do veredito. Daí ter proposto redução de pena como indenização básica nesses casos.

Para se ter uma dimensão do número potencial de processos com o mesmo objetivo pecuniário do ex-presidiário de Corumba, considere- se que existem 622 mil presos no país, num sistema penitenciário com apenas 371 mil vagas. Poderão ser, então, dezenas de milhares de indenizações despachadas para estados já deficitários.

Não se defende que a Justiça se omita. O problema é que o único punido com esta decisão é o contribuinte, já sobrecarregado sob a mais pesada carga tributária do bloco dos países emergentes, e uma das mais elevadas do mundo.

O culpado pelas más condições das penitenciárias são governos de estados, onde se encontram os estabelecimentos. Na área federal, são poucas as cadeias.

Recente reportagem do GLOBO revelou que, desde 2007, o governo federal foi forçado a cancelar 72 obras no sistema de penitenciárias. O recordista é o Rio de Janeiro, com 12 contratos rompidos, que resultariam na criação de 1.499 vagas.

Em seguida, vem o Rio Grande do Sul, com nove contratos. Entre as causas, atrasos, falta de documentos, todos problemas de má gestão.

De tudo resulta que deve nascer mais uma indústria de indenizações, agravando a falta de dinheiro para reforma, ampliação ou construção de cadeias. Um círculo vicioso sem fim.

Dilma destroçou as instituições. O que virá agora?

Em artigo publicado no Estadão, Murillo de Aragão alerta para o perigo de um hiperinstitucionalismo, depois de Dilma e o lulopetismo terem deixado como herança as instituições em frangalhos. Pois é, "cada um no seu quadrado e nos limites da institucionalidade":


A tragédia da era Dilma deixou-nos como herança instituições em frangalhos. Tendo optado por um governo centralizador e autoritário, a ex-presidente Dilma Rousseff concentrou poderes e esvaziou ministérios. “Desinstitucionalizou” quando mandava seu secretário do Tesouro tomar medidas sobre aviação civil e defesa, por exemplo.

Dilma tomou a si as mais importantes decisões, que deveriam ser compartilhadas com os aliados. Abusou dos erros e terminou sozinha. Navegou contra a institucionalidade em favor de um personalismo voluntarioso que não cabe mais. Abandonou o software do presidencialismo de coalizão sem nada pôr no lugar.

Mas as sequelas da era Dilma são ainda piores, já que nenhum dos Poderes escapou de seus efeitos. O Judiciário foi afetado por escolhas de cunho político que poderiam ter enfraquecido sua independência. Conta-se que algumas escolhas teriam sido justificadas com o argumento de que era preciso “salvar nossos rapazes”.

Pressionada politicamente, a Suprema Corte encontrou apoio na mídia para avançar no rumoroso processo do mensalão e dar curso a decisões cujo alcance é tão louvável quanto questionável. Louvável porque se desmantelou um esquema gravíssimo de corrupção. Questionável porque houve exagero nas punições dos não políticos.

Outra reação se reflete no crescimento do ativismo judicial e na influência danosa da mídia nos processos judiciais. É preciso destacar que a fragilidade do sistema político favorece o surto de judicialização da política que estamos vivemos.

O Legislativo viveu um frenesi de fragmentação em microlegendas por causa da omissão do governo, da Justiça e, sobretudo, dos políticos. Emparedado pelo escândalo da Operação Lava Jato e deixado à míngua em matéria de poder, feneceu. Vingou-se por meio do impeachment e ameaça um período de ativismo. Que será positivo se focado em suas competências e questionável se invadir áreas meramente regulatórias.

Recentemente o Senado anulou resolução da Agência Nacional de Aviação Civil que disciplinava o pagamento de bagagens! Não é papel do Legislativo decidir sobre resoluções de agências regulatórias. Atitudes como essas estimulam a judicialização da política, via provocação do Judiciário para dirimir conflitos.

O Executivo nas mãos de Michel Temer recompõe a sobriedade do cargo. Temer concentra seus esforços numa agenda reformista que, ainda bem, tem apoio no Congresso, mesmo lançando mão em excesso de medidas provisórias. Curiosamente, o mais poderoso dos Poderes se comporta como algodão entre cristais, emulando o caráter ameno e sagaz do presidente.

O comportamento dos Poderes pós-impeachment experimenta um período de recomposição, de busca de maior protagonismo. O que já era desequilibrado tende a continuar como tal. A configuração, contudo, apresenta mudanças. O Legislativo pós-Dilma aprovou mais projetos de lei de autoria dos parlamentares que do governo.

O Judiciário, já nos estertores do mandato anterior, mandou prender senador, impediu a posse do ex-presidente Lula no Ministério e afastou o presidente da Câmara, entre outras decisões de impacto. Abusou também de decisões monocráticas – algumas até absurdas, como a ordem para a Câmara devolver projeto de lei aprovado em plenário que já fora remetido ao Senado! Em 2010 o STF tomou 164 decisões monocráticas em ações declaratórias de inconstitucionalidade, no ano passado foram 241. E vêm mais por aí.

O momento é de hiperinstitucionalismo, fruto das crises política e policial herdadas da era Dilma. Demorará algum tempo para que as coisas voltem a seus devidos lugares, uma vez que tanto a agenda de reformas em debate no Congresso como a chegada, com maior intensidade, da Lava Jato pressionarão o ambiente, excitando a mídia e inflamando os ânimos. A interação das redes sociais com o noticiário contribuirá para esse aquecimento.

Dois aperitivos da situação hiperinstitucional foram servidos no início do ano: a decisão monocrática que suspendeu a sanção do projeto de Lei das Telecomunicações e o pedido de abertura de investigações contra os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, o ex-presidente José Sarney e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado, por suposta tentativa de criação de embaraços à Justiça a partir da cogitação de uma hipótese de se mudar uma lei que, potencialmente, poderia favorecê-los.

Será que estamos vivendo uma época em que cogitar é crime? Cogito ergo sum. Será que estamos chegando à época imaginada no filme Minority Report, em que os crimes são previstos com tanta antecedência que a punição chega antes de serem cometidos? Precogs vão prevendo o que vai acontecer.

