sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tradições religiosas vs. cultura grega

Do sociólogo italiano Luciano Pellicani, sobre as diferenças entre a racionalista tradição cultural grega e as tradições judaica, cristã e islâmica, prisioneiras da fé e do dogma:

A tradição cultural judaica e a tradição cultural greca são tão antitéticas quanto se possa imaginar. A primeira é inteiramente dominada pela fé e pelo dogma; a segunda, inteiramente dominada - pelo menos em seus pontos mais altos - pela razão e pelo livre-exame. Tem sido dito e repetido que o cristianismo ajudou a afastar a magia do mundo, mas esta é uma tese muito problemática, contra a qual militam não poucos fatos históricos. Portanto, qualquer que tenha sido a função desenvolvida pelo cristianismo contra a magia, é incontestável que a sua vitória significou a aclimatação "na sociedade ocidental - que já havia conhecido o livre racionalismo da Grécia clássica - da mais funesta e longeva aberração mental que a história jamais viu. O espírito ficou por séculos imobilizado (...), consumiu energias incalculáveis para tornar racional o irracional, e derramaria rios de sangue para reconquistar o direito de pensar segundo as leis do pensamento e o direito do livre-exame contra a autoridade do dogma." Longe de ter contribuído para o desencantamento do mundo, o judaísmo e seus derivados históricos - o cristianismo e o islamismo - submeteram o pensamento à fé e a pesquisa filosófica e científica aos imperativos do dogma.

O trecho foi retirado do excelente Saggio sulla genesi del capitalismo (alle origini della modernità), de 1992 (trad. inglesa aqui). Trata-se de uma severa crítica às teorias de Marx e de Max Weber sobre o capitalismo. Insisto: as editoras brasileiras desconhecem totalmente a produção sociológica e filosófica italianas, à exceção de um ou outro autor pós-moderninho de viés nietzschiano. Pellicani até hoje não foi traduzido por aqui.
(Obs.: o excerto entre aspas é de P. Gentile, no livro Storia del cristianismo, Rizzoli, 1975).

22 comentários:

Chesterton disse...

O último texto do Olavão mata a pau....

Anônimo disse...

Eu já ia escrever que o que afastou a magia foi a revolução industrial. Só que aí eu me lembrei da Renascença que reessuscitou a tradição cultural greco-romana. Mesmo assim eu acho que a influência religiosa não explica tudo. Existem algumas diferenças significativas entre países que compartilham uma mesma religião.

Anônimo disse...
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Maria do Espírito Santo disse...

O mais genial da gregaiada foi saber separar radicalmente a religiosidade da vida política.

Sócrates foi condenado à morte pela acusação de impiedade (novela cultural: impiedade, para os gregos, significava apenas não-piedoso, ou seja, não crer nos deuses) e por corromper a juventude via "impiedade".

Mesmo tendo chance de fugir de Atenas, Sócrates - segundo a lenda... - preferiu seguir o destino traçado para ele pelos cidadãos que o julgaram. E não se esqueceu de pedir a um amigo que sacrificasse um galo a Esculápio...

Platão era um herdeiro do pitagorismo, corrente esotérica do pensamento grego pré-socrático, e nem por isso deixou de escrever muito sobre a polis... "Fundemos, em palavras, uma cidade".

Aristóteles foi o que mais se afastou da religiosidade e o que mais conseguiu fazer a ponte entre filosofia e ciência.

A gregaiada era mesmo admirável!

Anônimo disse...

Quem matou a pau foi você, Maria.


Tambosi


(verific. de palavras: exuatu...)

esteban disse...

Estoy totalmente en descuerdo con el articulista. Le vendria bien leer a Lord Acton,uno de los fundadores del liberalismo entre los historiadores.No entiende el revolucinario aporte del pueblo judío al establecer limites al poder del Faraon-Rey- Estado, al generar una relacion personal con la divinidad, a crear un codigo moral básico, a desarrollar un pensamiento critico, que lleno miles de paginas del Talmud y la Cabala y alimento desde siempre a los que se salian de la norma de la Iglesia y del Rey. Triste ignorancia. Cierto "liberalismo" coincide con la "fatal arrogancia" que describio Hayek en su ultima obra.

