quinta-feira, 24 de maio de 2018

Gasolina no incêndio

"A alta do diesel e da gasolina tem vários pais. E uma mãe. A mãe é Dilma: ao segurar o preço dos combustíveis no país abaixo do custo do petróleo, quebrou as usinas de álcool e endividou a Petrobras". Coluna de Carlos Brickmann, publicado hoje em diversos jornais - e aqui surrupiada:


Temer já sabia que ganhar as eleições seria tarefa impossível. E, com a parada dos caminhões e a alta do combustível, é bom nem falar em votos.

Não é por falta de erros que Temer está em baixa. Mas cai até quando não é sua culpa. A alta do diesel e da gasolina tem vários pais. E uma mãe.

A mãe é Dilma: ao segurar o preço dos combustíveis no país abaixo do custo do petróleo, quebrou as usinas de álcool e endividou a Petrobras. Hoje, a Petrobras vende combustíveis a preços que cobrem o custo do petróleo, do prejuízo que teve, dos juros que paga. O preço varia dia a dia, conforme a cotação do petróleo. Em 12 meses, a gasolina subiu 17,96% (a inflação esteve por volta de 2%). Aí aparece o primeiro pai da alta: o dono dos postos, Quando a Petrobras baixa o preço (e isso aconteceu algumas vezes), o posto o segura lá em cima. Concorrência entre postos? Então tá!

E vai subir mais: o dólar se valoriza e o petróleo marcha para US$ 90 o barril. É o outro pai da crise: a Venezuela já reduziu a produção à metade, por desorganização. O Irã está mais preocupado em mandar na Síria e sofre com as sanções americanas. Menos petróleo, mais preço. Há quem estime que a gasolina chegue a R$ 5,10 se câmbio e petróleo mantiverem o rumo.

Outro pai é o Governo, em todos os níveis: os vários impostos são mais de 40% do preço do litro. Resultado: o litro, para os americanos, custa menos de R$ 2; no Brasil, o custo é de R$ 4,75. E Temer paga em votos.

Temer fora

Ou não paga mais. Deixou a conta para seu ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que disputará o voto de centro com Geraldo Alckmin. Dado o carisma de ambos, pode parecer engraçada a frase seguinte: existe a possibilidade de que um deles seja eleito: basta chegar ao segundo turno, e beneficiar-se do radicalismo do adversário, seja Bolsonaro, seja o poste que Lula escolher. Alckmin, que conhece o jogo faz tempo, tem mais chances que Meirelles, cuja força é a capacidade de pagar sozinho a campanha. O MDB de Meirelles é forte, mas desde 1994 não disputa a Presidência. Se sempre se deram bem aderindo ao vitorioso, por que mudar justo agora?

Pedra no caminho

Há um grupo de parlamentares que tenta convencer Josué Alencar (cujo nome é Josué Gomes da Silva, mas resolveu se lembrar da herança política do pai, José Alencar) a sair para a Presidência, pelo centro – desde que pague sua própria campanha. O líder do grupo é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Se der certo, Alckmin e Meirelles terão mais dificuldades.

O olímpico

Rodrigo Maia tenta também lançar Eduardo Paes para o Governo do Rio. Ele era o prefeito do Rio na época dos Jogos Olímpicos, lembra?

Perdemos todos

Um dos grandes jornalistas brasileiros, Alberto Dines, morreu ontem aos 86 anos. Dines foi repórter, editor, diretor (mandava mais no Jornal do Brasil do que o dono – e merecia), escritor, professor em Princeton, criador do Observatório da Imprensa em TV e site. Foi um dos mestres deste colunista, que escreve sobre ele para a Folha de S.Paulo (só para assinantes); e, com leitura livre, neste link.

O Tribunal de Justiça de Minas rejeitou os recursos do ex-governador Eduardo Azeredo, ex-presidente nacional do PSDB, e ordenou sua prisão. Azeredo foi condenado a 20 anos e 1 mês por participação no Mensalão mineiro, uma espécie de ensaio do que viria a ser o Mensalão petista, e que incluiu até a participação do publicitário Marcos Valério. Azeredo pode recorrer ao Superior Tribunal de Justiça, mas não em liberdade.

Onde está o dinheiro?

A servidora Mirella Menezes Celestino pediu aposentadoria voluntária do Tribunal de Justiça da Bahia. Com a aposentadoria, a funcionária terá “proventos integrais de R$ 39.936,17”, segundo despacho do presidente do TJ baiano, desembargador Gesivaldo Brito. O salário propriamente dito (o nome oficial é “vencimento básico”) é de R$ 8.276,67. O restante, que põe seu salário acima dos pagos aos ministros do Supremo, são penduricalhos: “vantagem pessoal AFI símbolo”, R$ 17.802,72; “vantagem art. 263”, R$ 7.127,57. O desembargador determina que, na implantação dos proventos, deverá ser observado “o limite do teto constitucional – R$ 30.471,10”. Ou seja, com redução e tudo, uma economista de um Tribunal de Justiça estadual tem direito a ganhar quase tanto quanto um ministro do STF; mais de 90% dos vencimentos dos onze magistrados mais importantes do país – e, não esqueçamos, dentro da lei. Há algum risco de o país dar certo?

Só um ministério de notáveis salvará o próximo governo?

Em artigo publicado no Globo, Merval Pereira comenta a tese de um pesquisador da FGV-Rio, para o qual o único antídoto para o presidencialismo de coalizão, já desmoralizado, seria a formação de um ministério de notáveis:


O cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Fundação Getulio Vargas no Rio, escreveu no Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) de maio um artigo tratando da governabilidade do futuro presidente brasileiro, que, ao que tudo indica, será minoritário no Congresso devido à crescente fragmentação partidária e ao enfraquecimento dos três principais partidos – MDB, PT e PSDB. Sua instigante tese é que antídoto ao presidencialismo de coalizão, desmoralizado diante da opinião pública, seria a formação de um ministério de notáveis, tal qual tentou em 1992 o então presidente Collor. 

Octavio Amorim Neto lembra que, ao longo das nossas duas experiências democráticas (1946-1964 e 1985-2018), “todos os chefes de Executivo que não lograram formar uma maioria legislativa, ou a perderam, não conseguiram terminar suas administrações no prazo constitucionalmente estipulado. São os casos de Getúlio Vargas em 1954, Café Filho em 1955, Jânio Quadros em 1961, João Goulart em 1964, Fernando Collor em 1992, e Dilma Rousseff em 2016”.

Trata-se de um fenômeno muito frequente em nosso país, ressalta o cientista político, que rechaça a ideia de alguns políticos de recorrer a plebiscitos para forçar o Poder Legislativo a acatar as principais propostas do novo governo. Além de “uma afronta às prerrogativas constitucionais de deputados e senadores”, significa “se valer de um expediente típico do rotundamente falido bolivarianismo venezuelano”.

Além do mais, o Congresso foi fortalecido pelas reformas de 2001 e 2009, ressalta Octavio Amorim Neto, citando diversos estudos, e a partir de 2015 a execução das emendas individuais dos parlamentares ao orçamento da União passou a ser impositiva, fortalecendo mais ainda o Legislativo.

Por mais desmoralizados que se encontrem os parlamentares, sua cooperação continua sendo absolutamente vital para o êxito de qualquer governo, salienta o cientista político. Na impossibilidade, na visão de Octavio Amorim Neto, de se fazer um amplo acordo de união nacional, um eventual presidente minoritário deveria tentar no começo de 2019 o que o ex-presidente Collor tentou a partir do segundo ano do seu mandato e, sobretudo, no fim do seu governo.

Octavio Amorim Neto relembra: em abril de 1992, Collor deu sua última tacada nomeando um gabinete caracterizado pela delegação de poder a líderes partidários de peso (com destaque para Jorge Bornhausen) e a outros “elder statesmen” (Célio Borja, Hélio Jaguaribe e Celso Lafer), tendo como coordenador da economia o ministro Marcilio Marques Moreira, que fora nomeado anteriormente, “grandes homens públicos que combinavam renomada expertise e fortes laços com as elites política, empresarial, cultural e acadêmica”.

