quinta-feira, 4 de maio de 2006

Estado versus mercado?

Liberalismo e Socialismo foram as duas grandes forças antagônicas do século XX, confrontando-se no plano da política e das idéias. O primeiro, considerado de "direita", sempre defendeu a economia de mercado, a livre concorrência, a não invasão do Estado na economia. O segundo, identificado como de "esquerda", propugnava a propriedade coletiva dos principais meios de produção, a nacionalização (leia-se "estatização") das grandes empresas e dos bancos.

Os acontecimentos entre 1989 e 1991 - a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética - destroçaram o campo do socialismo, à época chamado de "socialismo real". O que sobrou? Do socialismo real, nada. Se algo do socialismo permanece é apenas em sentido ideal, utópico. A China ainda se diz comunista, mas abre-se ao capitalismo com uma sofreguidão selvagem. Cuba também se declara socialista, pelo menos nos intermináveis discursos de Fidel Castro, mas a única coisa que a ilha alcançou foi a igualdade de todos na miséria.

Goste-se ou não, os países mais desenvolvidos são liberais. E capitalistas. E democráticos. Não são perfeitos, claro, mas nunca ambicionaram uma sociedade perfeita. Jamais prometeram a salvação (isto é coisa para os templos religiosos). São assim os Estados Unidos, a Inglaterra e a maioria dos países europeus. Por acaso, são eles a "direita"?

E o que é a "esquerda", se o socialismo fracassou estrondosamente? O chavismo na Venezuela, as estatizações de Evo Morales na Bolívia? Então, ser de "esquerda" é repetir incansavelmente os erros do passado. É voltar as costas às "lições da história", menosprezar os fatos, agarrar-se a uma tábua de salvação, mesmo que podre.

A questão que a história nos deixou não é a oposição Estado vs. mercado - como parece indicar, uma vez mais, a guinada de alguns países latino-americanos para o estatismo, sob governos ditos de "esquerda" -, mas como equilibrar Estado e mercado. Não há outra saída.

A terceira via não passa de um fantasma.

16 comentários:

Alexandre, The Great disse...

Esta "esquerda" que vc faz referência, a qual Arcanjo denomina de "vagabunda", jamais entendeu a diferença entre liberalismo econômico e liberalismo político. Talvez porque não conheçam Locke, talvez porque tenham objetivos "canhestros", ou talvez as duas coisas juntas.

Fernando Bertoldi disse...

Ótimo post, esclarecedor. Uma boa idéia seria imprimir cópias deste texto, alugar um helicóptero e jogá-los em cima
da Granja do Torto.

Anônimo disse...

Eles sabem ler, mas não interpretar texto.

Anônimo disse...

São muito graves as declarações do Presidente Lula ao avalizar a ruptura de contrato pela Bolívia. Depois disto, certamente os investidores estrangeiros pensarão duas vezes antes de celebrarem contratos com o Brasil, cujo presidente avaliza expropriações.

MULTIFÁRIO

Tambosi disse...

Correto, Multifário. Estamos mesmo a caminho do brejo. O sindicalista daqui apoiando o sindicalista de lá, mesmo contra os interesses do país. Ninguém "neste país" deu uma resposta tão pífia a uma afronta desse tipo.

Abs.

Nemerson Lavoura disse...

Simplesmente perfeito. Nada a acrescentar.

Sebastiao Loureiro disse...

Muito bom, ótimo. Peço licença para transcrevê-lo em meu humilde blog:http://republicasim.blogspot.com/

tiaoloureiro@ig.com.br

Anônimo disse...

Beleza de texto. Faltou dizer que é a falsa democracia - que ao não respeitar os princípios da publicidade, ao não consultar o povo na aplicação dos recursos públicos etc,possibilita a corrupção desenfreiada e asjustiças, que acabam dando bons argumentos a aventureiros inimigos da democracia, que ainda procuram chifre na cabeça de cavalo.

Ricardo disse...

