quinta-feira, 6 de maio de 2010

As diferenças (históricas) entre ciência e tecnologia

(...) É importante distinguir ciência e tecnologia, cujas motivações são diferentes. Ambas estão hoje tão imbricadas que já se tornou comum aplicar-lhes a sigla C&T, ofuscando algumas diferenças fundamentais. Em poucas palavras, ciência produz idéias, teorias, informações; tecnologia produz objetos, bens, voltados para as necessidades e demandas do mercado. Uma busca simplesmente conhecer; outra, visa a fins práticos. Ambas envolvem processos cognitivos, mas seus resultados são diferentes. O produto final de uma atividade científica inovadora, em geral, é uma declaração escrita, um paper anunciando uma descoberta experimental ou uma nova teoria. Já o produto final de uma inovação tecnológica é, tipicamente, um acréscimo à realidade material: um relógio, uma máquina, um aparelho de barbear, um telefone celular. Fundamental, para a tecnologia, é o artefato - artefatos são seus meios e seus fins.

Convém observar que a tecnologia é muito mais antiga que a ciência e possui uma história própria. O historiador da tecnologia George Basalla lembra que ela é tão antiga quanto a própria humanidade, sendo um equívoco defini-la como aplicação de teorias científicas para a resolução de problemas práticos. A tecnologia não é “serva da ciência”. Para ficar num só exemplo, a tecnologia egípcia era superior à dos gregos, criadores da ciência. Igualmente sem o auxílio de conhecimento científico, a antiga tecnologia chinesa realizaria expressivas conquistas (o papel, a imprensa, a bússola e a pólvora, entre outras). No entanto, embora fossem hábeis engenheiros e atentos observadores dos fenômenos celestes, os chineses deixaram poucas contribuições em termos de conhecimento científico. O fato é que eles cultivavam uma “visão mística do mundo”: o universo é concebido como algo organizado hierarquicamente, em que cada parte reproduz o todo. “O homem é um microcosmo que corresponde ao inteiro universo: o corpo humano reproduz o esquema do cosmo.” Joseph Needham, o grande estudioso e entusiasta da cultura chinesa, também se refere a essa concepção holística. “A concepção mecânica do mundo”, escreve ele, “não se desenvolveu no pensamento chinês e, pelo contrário, a idéia organicista segundo a qual cada fenômeno está conectado a todos (...) os demais, segundo uma ordem hierárquica, foi universal entre os pensadores chineses”.

A investigação racional sobre o homem e sobre a natureza, como ressalta Pellicani, “é uma criação especificamente e exclusivamente grega”, fruto da ruptura entre mito e razão (Logos), que possibilitou o florescimento do pensamento filosófico e científico e a passagem da sociedade fechada à sociedade aberta. Trata-se de um rompimento com os valores sacros da tradição - a fé dos ancestrais - de que não se tem notícia em outras culturas. A análise é corroborada pelo historiador das ciências Charles Gillispie:

A ciência deriva, em últimas palavras, do legado da filosofia grega. É certo que os egípcios desenvolveram técnicas de agrimensura e realizaram certas operações cirúrgicas com notável finesse. Os babilônios dispunham de artifícios numéricos de grande engenhosidade para prever os modelos dos planetas. Mas nenhuma civilização oriental foi além da técnica e da taumaturgia para chegar à curiosidade sobre as coisas em geral. Entre todos os triunfos do gênio especulativo grego, o mais inesperado, o mais verdadeiramente novo foi precisamente a concepção racional do cosmo (....). A transição grega do mito para o conhecimento foi a origem da ciência e da filosofia.

Num livro tão admirável quanto provocativo, o matemático e historiador das ciências Lucio Russo compartilha essas interpretações sustentando que não havia “ciência” nos antigos impérios, nem mesmo na Grécia do século V a.C. e nem sequer nas obras de Platão e Aristóteles, embora este último tenha antecipado algumas características das ciências empíricas. O método científico só despontaria no curso do século III a. C., sendo “uma característica essencial da civilização helenística”, cujo ponto de origem é o império de Alexandre Magno. Traçando um panorama histórico da ciência grega desde o nascimento até a decadência, com o advento do Império Romano (e a conseqüente regressão da civilização a um estado pré-científico, que perduraria até o século XVII), o autor demonstra que a revolução científica moderna - a partir de Copérnico, Galileu e Newton - foi em parte uma retomada do que se perdera com a destruição da civilização grega: Aristarco de Samos, por exemplo, já desenvolvera a hipótese heliocêntrica no referido século III a. C.