Maria do Espírito Santo disse...

Bondade sua, Tambosi... Mesmo assim, muito obrigada!

Lo que pasa es que... Respeito profundamente o Timeu que não tem nada a ver com o timão, meu...

E pra quem se interessa pelo conceito grego de natureza, vejam o artigo do meu ex-professor de cultura grega, Marcelo Pimenta Marques:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-512X2007000200017&script=sci_arttext

Maria do Espírito Santo disse...

Estéban,

Todo e qualquer modelo político que se inspire em divindades - quer transfira do faraó para o indivíduo a relação com o elemento divino, ou não - é um modelo político opressor.

Os homens têm o direito e a obrigação de resolverem as suas pendengas políticas com seus pares, sem a interferência onipotente e ubíqua de Deus ou de deuses.

Deus é a perfeição? Se é, de fato, a perfeição, como poderia ser a "referência fatal e definitiva" para a resolução de querelas práticas, reais e concretas que acontecem na vida política?

Sócrates, Platão, Aristóteles eram arrogantes? Talvez fossem mesmo, uma vez que não rogavam aos deuses gregos para que resolvessem seus problemas do dia-a-dia, os quais não compete a Deus ou a deuses nenhuns a intervenção nem a interferência.

Política se faz com leis humanas e com contratos estabelecidos. Fazer política é tomar partido e uma vez que Deus é o todo e que o todo não se divide, não se parte, como pode uma parte envolvida na questão fundamentar suas posições baseado na totalidade divina?

Orlando Tambosi disse...

Esteban, não é à toa que se fala muito em "civilização judaico-cristã", omitindo o papel central da civilização grega.
E não resolveria o problema falar em "civilização greco-judaico-cristã", pois a cultura deles era outra.

Foram os gregos os fundadores do chamado Ocidente, a partir do momento em que criaram a filosofia (e também a ciência). Durante o milenar predomínio cristão, a filosofia foi reduzida à teologia e a ciência praticamente desapareceu, só ressurgindo no século XVII.

Lucio Russo escreveu um belíssimo livro sobre isso: A revolução esquecida, mostrando que muito da revolução científica moderna foi uma retomada da época grega.

Claro que não traduzirão este livro na América Latina.

Maria do Espírito Santo disse...

E o que me parece ser uma fonte efetiva de desigualdades sociais é o fato de que acesso à cultura grega são pouquíssimos os que têm.

O resto do vulgo fica limitado ao pensamento restrito pelas margens dos dogmas, ou seja, pelo limite claro e definido da liberdade de pensar sem barreiras.

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Na primeira metade do século III de nossa Era, o entusiasmo religioso - a crença cega, típica de um pagão, de que na perseguição cristã estava o motivo do contínuo esfacelamento da unidade romana - levou Constantino a transferir a capital do Império de Roma para a cidade de Bizâncio, que passou a ser chamada de Constantinopolis, provavelmente como sinal do triunfo nova fé, que veria ali - essa era a intenção de Constantino - a capital do cristianismo. Com isso, ficou nas mãos de Constantinopla a desejada reunificação do Império. Esta, porém, acabou não se dando, e o que se viu foi a fundação de um novo Império, o "bizantino".

Sem esse acontecimento notável e, de certa forma, misterioso, a cultura helênica estaria perdida para sempre, só se salvando porque ali reencontrara o único refúgio seguro conta o avanço dos bárbaros

Sem falar, no fato inquestionável da interpenetração entre a cultura grega e a "filosofia" do homem que, para provar sua origem divina e seu propósito de redimir a humanidade do pecado, se colocou espontaneamente como o bode-expiatório a concentrar sobre si todo o ódio do mundo, de modo a purificar o coração dos homens para, aí, edificar o Reino de Deus.

O que nos restou da cultura grega foi graças ao cristianismo e chegou até nós, no que há de melhor (ou seja, o "racionalismo" filosófico), envolto no espírito cristão, ficando de lado as absurdas práticas pagãs.

