Num pequeno artigo na Folha de hoje, o deputado Fernando Gabeira dá uma mordida no tema do tal "Outro mundo". O melhor mesmo, no entanto, é o que diz sobre seu passado de "revolucionário". Pelo menos conseguiu cruzar o ano de 1989. Mas, cá pra nós, ainda tem um pezinho lá atrás ao colocar no mesmo plano, no final do artigo, o Fórum de Davos (mantido por governos de Estado) e o Fórum Social Mundial, tábua de salvação de utopistas que abominam a realidade.
O artigo, na íntegra:
Quando estava preso, Affonso Romano me visitou e disse que achava que nossa visão revolucionária tinha muito de religioso. Naquele momento, estranhei. Mais tarde, lendo a conferência de George Steiner, "Os Sonhadores do Absoluto", percebi que havia afinidades. Sobretudo nessa certeza em determinar o sentido do homem, em sonhar com um mundo completamente novo, inclusive com um homem novo. No meio da década de 60, no bar Degrau, disse para Bolívar Lamounier que, como Sartre, achava o marxismo o horizonte intelectual insuperável de nosso século. "Bobagem do Sartre", respondeu diante do copo de chope. Também estranhei. Sartre era o filósofo.
Tinha muitas reações de estranheza diante dos livros de Isaiah Berlin. Ele escreveu numa revista "Encounter" financiada pelo governo americano. Era considerado da CIA. A qualidade de sua obra me conquistou. Além de entender a Revolução Russa, achou bem no romantismo alemão as raízes revolucionárias. Homem novo? Sentido da história? Todas essas grandes ideias passam por sua análise fria, liquidificadora.
Leio agora sobre a Europa. Deu um grande salto no pós-Guerra. Um a um, os partidos social-democratas se livraram das certezas da história, contentando-se com o aumento do poder de consumo, a maior liberdade das pessoas, uma estabilidade democrática. Vista retrospectivamente, foi uma extraordinária conquista.
Nesse momento de crise, em vez de outro mundo, peço um mundo melhor. É o caminho para abordar a economia e a degradação ambiental. Uma vez foi tentada uma conferência entre os dois fóruns, Davos e Porto Alegre. Um caos. Cada um falava a sua língua. Não conseguiram se entender. Se houver outro mundo, ou, mais modestamente, um mundo melhor, dependerá mesmo de fóruns como esses?
31 comentários:
eu juro que este cara sonha com o kit KY e o kit educação sexual do Temporão.
ai meus sais
abraços
karlos
Yes! O Gabeira é gay. And so what?!
"Vivamos em paz, porque tanto faz gostar de coelho ou de coelha."
Acabei de citar Jorge Mautner, outro gay.
E se eu não estivesse tão satisfeita, tão bem servida de homem, eu diria que lamento - não por eles e sim por mim - a opção sexual dessas duas figuraças!
E o Ney Mato Grosso também é gay, com aquela voz maravilhosa de contra-tenor e um domínio de palco inigualável. Desculpem-me, mas tenho que perguntar de novo: and so what?!
Sim, porque causa espécie o comentário do Karlos.
Depois de ler um artigo interessante como esse, será que não haveria nada de mais relevante a ser escrito?
No que toca ao estilo, o Gabeira é quase impecável. Frases curtas, lapidadas, não falta nada e nada sobra. Ele sempre diz a que veio e mostra com toda clareza onde quer chegar. Não gostei do termo "liquidificadora" como qualificativo de "análise", mas isso é insignificante.
Quanto ao pezinho "lá atrás" do Gabeira, bueno, não duvido que ele de fato o tenha: a maioria de nós não se livra do passado in totum, ainda mais quando se trata de velhos e velhas verdes. Mas entendi a aparente equivalência entre os dois fóruns, estabelecida pelo Gabeira no último parágrafo, mais como uma crítica descrente dirigida aos dois gêneros de blablablação (estatal ou badernal)do que como uma equivalência de méritos entre ambos os fóruns.
Julgo que o que o Gabeira quis dizer é que ele não crê na possibilidade de um mundo melhor derivada de fóruns davísticos ou porralouquísticos.
A última frase, terminada com uma interrogação, justifica a minha interpretação.
Eu entendo que o pezinho fixado no pré-1989 apareça mais no jeito subreptício de descrer nas "tentativas" (sérias ou alopradas) de se tentar "modestamente" um mundo melhor, sem apontar, ainda que em toscos traços, quais seriam as maneiras talvez viáveis de se tentar alcançar esse novo mundo verdinho.
Por outro lado, o Bobbio não diz que o importante no labirinto da história é descobrir os caminhos que não vão dar em nada?