As distinções entre liberalismo e socialismo não são tão simples quanto quer nos fazer crer o blogueiro. Não mesmo. O movimento histórico não cabe em taxonomias tão apressadas. Seria John Dewey liberal ou socialista? Para Hayek, que se auto-reconhece como a fina flor do liberalismo, Dewey era um liberal corrompido por ideais socialistas. Não se poderia dizer algo semelhante acerca do liberal socialismo italiano, que o editor deve conhecer bem? E a social-democracia escandinava? E o trabalhismo inglês? Quer dizer que estatização é coisa de esquerda? Mas o primeiro Vargas fez isso e os generais pós-1964 também. Geisel devia ser um socialista- esquerdista "sans le dire", pois adorava uma estatizaçãozinha da economia...

Nara disse...

O "Ricardo" faz salada. A socialdemocracia escandinava, a única legitimamente socialdemocrática porque não teve vínculos com o socialismo europeu (marxista principalmente), nada tem de estatista. Cobra altos impostos, mas faz o que um Estado deve promover: saúde, educação e segurança, tudo de boa qualidade.
O partido trabalhaista do Blair mantém a política dita neoliberal da Tatcher - não estatizou nada.
O professor Tambosi coloca as coisas no ponto certo ao dizer que a tradição socialista/comunista sempre colocou o Estado como gestor absoluto, em alguns países praticamente abolindo o mercado, o que aconteceu por muito tempo na União Soviética onde um burocrata do partido fixava até o preço dos sapatos. Tinha que dar no que deu mesmo.

Vanessa disse...

Posso estar enganada, mas pelo que li na Veja (na qual, obviamente, não podemos confiar totalmente), vale observar que o primeiro-ministro Tony Blair já defendeu a terceira via, a qual Lula também defende; e parece que suas concepções em torno disso estão retornando, pelo menos é o que aparentemente foi demonstrado por ele na última visita do nosso presidente à rainha britânica !!!
Grande pena !!!

ricardo disse...

Sou solidário com o espírito deste blog de não dar colher de chá aos detentores de poder, principalmente quando se revelam ameaçadores às instituições republicanas. Mas é preciso que sejamos mais rigorosos na análise da história das idéias políticas. Nem toda esquerda é lulista, nem todo socialismo é marxista, nem todo marxismo é a vulgata dos PCs. Para conhecimento de "nara", não foi o Blair quem inventou o trabalhismo inglês. E a menos que estejamos diante do maior caso de auto-engano da história universal, as raízes desse partido são socialistas. Era assim que seus líderes se identificavam. Uma coisa é certa: toda social democracia tem em seu "dna" algo dos ideais socialistas emergentes na europa da segunda metade do século XIX. O triste é que, no "bananão" (para usar a expressão do blog) pouco se conhece da tradição socialista, especialmente da rica tradição britânica. Considero o liberalismo uma conquista civilizatória nas instituições políticas. Mas essa contraposição radical entre individualismo e coletivismo é coisa de alguns poucos liberais (ou liberistas, como queria Bobbio), Hayek à frente. A história das iéias políticas não é coisa trivial. Exige estudo.

Sebastiao Loureiro disse...

A discussão tá boa. Mas parece que uns não entenderam a colocação do professor Tambosi. Fazem "salada" entre a velha esquerda do socialismo real que morreu de morte morrida e a "esquerda moderna" que aceita o mercado, mas defende que o orçamento público destine mais e mais recursos para a rede social dos mais pobres. Esta certamente recebeu influência daquela, mas é completamente diferente. Vinho e vinagre também emanam da mesma uva.

Tambosi disse...

Ricardo,

você faz boas observações. Mas resumir em grandes linhas o que era esquerda e direita até o fim da URSS. Naquela época, ser de esquerda era ser a favor do bloco soviético, contra o bloco norte-americano, de direita. Desmontada a polaridade, pouco sobrou. Como tenho dito aqui em outras notas, a qualificação "esquerda" se tornou ainda mais nebulosa do que sempre foi. Quem está no mesmo lugar, em princípio, é a "direita".
Com o fim do "socialismo real", o que sobrou da esquerda não sabe direito o que fazer. Terceira via não existe mesmo (os italianos viram isto muito bem, principalmente o PCI, há 20 anos).
Ao que parece, a "esquerda" é mais Estado e a "direita", mais mercado. A solução é equilibrar as duas forças. Nem só Estado, nem só mercado. Mas hoje acho que, quando menos Estado, melhor...

