Esquerda, direita? Não, democracia.

Já discuti aqui algumas vezes a díade esquerda/direita. Estou convencido de que, se ela foi mais nítida no passado, hoje é cada vez mais nebulosa (se é que ainda existe). Já dei razão ao filósofo Norberto Bobbio, que distinguia as duas posições de acordo com a apreciação que cada uma delas faz da idéia de igualdade. De acordo com esse critério, a esquerda seria mais igualitária e a direita, mais inigualitária. Hoje acho que quem tinha razão era outro filósofo italiano, Lucio Colletti, para quem a distinção perdeu sentido - ou, pelo menos, deveria ser redefinida radicalmente - depois dos acontecimentos de 1989 e 1991 (derrubada do muro de Berlim e implosão da União Soviética). Até então, era direita o liberalismo e, esquerda, o socialismo.
Sepultado o “socialismo real”, morre com ele a saída pela extrema-esquerda, tardiamente representada no Brasil pelo MST, PSTU e outros movimentos que parecem ignorar as lições da história. Fechada também a saída pela extrema-direita, cujos exemplos típicos foram o fascismo e o nazismo, restaria o que Bobbio denomina centro-esquerda e centro-direita. A primeira vertente, representada pelos partidos social-democratas, seria simultaneamente igualitária e libertária; a segunda, representada pelos partidos conservadores, seria ao mesmo tempo libertária e inigualitária.
Ora, levando-se adiante esse raciocínio, o que é centro-esquerda e o que é centro-direita no Brasil? Se a distinção ainda tem algum sentido, onde situar, por exemplo, PT e PSDB, que supostamente se digladiam pelo espólio da “esquerda”? Parece haver uma permanente mudança de posições entre centro-esquerda e centro-direita, de sorte que quem ontem estava na oposição, hoje na situação está mais à “direita”; quem ontem estava no poder e hoje está na oposição, procura situar-se mais à “esquerda”. Mas o fato é que todos se embaralham no centro. Resultado: a díade se esboroa.
Assim, distinguir a posição de cada um se valendo apenas da idéia de igualdade diz pouca coisa. Tudo fica no plano ideal, na esfera do discurso e das intenções. Na prática, os matizes se esvanecem. O que resta? Parece-me mais profícuo distinguir os movimentos e partidos de acordo com a apreciação que fazem da democracia. Há os democráticos e os não-democráticos (ou antidemocráticos), isto é, os autoritários, os totalitários etc. Também aqui há tonalidades: há partidos mais ou menos democráticos.
A democracia é o único sistema que tenta conciliar ou equilibrar os direitos de liberdade (liberdade de expressão, de reunião, de imprensa, de ir e vir) e os direitos sociais (direito à educação, saúde, habitação). Os primeiros foram assegurados pela tradição liberal, enquanto estes últimos tiveram – vá lá - a contribuição da tradição socialista. Alguém diria que os direitos de liberdade são de “direita”?
Mas a democracia é também o mais frágil dos sistemas. Permite que brotem em seu interior os inimigos que a destruirão, à “direita” ou à “esquerda”, solapando-a em seu próprio terreno, como acontece na Venezuela “bolivariana”. E convém lembrar que a “esquerda”, ao longo de sua trajetória, nunca viu a democracia com bons olhos, negando-lhe valor universal e considerando-a meramente formal ou burguesa (tradições marxistas), no máximo um instrumento para instalar a “democracia substantiva” ou “popular”, isto é, a “ditadura do proletariado”. Sirvam de exemplo as tristes “democracias populares” do leste europeu.
O fato é que só conviveram razoavelmente bem com a democracia as tradições liberal-democrática e social-democrática (por isso mesmo a designação), ambas reconhecendo a economia de mercado, as liberdades, a pluralidade de partidos e a alternância no poder. Menos Estado ou mais Estado – eis a possível distinção entre elas.
Fora disso, só temos a longa noite das ditaduras. De “direita” ou de “esquerda”.
Na foto (Wikipedia), o Partenon, símbolo da democracia grega.







18 comentários:
Considerando que o nome do partido nazista era Nacional Socialista, e durante aquele período na Alemanha o estado se intrometia em tudo, inclusive (ou principalmente) na economia, eu entendo que nazismo e comunismo são dois lados da mesma moeda.
Brilhante artigo, Tambosi. Abração.
O artigo valeu o dia! Recomendei a leitura em meu blog (República)e tomei a liberdade de copiar um trecho (para "amostra").