Em tempos de midiatização excessiva da política e da Justiça, o risco é que as instituições abandonem a prudência em favor de um ativismo impreciso e militante. Até mesmo a depuração da política, mais do que necessária e bem-vinda, deve ser feita com racionalidade e respeito à institucionalidade. Não devemos cair na velha máxima de que os fins justificam os meios. Seria a negação dos avanços democráticos conquistados.

A Lava Jato, ao contrário da Campanha dos Dardanelos, não se pode transformar em fracasso por excesso. Tampouco por omissão. Caberá ao STF zelar por seu sucesso; ao Executivo, manter-se no curso de recuperação da economia para entregar ao povo um País melhor até 2018; e ao Legislativo, sustentar o ritmo de aprovação da agenda de reformas de que tanto necessitamos.

Cada um no seu quadrado e nos limites da institucionalidade. Tudo no melhor interesse do País. O comando dos três Poderes deve buscar um pacto republicano de respeito à institucionalidade e à independência dos Poderes para que o Brasil não caia da pinguela que neste momento atravessa para chegar a 2018. É hora de combater os excessos e a tendência, muitas vezes irresistível, ao hiperinstitucionalismo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Congresso brasileiro: faz que vai, mas não vai.

Quanto mais os políticos esperneiam contra a Lava-Jato, escreve Eliane Cantanhêde no Estadão, mais são obrigados a recuar. Ô, gente que não aprende:


Quanto mais o Congresso tenta avançar contra a Lava Jato e a favor da impunidade, mais é obrigado a recuar, pela pressão dos órgãos de investigação e daquele ator político que, a partir de junho de 2013 e da valorização das redes sociais, está cada dia mais forte: a opinião pública brasileira, ou seja, o senhor, a senhora, você. Foram ao menos cinco recuos históricos, e estridentes, nos últimos meses.

Dois deles, na quarta-feira. No Senado, o ex-ministro e atual líder do governo, Romero Jucá, lançou uma proposta para blindar os presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo e, horas depois, teve de recuar. Na Câmara, o plenário incluiu familiares de políticos na nova rodada de repatriação de recursos não declarados no exterior, na chamada “Lei Cláudia Cruz”, e teve de voltar atrás, também horas depois, numa segunda votação.

E por que senadores e deputados tiveram de dar o dito pelo não dito, o votado pelo não votado? Simples. Porque a gritaria foi ensurdecedora. A lei da repatriação é para perdoar de certa forma a sonegação fiscal e engordar os cofres da Receita. Mas a suspeita, no caso dos políticos, é de que muitos deles cometeram crimes muito mais graves do que sonegação – como corrupção, por exemplo – e usaram contas de mulheres, filhos e irmãos no exterior para esconder enriquecimento ilícito.

Ontem, novo revés. Depois de uma liminar de novembro do STF, o Senado devolveu para a Câmara uma batata quente: o projeto que deveria ser de dez medidas contra a corrupção e virou um monstrengo para garantir a impunidade dos políticos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ficou desolado: “Como faço agora?”. Boa pergunta. Que tal ressuscitar as dez medidas do MP, que tiveram mais de dois milhões de assinaturas?

Outra surpresa desagradável foi a recente votação de urgência para um projeto retirando o poder da Justiça Eleitoral de impor sanções para partidos que descumprirem a lei e não tiverem suas contas aprovadas. Na prática, seria acabar com qualquer responsabilidade partidária. Uma festa! A opinião pública deu um pulo, a Justiça chiou. O resultado é que a urgência não valeu e o projeto está trancado a sete chaves na Câmara, gritando: “Esqueçam que eu existi!”

O quinto recuo é também inacreditável: foi depois da votação, na calada da noite, de um projeto que simplesmente anistiava o caixa dois de campanha, hoje tipificado como crime eleitoral. Foi uma iniciativa muito polêmica e com uma peculiaridade: sem pai, sem mãe, sem autoria assumida. Ninguém teve coragem para tanto. Sendo assim, subiu no telhado e de lá não saiu até hoje.

É assim que o Brasil vive um círculo vicioso – ou virtuoso? A Lava Jato avança, o Congresso reage com ideias mirabolantes, a sociedade resiste a elas por voz, palavras e gestos e no final os políticos são obrigados a engolir em seco e voltar atrás. Algo parecido com o que ocorre após a morte do ministro Teori Zavascki: quanto mais os citados e envolvidos na Lava Jato imaginam que “o pior passou”, mais o Supremo e a força-tarefa dão sinais de que eles estão redondamente enganados.

Aliás, o PMDB e o Senado tiveram a audácia de eleger o senador investigado Edison Lobão para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que vai, por exemplo, sabatinar Alexandre de Moraes para ministro do Supremo. Pois não é que o filho dele, Márcio Lobão, acaba de sofrer busca e apreensão na Operação Leviatã? Deve ter sido só coincidência...

Aqui, não! O governo pretende transformar a Embratur em agência de promoção do turismo no exterior, com o nome de Abratur e financiamento do Sistema S do Sebrae. Só faltou combinar com o adversário. O Sebrae não está nem um pouco interessado.

Ossos do ofício: Moro ouve Suplicy.


Como evitar que pesquisas escolares virem armadilhas marxistas para nossos filhos

Ricardo Bordin, do blog Por um Brasil sem Populismo, examinou alguns sites de pesquisa escolares e constatou: a maioria trata os temas sob o viés esquerdista, abominando o capitalismo e o liberalismo. É a estupidez ideológica de sempre. Pobre país:


Foi-se o tempo em que elaborar trabalhos escolares demandava ir até a biblioteca pública, folhear diversos livros até encontrar o que a professora pedira, tirar cópias ou transcrever manualmente para o caderno e voltar para casa de busão. Uma tarde inteira era dispendida na tarefa que, hoje, exige apenas alguns cliques através de um buscador de sites da Internet. A grande rede mundial de computadores, neste contexto, representa um progresso inconteste na busca pelo conhecimento, especialmente na fase em que os alunos são (em tese) verdadeiras esponjas para novas informações. E até mesmo por isso é preciso ficar alerta com os resultados retornados pelo Google para pesquisas comumente realizadas por estudantes, sobretudo, de Geografia e História.

