O leitor Esaú de Jacó envia "entrevista" com o célebre escritor carioca Machado de Assis, que analisa o Rio das Olimpíadas 2016.
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, no morro do Livramento em junho de 1839. Em 1884 mudou-se para o Cosme Velho, onde viveu até a sua morte em 1908. Nos seus 69 anos de vida só esteve fora do Rio por três meses, em 1879, quando foi para Nova Friburgo, para cuidar da saúde.
Assim sendo, o Rio de Janeiro foi o pano de fundo onipresente na obra do maior escritor brasileiro, para mim o maior de todos os tempos. Dei de imaginar, portanto, o que Machado de Assis, se vivo fosse, teria a dizer sobre os últimos e tétricos acontecimentos na ex-cidade maravilhosa. Resolvi, então, entrevistá-lo, voando até onde ele está e não está, com as asas da imaginação.
- Senhor Machado, com a lucidez sombria de um ateu discreto, disposto a desbaratar todas as mitologias com o mais inteligente pessimismo, o que o senhor teria a declarar sobre os últimos acontecimentos violentos envolvendo traficantes, polícia, e várias mortes no Rio de Janeiro?
- Ainda estou estupefacto, meu filho. Não posso dizer nada de muito especial por estar ainda agarrado aos jornais e à revista Veja, lendo com fogo e indignação mortal sobre tudo o que aconteceu. O que posso exclamar, por enquanto, é apenas: Porcalhões! Tratantes! Faltos de brio! No que transformaram a minha cidade?! E isso não passa de indignação e revolta. Precisaria ser um homem do seu tempo para entender os horrores que o tempo preparou para os que estão vivos na sua época. O que mais poderia dizer? Os conflitos extremos sociais geram algo similar ao que chamarei agora de solidariedade do pânico humano. Meus pêsames para todos os moradores daquela cidade que foi minha. Nada mais. - A revista Veja afirmou que o Secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que o ocorrido foi o nosso "11 de setembro". O senhor concorda com a declaração de Beltrame?
- Não sei que importância possa ter a nomenclatura comparativa utilizada para se referir à violência ocorrida no Rio de Janeiro. O 11 de setembro, até onde pude alcançar pela leitura dos jornais que me chegam via posta feérica, não foi consequência de descalabros político-administrativos dos Estados Unidos. Não sei se poderíamos dizer o mesmo em relação ao Rio de Janeiro. Assim sendo, uma vez que a situação dramática não é utópica em termos sociais, julgo ser essa associação de fatos uma parvice. Talvez seja a forma que o sr. Secretário encontrou de se isentar de responsabilidades. Os traficantes estão derrubando helicópteros?! Ah... É o nosso 11 de setembro de baixo para cima! Quem poderia ser responsabilizado por isso? Os novos Osama Bin Beira Mar, certamente! E ninguém mais, ninguém mais!
- O senhor acredita que quem cheira mata?
- Eu acredito que quem mata, mata, quem cheira, cheira, e que a função do Estado é impedir que se mate, que se cheire. Tudo de acordo com a lei.
- E quanto à cegueira do narcolirismo?
- Quos Deus vult perdere, dementat prius, ou seja, a quem Deus quer destruir, antes lhe tira o juízo.
- O que pensa sobre a tolerância com a malandragem carioca?
- Acabemos, meu filho, com este costume do escritor dizer tudo, à laia do alvissareiro.
- A malandragem carioca é um entre vários outros mitos nefastos grotenses.
- Grotenses?
- Sim, grotenses. Leio blogs politicamente incorretos. Gosto deles.
- E quanto ao estímulo populista à favelização?
- Trata-se de uma festa de estalagem: todos dançam - preserve-se o duplo sentido - e ninguém se conhece.
- E sobre o medo de remover as favelas?
- A preservação da miséria para fins escusos é prerrogativa dos séculos. O que não significa que não deva ser combatida.
- O senhor crê que há mesmo uma tentativa de se tapar o sol com a peneira e de se fingir que os bandidos não mandam?
- Por força do prestígio social que a bandidagem conseguiu a custa de balas, da atração ornamental da cultura populista, pela difusão de idéias medíocres que transmigram nas consciências indiferentes à radical diferença entre o legal e o ilegal, diferenças justamente postuladas para que as idéias possam parecer inócuas. Montar essa anulação das diferenças é, ipso facto, confundir abstratamente os seus termos, do modo já citado, e perder de vista os processos reais de produção ideológica no Grotão.
- Não creio que os leitores conseguirão acompanhar suas sábias declarações, senhor Machado.
- Desde o século XIX isso não é novidade para mim, meu filho.
- O senhor acredita que o governo criou formas de se combater o crime com mais crime?
- Creio.
- Só isso?
- Isso lhe parece pouco?! Não sou de afiançar crenças, meu filho. Se digo que creio, digo muito.
- Pensa que marginais são cabos eleitorais de políticos?
- Penso ser este o lado mais abjeto da classe governante.
- A corrupção torna a polícia mais inepta?
- Quando a corrupção impera, os atos e os sentimentos estão cercados por um halo de absurdo, de gratuidade interesseira e abjeta, que torna dificéis não apenas as avaliações morais, mas também as interpretações políticas.
- O senhor crê que as comunidades dos morros cariocas sejam usadas como escudos humanos?
- Eu e a torcida do Flamengo, do Fluminense e do Vasco da Gama acreditamos piamente.
- E o governo federal? Está, de fato, se lixando?
- Perdão: o que significa "estar se lixando"?
- Estar indiferente, não se importar com o que está ocorrendo no Rio...
- Ah, sim... O governo Luís Inácio está se lixando! Gostei, gostei... Embora ache essa gíria um tanto ao quanto absurda... Estar se lixando a mim me parece o oposto de que significa... Sinais dos tempos... De tempos lixantes... Viva o lixo!
- Como o senhor vê o fato de muita gente acreditar que as favelas não produzem drogas nem armamentos?
- Muita gente crê em absurdos e descrê na realidade nua e crua. Isso não é novidade, seja no mundo terreno, seja na eternidade.
- Os portos brasileiros são uma peneira?
- São uma peneira seletiva, meu filho. Uma peneira seletiva.
- Quem manda na cadeia são os bandidos?
- Os bandidos mandam em todos os espaços físicos e institucionais, meu filho. A cadeia é só um entre vários outros.
- E o senhor crê que os advogados dos traficantes sejam agentes do tráfico?
- Advogados, como se sabe, defendem os interesses dos seus clientes.
- Como assim, senhor Machado?
- Como assim, como assado, como sempre, meu filho.
- Muito obrigado pela entrevista, senhor Machado de Assis!
- Esta é uma sociedade politicamente imatura, meu filho. Incapaz de produzir a ordem coletiva necessária para o seu próprio controle. Contemos - sem muitas esperanças - com dias melhores.
(Grato, Esaú).

Rio de Janeiro, Fevereiro & Mortes.