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Correção: no início do século IV, e a razão pela qual Constantino aderiu ao cristianismo, ao ponto de transferir-se para Constantinopolis, embora pouco ou nada tivesse a ganhar - em termos políticos - com tal imprudência, se deve ao fato de apostar todas as fichas no Deus cristão, como se estivesse, de súbito,fora de si e "possuído" pela divindade dos até então deserdados do mundo, "transe" que foi suficiente para que Cristo, o crucificado, lhe aparecesse com o premonitório "com isso vencerás"

esteban disse...

Me parece que no interpretan lo que yo digo: jamas estaria de acuerdo con una vision teocratica del mundo, con el predominio de iglesias y sacerdotes. NO hace falta aclararlo.
Pero desconocer lo que señalan Acton o Hayek , acerca del valor del monoteismo para limitar el poder terrenal de los reyes es perderse la mitad de la historia. La otra mitad, indudabemente, la inventaron los giegos. El judaismo inventó al individuo escapando de la masa anonima que sigue al Rey, creo la idea de un Hombre capaz de enfrentar a Dios (Eso es lo que significa la palabra Israel) y no un ser sumiso (eso es lo que significa la palabra Islam)Confundir y meter en la misma bolsa a judaismo e islamismo es una locura...casi nazi!Infernal y absurda!

Orlando Tambosi disse...

Esteban,

sabemos que você não é um teocrata, longe disso. Quanto ao Pellicani, conhece bem Acton e Hayek (e cita os dois amplamente num de seus últimos livros). Mas não é, propriamente, um liberal. Dirigiu por muito tempo a revista do PSI e hoje está com o DSI (Democratici Socialisti Italiani), que tem algum pezinho nos "libertários".

Marcos, não acho que as práticas pagãs sejam mais ou menos absurdas que as práticas religiosas contemporâneas dos monoteísmos.
A adesão do império romano ao cristianismo é que ajudou a matar a cultura grega, da qual os romanos absorveram apenas os aspectos mais literários (nada da ciência grega eles guardaram). E a filosofia ficou por séculos como refém da teologia. Teólogos-filósofos deixaram discussões interessantes, mas lá em cima Deus é sempre onipotente etc. O dogma acima de tudo. Dito isto, acho que as religiões dependem de dogma - e é legítimo que procurem mantê-lo. Mas isto é, de fato, incompatível com o traço mais característico da modernidade, definida por Ortega Y GAsset, por exemplo, como "vida independente de valores sacros".
Pellicani, aliás, foi um estudioso de Ortega - coisa curiosa entre italianos.

Orlando Tambosi disse...

Ah, sim, Marcos - com exceção dos sacrifícios humanos...

Marcos Alberto de Oliveira disse...

"O último texto do Olavão mata a pau...." (2)

Não havia reparado essa indicação de Chesterton.
Irretocável e altamente elucidativo o artigo "Capitalismo anti-capitalista", deve ser a este que Chesterton se refere.

Orlando Tambosi disse...

Ei, Maria,

obrigado pela dica. Vou lá ver já:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-512X2007000200017&script=sci_arttext

esteban disse...

Gracias por tu respuesta. Creo que el tema da para profundizar, cosa que estoy haciendo con lecturas bastante alejadas de mi horizonte habitual.La pregunta es, como siempre: como congeniar libertad con mormatividad. Sin normas, la libertad llega rapido a la anarquía y el desgobierno. Exceso de normas, ya sabemos lo que nos trae...

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Tanto lógos quanto mythos significam "palavra", "discurso".

O primeiro comporta uma parte apofântica que pôe em manifesto a realidade em sua gênese supra-sensível, atemporal e, portanto, a unidade e origem transcendentes da multiplicidade coisas visíveis, na medida em que estas estão submetidas a uma ordem natural
A essa parte, precisamente, convém a tradução latina de lógos por ratio.