Digamos que um professor da 1º série do nível médio resolva, inocentemente (ou quase), encomendar a seus pupilos uma pesquisa sobre o Capitalismo. A primeira relação de páginas encontradas – ou seja, as que são mais frequentemente acessadas – já dá uma pista do que nos espera. Vejamos o que alguns sites voltados ao ensino, com temática educativa, têm a elucidar sobre o tema:


(...)

Capitalismo é o sistema sócio-econômico em que os meios de produção (terras, fábricas, máquinas, edifícios) e o capital (dinheiro) são propriedade privada, ou seja, tem um dono.

Os proprietários dos meios de produção (burgueses ou capitalistas) são a minoria da população e os não-proprietários (proletários ou trabalhadores – maioria) vivem dos salários pagos em troca de sua força de trabalho.

Características do Capitalismo:

Toda mercadoria é destinada para a venda e não para o uso pessoal

O trabalhador recebe um salário em troca do seu trabalho

Toda negociação é feita com dinheiro

O capitalista pode admitir ou demitir trabalhadores, já que é dono de tudo (o capital e a propriedade)

(...)


(...)

No século XVIII, a Europa passa por uma mudança significativa no que se refere ao sistema de produção. A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, fortalece o sistema capitalista e solidifica suas raízes na Europa e em outras regiões do mundo. A Revolução Industrial modificou o sistema de produção, pois colocou a máquina para fazer o trabalho que antes era realizado pelos artesãos. O dono da fábrica conseguiu, desta forma, aumentar sua margem de lucro, pois a produção acontecia com mais rapidez. Se por um lado esta mudança trouxe benefícios ( queda no preço das mercadorias), por outro a população perdeu muito. O desemprego, baixos salários, péssimas condições de trabalho, poluição do ar e rios e acidentes nas máquinas foram problemas enfrentados pelos trabalhadores deste período.

O lucro ficava com o empresário que pagava um salário baixo pela mão-de-obra dos operários. As indústrias, utilizando máquinas a vapor, espalharam-se rapidamente pelos quatro cantos da Europa. O capitalismo ganhava um novo formato. 

Muitos países europeus, no século XIX, começaram a incluir a Ásia e a África dentro deste sistema. Estes dois continentes foram explorados pelos europeus, dentro de um contexto conhecido como neocolonialismo. As populações destes continentes, foram dominadas a força e tiveram suas matérias-primas e riquezas exploradas pelos europeus. Eram também forçados a trabalharem em jazidas de minérios e a consumirem os produtos industrializados das fábricas europeias.


(...)

O capitalismo é o sistema socioeconômico em que os meios de produção e as mercadorias são predominantemente de propriedade privada. Seu objetivo principal é a máxima obtenção de lucro e acúmulo de riquezas.

Geralmente, as pessoas dividem o capitalismo entre burgueses, que são os proprietários desses meios produtivos (os patrões), e os proletários, que são os trabalhadores da cidade e do campo que vivem à custa de seus salários. Há também, nesse caso, aquelas pessoas que vivem à margem do capitalismo, isto é, não se encaixam nem como burgueses e nem como trabalhadores, como os pedintes, desempregados, miseráveis e outros, assim chamados de “lúmpen proletários”.

(...)


(...)

O Capitalismo é um sistema em que predomina a propriedade privada e a busca constante pelo lucro e pela acumulação de capital, que se manifesta na forma de bens e dinheiro. Apesar de ser considerado um sistema econômico, o capitalismo estende-se aos campos políticos, sociais, culturais, éticos e muitos outros, compondo quase que a totalidade do espaço geográfico.

A base para formação, consolidação e continuidade do sistema capitalista é a divisão da sociedade em classes. De um lado, encontram-se aqueles que são os proprietários dos meios de produção, a burguesia; de outro, encontram-se aqueles que vivem de sua força de trabalho, através do recebimento de salários: os proletários. No caso do meio agrário, essa relação também se faz presente, pois os donos das terras, geralmente latifundiários, ganham lucros sobre os trabalhos dos camponeses.

Com a era da Globalização, o sistema capitalista tornou-se predominante em praticamente todo o mundo. Porém, as suas fases e etapas de desenvolvimento não ocorrem de forma igualitária na totalidade do espaço mundial, isso porque a sua lógica de produção e reprodução é puramente desigual.

(...)

Voltei...após esta overdose de textos vermelhos! Imaginem, a esta altura, a quantas anda a cabeça do aluno que resolveu fazer seu trabalho de Sociologia, naquela terça à tarde chuvosa, após tanto esquerdismo na veia: deve estar com vontade de matar seu pai capitalista opressor a uma hora dessas. Há dez minutos, antes de abrir o navegador, ele ainda achava legítimo estudar, preparar-se para o futuro, almejando conseguir um bom emprego e evoluir como ser humano. Agora, com a retina ainda colorada pela leitura “instrutiva”, já deve estar encomendando a camisa do Che no Mercado Livre – não confundir com livre mercado, este gerador de desigualdade maldito. Tudo bem que ele vai pagar com a mesada obtida junto aos exploradores, mas é por uma boa causa.

Por falar em “el porco”, vejamos, agora, o que dizem os mesmos portais pedagógicos sobre o Socialismo:


(...)

O cenário de nascimento do socialismo utópico, a França do início do século XIX, abundavam as crises provocadas pelo avanço do sistema liberal, que produzia miséria em série, proporcionando precárias condições de vida aos cidadãos que então chegavam recentemente do meio rural. A jornada de trabalho absurda e o uso de mão de obra infantil completavam o cenário de horror que a Revolução Industrial criou inadvertidamente.