Abs.

Ricardo disse...

Tambosi,
Primeiramente, parabéns pelos 30 mil acessos! Que seu blog continue sendo o que é: democrático, aberto à crítica e ao diálogo racional. Posso imaginar a dificuldade de expressar para um público amplo, nem sempre intelectualmente bem equipado, conceitos disputadíssimos na filosofia política e na história intelectual. Acho que o papel da crítica é contribuir para sanar as inevitáveis distorções resultantes desse esforço iluminista. Então lá vai minha contribuição em relação à sua concepção de esquerda e direita. Primeiro: nem todos os partidários da esquerda, mesmo no período da guerra fria, se posicionavam a favor do bloco soviético. E mesmo que assim fosse, temos que pensar o passado (como ensina Gadamer) tendo em vista os problemas do presente. A esquerda existia antes da 1917 e continuou existindo depois de 1989. Segundo: sua sugestão de que a esquerda se define pela defesa do Estado e a direita pela defesa do mercado me parece insustentável, tanto histórica, quanto conceitualmente. Historicamente, não foram poucos os movimentos e regimes políticos que qualificamos como de direita que abusaram da intervenção estatal, quer na economia, quer em outras áreas da sociedade e da política. De Mussolini a Vargas, de Hitler aos militares brasileiros pós-1964, os exemplos poderiam se multiplicar. Por outro lado, grandes intelectuais do século XX, como Keynes e o recentemente falecido Galbraith, embora dificilmente pudessem ser enquadrados como defensores do bloco soviético (Galbraith era assessor de Kennedy) não tinham lá muita confiança no mercado auto-regulado e por isso foram violentamente criticados por economistas como Hayek e Friedman, defensores incondicionais do livre mercado. Outra coisa importante: conceitualmente, não é boa a idéia de medir a estatização exclusivamente pelo nível de participação estatal na economia, uma vez que uma sociedade pode ter mercado livre, não contar com a presença de empresas estatais e, mesmo assim, ser fortemente estatizada. Basta, para isso, que se multipliquem, como nas ditaduras, os aparatos coercitivos do Estado. Ou seja, o simples fato de se privatizar uma empresa estatal não garante desestatização se, simultaneamente, vemos crescer o número de prisões e do contingente policial. É o que alguns sociólogos têm chamado de substituição do Estado Providência pelo Estado Prisional. Assim, embora também algo esquemática, prefiro ficar com a distinção entre esquerda e direita formulada pelo Bobbio, quando afirma que a esquerda gravita em torno do ideal da igualdade e a direita em torno da ordem.
Um abraço

Tambosi disse...

Bons argumentos, Ricardo.

É um prazer receber comentários de gente de bom texto e raciocínio claro, como os seus.

Quanto à díade (como a chamava o saudoso Bobbio) esquerda/direita, cultivei-a durante longo tempo, tendo discutido até com meu velho amigo Colletti (sempre por carta), que a criticava. Hoje acho que Colletti tinha razão, e que Bobbio coloca a questão em termos puramente ideais. A igualdade é um princípio que pode guiar a ação, mas frequentemente permanece sendo apenas princípio, não se realizando na ação. Em poucas palavras, fica-se apenas no discurso. A questão, acho, é ver como essa díade - se é que ainda persiste - se manifesta em termos empíricos. Por exemplo: como um governo dito de esquerda e outro dito de direita agem diante de determinados temas, que decisões diferenciadas eles tomam, principalmente em questões relativas ao governo e à sociedade.
O blog Diplomatizando, que recomendo, trouxe um elenco de questões bastante estimulantes para se verificar empiricamente a sobrevivência (ou não)da díade do nosso querido Bobbio.

Se não encontrar no blog, posso mandar por e-mail.

No mais, volte sempre.

Um abraço.