Vc escreveu livro que trata desse tema?
Abraço de Sebastião Loureiro
Eu, com uma filosofia um pouco mais rasteira, já critiquei, também, há algum tempo, essa tendência de rotular liberais e conservadores, esquerda e direita, e por aí afora. Não há mais lugar para isto no mundo de hoje. A não ser em alguns redutos facilmente identificáveis em nosso país, que você chama de Bananão. Um abraço.
Olá Tambosi,
Agradecemos pela propriedade com que relaciona essas classificações. Publiquei uma nota em meu blog indicando a leitura.
Abraço
Brilhante,
Tirando o reparo à data da queda do muro (acrescente mais 100 anos no primeiro páragrafo) nada a reparar.
Acho que está matada a charada que faz ao mesmo tempo embraralhar os conceitos direita e esquerda mas, ao mesmo tempo, impede que se faça de conta quenão existem diferenças entre eles: o respeito pela democracia.
Aliás, deixo um pedido: seria muito interessante ler algo sobre a democracia representativa, o único modo de defender de fato os direitos das minorias, e a tão propolada pela "esquerda" democracia direta, que ao meu ver estabelece a ditadura das maiorias.
Tambosi, o Romeu Martins fez a crítica que eu queria fazer. Seu artigo é brilhante, conciso, oportuno, sintético. Merece a adição sobre as democracias representativas, quem sabe um terceiro especificamente sobre o parlamentarismo x presidencialismo. As formas de ditadura (mais ou menos assumidas como tal, funcionamento etc.) poderia ser o 5º artigo. O 6º é sobre "golpe de estado" - suas novas formas, como reconhecê-los. Aí, lógico, a gente sai atrás de uma editora, né não?
É continuar a levantar muros, onde é urgente derrubar os que restam.
Navego, sem rumo e encontro coisas excelentes, às vezes. Esse blog é uma delas. A proposta (iconoclasta) é ótima e eu gostaria de juntar mais lenha nessa fogueira. Nesse espaço, comentários, isso não seria muito viável, mas gostaria de algum contato, talvez um link entre blogs (gugasic.blogspot.com). Agora, sobre a questão esquerda-direita, acrescento que 'direita' é um pequeno truque da esquerda. Um termo nivelador. Como nos textos bíblicos onde deus fez "o céu e a terra", uma divisão que, na época em que foi enunciada, significava um universo dividido em duas metades IGUAIS. Hoje, sabe-se. A esquerda sempre chamou de direita tudo que a ameaçava. Como observou um dos comentaristas, o nazismo era socialista. Só virou "extrema direita" por ter atacado comunistas. A esquerda é uma ilhota num vasto oceano, que ela chama de direita, um artifício hábil para os habitantes da ilha que acreditam num dualismo equilibrado de forças e não têm idéia do tamanho da coisa.
Gosto deste blog. Faz pensar. Já estive por aqui, e só retorno porque o editor, gentil e bem humorado, é também amigo da crítica. Se esquerda e direita são noções grosseiras (e são mesmo), pouco elucidativas das complexidades da política contemporânea, não seria melhor abandoná-las de vez? Não creio que um conceito ruim possa melhorar quando acrescentamos aspas ao termo que o designa. Tambosi, lembro que primeiro foi seu ensaio de associação entre esquerda e estatismo, por um lado, e direita e livre-mercado, por outro. Pelo que entendi, esse primeiro esforço de distinção já era. Agora, a “esquerda” (entre aspas) passa a ser associada à democracia substantiva, que é apresentada como sinônimo de democracia popular, e que é sinônimo de... ditadura do proletariado! Primeiro, democracia popular é redundância. Apontem-me uma formulação de democracia, seja de democratas ou de antidemocratas, que negue a associação entre democracia e poder popular. Não preciso chamar a atenção para as origens etimológicas do termo, certo? Mais: a oposição entre democracia substantiva e democracia formal é cada vez mais contestada na teoria democrática contemporânea (p. ex. Robert Dahl – pensador americano insuspeito de esquerdismo – no monumental Democracy and its Critics), como o é a separação entre “meios” e “fins” em política. Quanto ao termo “ditadura do proletariado” (evidente anacronismo), mobilizado por Marx em um texto de combate – e explorado depois por diversos marxistas-oportunistas –, é melhor deixa-lo onde se encontra: nos livros de história. Até para entender o uso feito por Marx é preciso saber um pouco de história da república romana, compreender o conceito de ditadura comissária, falar da lei curiata, etc. Deixa isso para lá. O mais importante aqui é o grande equívoco que vejo começar a se formar nas reações a seu ensaio. No momento em que a democracia representativa mais precisa dos mecanismos de democracia direta para superar a crise mundial em que se encontra, associar democracia direta com autoritarismo e golpe de Estado não me parece nada prudente. Tirem da cabeça a idéia de que democracia direta são as hordas selvagens de Rousseau marchando sobre os direitos das minorias ou a enganação dos orçamentos participativos do PT. Os gregos antigos a inventaram, os romanos a refinaram combinando-a com outras modalidades de representação, a cidades-estados italianas a mantiveram e as constituições dos estados modernos estão repletas de institutos de participação popular direta, a começar pelo voto para a escolha de representantes. Aqui onde me encontro temporariamente, já perdi a conta de quantas “propositions”, só neste último ano, já foram votadas pelo povo. Cuba? Não. California Americana. Definitivamente, aí no Bananão (boa Tambosi), para aonde voltarei em breve (que Deus me proteja!), não se sabe o que é democracia direta.