Em resumo, todos os povos produziram tecnologias, mas só o povo grego criou a ciência e a filosofia de que somos herdeiros. Basalla demonstra que, até o século XIX, a ciência exerceu pouco impacto sobre a tecnologia. Sem auxílio da ciência, a tecnologia gerou a agricultura, os artefatos de metais, as conquistas da engenharia chinesa e até mesmo as catedrais do Renascimento. Essas imponentes catedrais, com suas enormes cúpulas e altas naves, foram erguidas por engenheiros que se baseavam na experiência prática, aprendendo diariamente com os erros, e não em teorias científicas. Prevalecia então, como sugere outro autor, o “teorema dos cinco minutos” – se uma estrutura permanecesse de pé por cinco minutos depois de retirados os suportes, presumia-se que se manteria de pé para sempre.

O recente matrimônio entre ciência e tecnologia pode ser ilustrado com a história da comunicação radiofônica. As ondas eletromagnéticas não foram descobertas por experimentação, mas a partir das equações elaboradas pelo físico escocês Maxwell (1831-79). Em 1887, Hertz (1857-94) demonstraria a propagação de tais ondas, sem atentar, contudo, para a sua importância para as comunicações. Coube ao italiano Marconi (1874-1937), um autodidata, lançar as bases para seu aproveitamento industrial e comercial: foi ele o primeiro a estabelecer comunicação entre a Europa e os Estados Unidos. Desde o final do século XIX, portanto, C&T andam de mãos dadas – com as bênçãos da indústria, que na mesma época fundaria as primeiras empresas baseadas em conhecimento científico (nas áreas de química e eletricidade). Hoje, nada de realmente novo existe que não seja resultado da pesquisa científica.

(Do meu livro A cruzada contra as ciências (quem tem medo do conhecimento?), Florianópolis, EdUFSC, que está demorando a chegar às livrarias: por enquanto, só no site da editora, conforme seção ao lado).

68 comentários:

Anônimo disse...

tô na área
alô Professor.
Segundo alguns artigos que já li,pode-se colocar em dúvida que a ciência e tecnologia na antiga china não estivessem ao nível dos "ocidentais".
Dei agora uma busca pá e bola com os têrmos= china science= e mostra um número razoável de sites e argumentações à respeito.
A busca lógicamente via www.twingine.com
que me retorna a busca via google e yahoo simultaneamente.
É de se aprofundar e separar a propaganda do real.

fui...

Anônimo disse...

www.crystalinks.com/chinascience.html
e por aí vai..
fui

Orlando Tambosi disse...

KK, sabia que você viria.

Mas, cá pra nós, não retiro uma linha do que disseram os estudiosos que citei.

É muito comum falar em "ciência egípcia", "ciência oriental" o cacete, mas essas aí - e muitas outras - nunca se livraram da visão mística e tradicionalista.

Devemos isto aos gregos, hoje afogados na crise que o Grotão, segundo você mesmo, cedo ou tarde enfrentará.

Gosto do google, mas ainda falta a este precioso instrumento um cuidado com a qualidade e o rigor.

Anônimo disse...

O Google é muito bom para quem sabe o que extrair dele.

Anônimo disse...

Meto a colher: também é preciso distinguir filosofia de ciência - e filosofia de concepções variadas que qualquer gajo pode ter, até nas cavernas do Afganisthan.



A.B.

Hugo disse...

Tambosi,lamento dizer mas estes autores que citastes são sem dúvida nenhuma helenocentristas.Existem provas de que na China antes da Grécia já havia uma preocupação não-teológica mas apenas racional com o entendimento das coisas.Principalmente a partir de Confúcio os chineses viram a necessidade de se ter um conhecimento ao menos racional e organizado do mundo em que viviam e até do outro mundo.Enquanto os gregos ficavam discutindo com um grupo reduzido de discípulos a ciência os chineses compunham de livros a tratados chegando a enciclopédias de conhecimentos.Também forma os primeiros antes dos gregos a tentar um sistema de classificação de diversas áreas.O número de livros publicados sobre diversos assuntos inclusive com conclusões e estudos que nada deixavam a dever dos gregos é muito mas muito superior ao dos próprios gregos.Essa afirmação de que a ciência apenas se deve ao gênio grego é própria de uam visão eurocentrista que simplesmente ignora a grande produção chinesa na área das ciências.

Orlando Tambosi disse...

Hugo,
pareces um relativista radical. São os relativistas que tentam tirar da cultura dita "ocidental" a criação da filosofia e da ciência.
Parece que só o cristianismo é ocidental.
Quanto às ciências, ah, até os babilônicos e egípcios eram cientistas.
Não, a ciência e a filosofia só surgiram na Grécia - e em nenhum outro lugar.

Bene, Ahmadinejad é um exemplo de ciência persa...

Hugo disse...