Nesse ambiente onde as promessas da Revolução Francesa acabaram de certo modo por não se concretizar, onde a única liberdade existente era a de mercado, com o capitalista tendo passe livre para realizar a exploração do trabalhador comum. De tal decepção e frente à uma realidade desesperadora, surgem os questionamentos por parte dos intelectuais. De uma dessas correntes de questionamentos temos a origem do socialismo utópico.

(...)


(...)

Características do socialismo:

Diferentemente do que ocorre no capitalismo, onde as desigualdades sociais são imensas, o socialismo é um modo de organização social no qual existe uma distribuição equilibrada de riquezas e propriedades, com a finalidade de proporcionar a todos um modo de vida mais justo. 

Sabe-se que as desigualdades sociais já faziam com que os filósofos pensassem num meio de vida onde as pessoas tivessem situações de igualdade, tanto em seus direitos como em seus deveres.

(...)


(...)

Essa transformação seria, segundo os comunistas, realizada por um agente histórico especial: o proletariado, isto é, a massa de trabalhadores, que, ainda segundo os comunistas, deveriam tomar consciência de classe e perceber sua condição de explorado. Ao perceber isso, o proletário estaria pronto para expropriar (retirar a posse) a propriedade privada e os meios de produção (maquinários industriais e tudo aquilo que transforma a matéria-prima em produto) da denominada classe dominante.

(...)


(...)

No mundo, existem dois tipos de sistema político-econômico: o capitalismo e o socialismo. O sistema capitalista vigora desde o século XVIII. No entanto, no século XIX, o capitalismo não estava agradando aos trabalhadores europeus, em razão da condição de exploração em que viviam. Tal fato fez surgir no continente um sentimento de mudança.

A classe proletária pôde enxergar uma solução no socialismo, que figurava como um acervo de ideias que tinha como objetivo a implantação de um modelo de sociedade mais justa, para extinguir a sociedade de classes, na qual os capitalistas exploram os trabalhadores.

(...)

Alguém nutria alguma esperança de que seria diferente? Nem eu. Perceba que, contando com este “material de apoio” disponibilizado por websites camaradas, o professor sequer precisa fazer esforço algum para doutrinar seus estudantes contra o capital. Basta ele não contestar aquilo que o aluno irá apresentar aos demais em sala de aula, e está feito o estrago – tudo em nome do social.

Mas convenhamos que, levando em consideração o teor das provas do Enem e dos vestibulares, não poderia ser muito diferente, sob o risco de estes estudantes amargarem resultados vexatórios nos exames. Coxinha não tem vez em instituições públicas de ensino superior – e nem mesmo na maioria das particulares.

E por falar nos fascistas, caso algum deles queira formar uma opinião mais progressista sobre diversos assuntos, é só digitar na linha de busca e clicar :

(...) As cotas raciais são um modelo de ação afirmativa implantado em alguns países para amenizar desigualdades sociais, econômicas e educacionais entre raças. (...)

(...) No ano de 1955, Ernesto Guevara decidiu enfrentar as desigualdades políticas que assolavam a América Latina se envolvendo com grupos armados – também conhecidos como guerrilhas – que buscavam depor governos que fossem autoritários e que não se preocupavam com as desigualdades sociais. No ano de 1959 alcançou seu maior êxito ao conseguir derrubar o governo de Fulgêncio Batista, que na época presidia Cuba, um dos países mais miseráveis de toda América Central. (...)

(...) Após o estabelecimento de um armistício na região, Israel ocupou novas áreas pertencentes aos palestinos, que ficaram então sem território, pois suas áreas foram novamente divididas. Os judeus ficaram com a Galileia e outras áreas, ao passo em que a Jordânia incorporou a Cisjordânia e o Egito dominou a Faixa de Gaza. Esses acontecimentos tornaram mundialmente conhecida a questão palestina: o caso de uma nação que ficou sem o seu território. (...)

(...) A Igreja não era a única interessada no êxito dessas expedições: a nobreza feudal tinha interesse na conquista de novas terras; cidades mercantilistas como Veneza e Gênova deslumbravam com a possibilidade de ampliar seus negócios até o Oriente e todos estavam interessados nas especiarias orientais, pelo seu alto valor, como: pimenta-do-reino, cravo, noz-moscada, canela e outros. Movidas pela fé e pela ambição, entre os séculos XI e XIII, partiram para o Oriente oito Cruzadas. (...)

Pronto: com um material assim tão farto, só continua reaça quem quer, correto?

Implantar na grade curricular disciplinas que ajudariam na vida adulta dos estudantes, como educação financeira e noções básicas de Direito, costumam ser sugeridas por pessoas bem intencionadas, mas que não imaginam que absolutamente qualquer matéria pode ser esquerdizada tal qual os conteúdos acima elencados. Daí até começar a lecionar as lições do “mestre” Barroso, alternando com os ensinamentos de John Maynard Keynes, é um pulo. Melhor não, né?

Aliás, reformas de qualquer natureza nos ensinos médios e fundamental surtirão pouco ou nenhum efeito enquanto o material didático das escolas – e até mesmo dos websites que servem de fonte para consulta – seguir enviesado à esquerda de forma tão notória. Neste contexto, perceba que até mesmo pais que pretendessem adotar o homeschooling (educar as crianças em casa, possibilidade proibida no Brasil) ficariam reféns destas páginas virtuais, sendo necessário, no caso, encomendar livros específicos voltados ao conservadorismo ou ao liberalismo. Aliás, aproveitando o ensejo: isto existe?

A adolescência é um período crucial na formação do caráter do indivíduo, e definirá boa parte de seus conceitos a respeito do mundo. Saindo da formatura “batizado” com uma carga tão alta de marxismo, pouco poderemos fazer por esta pessoa a partir dali – para a alegria de PT, PSOL, da UNE, das ONGs, dos Sindicatos, MST e MTST. E de “refugiados” islâmicos. E de feministas. Poxa, até que bastante gente fica contente.