Num primeiro momento, esse gabinete tinha plenas condições de estabilizar a situação política do governo. Porém, em maio, Pedro Collor fez graves denúncias contra seu irmão, o presidente, que a partir daí, perdeu as condições de governabilidade, até o impeachment.

A saída, para Octavio Amorim Neto, é formar um governo que tenha “um sólido setor político que se proponha a se articular sempre com o Congresso e que não tenha nas medidas provisórias seu principal instrumento de ação”.

Esse mesmo governo deveria também ter um forte núcleo programático composto por homens e mulheres que mesclem elevada estatura pública, conhecimento técnico e representatividade social. Um ministério dessa qualidade, salienta Octavio Amorim Neto, “emitirá uma forte mensagem à classe política: a de que o Congresso será tratado com respeito, a partir de uma relação eminentemente republicana e institucional”.

Ele acredita que a maioria dos parlamentares certamente responderá à altura, e não será obstáculo às reformas de que tanto carece o país. “Se a fórmula funcionar no primeiro semestre de 2019, no segundo o presidente poderá tentar uma maioria legislativa formal, por meio de um acordo programático com os partidos que tiverem se revelado cooperativos no primeiro momento”.

A aposta de Octavio Amorim Neto é que “o Congresso vai entender a nova mensagem e mudar”.

Greve dos caminhoneiros: os governos de calças nas mãos.

Os Estados se calam, mas é o ICMS que mais pesa no preço dos combustíveis, atingindo de 25% a 34% no caso da gasolina. É Estado demais no meio do caminho:


A eliminação temporária da cobrança da Cide (conhecida como imposto do combustível) sobre o diesel traz algum alívio para os caminhoneiros, há dias em greve nacional contra as sucessivas altas do preço do combustível. Mas não resolve o problema principal dos grevistas, impõe novas dificuldades ao programa de ajuste fiscal do governo e sua concretização está condicionada a uma decisão responsável de um Congresso cujas atitudes com frequência beiram a irresponsabilidade.

Em meio a protestos de caminhoneiros que alcançaram pelo menos 24 Estados, o governo concordou em zerar a Cide sobre o diesel, mas condicionou a medida à aprovação, pelo Congresso, do projeto que acaba com a desoneração da folha de pagamentos de diversos setores.

A desoneração foi adotada pelo desastroso governo de Dilma Rousseff com o alegado objetivo de estimular os setores beneficiados, mas seus resultados foram pouco notáveis do ponto de vista do crescimento. Do ponto de vista fiscal, porém, comprimiu ainda mais uma receita que já caía em razão da recessão deixada pela administração lulopetista. Para manter o déficit primário relativamente controlado e dentro da meta de R$ 159 bilhões neste ano, o governo propôs a retirada da desoneração de 53 dos 56 setores que haviam sido beneficiados pelo governo Dilma. Entendimentos entre o Planalto e o Congresso haviam elevado o número de setores beneficiados para cerca de 20, o que reduziria fortemente a receita adicional esperada. Agora, com a eliminação da Cide, a receita líquida adicional tende a ser ainda menor, tornando mais penoso o ajuste paulatino das contas da União.

Nem assim, porém, os caminhoneiros ficaram satisfeitos, pois a redução para zero da alíquota da Cide sobre o diesel reduzirá em apenas R$ 0,05 o preço do combustível na bomba. O valor é considerado insuficiente para resolver os sérios problemas que eles enfrentam desde que os preços dos combustíveis passaram a ser ajustados pela Petrobrás de acordo com a variação da taxa de câmbio e da cotação do petróleo no mercado internacional (o preço do óleo passou de US$ 50 o barril em julho do ano passado para cerca de US$ 80). Por essa razão, os caminhoneiros decidiram manter a greve.

A política de preços adotada pela Petrobrás tem sido um dos principais elementos da credibilidade da gestão comandada por Pedro Parente, que tomou posse em junho de 2016. Essa política – fortalecida por outras medidas de teor semelhante – simboliza o afastamento total da interferência política nas decisões da Petrobrás, como as que havia na gestão lulopetista. A compressão artificial dos preços dos combustíveis para conter a inflação, ao lado das operações do amplo esquema de corrupção instalado na estatal pela administração petista, comprometeu seriamente a saúde financeira e a capacidade operacional da Petrobrás. A recuperação da empresa iniciada por sua atual gestão é um dos ganhos administrativos mais marcantes do governo Temer, e não pode ser comprometida por ingerências políticas.

A solução acordada para o problema que afeta os caminhoneiros, por isso, foi a redução da tributação sobre os combustíveis, que é muito alta. Ela corresponde, em média, a 44% do preço da gasolina pago pelo consumidor e a 28%, no caso do diesel. Mas a tributação mais pesada não provém da Cide – daí o baixo impacto de sua eliminação sobre o preço final –, e sim de outros tributos, especialmente o ICMS, que é de natureza estadual. A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes calcula que o ICMS representa de 25% a 34% do preço da gasolina e de 12% a 15% do diesel.

Enquanto o problema persiste, setores da economia começam a parar. A indústria automobilística já se queixa da falta de componentes, filas de caminhões parados reduzem as operações portuárias, mercadorias deixam de ser transportadas, postos estão ficando sem combustíveis, aeroportos podem parar. É preciso encontrar uma solução rápida.

N. da R. – Este editorial já estava na página quando a Petrobrás anunciou a redução de 10% no preço do diesel nas refinarias por 15 dias.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Disforia de gênio: uma introdução.

O disfórico nunca duvida de sua arte, escreve João Pereira Coutinho na FSP, mesmo que os outros se horrorizem:


"Disforia de gênio": para quando um tratado médico sobre o assunto? Atenção às palavras: não falo de "disforia de gênero", distúrbio que acontece quando alguém nasce com um determinado sexo (biologicamente falando) e se identifica com o sexo oposto.

A "disforia de gênio" é outra coisa: um estado de dissonância, sim, mas entre cérebros —o real e o imaginário. A pessoa nasce com capacidades nulas para, sei lá, cantar ou dançar —mas acredita ser um gênio em qualquer dessas artes.

Honestamente, não sei quantos exemplares conheci nesta vida com tal problema. Na adolescência, era um todos os dias, normalmente com uma queda patológica para a poesia.

Depois, quando a idade adulta batia à porta, a "disforia de gênio" tendia a desaparecer com as contas para pagar. Mas muitos continuavam a sofrer do distúrbio pela vida fora. Alguns fizeram carreira.

Mas como reconhecer alguém que sofre de "disforia de gênio"?

A primeira característica, creio eu, é uma confiança ilimitada nas suas capacidades para uma determinada arte ou profissão. Poesia, música, teatro —o disfórico nunca duvida dos resultados da sua arte, mesmo que os outros se horrorizem perante os resultados.

O disfórico, contrariamente às pessoas com genuíno talento, nunca tem inseguranças, frustrações —nunca sofre daquela "síndrome do impostor", em que o indivíduo tem a sensação de que pode ser descoberto por terceiros como o impostor que (não) é.

Para o disfórico, impostores são os outros. O que nos leva à segunda característica: a incompreensão. Não é ele que sofre de ausência de talento; é a humanidade em geral que não tem o talento necessário para reconhecer o talento que ele possui.

Críticas negativas, em geral, têm o efeito inverso do pretendido: reforçam a crença na conspiração —e na singularidade do sujeito criativo.

Em terceiro lugar, quem sofre de "disforia de gênio" tende a combinar uma mistura de preguiça e presunção que se traduz no horror por qualquer forma de formação ou educação.

O escritor "genial" não lê. O pintor "genial" não frequenta museus. O filósofo "genial" não estuda outros filósofos. E etc. etc. O talento é "natural" —ou não é. E, se é "natural", é preciso "pensar fora da caixa" (o mantra preferido da tribo).

Existe, assim, um cisma inultrapassável entre "trabalho" e "criação": onde há "criação", não pode haver "trabalho". A expressão "trabalho criativo" é um oxímoro para quem sofre de "disforia de gênio".

Conheci vários desses pacientes, repito. Mas se o leitor não teve essa sorte, por que não assistir a "Artista do Desastre", o longa de James Franco que me escapou na altura devida?