Ora, para o Gabeira, nem Davos nem "Utópovos": de boas intenções os fóruns mundiais estão cheios. Assim sendo, o Gabeira parece ter descoberto neste texto curto, os caminhos que não vão dar em nada.
Não sei se poderia ser feita uma gradação neste caso: Davos não davos em nada, Utópovos do povo perdido davos em menos ainda.
Eu também não acredito nem na baderna dos Utópovos nem na "seriedade" de Davos. Mas, parodiando o Riobaldo do Grande Sertão digo: eu sou muito pobre coitada.
E assim sendo, qualquer auxílio à minha grande ignorância será muito bem vindo.
A abertura de Davos foi feita concedida a Putin, cujo discurso é destaque mundo afora: veja o Wall Street Journal, que o reproduz na íntegra
http://online.wsj.com/article/SB123317069332125243.html
Gabeira tem um pé no passado, sim. Tanto que foi quem deu a primeira acolhida ao Cesare Battisti no Brasil, de acordo com o relato do terrorista.
O Gabeira também já foi terrorista. Seqüestrou aquele embaixador americano, como todo mundo sabe. Não matou ninguém, até onde eu saiba, e teve asilo político primeiro no Chile e depois na Suécia.
Quanto ao caso Battisti, está havendo uma deturpação do "apoio" supostamente dado por Gabeira:
"Hoje, o ex-guerrilheiro opta pela moderação ao comentar a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, que concedeu o status de refugiado político a Battisti. "O tema deveria ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF)", defende.
E conclui:
- Os asilados italianos que estão aqui conseguiram chegar a esse caminho através do Supremo, que tem condições técnicas para avaliar melhor.
Gabeira explica que teve pouco contato com Cesare Battisti e que não o conhecia antes de 2004. O deputado diz que se limitou a um conselho somente. "Encontrei com ele e o aconselhei a buscar uma saída legal, a se entregar. E é tudo", diz."
(http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3480078-EI6578,00-Gabeira+caso+Battisti+nao+deveria+ser+politizado.html)
Maria,
também não estou nem aí para Davos, que procura, na verdade, resolver os problemas próprios dos países que o integram. Mas, pelo menos, eles apresentam projetos, sem querer resolver os problemas do mundo (o que, na verdade, é impossível - ninguém jamais vai resolvê-los).
Agora a bugrada do Pará não vai apresentar coisa nenhuma, e nem consequencia negativa ou positiva gerará para "este mundo" - ruinzinho, mas é o único que temos. O resto é mesmo utopia no pior sentido.
Complementando: se é utopia tem algum bom sentido...
Sem dúvida, Tambosi.
Mas me pareceu (e continua me parecendo) que o Gabeira não quis estabelecer hierarquias entre as duas "soluções para um mundo cada vez mais pequeno", como diriam os portugas.
Pequeno e apequenado, seja por soluções que visam resolver os problemas dos países que integram o fórum de Davos, como você mesmo disse, seja por delírios românticos de um novo mundo prete-a-porter "sempre que possível".
Creio que Gabeira neste curtíssimo e muito bem escrito artigo fez apenas um esboço rápido do que ele pensa sobre Davos e Doidivanos. Não caberia, pelo estilo empregado, se alongar em detalhes do que ele de fato parece pensar.
Citou o Berlin e já o conhecia, pelo visto, décadas antes de mim, que só tive o prazer de conhecê-lo (grácias, Tambosi) muito recentemente através de você.
Por tudo isso, mesmo com o pezinho pré-1989, eu continuo respeitando demais o Gabeira.
É um figuraço com quem eu tive o prazer de jantar, há duas décadas atrás, no restaurante belorizontino Casa dos Contos, também chamado de Casa dos Tontos.
Ou das tontas, vá se saber!
Maria, não falei em hirarquia, mas critiquei o fato de ele ter equiparado dois organismos distintos. Um representa Estados; outro representa sabe-se lá o quê...
Ôps, hierarquia (teclado de lan é uma porcaria).
Desculpe-me pela insistência, professor, mas continuo pensando que a equiparação entre esses dois organismos de todo distintos (um com representatividade declarada e outro com declarada sandice)foi apenas um recurso retórico utilizado para expressar a descrença gabeirica em soluções forenses estatais ou débeis mentais.
No mais, estou com o professor. Como aluna, às vezes rebelde, mas sempre como aluna.
Maria, isso é constrangedor.
And so what?
fica para um post mais adequado.
boa noite
karlos
"Um representa Estados; outro representa sabe-se lá o quê..."
É justamente pela dificuldade de determinar o estatuto dos representantes do "não-sei-lá-o-que" que surgiu Guantánamo. E esta aí uma questão que deveria ser debatida.
