domingo, 11 de abril de 2010

Brasil: potência de semiletrados?

Na Veja desta semana, Gustavo Ioschpe escreve um artigo que dá o que pensar: será que o Brasil se tornará a primeira potência de gente semiletrada? Segundo ele, o país está perto de se tornar um colosso econômico, mas esquecendo a formação de seu povo. Surrupio a parte final.
O resumo da ópera é o seguinte: é muito difícil passar de uma situação de subdesenvolvimento e chegar ao chamado Primeiro Mundo. Mas, se o período 1960-92 servir de guia, das duas estratégias possíveis – privilegiar o crescimento econômico versus privilegiar o crescimento humano –, a primeira se mostrou um fracasso total, e só através da segunda é que um terço dos países chegou ao objetivo desejado.
Esse aprendizado é, hoje, especialmente importante para o Brasil. Apesar de todo o oba-oba com o país nas capas de revistas e jornais estrangeiros, o Brasil está, na verdade, perigosamente próximo de repetir a trajetória do fim da década de 60: ser um colosso em termos de crescimento econômico e esquecer a formação de sua gente. Essa estratégia tem destino certo: a falta de pessoas qualificadas faz com que o processo emperre e o crescimento acabe. Temo, inclusive, que seja tarde demais para evitar parte desse enredo: várias indústrias, especialmente as ligadas à engenharia, já têm seu crescimento cerceado pela impossibilidade de encontrar gente qualificada. O problema será muito pior nos próximos vinte anos, à medida que a demanda por pessoas qualificadas for aumentando e as escolas continuarem formando incompetentes.
Há três diferenças importantes entre o momento atual do Brasil e aquele da época do milagre econômico.
A primeira é que o atraso educacional brasileiro em relação aos países desenvolvidos aumentou consideravelmente. Há trinta anos, o ensino superior era um nível para poucos, mesmo nos países mais ricos. Levantamento feito em 2000 mostrou que a porcentagem de adultos com diploma universitário no Brasil era bastante parecida com a de outros países – 1 ou 2 pontos porcentuais abaixo de Chile e Argentina e 3 a 4 pontos abaixo de Itália e França, por exemplo. Quando se olha para a taxa de matrícula atual do ensino universitário, porém, nota-se que o Brasil tem uma diferença de 20 pontos porcentuais para nossos vizinhos latino-americanos e de 40 ou mais pontos para os países desenvolvidos. A maioria dos brasileiros não se dá conta de quão ruim é a educação nacional. Uma pesquisa de 2009 sobre alfabetização, feita pelo Instituto Paulo Montenegro, mostrou que apenas 25% da população adulta brasileira é plenamente alfabetizada. Deixe-me repetir: só um quarto dos brasileiros conseguiria ler e entender um texto como este. Nenhum país jamais se tornou potência com uma população de semianalfabetos. É improvável que o Brasil seja o primeiro, mesmo com todos os recursos naturais de que dispomos.
Segunda diferença: nos anos 60/70, pouquíssimo se falava sobre educação. Hoje, a questão está em pauta. O diacho é que a maior parte do discurso ainda é pré-científica (ou anticientífica) e continua insistindo em teses furadas e demagógicas: que o Brasil investe pouco e que o principal problema é o salário do professor.
A terceira e última é que naquela época éramos uma ditadura inserida no polo pró-americano em um contexto de Guerra Fria, e hoje somos uma democracia altiva em um mundo multipolar. Se então nossos males nos eram impostos por um regime autocrático, hoje temos liberdade e responsabilidade por nossos destinos. Os problemas e os erros são todos nossos, e as soluções também terão de ser.

8 comentários:

Maria do Espírito Santo disse...

A secretária que procurou na Consul e até na Brastemp, mas ninguém conhecia esse tal de Houston, me lembrou a miss que respondeu ao entrevistador ser o Colorex o seu prato preferido.

O privelégio de uma sólida formação humanística está na capacidade perceptiva de nuances, gradações, tonalidades.

Alguém que só entenda o termo "consul" como sendo marca de geladeira não entrou numa fria: vive eternamente numa gelada.

E um país com maioria populacional dessa estirpe, dessa grosseira linhagem, tem por destino ser um eterno zero à esquerda.

O blogueiro ataca, com justeza, os políticos nefastos que invadem as plagas grotenses como nuvem de furiosos gafanhotos. Mas o acomodamento nefasto de uma população que parece abominar o exercício indispensável de se tornar, a cada dia, mais e mais humano também deve ser levado em conta.

Talvez mais do que boas escolas o que falte mesmo seja vontade individual de conhecimento.