Com talento (genuíno), Franco revela-nos Tommy Wiseau, o lendário autor do pior filme jamais feito. Uma distinção que transformou Tommy (e o filme, "The Room") em objeto de culto.

Franco nos relata a criação desse fenômeno. E então encontramos Tommy, viajando para Los Angeles na companhia de um amigo igualmente ambicioso, em busca da fama merecida.

A fama não vem porque o talento não existe. Mas Tommy, como um bom disfórico, não aceita o diagnóstico de terceiros. Com uma fé inabalável na sua genialidade, escreve um roteiro; contrata uma equipe de produção; compra o material necessário para filmar a sua obra-prima; e assume o lugar de ator principal.

O que vemos a seguir depende da perspectiva. Para nós, meros mortais, Tommy Wiseau é incapaz de dirigir ou representar, embora o verbo certo seja "funcionar". No caso, "funcionar" no mundo real, fora do manicômio.

Não para Tommy, que nunca duvida dos seus propósitos. E se a sua equipe, entre o pasmo e desespero, grita e desmaia com os seus modos tirânicos, Tommy encara esses comportamentos como confirmação da sua originalidade.

No final, quando o filme estreia e a sala ri com o resultado que passa na tela, Tommy Wiseau tem um momento de frustração e dúvida. "Serei uma anedota?", pergunta ele ao amigo.

É um momento de fraqueza que dura pouco. Se os outros riem, isso é prova do seu gênio insondável: o alquimista conseguiu transformar um drama em comédia. Tudo está bem quando acaba bem?

Precisamente. Essa, aliás, é a característica final do disfórico de gênio: aconteça o que acontecer, tudo acaba bem para quem nunca fez nada mal.

"Arrancar o útero fora": a 'ética' do feminismo antinatalista.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética. Coluna de Luiz Felipe Pondé, publicada na FSP:


“O que o título acima quer dizer?”, pergunta-me a leitora assustada, nesta segunda-feira. Imagino-a levando a mão ao ventre e sentido a dor que essa ideia traz consigo: “Arrancar o útero fora”.

Passamos todos por processos na vida, como indivíduos e como grupos. No caso específico das mulheres mais jovens, hoje em dia, intriga-me o fato que, ao lado de expressões em que “útero” ocupa o lugar do “saco” como exemplo de coragem (o que reconheço como verdade para as mulheres, uma vez que dar à luz sempre foi um indício da força do sexo feminino que me encanta), a tendência a recusar a função em si do útero (gerar filhos) seja crescente.

Mas, para além do fato evidente de que as pessoas podem fazer o que quiserem com seus corpos (vamos deixar isso claro antes que algum inteligentinho venha encher o nosso saco), um novo fenômeno me chamou atenção nos últimos tempos: o antinatalismo.

Você não sabe o que é? Não, nada tem a ver com algo contra o Natal cristão, apesar de, sim, ter a ver com a ideia de ser contra o nascimento de crianças.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética.

Há algum tempo tenho evitado a palavra ética, como também as palavras energia e cabala, porque, de tanto serem usadas, já não significam nada. Mas confesso que o uso da palavra “ética” ao lado de “arrancar o útero” me parece incomum. Por que uma menina chegaria à conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

Claro que não ter filhos pode ser visto como algo bom de várias formas, algumas confessáveis, outras inconfessáveis. 

As confessáveis, que me soam falsas, são do tipo: não vou ter filhos porque já tem criança demais no mundo, melhor adotar uma pobre, a espécie humana é excessivamente predadora, logo, melhor sumir da face da Terra, deixemos o planeta para golfinhos e baratas, são tão fofos!

As inconfessáveis (que acredito serem mais verdadeiras) são do tipo: não vou ter filhos porque criança custa caro, dura muito tempo, enche o saco, atrapalha a Netflix, me impede de viajar quando quero e, pior, faz eu me sentir responsável por ela, e isso é uma forma da opressão patriarcal, além de que, é claro, filhos dão rugas, derrubam o seio e atrapalham o mercado de trabalho.

Devo ir com calma, porque a sensibilidade excessiva de uma humanidade que optou pelo retardo mental como “ética” pode entrar em agonia diante dos meus argumentos inconfessáveis para não ter filhos.

O fato é que os argumentos confessáveis aparecem no discurso de algumas antinatalistas. Há um interessante cruzamento delas com uma forma de veganismo radical. 

A ideia é que as mulheres que procriam colocariam (antieticamente) mais humanos na Terra, que seguiriam com seus modos de torturar os pobres dos animais. Muito comumente, antinatalistas são veganas, mas não necessariamente o contrário é fato.

Para ouvidos atentos, os argumentos inconfessáveis soam machadianos: o niilista Brás Cubas, criação de Machado de Assis (1839-1908), afirma no final do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que pelo menos não teve filhos e, por isso, não passou adiante a herança da miséria humana.

Entretanto há no niilista uma certa dignidade que não há nas antinatalistas. O niilista acha a humanidade um lixo e se vê como um ser cruel e cínico. A antinatalista se leva muito a sério e se vê como um ser sublime que quer salvar o mundo através do que é, na verdade, pura preguiça, narcisismo, falta de amadurecimento, recusa de responsabilidade e por aí vai. A antinatalista é uma mimada que mente sobre o seu próprio ato. Mas há algo a mais por detrás do seu ato.

Orígenes (184-253), grande padre da patrística grega, um dos primeiros grandes filósofos do cristianismo, ficou conhecido não só pela sua obra mas também pela autocastração como forma de combate a concupiscência da carne. Isso meio que queimou o filme dele na tradição e com os parceiros. Vejo alguma semelhança entre a autocastração de Orígenes e a automutilação das antinatalistas. Em ambos os casos há um horror ao sexo e ao que é humano. Contra o que os inteligentinhos pensam, engravidar uma mulher é um ato muito erótico.

E isso tudo acontece nas barbas dos psicanalistas que ficam brincando de cientistas políticos enquanto o horror ao sexo cresce.

O disfarce do autoritarismo

Alberto Benegas Lynch (h) explica, em artigo publicado pelo Instituto Cato, como sob a roupagem de "justiça social" e "democracia participativa" chegam ao poder ditadores truculentos como Daniel Ortega, da Nicarágua - outra viúva de Chávez e membro do Foro de São Paulo:


Se han sucedido reiteradas marchas de protestas en Managua, extendidas a todo el país en protesta por el gobierno autoritario de once años consecutivos de Daniel Ortega quien ya había demostrado sus trampas dictatoriales, primero después de su entrenamiento militar en Cuba cuando fue Coordinador de la Junta de la Revolución de 1979 a 1985 después de derrotado otro dictador célebre con ayuda del gobierno estadounidense y luego como presidente en elecciones amañadas de 1985 a 1990. Ahora gobierna a puro golpe de decreto con una justicia adicta y un Parlamento lleno de cortapisas junto a empresarios prebendarios con privilegios inauditos y mercados cautivos en detrimento de la gente y medios de comunicación controlados por el aparato estatal.

El régimen nicaragüense ha sobrevivido merced a la ayuda venezolana de más de cuatro mil millones de dólares y cuando últimamente comenzó a flaquear la beneficencia de Maduro con recursos detraídos coactivamente del pueblo debido al hambre que padece, Ortega se vio forzado a introducir algunos ajustes, por ejemplo, su programa demagógico y quebrado de Seguro Socialreclamando incrementos en los aportes, lo cual fue el pretexto y la mecha que provocó manifestaciones multitudinarias que fueron reprimidas por la policía antimotines del régimen, provocando 63 muertos (no 43 como declaró el gobierno).

Las manifestaciones se concentraron primero en torno a la Universidad Politécnica de Nicaragua —bastión de la resistencia estudiantil— que al comienzo se dirigieron a la Rotonda de la Virgen donde se erige la estructura de metal conocida como “el árbol de la vida” puesta por la también dictadora primera dama Rosario Murillo y luego, como queda dicho, las marchas se extendieron por todo el país. Posteriormente las trifulcas se trasladaron también a Matagalpa con muchos heridos y detenidos.

