Medicina ainda fala em raça
Médicos não são, de fato, cientistas. Podem se dizer cientistas os médicos que se dedicam à pesquisa, gerando novos conhecimentos, e não aqueles que, nos consultórios, apenas receitam remédios, ou os que fazem cirurgias (uma técnica importantíssima, por sinal). Daí não ser estranhável que a medicina brasileira ainda faça referência ao ultrapassado conceito de raça, condenado por geneticistas e até por antropólogos que não afundaram os pés no relativismo.
Sérgio Danilo Pena, que já citei aqui algumas vezes, demonstra em artigo publicado no Scielo que
O conceito de ‘raça’ faz parte do arcabouço canônico da medicina, associado à idéia de que cor e/ou ancestralidade biológica são relevantes como indicadores de predisposição a doenças ou de resposta a fármacos. Essa posição decorre de uma visão tipológica de raças humanas. O baixo grau de variabilidade genética e de estruturação da espécie humana é incompatível com a existência de raças como entidades biológicas e indica que considerações de cor e/ou ancestralidade geográfica pouco ou nada contribuem para a prática médica, especialmente no cuidado do paciente individual. Mesmo doenças ditas ‘raciais’, como a anemia falciforme, decorrem de estratégias evolucionárias de populações expostas a agentes infecciosos específicos. Para Paul Gilroy, o conceito social de raça é ‘tóxico’, contamina a sociedade como um todo e tem sido usado para oprimir e fomentar injustiças, mesmo dentro do contexto médico.
Recomendo aos leitores visitarem o blog Contra a racialização do Brasil para acompanhar este tema permanentemente.








7 comentários:
Então não existem mestiços. Dizer que o brasileiro é um povo mestiço é racializar (?).
Judah
Discordo professor. A ciência sempre, SEMPRE foi assim. Vai mudar, inclusive a ciência médica. Só que agora não dá pra culpar exclusivamente a igreja. O mundo acabava em um abismo, dizia a ciência... "...fomentar injustiças, mesmo dentro do contexto médico.' Ou seja, falta ciência na ciência...
Não vamos esquecer que as teorias racistas que vicejaram sempre arvoraram origens científicas e racionais para sustentar seu triste ponto de vista.E que inúmeros cientistas,filósofos,historiadores,geógrafos até químicos e físicos entre outros cientistas se colocaram a serviço do racismo mais explícito.
Nenhuma posição filosófica ou religiosa pode contestar a pesquisa desenvolvida por Pena - antes dele, Luigi Cavalli-Sforza, que fez uma gigantesca investigação mundial, já disse isto.
E o post, me desculpem, não falou em igreja.
Opiniões não derrubam pesquisas desenvolvidos com métodos rigorosos.
Quanto aos cientistas, há picaretas como em todas as áreas. Mas vá alguém dizer que existem religiosos picaretas...
Com todas as ressalvas - muito justas, por sinal - que se possa fazer à adoção do conceito de raça, ele jamais perderá a sua utilidade clínica em medicina, tanto no que concerne ao diagnóstico como à terapêutica das doenças. Bastaria perguntar, por exemplo (num exemplo dos mais simples), a um cirurgião plástico em quais das suas pacientes ele mais recearia a ocorrência de quelóides: nas de "raça" branca ou nas de "raça" negra?
Alô Tambosi
alô anônimo 23:30
Por incrível que possa parecer JÁ EXISTEM CONSTESTAÇÕES destas ocorrências atribuidas à diferenças fenótipas,tanto que à atribuição de ocorrências médicas em certos grupos está sendo atribuído à fatôres diversos que aquêles que pautam hoje as discussões.
Culpa esclusiva dos GENÉTICISTAS.
abraços
karlos
Compreendo, Karlos, e concordo ("com todas as ressalvas - muito justas, por sinal - que se possa fazer à adoção do conceito de raça..."), mas isso não invalida a utilização CLÍNICA dessa referência, como todo médico sabe, à exaustão, "desde criancinha". Por incrível que possa parecer.
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