Se até tempos recentes o jornalismo ainda era monopólio da esquerda, este paradigma foi rompido por produtores independentes, distribuídos entre blogueiros, youtubers, twitteiros e afins – para desespero da mídia tradicional, cujos principais veículos estão minguando por falta de audiência e cujo último suspiro é a pataquada da “pós-verdade” ou fakenews (que pode ser traduzida como “queremos nossa reserva de mercado de volta já!”). Ora, se a Internet fez às vezes de “Uber” do setor de Comunicação, não é possível que não haja tantas outras pessoas de direita dispostas a se engajar na elaboração de material didático sem o carimbo da foice e do martelo.

Observação importante: se você leu os trechos em vermelho e não viu nada demais no que pode estar entrando na cabeça do seu filho neste exato momento, cuidado, pois você mesmo deve ter sido vitimado pelo mesmo mal disseminado pelo inFOICEescola.com e outros do gênero. Neste caso, relaxe, ligue 190 e aguarde a polícia chegar – e quando ela parar em frente a sua casa, nem pense em gritar “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”, hein? Comporte-se, comuna!

A guerrilha de Jucá contra a Lava-Jato

Segundo editorial do jornal O Globo, o senador Romero Jucá - que está na mira da Lava-Jato - voltou ao ataque contra a operação que investiga o maior escândalo de investigação da história brasileira, perpetrado pelo lulopetismo e acólitos. A emenda que ele propõe para blindar Rodrigo Maia e Eunício Oliveira é demonstração acintosa de desprezo aos interesses da sociedade:


O senador Romero Jucá (PMDB-RR) não falha. Na mira da Lava-Jato, grampeado por Sérgio Machado, agente do petrolão na Transpetro, em conspiratas contra a operação com sede em Curitiba, junto com outros peemedebistas — Renan Calheiros, Edison Lobão e Sarney —, Jucá voltou ao ataque.

Dessa vez, por meio de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que estende aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo a prerrogativa de não serem investigados/processados por fatos ocorridos antes de assumirem os mandatos. O objetivo é blindar Rodrigo Maia (Câmara) e Eunício Oliveira (Senado), nomes citados em investigações sobre a proximidade excessiva a empreiteiros. Passariam a ter o mesmo benefício do presidente da República.

Aprovada a PEC, estariam livres do dissabor de ter de se entender com o Ministério Público e a Justiça. Diante da forte reação à manobra, Jucá recolheu a PEC, que, por óbvio, não surgiu do nada, apenas da iniciativa dele. Por trás dela pode-se perceber a impressão digital dos temerosos com a Lava-Jato. Parece haver manobras de guerrilha para blindar parlamentares, e políticos em geral, que aparecerão citados nas delações da cúpula da Odebrecht, a serem conhecidas depois do carnaval — que ninguém é de ferro. Deverá haver referências a 130 deputados, senadores, ministros e ex-ministros, entre outros, além de a 20 governadores e ex-governadores.

Como é característica das ações militares subterrâneas, há avanços e recuos sucessivos. Se a operação, como a da PEC, encontra forte resistência, recua-se e justificam-se as assinaturas de apoio à proposta como apenas um gesto para permitir o debate. É o que fizeram os senadores tucanos Aécio Neves, Aloysio Nunes Ferreira, Cássio Cunha Lima, José Aníbal, Eduardo Amorim e Flexa Ribeiro.

Teria sido possível, na Constituinte de 87, debater a extensão da imunidade temporária que protege o presidente da República. Mas não deixaria de ser uma aberração. Para ser algo sério, teria de haver limitação no número de mandatos para parlamentares.

Naquele momento, a pedra estava zerada, restaurava-se a democracia representativa, e até ideias tresloucadas eram levantadas. Como o tabelamento de juros.

Mas tentar aprovar esta PEC às vésperas do encaminhamento de pedidos de abertura de inquérito pela PGR ao ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato, com base nas delações da Odebrecht, é mais um acinte contra a sociedade.

Como teria sido se o presidente Temer mantivesse o senador Jucá no Ministério do Planejamento, depois de reveladas aquelas gravações. E como foi agora na eleição do senador Edison Lobão, um dos citados nas investigações, para presidir a emblemática Comissão de Constituição e Justiça. Rechaçado mais este ataque contra a Lava-Jato, virão outros. É da guerrilha.

Os novos pobres do lulopetismo: haja Bolsa Família.

Lula e seu populacho
O aumento da pobreza é a mais clara demonstração de que o populismo só conduz ao desastre. Essa foi a "transformação social" apregoada por Lula e Dilma, amigos fieis do bolivarianismo. Eles é que deveriam pagar a conta:


Os dados de um estudo do Banco Mundial sobre o aumento do número de pobres no Brasil e do Ministério do Desenvolvimento Social sobre o número crescente de pessoas que estão voltando ao Bolsa Família, desde 2012, mostrados em reportagens do jornal O Globo, expõem mais uma vez, agora de forma dramática, os conhecidos limites das políticas populistas, como as executadas pelos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff. E demonstram o tamanho da mistificação e da demagogia da “transformação social” que eles teriam operado no Brasil com aquele programa.

Deverá aumentar entre 2,5 milhões e 3,6 milhões – de acordo com as previsões otimista e pessimista – o número de pobres em 2017, segundo o Banco Mundial. O total de pobres chegará a 19,8 milhões, dos quais 8,5 milhões em estado de extrema pobreza, num cenário otimista de crescimento econômico. No cenário pessimista, os números serão respectivamente 20,9 milhões e 9,4 milhões. Mesmo no melhor dos casos, a situação é ruim.

Quanto ao perfil desses novos pobres, assim chamados pelo estudo, são em sua imensa maioria – nove em cada dez – de moradores da área urbana. São chefes de família com idade média de 37,9 anos; 33,5% são brancos; 38,2% com estudos ao menos até o ensino médio; 39,7% da Região Sudeste e 35,2% da Região Nordeste; e 58,8% trabalhavam até 2015 na área de serviços. Segundo Martin Raiser, diretor do Banco Mundial, o lado positivo da situação – se se pode dizer assim – é que, como mostram os números, os novos pobres são pessoas jovens, com bom nível de educação e de regiões urbanas, características que devem facilitar sua reinserção no mercado de trabalho, com a retomada da economia.