Luego comenzó la llamada Mesa de Diálogo en la que surgieron dos puntas, por una parte representantes de la Iglesia que pretenden mediar y que son algo contemplativos y, por otra, estudiantes que piden la renuncia del mandatario como condición para dialogar, liderados por los veinteañeros Víctor Cuadras y Lesther Alemán quienes reiteran que “esta no es una mesa de diálogo sino para su salida del poder [la de Ortega]”. Estas reuniones tienen lugar en medio de una batahola de ciertas proporciones acompañadas de insultos de diverso calibre.

A lo dicho se agrega la agresiva intromisión china contratada por el gobierno local para fabricar, entre otras obras, el canal interoceánico pero en verdad una pantalla para dar sustento al régimen en muy diversos frentes.

Es absolutamente inaudito que a esta altura del siglo XXI haya quienes se dejen engatusar por tiranuelos con aires revolucionarios, ambiente en el que ellos y sus compinches y allegados se enriquecen de modo colosal a costa de una macabra y miserable explotación a los más necesitados. Y todo esto ocurre además de la aplicación de recetas estatistas fracasadas en todos lados donde se ensayaron.

Se alardea de la redistribución de ingresos con lo que se establece una asignación de los siempre escasos recursos en base a criterios políticos muy por fuera de toda concepción de eficiencia lo cual perjudica a toda la población pero muy especialmente a los más débiles. En realidad, el eje central de la así denominada redistribución va a los bolsillos de la casta gobernante.

Al mismo tiempo, el aparato estatal se inmiscuye permanentemente en las relaciones contractuales entre las partes con lo que crea conflictos de todo tipo, especialmente en el terreno de la vivienda, la alimentación y la provisión de medicamentos.

En el área de la educación el régimen se empecina en el lavado de cerebro de los estudiantes que tiene al alcance con bibliografías y enseñanzas reñidas con las más elementales normas de estudio con lo que se cierra el paso a tradiciones de pensamiento que apuntan a una sociedad abierta en el campo del derecho, la economía y la filosofía. Los pocos reductos que existen son permanentemente boicoteados por las autoridades.

¿No es acaso una sonora bofetada al sentido común que Daniel Ortega la juegue de redentor cuando ha burlado de modo reiterado y grotesco todas las mínimas y elementales limitaciones al abuso del poder? Arrasó con todo residuo de justicia, acometió todo tipo de fraude electoral para perpetuarse en el gobierno, invadió el legislativo a fuerza de chantajes, se enriqueció al arrebatar empresas de todos los ramos con el monopolio del sector externo para su usufructo personal engrosando sus cuentas en el extranjero para salvarse de las barrabasadas de su propia gestión.

Este dictador revolucionario comanda el incendio de propiedades de los opositores y la violencia a quienes se animan a levantar su voz para denunciar estas atrocidades. Estas denuncias se conocen merced al coraje de personas como fueron Luciano García, Elisabeth Romero, Francisco Valdivia, Maria del Carmen Solórzano y el valeroso diario La Prensa que aun resiste en manos de su entonces corajudo editor en jefe Eduardo Enríquez e incluso han salido a la luz las truculentas maquinaciones del revolucionario de marras, expuestas por los propios ex simpatizantes de Ortega como es el caso de Carlos Mejía Godoy, quien por otra parte alega que su ex jefe se alzó con dineros del partido político que en su momento cofundaron.

Ahora, como hemos apuntado, el jefe sandinista está concentrado, esperanzado y alborozado con que se reflote la vieja idea de construir un canal en su país que compita con el de Panamá, para lo cual se requiere el concurso de un consorcio internacional en un proyecto que demanda treinta mil millones de dólares, idea que le presenta la posibilidad de jugosos cohechos personales.

Hasta su propia hijastra —Zolia Narváez Murillo— lo acusa públicamente de haberla violado reiteradamente cuando era niña, y que también dice que el padrastro copulaba con su empleada doméstica frente a esa hijastra.

Todo este escándalo se sucede en un clima en el que durante las dos últimas administraciones de Ortega (esta es la tercera ya que la primera surgió de un vergonzoso pacto con Arnoldo Alemándespués del interregno de la intrépida Violeta Barros de Chamorro), tal como consigna, entre otras entidades citadas en diversos trabajos de fuste, el Banco Mundial y el Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD), la desocupación se elevó a nada menos que el 25% con una reducción del poder adquisitivo de los que trabajan del 52% en el contexto de hogares bajo la línea de la pobreza que alcanza al 74% sin servicios básicos disponibles.

Este es el personaje que pulula por foros internacionales como la OEA declamando sobre la “justicia social” y la “democracia participativa”, siempre abrazado con sus socios de opereta pertenecientes a la oligarquía gobernante de otros países latinoamericanos quienes también succionan los recursos de sus respectivos países en inmisericordes asaltos y atropellos del Leviatán.

Por supuesto que la situación anterior con la camarilla de los Somoza era una verdadera desgracia, la cual duró mientras tuvo el apoyo de los gobiernos de Estados Unidos, tendencia iniciada por Theodore Roosevelt quien reconocía la malicia de la mencionada casta pero afirmaba respecto a uno de sus integrantes mafiosos “I know he is a son of a bitch, but he is our son of a bitch”.

Luego Carter recurrió a todas las vías posibles y por haber para que los sandinistas ocuparan el poder, y cuando, mucho después, el gobierno estadounidense intentó reaccionar frente a la sustitución de una banda de forajidos por otra, resultó demasiado tarde.

Mario Vargas Llosa en un artículo titulado “Para la historia de la infamia”, después de dar detalles truculentos y horripilantes de las mencionadas violaciones sexuales de Ortega, escribe que el régimen fue convertido “en una dictadura tan corrupta y autoritaria como la que se padeció bajo Somoza” y se sorprende de que “alguien capaz de semejantes iniquidades se halle de nuevo en el poder” en ese país que destaca es “el segundo país más pobre de América latina después de Haití”, nación centroamericana en la que la compañera del sátrapa, Rosa Murillo (madre de la violada), es “según algunos, el verdadero poder detrás del trono nicaragüense” para concluir que lamentablemente falta mucho “para salir de ese pozo de horror y vergüenza que llamamos subdesarrollo”.

Mientras las escaramuzas se intensifican en las calles de por lo menos diez ciudades nicaragüenses (especialmente en Granada, León y Managua, en Masaya hubieron combates entre la población civil y la Policía Nacional de por lo menos catorce horas seguidas), el Ejército se pronunció a través de su vocero, el coronel Manuel Guevara, en el sentido de afirmar que las Fuerzas Armadas “no reprimirán” ya que como apuntó el general Osvaldo Barahona “la misión de la institución no es volverse contra los estudiantes”.

El secretario ejecutivo de la Comisión Internacional de Derechos Humanos, Pablo Abräo, denunció que la policía disparó a quemarropa sobre estudiantes en rebelión en la sede de la Universidad Agraria.

No sabemos que dirán los libros de historia del futuro sobre estos gobernantes canallas, pero en todo caso habrá muchos sorprendidos por haberse tolerado tanta infamia en nombre de la democracia y la liberación de los pueblos. Un régimen autoritario con disfraz de democracia. En verdad ejemplos de la cleptocracia más espeluznante, es decir, gobierno de ladrones de libertades, de propiedades y de sueños de vida.

Una vez más reitero que se hace necesario reconsiderar los límites al poder que desde la Carta Magna de 1215 ha sido el objetivo del constitucionalismo, el cual ha degenerado en muy diversos países del denominado mundo libre para encaminarse hacia una especie de Gulag encubierto. En el caso que nos ocupa, Ortega opera con la complicidad de socios igualmente nefastos que por ahora siguen carcomiendo las entrañas de parte de América latina.

Termino con dos sabias reflexiones de Montesquieu en El espíritu de las leyes sobre las que deberíamos meditar a diario: “Una cosa no es justa porque es ley, debe ser ley porque es justa” y, en consonancia con el célebre aforismo de Lord Acton y la consecuente necesidad de establecer estrictos límites al poder político, “No hay poder que no concite al abuso, a la extralimitación” y con mucha mayor razón cuando el gobierno es ocupado por megalómanos como es el caso que comentamos en esta nota.