Boa, Romeu, obrigado (recuando mais um pouco, chegaria à revolução francesa, que a esquerda chama de burguesa).
O Ricardo tem razão: algumas formas de democracia direta são boas. Só certos doidos que a gente conhece é que querem a substituição pura e simples da democracia representativa pela direta - aí, sim, ditadura.
Shirlei,
filosofia política não é a minha área, mas vou pensar no assunto.
Abs.
Tambosi, no Bananão tudo se confunde. Protoditadores se apropriam da palavra "democracia"; criam neologismos como "instituições republicanas" (que raios é isso?); governam pela (suposta) maioria, ignorando a minoria; confundem liberdade com libertinagem.
Bjs
Ilmo Sr Tambosi, é por textos como esse que estou me "viciando" em seu blog, realmente é difícil de se fazer essa distinção entre direita e esquerda.
A ERA DE OURO DA MÍDIA É A INTERNET. Ha 500 anos, a imprensa destruiu o mundo de reis e aristocratas. Veio depois o poder dos editores, da elite da mídia. Agora o povo está no controle.
Quando, aos 75 anos de idade, Rupert Murdoc, a bordo de seu 737 particular, teve a idéia de comprar por 580 milhões de dólares o ! myspace.com ! já vislumbrava os 6.2 BILHÕES DE ACESSOS MENSAIS, ou os 20 milhões de assinantes ?
Neste novo fenômeno de poder midiático popular, não existe mais direita nem esquerda.
PS= esqueci o link: http://www.wired.com/wired/archive/14.07/murdoch.html?pg=1&topic=murdoch&topic_set=
O problema é que por aqui na nossa sanha jaboticabeira avacalhamos até com alguns instrumentos legítimos de democracia direta.
O último referendo foi um exemplo: normalmente se usa para ampliar direitos *do casamento gay a aborto, do financiamento público de pesquisas com células tronco aos trangênicos).
Por aqui se tentou usar a medida para tirar um direito, o de ter armas em casa, na ocasião.
O modo como setores de esquerda tratam a questão é que faz uma contraposicação do que eles chamam de democracia burguesa (a representativa) contra a direta e daí dá-lhe o perigo da tal ditadura da maioria, sem que os matizes entre o sim e o não sejam respeitados...
Para mim, esse é um cavalo de tróia dos Chávez e quetais para tentar passar o rodo.
Fantástico Tambosi!!!! Parabéns!
Abraços
César
Tambosi.
Particularmente prefiro a visão de John Locke, o qual atenua a teoria de Hobbes e diz que o Estado é nosso “funcionário”. Tem de preservar nossa vida, nossa liberdade e nossos bens (propriedade), e se assim não o fizer, devemos derrotá-lo pela revolução. Vale dizer, o poder tem limites.
Suas idéias partem de três princípios:
1. nenhum governo dispõe de informações totais da sociedade;
2. todo governo tem que definir prioridades, pois não pode atender simultaneamente a todos;
3. qualquer definição de prioridade é de arbítrio do governo, portanto pressupõe uma relação de não prioridades e sofrem, conseqüentemente, questionamentos: “o governo fez isso, mas poderia fazer aquilo...”
Uma característica do liberalismo político de Locke é a capacidade de restrição do poder político.
É diferente portanto do liberalismo econômico, que representa um mundo aberto aos negócios, um "liberalismo de mercado".
Um abraço,
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