Raiser assinala – e esse é um dado a ser ressaltado – que “é importante fazer ajuste fiscal, que vem de uma avaliação de todas as despesas públicas para ver onde há ganhos de eficiência, privilégios e, nesse sentido, temos feito um diagnóstico mostrando que o País pode fazer ajuste fiscal sem cortar despesas sociais”. Até agora o governo vem mantendo esse equilíbrio que ele recomenda.

Os milhões de novos pobres, que são produto do desastre econômico dos governos petistas, que deixou um legado de desempregados que já somam mais de 12 milhões, só poderia levar a um aumento da procura pelo Bolsa Família. Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que só no ano passado voltaram a ele 519.568 das famílias que haviam deixado aquele programa até 2011. Mas essa volta começou bem antes: 164.973 em 2012; 186.761 em 2013; 104.704 em 2014. Em 2015, houve um grande salto, com 423.668.

Nada disso tem a ver, portanto, com o atual governo, como alega demagogicamente o lulopetismo – frustrado por ter sido obrigado a deixar o poder –, que o acusa de desmonte social, quando na verdade quer apenas, malandramente, atribuir a ele o desastre que promoveu. Tanto o setor social não foi prejudicado até agora que em 2016 foram habilitadas a receber o benefício do Bolsa Família, em média, 141 mil famílias, vítimas do descalabro petista, contra a média mensal de 105 mil em 2015.

O prof. Elimar Nascimento, da Universidade de Brasília, especialista em políticas públicas, lembra que, “nos últimos dois anos de recessão, o desemprego explica por que as pessoas estão voltando ao Bolsa Família, que é um paliativo, não resolve o problema da pobreza. Só com a retomada do crescimento esse movimento pode ser superado, não existe mágica a ser feita”. E para o crescimento voltar, acrescente-se, é preciso acabar com a bagunça fiscal petista.

O que o lulopetismo deixou como herança são os novos pobres, não a alardeada retirada de milhões de brasileiros da pobreza e a criação de uma nova classe média. A tal revolução social de Lula não foi além do paliativo – só importante enquanto tal – do Bolsa Família. Este, como todo programa populista, só dura enquanto pode durar a gastança irresponsável, sem respaldo na economia. Depois, acaba a mágica e é preciso pagar a conta. (Editorial do Estadão).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ah, essa turma dos jatinhos e helicópteros!

Percival Puggina, em seu blog:


Naqueles tempos em que Lula ainda tentava mostrar o petismo à nação como experiência bem sucedida, malgrado o crescimento fosse tipo merengue e a prosperidade não passasse de contas penduradas num prego, ele surtava dizendo que, graças aos governos do partido, pobre já andava de avião. Doze milhões de desempregados depois, contas ainda no prego da inadimplência, as companhias aéreas devolvem aviões e reduzem o número de voos, mas... há uma parcela da elite política brasileira que só viaja de jatinho.

Ah, as nossas instituições! Desgraçadamente, nos últimos anos, elas se corromperam em proporções ainda não plenamente descritíveis. A sociedade, que não lhes devotava confiança, perdeu-lhes o respeito. Se o leitor destas linhas for parlamentar, ministro de Estado, membro das cortes superiores do Judiciário, agente público de alto escalão e considerar excessivamente duras estas palavras, fale com as pessoas. Ouça o povo nas ruas. Será ainda mais contundente o que vai ouvir. O descaramento e a inépcia de muitos que se instalam nessas posições para os piores fins, totalmente desprovidos de espírito público, atinge a todos e abala os pilares da Ordem, da Política e do Direito. Produz o que hoje se observa no país.

E não é só por causa da corrupção! A sociedade também não tolera mais os contracheques de centenas de milhares de reais, recheados com "indenizações", parcelas adicionais, gratificações especiais e jeitosas manobras. Divulgada esta semana, não mostrava a folha de pagamento do TJ sergipano um pouco mais disso, com remunerações de centenas de milhares de reais aos desembargadores? Pergunto: prodigalidades assim não se repetem em toda parte, gerando ganhos impensáveis fora do serviço público, cujo patrão, o povo, desconhece os absurdos que paga? A nação enoja-se desses esbanjamentos, dos cartões corporativos, dos voos em primeira classe, das aposentadorias privilegiadas, e da conduta dessa elite cuja boa vida, ela, a nação, custeia com o gotejado suor de seu rosto e com a sola do sapato gasta nas calçadas do desemprego.

Notórias personalidades, além do privilégio de foro que as oculta da efetiva justiça, desfrutam do raro privilégio de se eximirem do convívio social nos saguões dos aeroportos e nas filas de embarque onde não seriam bem acolhidas pelo Brasil que se leva a sério e exige respeito. Então, os senhores da casa grande republicana, andejam pelo país para reuniões de proselitismo e mentira, festejados por cupinchas à espera da própria vez. E como viajam? Em jatinhos, helicópteros e voos fretados, às custas de terceiros, quartos e quintos, entre os quais, quase certamente, nós mesmos, a turma da senzala.

O liberalismo e seus inimigos

A esquerda despreza o liberalismo tanto quanto a direita. Mas o que têm a oferecer? Utopias, apenas utopias - que geralmente redundam em milhões de mortos. Texto de Macario Schettino, publicado no Instituto Cato:


Las sociedades humanas se construyen alrededor de mitos, cuentos, historias. El animismo, la adoración de los antepasados, religiones de pocos y muchos dioses, de uno y de ninguno (que de todo hay). Religiones laicas, incluso. Todos los mitos deben favorecer las necesidades elementales de los humanos: sobrevivir y reproducirnos, pertenecer y escalar (al interior del grupo), porque somos animales sociales. Es por eso que (casi) todos los mitos coinciden en favorecer al grupo frente a los demás. Un grupo que puede definirse como herederos del antepasado que se adora; como seguidores de un dios especial, entre todos los aceptables; o del único dios; o de un proceso de iluminación que sólo algunos persiguen; o de una clase social o económica.