A hipocrisia das casas de esquerda

O que Filomena Martins escreve com referência a Portugal (jornal Observador) vale também para o Brasil, onde a esquerda é ainda mais hipócrita, corrupta e devastadora:


Não há nenhuma ilegalidade em António Costa estar a aproveitar o boom do mercado imobiliário de Lisboa. Nada proíbe um primeiro-ministro de se tornar um especialista da Remax no negócio de compra e venda de casas. Conseguisse ele mais valias tão rápidas nas medidas que toma sobre o país como as que obteve em dez meses só com a negociata de um apartamento no Rato, fora as outras três que fez num só ano.

Também não há nenhum crime na compra de um chalet por Pablo Iglesias. Só a inveja pode pôr em causa o bom gosto que o líder do Podemos e a sua namorada e porta-voz do partido tiveram na escolha do sítio onde querem viver com as filhas gémeas que estão para nascer e os três cães da família. E nem sequer há que duvidar do preço, porque 615 mil euros pelo casarão colonial na área de Madrid até é uma pechincha.

O problema não está no que Costa e Iglesias fizeram. Está naquilo que ambos disseram e defenderam antes. E o problema não é apenas a falta de coerência. É a total imoralidade.

A esquerda tem uma irritante mania de pregar moralismos. Infelizmente, coloca quase sempre a ética que tanto apregoa de lado quando passa à ação. Quer seja em proveito próprio, quer seja em benefício de amigos.

António Costa tem sido um dos mais críticos da escalada dos preços do arrendamento e da compra de casas que se vive em Portugal, sobretudo em Lisboa e Porto. Na senda imparável das revogações do executivo passado, avançou com uma reforma da habitação própria, para “acabar com um dos maiores dramas sociais que o governo PSD e CDS legaram, que foi uma lei das rendas injusta e desumana, que nem os idosos poupa à especulação imobiliária”.

Ora o dono de tamanha sabedoria, praticou depois a sua máxima: faz o que eu digo, não faças o que eu faço.

Num verdadeiro negócio da China nos dias que correm, convenceu um casal de idosos a vender-lhe por 55 mil euros um andar para a filha junto à sede do PS no Rato. Sensibilizou-os ao ponto de recusarem propostas mais altas ao dizer que a moça queria viver perto do café do irmão. Dez meses depois, com “uns arranjos”, nova mobília e a mudança de ideias própria da juventude da rapariga, vendeu o espaço por quase o dobro. Não o comoveu que Joaquim e Maria Rosa tenham ficado em “choque” e sintam que outros lucraram “à custa” do “trabalho de uma vida”. Tão empolgado deve ter ficado que até se esqueceu de comunicar logo o negócio ao Tribunal Constitucional, como manda a lei, só o fazendo com um ano de atraso. Ou talvez estivesse demasiado ocupado com a outra casa que comprou para pôr no tal mercado de arrendamento “especulativo” que critica. Ou com a venda de uma outra em Odivelas, mal o imobiliário começou a tornar-se rentável.

Pablo Iglesias foi ainda mais longe na defesa dos seus ideais de extrema-esquerda. Aplicou regras no Podemos e criou um código de ética bastante rígido. O compromisso que tem de ser assinado pelos representantes do partido impõe que vivam “como as pessoas de trabalho” para que assim as “possam representar” nas mesmas condições. Uma coisa não muito diferente do que faz por cá o PCP, cujos dirigentes têm de entregar ao partido tudo o que ganharem a mais em funções públicas em relação ao ordenado que tinham antes de as desempenharem.

Mas também bem prega frei Iglesias.

Porque quando lhe tocou a ele, mandou o código às malvas. Fechou-o na gavetinha da ética esquerdista das meras formalidades. Até se esqueceu daquele tweet que escreveu em 2012 com a mensagem “entregarias a política económica do país a quem gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?”, numa crítica a Luis de Guindos, o ministro da Economia espanhol da altura (agora na vice-presidência do BCE com apoio português de Costa e Centeno). Olhou para os 268 metros quadrados da casinha na Serra de Guadarrama, pensou nos mergulhos na piscina natural, no terreno com dois mil metros quadrados por onde até passa um riacho e no jeito que lhe pode dar para umas conspirações internas no partido ou umas reuniões sobre a independência da Catalunha a pequena casa de hóspedes incluída. E não se importou de gastar também mais de 600 mil euros pelo luxo que antes criticava.

Pelo menos em Espanha, casa de Iglesias pode-lhe custar a liderança do Podemos. Precisa de um voto de confiança para se manter à frente de um partido que de estrela cai abruptamente nas sondagens.

Por cá, poucos se pareceram incomodar com as casas de Costa. A notícia do vendedor do ano da Remax foi tratada como um não-assunto. Até houve quem lhe elogiasse o jeito para as negociatas e deliberadamente se esquecesse das palavras e leis que disse e fez contra quem as faz.

É a hipocrisia moralista da esquerda no seu auge.

Caso Azeredo: mais uma derrota para o PT.

Campeão na fabricação de factoides e fake news, os petistas perdem mais uma: já não podem dizer, como sempre disseram, que a Justiça protege os tucanos. A propósito, segue coluna de Merval Pereira ("Camisa amarela"), via O Globo:


À medida que vai desmoronando a tese da esquerda de que a Operação Lava-Jato se dedica apenas a perseguir Lula, vão ficando cada vez mais patéticas as tentativas de criar fatos políticos que não se realizam. É verdade que Lula continua fazendo política de dentro da cadeia, e que o PT demonstra uma capacidade de agitação acima da dos demais partidos políticos brasileiros. Mas isso não quer dizer que os resultados positivos virão. Pelo menos não estão vindo. Lula continua liderando as pesquisas, mas o PT corre o risco de sucumbir devido à estratégia definida por Lula de não indicar seu substituto até o último momento. 

Ontem, o ex-governador de Minas e ex-presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, condenado a 20 anos de prisão por peculato e lavagem dinheiro, em segunda instância, viu os esforços de sua defesa para protelar a decisão se esgotarem e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) expediu o mandado de prisão.

O episódio ficou conhecido como o mensalão mineiro, numa demonstração da capacidade marqueteira do PT. Azeredo não deu mensalão a ninguém, seu caso é de peculato, isto é, usar o dinheiro público de maneira ilegal para financiar sua campanha eleitoral. O apelido de mensalão mineiro, ou tucano, só serviu para tornar situações distintas em semelhantes, no interesse do PT de dizer que todos os partidos roubam.

É verdade, a Operação Lava-Jato está demonstrando, mas o esquema petista de compra de apoio em troca de propinas geradas por obras superfaturadas em estatais, especialmente a Petrobras, é insuperável. E um ataque ao Estado democrático. Apenas o mentor dos dois “mensalões” é o mesmo, o publicitário Marcos Valério, que está devidamente encarcerado.

O final do caso Azeredo retira do PT o mantra de que os tucanos são protegidos pela Justiça. Outra notícia desanimadora para a defesa do ex-presidente Lula foi a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU de rejeitar o pedido para que ele fosse solto por uma medida cautelar.

A ida à ONU, por si só, faz parte do aparato de marketing político que o PT vem utilizando, aqui e no exterior, para tentar caracterizar uma situação de perseguição política. A tentativa era no sentido de que a ONU seguisse a mesma decisão que atendeu a um pedido similar de políticos catalães. Nesse caso, a Comissão recomendou que o deputado independentista Jordi Sanches fosse liberado para que pudesse participar de eleições. O estado espanhol ignorou a recomendação da ONU, e o mesmo ocorreria no Brasil, mas seria um ganho político para Lula ter essa espécie de aval da ONU.

No caso do ex-presidente Lula, a Comissão não viu “riscos de um dano irreparável”, mas o caso, que começou em 2016, continua sendo analisado, e o resultado deve ser anunciado somente em 2019. Mas aí o valor político de uma improvável decisão a favor de Lula já terá sido esvaziado consideravelmente.