Viciados em presidentes salvadores da pátria, em bolsa-família, leia-se bolsa miséria, a grossa maioria não se empenha sequer em se tornar um indivíduo: preferem a triste condição de dependentes parasitas.

Educação de qualidade só atinge aqueles que têm gana pelo conhecimento. E para querer o conhecimento é preciso assumir, não a situação de vítima, mas a de autor do próprio destino.

E no Brasil, infelizmente, a grande maioria ainda prefere a condição de pobre coitado.

E coitado é o filhote de rato que nasce pelado.

pentefino disse...

CLAP,CLAP,CLAP

Não é porque vc, Maria, se identifica tb como Espírito Santo, mas seu comentário foi inspirado.
Numa terra em que o primeiro mandatário semi-alfabetizado se blasona de nunca ler livros e sequer jornais, admitindo sua preguiça mental como virtude, sendo,apesar disso um vencedor, metido a dar lições ao mundo,não se estranha que o parasitismo social e a indolência individual sejam o seu maior legado.

Anônimo disse...

É nisso que dá escolher um presidente meia boca. Agora todos acham que tem o mesmo direito.

Anônimo disse...

tô na área.
blog é CULTURA.
FARO(FAROL EM ESPANHOL):

Alejandro Magno, hijo de Filipo y rey de Macedonia, fundó una ciudad en el norte de África en el año 332 antes de nuestra era y, sin mucha modestia, la llamó Alejandría. Su pretensión era convertirla en el puerto más grande del mundo y, con tal fin, mandó tender un puente de mil quinientos metros de longitud para unir la ciudad con la isla de Pharos. Ptolomeo II instruyó a Sostrato de Cnido para que construyera en dicha isla lo que después sería la Séptima Maravilla del Mundo: el faro de Alejandría, una torre de mármol de ciento diez metros de altura, desde lo alto de la cual una gigantesca hoguera, cuya luz se amplificaba mediante un sistema de espejos, guiaba a los navegantes. El faro de Alejandría fue el primero de la historia.

fui...

necessitamos um FARO PARA O BRASIL.

Maria do Espírito Santo disse...

Aplausos de um comentador tão atilado como você, Pentefino, me deixam feliz da vida!

Mas devo o comentário que fiz não ao Espírito Santo meu comparsa, mas antes a vários Espíritos Santos de orelhas atentas e antenadas, como o do professor Orlando Tambosi.

Sem pessoas como ele eu seria apenas mais uma bolivariana delirante deste vasto Grotão. Seria só mais uma mulher ilhada em magias fosforecentes e, para além da rima, pra lá de decadentes.

Mais uma vez, obrigada pela gentileza, Farofiníssimo e Pente mais fino ainda!

Anônimo disse...

e um bom blog para se espairecer:

http://diariodeumjuiz.com/

fui...

blaise2 disse...

O problema não é o salário do professor...
Pois é.Se ele acha que está dentro da "realidade" dos demais trabalhadores por que ele,tão qualificado,não vai mostrar serviço numa escola e provar como se faz?
O outro amiguinho de portal foi mais honesto ao assumir que "não foi dar aulas em escolas públicas porque pagava pouco".E mesmo em escola privada de elite,quando viu o "achatamento salarial",carcou fora pois não tinha 'vocação pra lutar por salários',embora se diga 'fundador de um sindicato'.Por que não tentou concurso em escolas federais que pagam bem,ou melhor do que as estaduais e municipais,não revela.
Além de um salário que não paga uma 'kitineti' sem ser dividida com outra pessoa,há todo o contexto de trabalho,ambiente hostil e insalubre,sem contar o tempo trabalhado em casa que não é contado.
Mas alguém tinha de virar saco de pancada no grotão;quem mais adequado do que professores?
As verdades inconvenientes da clientela problemática,das leis que mandam aprovar quem não aprende a desenhar nem o próprio nome,gente com todo tipo de déficit cognitivo,emocional e escambau;além dos que simplesmente não querem estudar porque isto dá trabalho,sim!

E pensar que aqui em SC professores chegaram a ganhar o mesmo que um desembargador.

Santa invenção a tal EaD!Nem sente cheiro de suor dos fofos,menos ainda as conversas entre arapongas treinando pra olimpíadas de gritos.

Gustavinho é adorável quando se define como de 'esquerda'.Tudo a ver...

silvio cesar disse...

Nao precisa ser genio , em Celso Furtado temos o que e desenvolvimento e o que nao é...está lá ao alcaçe da mão.
É só não ter azia ao ler _ como uns e outros orgulham-se.