domingo, 8 de novembro de 2009

Hobsbawm exagerou no pisco

Certa vez, li uma entrevista com Eric Hobsbawm, que ainda escorrega no marxismo, em que o repórter afirmava, na apresentação, que o historiador britânico costumava beber todo líquido que os amigos da América Latina lhe traziam. Tinha uma quedinha especial pelo pisco, a forte bebida peruana. Pois bem, ao dizer o que disse à Folha hoje, só poderia estar sob efeito dessa bebida. Cito a apresentação e nem comento, pois é cansativo, além de triste, ver que um historiador dessa envergadura não consegue se desvencilhar das fulgurações ideológicas. Ele acha que a queda do socialismo, essa farsa ideológica do século XX, trouxe mais desigualdade. Vá ser saudoso assim lá na Coreia. E o editor que o entrevistou ainda o chama de coerente. Persistência no erro é coerência?
Ícone da historiografia de esquerda, o britânico Eric Hobsbawm não perdoa: para ele, o principal efeito da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi a desestabilização da geopolítica mundial em prol da única superpotência remanescente -os EUA.
Como consequência, o mundo se tornou mais perigoso.
Em "A Era dos Extremos" (Cia. das Letras), ele já defendera os desdobramentos da queda do muro como cruciais para o século 20. Mais do que isso: cruciais para encerrá-lo antes da hora. Daí o termo que cunhou, "breve século 20".
Já do ponto de vista econômico, Hobsbawm afirma que o pós-1989 levou a um recorde de desigualdade social nos países da antiga Cortina de Ferro - termo que designava, durante a Guerra Fria, os países comunistas europeus sob influência soviética.
Sobre Berlim, cidade que cristalizou a derrocada da velha ordem e o início da nova, o pensador se mostra decepcionado, na entrevista que concedeu por e-mail à Folha.
Apesar de haver se tornado a capital do Estado mais rico da União Europeia, Berlim não se tornou a virtual capital da Europa -como se esperava 20 anos atrás- nem ficou à altura de seu glorioso passado anterior à ascensão do Terceiro Reich (1933).
Coerente, Hobsbawm vê a crise financeira que assolou os mercados financeiros em 2008 como o "Muro de Berlim do neoliberalismo". Ele detecta nesse aparente revés capitalista a possibilidade de rearticulação do pensamento de esquerda - mas desta vez, alerta, em bases "mais realistas". (Continua, para assinantes).

6 comentários:

Anônimo disse...

Alô Tambosi
Esta esquerda mais "realista"creio que foi PLÁGIO de comentário de Olavo de Carvalho,quando diz que o novo comunismo/socialismo prega a utilização dos meios produtivos e financeiros controlados pelo govêrno,mas não estatizados.
Querem reinventar o socialismo/comuna com a eficiência e produtividade capitalista usufruindo do $$$$ e poder que gera o contrôle deste capitalismo sem a democracia,fato que está em andamento na atual China ou parte dela.
abraços
karlos

Anônimo disse...

sem as liberdades individuais,lógico
karlos

Anônimo disse...

"Coerente, Hobsbawm vê a crise financeira que assolou os mercados financeiros em 2008 como o "Muro de Berlim do neoliberalismo". Ele detecta nesse aparente revés capitalista a possibilidade de rearticulação do pensamento de esquerda --mas desta vez, alerta, em bases "mais realistas"."

Realmente. Ele foi coerente sim!

Maria do Espírito Santo disse...

O problema é invariável e tem nome: antropocentrismo.

No caso do Hobsbawm, tem um agravante: ególatra-antropocentrismo.

O historiador se identifica com a história ideológica do marxismo e crê que tanto ele quanto a história do marxismo estão cheios de razão.

Estão plenos de sonhos caducos, não mais.

Confisquem o pisco do homem.

Hugo disse...

Creio que o pisco que seus amigos da América Latina lhe fornecem deve estar contaminado por chumbo.Pois a doença que surge da contaminação via chumbo é o Saturnismo caracterizada por alucinações e comportamentos inesperados e erráticos terminando por fim em delírios esquizofrênicos e psicóticos.
É um velho truque de marketing.Pego um produto velho,tasco o nome "Novo" e pronto.Meu produto é como se tivesse tornado inteiramente diferente do original mas em essência segue sendo o mesmo.Cedo ou tarde o comunismo tratará de matar qualquer iniciativa privada ou capitalices que existirem sob o seu domínio.É só retórica e mais retórica.Vai ser tudo como antes.Um esquerdista não evolui;ele se acomoda um pouco mas depois regride de novo.

Fábio Mayer disse...

Eu concordo com ele sobre o "breve" século XX, mas discordo sobre os efeitos da queda do muro.

Em verdade, a queda do muro melhorou a vida de milhões de pessoas pelo mundo afora, acabou com o comunismo ditado pelas ditaduras de um proletariado que só existia nas cabeças doentes de burocratas que queriam manter seu poder a todo custo.

Hoje, a Polônia e a República Tcheca são países considerados desenvolvidos. A Rússia recupera-se a olhos vistos a Ucrânia também e existe pelo menos um bafo de democracia em todos os lugares da antiga cortina de ferro.

A queda do muro nos legou um mundo mais rico, mais seguro e mais justo, se Hobsbawm não concorda com isso, penso que é algo natural em razão de sua idade avançada e da ideologia que defendeu sua vida toda.