Mas o ponto mais risível do marketing político dos apoiadores de Lula é a tentativa de esvaziar a torcida pela seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia sob a alegação de que a camiseta amarela foi usada pelos “coxinhas golpistas” nas manifestações a favor do impeachment da ex-presidente Dilma.

Também a corrupção na CBF seria uma razão para que a camisa da seleção não esteja animando a torcida. Como se pudéssemos voltar no tempo, tenta-se reviver um sentimento que esteve muito presente em 1970, em plena ditadura militar, quando muitos da esquerda decidiram não torcer pelo time de Pelé, Tostão, Jairzinho e companhia. E como não se soubesse o que aconteceu, segundo o relato bem-humorado de vários exilados e membros da oposição guerrilheira: na hora agá, não resistiram à paixão pelo futebol e comemoraram o tricampeonato mundial.

Provavelmente acontecerá igual desta vez, apesar de o desânimo com a situação do país e a difícil saída da recessão econômica não darem muito espaço para comemorações antecipadas. Mas, mesmo sendo “o país do futebol”, os resultados das Copas do Mundo nunca influenciaram as eleições para presidente da República, que de quatro em quatro anos coincidem com os campeonatos desde 1994.

Os passos da política: novos botam os pés no chão.

"Não basta se apresentar na cena política como novidade para alcançar sucesso nas urnas. Há um longo e árduo caminho para conquistar o eleitorado", adverte editorial do Estadão:


Os recém-formados grupos de renovação política estão ajustando suas expectativas para as próximas eleições, indica reportagem do Estado. O que antes parecia ser um caminho fácil, dada a rejeição da população aos políticos já estabelecidos, agora recebe uma avaliação mais realista. Na medida em que se aproxima a campanha eleitoral, torna-se evidente que não basta se apresentar na cena política como novidade para alcançar sucesso nas urnas. Quem almeja entrar na política tem um longo e árduo caminho para conquistar o voto do eleitorado – e isso não é necessariamente ruim.

Em setembro do ano passado, o movimento RenovaBr, que oferece bolsa de estudos para candidatos aos Legislativos federal e estaduais, estimava que poderia eleger entre 70 a 100 nomes. Atualmente, a expectativa é eleger 20% dos 131 bolsistas que concorrerão nas próximas eleições. No caso da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), um movimento de formação de lideranças políticas, falava-se em eleger de 60 a 80 deputados. Agora, o grupo não divulga projeções, para não criar falsas expectativas.

Há quem veja nas dificuldades encontradas pelos novos movimentos políticos uma confirmação dos defeitos do sistema eleitoral. Os políticos teriam conseguido, uma vez mais, dificultar a renovação política. O atual sistema tem muitas falhas, mas é equivocada a disjuntiva entre o novo e o velho na política, como se o País estivesse a presenciar uma luta entre o bem e o mal.

Nem todos os que se apresentam como novos na política são necessariamente bons. Há o novo autoritário, o demagógico, o que deseja implodir a política, o que não respeita a separação dos Poderes, o que tolera e até incentiva agressões às garantias individuais. Como é óbvio, as ideias ruins não são uma exclusividade de quem já exerceu mandato político. Tem muita gente que deseja estrear na política defendendo propostas profundamente equivocadas para o País.

É saudável para a democracia que haja filtros no sistema político. Logicamente, esses filtros não devem ser barreiras intransponíveis, a eliminar completamente a possibilidade de renovação. Mas sempre o caminho da política exigirá um aprendizado. Para uma efetiva contribuição ao País, os agentes políticos precisam ter mais do que boa intenção.

As dificuldades enfrentadas pelos movimentos de renovação da política revelam uma característica iniludível da política: ela não é feita por amadores e tampouco com amadorismo. Para ser eficaz – para conseguir promover as mudanças de que o País necessita –, a política deve ser conduzida com seriedade e profissionalismo. Antes de mais nada, é preciso respeitar as regras da própria política.

Muita gente tem reclamado, por exemplo, da necessidade de se filiar a um partido político para concorrer a um cargo nas eleições. Tratam essa condição como se fosse um limitador de uma possível candidatura. Dentro de um partido, argumentam, não seria possível exercer o cargo com completa liberdade, pois sempre haveria a necessidade de prestar contas a outras pessoas, na estrutura partidária.

Se alguém pensa que estar filiado a um partido é um grilhão aos seus ideais políticos, é melhor que não entre na política, pois ela exige, desde o primeiro momento, disciplina, capacidade e disposição para a negociação – e não apenas com os integrantes de sua legenda. Com imposições, não se faz política numa democracia. Nesse regime, só se avança com políticos que, embora tenham convicções arraigadas, saibam dialogar e negociar com outros partidos.

Mais do que provocar um sentimento de frustração, o ajuste das expectativas dos movimentos de renovação deveria ser um sinal muito positivo. Indica que esses grupos estão, de uma forma ou de outra, em contato com a política real – e não apenas no plano ideal, do qual pouca coisa prática se pode esperar. O País tem carência de lideranças políticas capazes de elaborar e concretizar propostas audazes, factíveis e realmente transformadoras. Tais lideranças podem ser “novas” ou veteranas. O importante é que sejam comprometidas com os ideais republicanos e atuem com honestidade.

O casamento do século

Valentina de Botas comenta, no blog de Augusto Nunes, o casamento real na Inglaterra - texto que, como de hábito, vai aqui surrupiado na íntegra:


Taís Araújo afirmou no Twitter: ‘“Você está maravilhosa. Tive tanta sorte’. É, Harry, acho que você teve sorte mesmo. Senhoras e senhores, com vcs, abalando as estruturas da família real britânica…Meghan!”

Considerando que Meghan é linda, Harry é lindo, Windsor/Berkshire é um lugar encantador no vale do Tâmisa, os castelos são espetaculares, a Inglaterra com sua monarquia é um país fascinante na mistura de vanguarda e tradição, bolo de casamento é sempre uma delícia, a multidão do lado de fora da preciosidade gótica St. George’s Chapel feliz sem medo da cafonice rende memes sensacionais, os ingleses nos deram as mais incríveis bandas de rock e têm o melhor mau humor do mundo, os chapéus que questionam a geometria são uma atração a mais, é melhor falar disso por alguns minutos do que da paisagem política brasileira. Anotei:

1) A família real britânica, que foi se tornando família, real e britânica desde a linhagem que remonta aos pequenos reinos dos primórdios da Bretanha medieval à consolidação, há uns 10 séculos, dos reinos da Escócia e da Inglaterra e (há uns 3 séculos) com a entrada do País de Gales nessa saga, abrigou integrantes (quase todos) adúlteros, teve soberanos decapitados, viu seu império colonial derreter, foi obrigada a transferir seu poder político para o Parlamento e contentar-se com um quase equivalente poder simbólico e constitucional, sentiria mesmo as estruturas abaladas por uma plebeia americana que trocou o papel de atriz sem futuro pelo de duquesa?

2) Se eu chegasse lúcida aos 90 anos e ocupasse o trono da Inglaterra, também me daria o luxo de vestir verde-limão com pinceladas de roxo. Já faço isso sem preencher essas condições, das quais pelo menos a primeira pretendo atingir. Estou longe disso, mas nem tanto porque, depois de saber a maratona dos noivos entre recepções, sessões de fotos oficiais, almoço e festa, só consegui pensar no cansaço ao fim do dia especial. E as críticas por se impor um protocolo rígido a Meghan? Ora, ela não foi obrigada a se casar com o príncipe e protocolos ajudam a vida, são um descanso porque orientam tudo, determinam até o que fazer com os braços e o que dizer para quem. São eficazes e não impediram, ao longo dos séculos, que os nobres se divertissem e fizessem suas loucuras. Até encontros com amantes ardiam nas alas dos castelos ocupadas por cada cônjuge real desde que seguissem o protocolo. Mas, um tanto da graça — para quem vê graça nisso — dos amores clandestinos se perdem com o consentimento de sua clandestinidade, não? Mas o importante era a manutenção de casamentos (mantidos assim também entre tantos plebeus) e a prevenção de escândalos.