O segundo tb se reporta à realidade, mas visando descortiná-la em sua gênese temporal, "histórica", um tipo de conhecimento que, a despeito de pressupor uma concatenação causal, aponta para o "imemorial" e se restringe à explicação da origem última da raça humana a partir de uma ordem divina.

Faço essa observação para dizer que o racionalismo moderno, em particular aquele baseado numa concepção panfletária de razão (desta como mero instrumento para arregimentar meios para fins quaisquer*), encontra-se há dez mil léguas longe do que, anacronicamente, chamamos "racionalismo" grego.


* Kant apresenta uma concepção teleológica de razão - correlata do que ele entende por concepção cósmica de filosofia - segundo a qual a razão é a faculdade de, por si mesma, propor-se fins, o mais alto dos quais sendo de caráter estritamente moral e consistindo na "determinação completa do homem".

Mesmo esse sentido de "razão" não bate com a conceito grego. Por exemplo, Aristóteles faz o lógos apofântico corresponder à "dianoia", enquanto capacidade humana (a parte racional de sua alma) de identificar e perseguir fins "desejáveis por si mesmos", isto é, que independem de nossa vontade e das circunstância em que nos encontramos, porque determinados pela própria essência das coisas que, hierarquicamente, encontram seu devido lugar no kósmos.

Sérgio Antônio Canedo disse...

Algumas coisas a dizer:

- Fala-se de Constantino que, sim, liberou (Edito de Milão) a religiosidade ou a tolerância ao cristianismo no império, mas foi Teodósio (Edito de Tessalônica) quem o tornou, de fato cristão, não sem violência.

- Religiosos ou não, centrados em sua religião ou não, árabes, persas e judeus são muito, muito mesmo, responsãveis pelo que temos de cultura grega à disposição, assim como o são os cristãos, se tomados quantos deles estavam na península Ibérica entre os séculos III e XIV, só prá pensar por alto. O Aristóteles que nos ficou foi traduzido nos 'scriptoria' de Toledo, de Sevilha, etc., e de textos em árabe, por tradutores de todas as três religiões;

- Mas isso não aconteceu porque eram aqueles das três religiões monotoeístas, senão porque entre eles havia humanos cultos que queriam ler o mundo e encontraram em Platão, em Plotino e sobretudo em Aristóteles visões que os fizeram pensar. Desse ultimo, como lembra LeGoff, dizia-se ser, na Idade Média, o "filósofo com "F" maiúsculo". D. Afonso X, o sábio, Rei de Leão e Castela (séc. XIII), autor das Cantigas de Santa Maria e também quem tomou dos árabes o sul da Espanha, disse no seu "Lapidário", que Aristóteles "fué más complido de los otros filósofos, e el que más naturalmente mostró todas las cosas por razón verdadera, et las fizo entender complidamente segundo son".

- Não acredito que isso tudo se deu segundo o que pretendemos ler hoje, tornando atalhos ligeiros coisa de mil anos passados e como se fosse uma questão de agremiação partidária ou como se aqueles fossem torcedores do Palmeiras ou do Avaí. Avicena, Averróis, (São) Tomás de Aquino, Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī (os algarismos: o que seria da matemática se tivéssemos de pensar a partir de infindáveis pauzinhos cruzados...), Okham, (Santo) Isidoro de Sevilha, Boécio foram importantes como grandes leitores do mundo, mesmo que entre eles pudesse haver quem esperasse pelo paraíso...

Maria do Espírito Santo disse...

Eita ex-orientando da dona Ângela Tonelli Vaz Leão, a mulher mais culta, inteligente e sensata que eu já conheci!

Na mosca, Sérgio Antônio...

Orlando Tambosi disse...

Sérgio,

anda bem que, em todas as épocas, uns gatos pingados escapam às ideologias dominantes. Isto aconteceu - e acontece - com gente supostamente vinculada aos três grandes monoteísmos. Mas o que eles fizeram, muitas vezes a duras penas, não pode ser atribuído, como em geral acontece, aos judeus, aos cristãos, aos muçulmanos. Foi coisa de pouca gente, remado contra a maré.