Hay un único mito que hemos construido que parte de una idea diferente: todos somos esencialmente iguales, afirma el liberalismo. Ese mito es un invento europeo, resultado de la imprenta y la lucha entre ideas que ella permitió, que recuperó algunas cosas tanto del pensamiento mediterráneo (griego, pues) como del cristianismo, pero sin dios. Aunque el avance del liberalismo no fue inmediato, ya Hegel en 1806 se imaginaba el fin de la historia cuando el ejército liberal de Napoleón derrotaba a las fuerzas prusianas. Faltaba todavía terminar con la esclavitud, ampliar la franquicia electoral, repartir mejor la producción, pero la idea de que todos somos iguales había derrotado a aquella que afirmaba que algunos tenían mayor cercanía con dios y, por tanto, privilegios.

Pero la derrota de la aristocracia tardó todavía más de un siglo en culminar, con la I Guerra Mundial, y para entonces las religiones laicas ya se habían convertido en alternativas al liberalismo. El nacionalismo (eugenésico) y el comunismo intentaron derrotarlo durante el siglo XX. El primero perdió en la II Guerra Mundial, el segundo en la Guerra Fría. A su término, un discípulo de Hegel, Francis Fukuyama, nuevamente imaginó el fin de la historia.

Pero otra vez hay enemigos del liberalismo. Todos son enviados desde el pasado: fanáticos religiosos, nacionalistas supremacistas, comunistas posmodernos. Unos ponen bombas, otros intentan repetir lo que sus antepasados, nazis y soviéticos, hicieron hace pocas décadas: construir un discurso alternativo, así sea sobre datos falsos, generar un movimiento a su alrededor, tomar el poder, obligar a todos los demás a reconocer el grave error del liberalismo. Porque para ellos no todos somos iguales: hay una raza, una religión, una clase social, que debe prevalecer.

El ascenso de estos grupos al poder en los últimos años, haciendo uso de las herramientas más modernas de comunicación (que el liberalismo no ha comprendido) es una amenaza de la mayor importancia. Porque en ello son iguales Trump, el UKIP, Podemos, Cinco Estrellas, el Frente Nacional, la Alternativa por Alemania y tantos otros. El elemento que los define es la afirmación de que no somos todos iguales, y hay un grupo que debe prevalecer. Cambia el grupo, no la idea.

Defender el liberalismo es muy complicado. No tiene, como los otros mitos, la facilidad de definir un grupo: vamos todos o no va nadie, y eso realmente dificulta la organización. Pero el liberalismo no es sólo el único mito en el que todos somos tratados en esencia de la misma forma, es el único mito que ha permitido generar riqueza y distribuirla desde que tenemos sociedades con base cultural; es decir, desde hace 15 mil años. La izquierda desprecia al liberalismo, lo mismo que la derecha, y ambos ofrecen utopías a cambio: que si el pueblo (o el proletariado), que si la raza (o la religión). En todos los casos, han costado millones de muertos. Como en los siglos pasados, regresa el enfrentamiento. Hay que volver a ganar.

A imigração descontrolada e a vitória de Trump

Em artigo publicado no jornal paranaense Gazeta do Povo, Rodrigo Constantino afirma que o tema da imigração foi crucial para a vitória de Donald Trump. Obama, por sua vez, permitiu a imigração descontrolada, de olho nos votos e na mão de obra barata:


Se houve um tema crucial na vitória de Trump, foi o da imigração. Talvez nada demonstre melhor o abismo existente entre a elite “progressista” e o povo de carne e osso. Enquanto o imigrante, para essa elite, é uma abstração distante, um eleitor em potencial, ou então a babá e o jardineiro latinos, para o trabalhador de classe média ele pode ser o que rouba seu emprego numa competição desleal, um fardo pelo aumento de impostos para sustentar os benefícios estatais, o vizinho estranho que não aceita assimilar a cultura local ou até um criminoso em potencial.

O livro mais influente sobre o assunto, que ajudou a definir o resultado da eleição, é Adios, America!, de Ann Coulter. O livro tem 100 páginas só de notas, ou seja, está repleto de dados muitas vezes ignorados pela grande mídia. Ele ataca abertamente a crescente latinização e islamização da América.

Sua tese central é de que a esquerda deliberadamente abriu as fronteiras do país para permitir a entrada de milhões de imigrantes, em especial de mexicanos, sem critério algum, sem filtrar minimamente pela capacidade de produção dessas pessoas, atraindo o que há de pior em termos de habilidades, de olho apenas na mão de obra barata e nos votos. Ou seja, a América estaria sendo transformada num típico país de terceiro mundo, e quem ousar questionar esses rumos será logo acusado de “xenófobo” e “preconceituoso”.

Como a imprensa se recusa a debater honestamente o tema, as pessoas ficam no escuro, desconhecem o que está em jogo. Coulter busca eliminar esse hiato, esfregando na cara do leitor inúmeros casos e estatísticas que montam uma narrativa bem assustadora: os Estados Unidos estariam sendo invadidos por uma praga que vem destruindo seus valores mais básicos, que ajudaram a fazer da nação o relativo sucesso que é hoje, a ponto justamente de atrair essa multidão toda.

Imigrantes legais e ilegais que nem sequer aprendem o inglês, que rejeitam aquilo que a América representa, conseguem não só permanecer no país como conquistar “direitos”, distribuídos de forma irresponsável pela esquerda de olho nos votos. Vale notar que 80% dos latinos votam nos democratas e apenas 20%, nos republicanos. Se a classe média americana se recusa a eleger a esquerda, então a esquerda vai inundar o país de imigrantes e vencer na marra. A menos que surja um Trump no caminho.

Muitos repetem que a América foi moldada por imigrantes, mas ignoram que, em sua maioria, eram europeus em busca de oportunidades, não do “welfare state”. Não dá para negar que, na média, a qualidade desse imigrante se deteriorou bastante. Os Estados Unidos parecem ter se tornado o destino final de todos os “refugiados” do mundo, todos os ignorantes sem formação que a elite culpada precisa defender, com recursos alheios, para se sentir moralmente superior.