3) Quando Taís Araújo empodera Meghan, esquecendo que a princesa Diana abalou as estruturas da família real britânica ao levar a rainha Elisabeth II, pela primeira e última vez desde sua coroação em 1952, a bater de frente com os súditos pela incapacidade de compreender a comoção, neles, pela morte daquela “menina aborrecida”, o que avizinhou o país de uma crise institucional, não sei se a atriz comete uma discriminação renegando uma branca empoderada ou pensa estar cobrando uma dívida-histórica-do-colonizador.

4) Vi pouco da cerimônia, além das imperdíveis participações dos corais, mas o suficiente para reconhecer entre os chapéus (de uso obrigatório) um inspirado numa pipa que meu irmão fez quando era moleque. Também não faz mal dar uma olhada no George Clooney e no David Beckham. Sou mais o americano, mas, ainda que Beckham tenha abusado de sua metrossexualidade com aquela calça skinny sem noção, um alfaiate de Hollywood nunca será um da Saville Row. A linda Amal Clooney poderia ter posto menos gema naquele vestido cor de gema de ovo, não? E Vitória Beckham, soberana absoluta em fazer aquela cara de conteúdo-e-paisagem, estaria impecável se sua roupa não fosse tão escura para um sábado ensolarado de primavera. A simplicidade do vestido de Meghan — na medida que um Givenchy pode ser simples — deixou a noiva ainda mais luminosa.

5) Como 750 milhões de pessoas pelo mundo, meus olhos estavam em Windsor, mas meu pensamento foi a Paris. Diana, que abalou o marido com o desejo de ser amada, entrou na família real britânica encantando o mundo e, depois de ter o coração partido por Charles que traía a antiga amante complacente Camile com a jovem mulher conformada (nos planos dele que avisara “não serei o primeiro herdeiro da monarquia a não ter uma amante”), teve o peito destroçado pelo acidente com o Mercedes S280 que entrou no túnel D’Alma, em Paris, a 180 km/h na noite de 31 de agosto de 1997, bateu de lado numa parede do túnel e de frente num pilar em menos de um segundo, capotou e reduziu-se a uma massa de ferragens retorcidas. O motorista Henri Paul, que dirigia bêbado, e seu chefe, Dodi Fayed (milionário dono do Ritz e namorado de Diana que a acompanhava) também morreram. Taís omitiu esse abalo talvez porque prefira não abordar traições amorosas ou é empoderada demais e só consegue ver problematização ressentida-revanchista onde se via o amor unindo um casal.

6) Também o amor — breve ou eterno — precisa de uma chance, precisa de sorte, e tomara que o de Harry e Meghan tenha a sorte que faltou à mãe dele e à dela que, segundo se noticiou sem parar, é a única pessoa sóbria de uma família cheia de confusões, com os meio-irmãos de Meghan relatando mesquinhezas sobre a moça a tabloides mediante pagamento. A presença da multidão nas ruas do vilarejo de sonho para saudar o mais novo casal real sinaliza a força da monarquia como símbolo nacional sob o qual a nação celebra a si mesma e nele se reconhece. Isso traduz a saúde da cidadania e do sentimento de nacionalidade que falta a nós, brasileiros que oscilamos entre o complexo de vira-lata e a patriotada jeca. Na busca compreensível por espelhos que reflitam o melhor de nós, que projetem em horizontes claros nosso potencial de civilização, ficamos à procura de homens porque nos falta a solidez das instituições — ao contrário dos britânicos, tão bem servidos de instituições fortes como a monarquia —, embora a democracia seja o regime destas e não daqueles. Assim, há quem procure salvadores que anunciam a salvação na promessa de revogar os bons atos do governo Temer ou de fazer do populismo moralista o biombo para a incompetência, conforme o segundo e o terceiro colocados nas pesquisas eleitorais. O primeiro colocado, que também promete exterminar o futuro, está merecidamente na cadeia; mas, como ideia que é, aflora livre na substância autoritária e populista de Ciro e Bolsonaro.

7) Que desconsolo, quando será o próximo casamento-do-século?

terça-feira, 22 de maio de 2018

O velho espectro de Marx continua rondando as universidades

Leia-se o post de Percival Puggina, que fala sobre as aulas ideológicas recebidas por uma ex-secretária que voltou à universidade ("O enfermo mundo de palavras onde o marxismo vive"):


Telefonou-me antiga secretária. Contou-me que, aposentada, voltou aos bancos escolares e cursa os últimos meses da titulação acadêmica que escolheu. “Marxismo de tudo que é jeito, em doses maciças, Puggina!”, exclamou-se ela. No início, contestava os professores, mas, lá pelas tantas, cansada dos repetitivos confrontos, impôs silêncio a si mesma para não se prejudicar. Contou que nos primeiros meses, sempre que apontava os sucessivos fracassos das experiências comunistas, os professores tiravam da manga o velho clichê: “Interpretaram mal o Marx”.

Quem ainda não ouviu isso em aula ou roda de amigos? Pois é. Marx é o indivíduo mais mal interpretado da história humana. Só a militância de esquerda, titular do quadro negro, proprietária do toco de giz, exercendo de modo monopolista o direito de atribuir nota a seus alunos é capaz de interpretá-lo corretamente. E assim, dentro da sala de aula, no estranho mundo de palavras onde a esquerda habita, as 43 experiências políticas do comunismo, com seus 100 milhões de mortos (aos quais se acrescenta agora o genocídio venezuelano) se tornam um problema de interpretação. Basta ler Marx adequadamente para o comunismo emergir purificado e se tornar um sucesso no mundo das palavras.

Embalados por professores aos quais foi dado o privilégio de interpretar Marx perfeitamente, políticos de esquerda, mundo afora, desenvolveram, como afirmou alguém, extraordinária capacidade de dizer e propor coisas terríveis de modo absolutamente cativante. Espalham ódio, acabam com as liberdades públicas, produzem fome e violência, mas o fazem sorrindo, em nome da fartura, da igualdade, da solidariedade e dos mais elevados valores que se possa conceber. E que se danem os fatos mesmo quando a realidade se mostra desengonçada do discurso. É o caso da Venezuela e do entusiasmado apoio da esquerda brasileira aos ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro, e à autodenominada revolução bolivariana, com a população em fase de perda doentia de peso, a caminho de seu holodomor.

Talvez não tenha repercutido como deveria, fora do Rio Grande do Sul, a reação da delegação do Grêmio quando foi à Venezuela disputar, dia 15 de maio, contra o Monagas uma partida pela Libertadores da América. A fome da população, exibida em sua face mais dramática, chocou os jogadores, que coletaram dinheiro e deixaram por lá tudo que podiam. O atleta Cícero, assim se expressou, falando por todos: “Nós somos seres humanos. Eu vim de classe média-baixa e sei o que passei lá atrás. Eu cheguei e vi uma situação até arrepiante. Ser humano pegando prato de comida como se fosse o último dia de vida dele. A gente juntou uma coisa boa para eles. Essas coisas não tem preço na vida. Poder ajudar as pessoas”. E foi seguido pelo treinador Renato: “Chega a machucar o coração. Tivemos essa experiência já no ano passado. Recebemos pedidos para trazermos coisas como remédio, água, papel higiênico. Trouxemos bastante coisa. O mundo precisa olhar um pouquinho mais para a Venezuela. O que nós vimos e sentimos aqui nos últimos três dias choca. Fizemos a nossa parte, mas não é suficiente. Ajudamos algumas pessoas, mas a coisa aqui está muito feia”.

No mundo de palavras geradas na mente esquerdista, contudo, a Venezuela – “brilhante democracia popular” – tem um futuro revolucionário promissor. E assim será dito, até que os professores, em sala de aula comecem a ensinar que Marx foi mal interpretado por Chávez e Maduro.

Garantismo uma ova!