O Olavo de Carvalho, por exemplo, insiste que esse "sabe-se lá o que" é uma forma insidiosa de associção do comunismo, facismo, terroritas islâmicos e todos os que são contra a sociedade ocidental de matriz "judaico-cristã" (julgo que a maior das pessoas não lhe escuta porque ao surgir a mínima contrariedade sucede a sempre habitual enxurrada de palavrões...predendo a atenção).
Concorde-se ou não com essa explicação, julgo evidente que existe uma dificuldade das sociedades mais organizadas de lidar com esse novo tipo de organização.
PS: O Gabeira é ma-lu-co! E como todo representate da espécie tem umas tiradas inteligentes.
Gabeira: o "maluco" das tiradas inteligentes...
Ai, ai... Sai da frente!
Um sujeito que foi do MR8 - sem dúvida uma canoa furada - com as crenças e a coragem típicas da juventude, foi preso, torturado, exilado, soube aprender com as experiências de vida e reconhecer publicamente suas mancadas, que escreve bem pra dedéu por coseguir unir forma e conteúdo de maneira exata, criando textos muito saborosos, não é ma-lu-co coisa nenhuma.
Malucos pintam bem, tocam bem um instrumento musical, compõem bem, esculpem bem. Mas é impossível um "ma-lu-co" escrever bem.
Quem escreve bem, pensa bem. Logos: palavra, razão, discurso. Sempre é bom lembrar.
Fernando Gabeira não tem "umas tiradas inteligentes": é inteligente. E a prova inconteste de sua inteligência é a capacidade de mudar seus pontos de vista, de reconhecer seus erros.
E reconhecer seus erros não de acordo com o modelito confiteor ad altare Dei: não foi a Deus que o Gabeira "confessou" seus erros e sim a ele próprio e aos outros cidadãos comuns.
Chamar alguém de maluco ou de careta leva a quê? A nada de objetivo.
Mas ambos os epítetos refletem uma profunda insegurança psíquica: Eu (o bom) sou normal (leia-se careta) e o outro é maluco. Eu (o bom) sou criativo (leia-se maluco) e o outro é careta.
Quanta infantilidade...
Tá bom: ele é normalíssimo.
Tão normal quanto você, CFE.
Isso é impossível: eu revelo uma "profunda insegurança psíquica".
Insegurança psíquica é o que há de mais normal entre os humanos, portanto...
...somos todos malucos.
Gabeira, por favor, vai para a Itália defender o Battisti.
“D. Quixote”, é um livro escrito por Cervantes, que trás em seu título o nome adotado pelo personagem principal que imagina ser um cavaleiro. A passagem mais delirante é quando investe contra os moinhos de vento. Em sua trajetória é acompanhado fielmente por Sancho Pança, um seu criado que tem no seu discurso a voz da sabedoria popular, muito básica porem mais presa a realidade.
D. Quixote era magro, esguio e já apresentava uma certa idade quando pirou. No Brasil o político Gabeira também tem a mesma aparência física, talvez seja por isso que tenta interpretar, na vida real, a ficção espanhola: deve sentir alguma identificação. Com uma pequena diferença de “timing”: pirou na juventude quando pretendeu investir contra o representante dum “reino” estrangeiro. Enfim coisas de jovens: quem nunca sequestrou um embaixadorzinho não tá com nada.
Ao retornar ao Brasil resolveu utilizar, como seu inspirador D. Quixote, uma nova indumentária, que definitivamente não era sua. Na Espanha o cavaleiro resolveu utilizar uma armadura, no Brasil - muito calor…- o jornalista resolveu utilizar uma tanguinha, deve ter sido seu período Dulcineia, a amada de Quixote.
Depois tentou conquistar o governo de sua coutada, a província do Rio de Janeiro, e para tal passou a defender a legalização das drogas, todos poderiam enfim ver a realidade com seus olhos e de maneira completamente legal. A legalidade acima de tudo porque é de “respeitinho que eu gosto”. Permitida por lei, todos os problemas advindos da toxicodependência cessariam por encanto. Perdeu a eleição mas um dos eleitores enviou dentro do boletim de voto um saquinho de droga com a seguinte mensagem “Pra você Gabeira”: afinal de contas alguém o compreendia.
A elite carioca, com predominância na Zona Sul espremida entre o mar e o morro, sempre divergiu do resto do Brasil desenvolvido, basta ver o sentido de voto muito mais coincidente, na qualidade e interesses de seus representantes, com os do Vice-Reino do Norte e do Nordeste do que seus vizinhos do Sudeste e Sul.