Não há país decente, porém, que não tenha uma política de imigração, filtrando quem pode viver no país. O “progressista” Canadá, a Suécia, a Austrália, todos selecionam quem pode ou não viver dentro de suas fronteiras. Mas a América virou a casa da Mãe Joana, e o discurso sensacionalista fala em construir pontes em vez de muros, como se fosse um absurdo tentar estancar a entrada descontrolada de imigrantes ilegais que, depois, custam uma fortuna para o pagador de impostos e elevam as taxas de criminalidade.

Como disse, o livro contém muitos dados desconhecidos por aqueles que adotam um discurso fácil a favor da imigração irrestrita, acusando de xenofobia quem resolve questionar o modelo atual. Não cabe aqui listar todos os fatos, muitos deles chocantes. Mas recomendo a leitura, pois esse é um tema extremamente relevante, e que infelizmente tem gerado bem mais calor do que luz.

Alcateia perversa: Belo Monte do Lobão pai e Lobão filho.


Marcha sobre Brasília

O Parlamento brasileiro já não representa a sociedade, mas insiste em sórdidas manobras nada republicanas, escreve Nelson Paes Leme no jornal O Globo. É necessário marchar sobre Brasília, diz ele. Trata-se de uma "imposição da história":


Parece que os Três Poderes dessa República em avançado estado de putrefação não compreenderam bem o recado e o significado dos grandes movimentos populares contra a corrupção e a impunidade dos políticos que vêm ocorrendo no Brasil desde o mensalão. O povo brasileiro simplesmente não aceita mais ser conduzido por essa classe política nauseabunda que agoniza sem qualquer senso autocrítico. O Parlamento brasileiro já não representa a sociedade civil há muito tempo, mas ainda insiste em sórdidas manobras e conchavos nada republicanos, visando a usufruir do simulacro de representação que ainda lhe resta. Os recentes movimentos no Executivo e no Legislativo, literalmente conluiados, a essa altura, para tentar melar e desarticular a Operação Lava-Jato — no momento da verdadeira devassa que as colaborações premiadas das empreiteiras lançam ambos os poderes no epicentro da mais escancarada corrupção passiva — são agressivos. Isso dá bem a medida da ousadia e do claro enfrentamento a que se dispõem os políticos delatados, como arma de defesa.

O PMDB, nitidamente desfigurado de seu papel histórico, uma vez que da cúpula partidária há egressos de legendas espúrias de todos os matizes, menos do velho partido de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, debate-se em fétidos estertores. Qual a única saída para essa súcia? Apostar no quanto pior, melhor. Uma Comissão de Constituição e Justiça do Senado, prenhe de delatados e investigados, ainda por cima presidida pelo notório Edison Lobão, é uma verdadeira cusparada no rosto de uma sociedade cada vez mais distante e horrorizada com a representação política em nosso país, em meio à maior crise econômica, federativa e social, cujo emblema de frontispício é o maior desemprego de que se tem notícia na História do Brasil.

A desarticulação e a desorganização das forças que, bravamente, tentam resistir e que têm conseguido colocar, via internet, essas multidões em pacíficas passeatas nas ruas só atendem aos interesses dos maus políticos. De nada adianta ficarem essas massas inorgânicas desfilando aos domingos pelas avenidas das cidades quando tudo o que de menos republicano ocorre fica a centenas, às vezes milhares de quilômetros dos grandes centros urbanos, no Planalto Central do Brasil, em meio a uma arquitetura de ficção científica. E ocorre nos dias úteis (ou seriam inúteis?). Os prédios tombados de Oscar Niemeyer são hoje o abrigo dessa conspiração espúria: melar a Lava-Jato, transformando juízes como Sérgio Moro e Marcelo Bretas em pérfidos, cruéis e desumanos algozes; os jovens procuradores da República em precipitados e levianos advogados públicos e os policiais federais em atores de algum filmezinho qualquer de seriado de TV. Não é bem assim. Há uma nova geração de homens e mulheres públicos e públicas concursados e concursadas, idealistas, estudiosos e estudiosas da História, que não aceita mais o cinismo dessas raposas de cabelos pintados e implantados e desses bigodes tingidos, traçando os destinos da Nação em seus ternos de grife e colarinhos brancos enxovalhados com a imundície dos desvios de dinheiro público. Dinheiro que poderia estar minorando a precariedade dos serviços essenciais a uma população majoritariamente desatendida e depauperada, a morrer desumanamente nos corredores dos hospitais sucateados ou pelas balas perdidas, na verdadeira guerra urbana potencializada pelas rebeliões nos fétidos e superpopulados presídios. Todos vítimas de uma educação falida e mal paga, com as principais universidades brasileiras fechando as portas por falta até de papel higiênico. Essa é a realidade do Brasil de hoje que essas hienas nos entregam sem qualquer arrependimento ou escrúpulo.

Em qualquer outro país do mundo, uma tal ordem (ou desordem) dessa natureza já teria sido rompida, pelo menos para tentar-se uma nova ordem. Imaginar que esses marginais da política, ainda investidos em seus mandatos, irão entregar o poder que têm, por bem, é acreditar em Papai Noel. Sem que o povo brasileiro abdique de suas comodidades urbanas e promova uma gigantesca marcha sobre a Capital Federal, distante e alienada desse país continental, nada ocorrerá. A Marcha sobre Brasília é uma imposição da História. Milhões de brasileiros e brasileiras criando um grande congestionamento nas largas avenidas de Lucio Costa e cercando os prédios de Niemeyer, em apoio a esses jovens juízes, promotores e policiais federais, certamente irá promover um grande debate interno dentro dos palácios, onde uma tímida oposição a esse descalabro mal consegue alguma voz na mídia. Esta prefere dar voz à ignomínia dessas aves de rapina que infestam e infectam a vida pública. Vorazes predadores inconsequentes de uma república agônica e desgovernada em direção a algum fatal iceberg.