A pretexto de garantir direitos fundamentais do cidadão, parte do STF compra falsa e malsã denúncia de advogados ricos contra “punitivismo” que não existe e garante impunidade de políticos e bandidos perigosos. Artigo de José Nêumanne, via Estadão:


No último fim de semana, a sociedade brasileira, em sua maioria apavorada com a insegurança generalizada que assola o País e animada com a possibilidade de a impunidade vir a ter fim pela brava ação de uma nova geração de agentes da lei, acompanhou, petrificada, duas notícias coincidentes. De seu gabinete no Supremo Tribunal Federal (STF) o ministro Marco Aurélio Mello disparou uma penada autocrática que garantiu a liberdade de 11 facínoras do tráfico de drogas no Ceará. Num gabinete próximo, no mesmo prédio, seu colega Gilmar Mendes soltou quatro investigados na Operação Rizoma, que estavam presos no Rio.

Num colegiado que nem sempre prima por atender às duas exigências básicas para a ocupação de uma cadeira no órgão máximo do Judiciário – notório saber e indiscutível lisura –, o ex-advogado geral da União no governo Fernando Henrique e o juiz do Trabalho nomeado pelo primo Fernando Collor são tidos e havidos pelos advogados que frequentam a dita “alta Corte” entre os mais preparados tecnicamente.

Marco Aurélio notabilizou-se pela postura autossuficiente, que o tornou uma espécie de campeão do colegiado em votos vencidos e lhe valeu, para o bem ou para o mal, a fama de “espírito de porco” da Corte. A metáfora remonta à Bíblia: sãoMateus contou que um endemoniado, exorcizado por Jesus Cristo em pessoa, foi curado com a expulsão dos demônios que o possuíam transferidos para uma manada de porcos que, por coincidência, passava ao largo. Os porcos atiraram-se num precipício e o exorcismo passou a ser uma prática cristã, cada vez menos usada, mas ainda considerada apropriada. Até hoje, alguns sacerdotes usam o título de exorcista para repetirem na vida real o milagre do Filho de Deus. O evangelista, contudo, não se referiu ao imenso prejuízo causado pelo milagre ao dono dos porcos, de quem nada sabemos. Se aqueles porcos eram seu único patrimônio, o que não seria absurdo, seu prejuízo foi uma “perda total”, como se define em sinistros também pela sigla “PT”.

Sua Excelência desligou-se da chama do nepotismo desde que, no julgamento que depôs o primo e patrono da Presidência da República, considerou-se impedido de votar. Mas, durante as votações do colegiado em decisões que afetaram o destino da ex-presidente Dilma Rousseff, ele nunca deixou de dar seus votos, que amenizaram sua fama de antípoda dos colegas, mas não reduziram sua coleção de votos vencidos. O autor destas linhas prefere eximir-se de qualificar tais votos e aconselha o leitor interessado a buscar encontrá-los na memória comum do Google, fácil nesta nossa era dita cibernética, assim definida pelo matemático norte-americano Norbert Wiener.

Minoritários ainda são seus votos na Primeira Turma, na qual costuma perder decisões que confirmam a jurisprudência, mercê da decisão de Rosa Weber, que foi voto vencido como ele em sua fixação, autorizando a prisão após segunda instância, mas sempre apoia a decisão da maioria do colegiado. Há quem lamente a coerência da ministra gaúcha, mas dessa queixa o primo de Collor não padece nem sequer por Dilma, que terminou deposta, mas ainda a tempo de nomear Letícia, filha do ministro e advogada precoce numa banca carioca, desembargadora do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região (TRF-2), abrangendo Rio de Janeiro e Espírito Santo. Há dois anos, interrogado no Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo sobre a nomeação, ele disse que a filha tinha feito voto de pobreza, pois poderia ganhar mais como advogada. Recentemente, o extremoso pai votou a favor do habeas corpus de Lula, pleito defendido pelo ex-marido da filha prodígio, Cláudio Pereira de Souza Neto. Para o ministro, essa história de que o vínculo de genro com sogro permanece mesmo com a dissolução do conúbio não passa de lenda urbana.

Certo mesmo é que o genro (ou ex-genro, como talvez ele prefira) milita na causa dos advogados que lutam pela perpetuação da confusão estabelecida entre “culpa” e “prisão” na leitura marota do artigo constitucional que encaminha réus condenados na segunda instância à eternidade do que nestes trópicos se intitula “trânsito em julgado”. O sogro (ou, quem sabe, ex-sogro) continua patrocinando causas nesse sentido. Sua decisão de soltar bandidos comuns é, portanto, coerente com seus votos, que contrariam frontalmente, com insistência e impaciência, a decisão majoritária do plenário, do qual é o segundo mais antigo membro.

Nessa posição tem sido acompanhado por colegas da outra turma, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, a dupla Ricardo Toffoli, Pelé-Coutinho dos habeas corpus de todo dia no STF. Nem sempre foi assim. O mato-grossense Gilmar Mendes, respeitado por seu notório saber jurídico, de gênero explosivo, deu os votos menos “garantistas” do mensalão, o que não o impediu de ser acusado (do que nunca se defendeu) de comandar jagunços em seu latifúndio natal. Mesmo nomeado por Fernando Henrique Cardoso para a vaga, o ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que absolveu a chapa Dilma-Temer por “excesso de provas”, contudo, deu uma guinada de 180 graus. Em 2016, inimigo de Lula e do PT, votou a favor da decisão do colegiado de autorizar início de cumprimento de pena após condenação em segunda instância, mas mudou de opinião desde que ela foi tomada para cá. A ponto de Wadhy Damus, procurador informal de Lula na Câmara dos Deputados, tê-lo definido como “amigo do PT” para justificar a peregrinação petista a seu gabinete quando o “Lula livre” passou a contar com seu voto, sua simpatia e, sobretudo, seus rugidos de fera indomável da garantia da liberdade de todos quantos lho permitam seus conceitos acadêmicos e o sucesso de seus negócios fabulosos.

O professor doutor Gilmar, formado na Alemanha, possui um negócio fabuloso no prodigioso ramo da educação privada, o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), dispondo-se a cruzar permanentemente o Atlântico para comparecer a reuniões de ócio e negócio em Portugal, país chamado por Carlos Lacerda de “nosso avozinho”. Como Marco Aurélio, Gilmar nunca se preocupou com o fato de dar habeas corpus a clientes do escritório do qual a mulher, Guiomar, é sócia. Nem ao rei dos ônibus do Rio, Jacob Barata, de cuja filha foi padrinho de casamento. Desde que a Lava Jato incluiu tucanos na lista de suspeitos, passou-se para o lado “garantista” com o fervor e a fúria de sempre. Pode ter sido coincidência de datas, mas o fato é inegável. Inimigo figadal do Ministério Público e de juízes federais, tais como Bretas e Moro, não os tem poupado dos mesmos impropérios com que, à época do mensalão, mimoseava Lula e seus comparsas. Fiel à nova posição, mandou soltar os ditos “operadores” – nababescos ofícios neste país de mais de 24 milhões de desiludidos (apud IBGE) do MDB de seu conviva permanente Michel Temer e do PSDB de guerra e paz, de Aécio Neves e Eduardo Azeredo.

Seja qual for o motivo, certo é que Gilmar e Marco Aurélio pregam a fábula do “garantismo” para soltar traficantes e doleiros com idêntico refrão: os indigitados não oferecem mais nenhum risco às investigações que protagonizam. Assim consagram, em decisões que não podem ser contrariadas pelas funcionários das três instâncias jurídicas abaixo da dele, que ainda acreditam que a pena criminal deveria servir, prioritariamente, para punir quem delinque com afastamento do convívio social. Faz isso em nome do que o advogado que defendeu Lula no STF, Roberto Battochio, chamou de “punitivismo” cruel, desumano e tirânico.

Vivemos numa democracia, sob o império da lei, e aprendi com meu pai, chefe político da UDN no sertão da Paraíba, que decisão de juiz se cumpre, não se contesta. Autoridade de pai sertanejo não se perde depois da morte. Mas também sou pai e avô e, em consequência, responsável pela vida de meus filhos e netos. E em nome da integridade física e mental de meus descendentes e dos brasileiros que não têm patrimônio para pagar a advogados de togas elegantes que vão a Brasília pedir vênia aos “supremos”, eu sentiria que eles ficariam mais protegidos se criminosos pagassem com penas na forma da lei os delitos que cometem, como sempre se fez no contexto do que se chama de Estado de Direito, condição basilar da civilização humana.