Generalizações são sempre perigosas ( e com essa vou ouvir umas “boas” caso família e amigos leiam isto) mas se pudéssemos definir o habitante típico do Rio, principalmente o da Zona Sul, seria o “maluco-beleza”, com “paz e amor” por seu lema. O “maluco-beleza” até já elegeu o deputado federal Juruna, eleito para defender os índios: como se sabe o Rio não tem muitos, mas isso é só um detalhe.
Com um maior percentagem de “malucos-belezas” e livre daquela gentinha da Baixada; mais recentemente, D. Gabeira tentou conquistar a cidade, antiga capital imperial. Fácil, basta bater boca com um dos representantes das gentes do interior que teve a ousadia de conquistar as cortes. Para um fino e bem falante é fácil fazer isso: a televisão ajuda e os malucos-beleza adoram.
O principal oponente de Gabeira foi apoiado por Lula, plenamente identificado com Sancho Pança, muito mais conectado com a realidade: tanto que chamou o Carlos Minc (fundador do PV) para ser ministro do Meio Ambiente algum tempo depois de Gabeira (filiado no PV) ter perdido a eleição mas isso deve ter sido só coincidência e eu só estar tendo alucinações.
D. Gabeira quase conseguia ser o alcaide: a síndrome do “maluco-beleza” já conquistara e alastrara a toda cidade numa perfeita simbiose com outros comportamentos, tal qual cidade e favela tentam imitar o “Yin e Yang”. Só não o foi porque uma das maiores qualidades ou defeitos do “maluco” é a preguiça: a abstenção foi enorme.
Isso tudo eu pergunto: pra que? Quais são seus projetos de administração? Qual é sua experiência administrativa? Causas fraturantes? O Rio já teve que chegue de governantes que olhavam mais para Brasília do que para a gestão corrente da cidade. Pode servir para tentar defender, ou melhor: impor direitos de minorias mas para contribuir para a resolução dos problemas concretos de milhões de brasileiros, ele acrescentará muito pouco: nunca passará dum “maluco-beleza”.
"tanto que chamou o Carlos Minc (fundador do PV) para ser ministro do Meio Ambiente algum tempo depois de Gabeira (filiado no PV) ter perdido a eleição"
"perdido não: confirmado a candidatura"
http://www.gabeira.com.br/noticias/noticia.asp?id=6369
http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u401871.shtml
Não há dever mais subestimado que o dever de ser feliz.
Stevenson
A verdade é que nesta guerra de vaidades, sabotagens, libertinagens... Esses políticos querem que o Brasil se dane, para ver triunfar suas mentirosas verdades.
"Se o pluralismo é uma visão válida, e se é possível respeito entre sistemas de valores que não são necessariamente hostis uns aos outros, então se seguem a tolerância e as conseqüências liberais, como não acontece nem com o monismo (apenas um conjunto de valores é verdadeiro, todos os outros são falsos), nem com o relativismo (os meus valores são os meus, os seus são os seus, e se colidirmos, tanto pior, nenhum de nós pode afirmar que está certo). O meu pluralismo político é um produto de ler Vico e Herder, e de compreender as raízes do romantismo, que na sua forma patológica e violenta foi longe demais para a tolerância humana.
(Isaiah Berlin - A força das idéias)
Ola. Estou passando para convidar para conferir a postagem desta semana: Inovar: O grande X da questão. E Estamos participando do 1º Concurso BR-Infor-Blog, e gostaríamos de contar com o voto de vocês.
Sua visita será um grande prazer para nós.
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.
oi,beeeemmmmmmm baixinhooooo
psiu,
ei vc aí..
o brog du bastião é paranormal...
ou seria para anormal,ou pára normal,ou ainda pára seu anormal.
Sei lá,só sei k é ruim k dói.
abraços
karlos
Maria,
a citação - e indicaçao - de Isaiah Berlin veio em lugar e hora certos. Aliás, seus comentários são supimpas! Como dizem os manezinhos da Ilha, "dáx um banho!"
Gabeira representa o (muito) pouco que há de vida inteligente na política nacional. E, como vc muito bem assinalou, mostra-se capaz de se reinventar permanentemente (pra melhor!)
Muito obrigada pelos elogios, Ercy.
Mas na verdade quem dá um banho (dois, três, mil!) é o blogueiro Orlando Tambosi.
Foi ele quem me apresentou o Berlin, o Gray e vários outros filósofos bastante interessantes, entre todos, ele próprio.
Sugiro que você leia o livro do Tambosi (Taí do lado, depois do Gomorra e antes do Pós-Guerra).
Não conhece? Mas o que é isso, companheiro?!
Um abraço e prazer em conversar com você.
Irei atrás.
Grazie tante!
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