Teus autores helenocentristas dão a entender que entre o século que os gregos sumiram como entidade dominante do pensamento ocidental até o caso galileu e o advento do iluminismo nenhum povo mais fez aportes ditos científicos.Isto é de uma leviandade intelectual monstruosa.Os árabes durante os seculos VII-XIV não só espalharam diversas das obras dos já extintos cientistas gregos como melhoraram inúmeras descobertas e porpuseram até novas teorias sendo que muitos de seus trabalhos tinham um rigor que poderíamos,dadas as condições das épocas,dizer bem científico.Mais uma mostra de que os teus autores são eurocentristas e helenófilos de carteirinha.

Anônimo disse...

ei pessoal

o www.twingine.com
dá a busca GOOGLE E YAHOO simultaneamente.
é dezzzz

fui

Orlando Tambosi disse...

Nesses termos, eu desisto de discutir.
Ou se tem rigor com os textos, ou viva o relativismo pós-moderno.

Anônimo disse...

A antiga filosofia grega englobava todas as ciências. Não apenas as ciências humanas como hoje em dia. A dependência que nós temos dos especialistas, aliada ao comodismo, faz com que aceitemos como verdade o que não entendemos. Os filósofos gregos só queriam entender o mundo em que viveram. Eu até entendo que naquela época era mais fácil ter um grande conhecimento sobre todas as ciências. O que me preocupa é a perda do compromisso com a verdade, da curiosidade e do senso crítico.

Orlando Tambosi disse...

O inconveniente de se ter um blog é ter que aguentar muita opinião. Estudo, mesmo, só de almanaque.
Não admira Lula oito anos e, talvez, Dilma.
O Grotão merece.

Hugo disse...

Você entendeu tudo errado Tambosi.Eu escrevi estes comentários não no espírito do relativismo mas sim na consciência de que as verdades históricas devem imperar sobre posições claramente contraditórias quanto aos fatos registrados.Um exemplo claro de distorção histórica grave:O que vejo de mais notório no parágrafo que diz que dos gregos até o galileu e iluminsitas nada se produziu é pura propaganda anticristã e em especial anticatólica.Simplesmente os teus autores em um absurdo dos absurdos dizem que nada vingou na europa do ´seculo V-XV o que é frontalmente desmentido por Will Durant em seu magistral livro "A Idade da Fé" e principalmente pelos vídeos ampalmente disponíveis do Prof.Wood,catedrático de Economia,da série "A Igreja Católica:Construtora da civilização" onde se desmonta um por um os mitos que estes teus autores insistem em repetir ad infinitum na esperança Goebbeliana de se fazer uma mentira ter aspecto de verdade pura.

Orlando Tambosi disse...

Anônimo das 21:40, estou contigo:
"O que me preocupa é a perda do compromisso com a verdade, da curiosidade e do senso crítico."

Maria do Espírito Santo disse...

Menos Hugogó, menos...

A distinção entre ciência e tecnologia, ou entre episteme e tecné é grega e ponto.

Você arrota asnices com força e vontade, hein?!

Vá pro confucionário confessar sua soberba e arrogância.

Vai ser besta assim lá em Pequim!

Orlando Tambosi disse...

Nada mais tenho a dizer, Hugo.
Fique com a tua arrogância dogmática.
Não sou dono de autores. Os autores não são "meus". Se você pensa assim, o problema está com você.
E não me surpreende não teres agradecido o pacote.
Definitivamente, não se pode confiar na internet.

Hugo disse...

O sr.Tambosi sempre desqualifica os que se contrapõe a ele dizendo que o conheciemnto destes é apenas de Almanaque.O sr.Tambosi procura primeiro desqualificar o que é pra mim uma atitude anticientífica oriunda de alguém que se juga científico.É triste mas é esta qualidade de debates que nos condena ao grotão que tanto odeias Tambosi.Um lado tenta mostrar seus argumentos mas o outro só se resume a chamar o adversário de ignorante,cultura de Almanaque e assim vai.Deste modo não pode haver troca de idéias alguma.Cada um fica acantonado no seu castelo e rremessando pedras e óleo fervente além de impropérios.Assim não dá mesmo.

Anônimo disse...

tô na área
A nossa "sorte",mundo ocidental lógico,é que a China mantém sistemas de govêrno e contrôle da turma, catastrófico,por mais de 3-4 milênios.
fui..

Orlando Tambosi disse...

Lamento ter enviado o pacote a você, mal-educado.
Adeus, fanático.

Hugo disse...

Eu não recebi o pacote.Infelizmente.Também achas que sou descortês por natureza só porquê tenho opiniões divergentes das do senhor?

Orlando Tambosi disse...

Então você não merece confiança, dracon73@terra.com.br.
Bem que eu desconfiei.

Anônimo disse...

Hugo é frei petralha, Tambosi!!!



A.B.

Maria do Espírito Santo disse...

Cultura de almanaque. Exatamente: cultura de almanaque.

É impossível discutir com quem não tem esteio, suporte, raiz, embasamento, arché científica, cultural ou filosófica.

Critica os autores citados por um brilhante professor e pesquisador, mas, no entanto, cita quais autores nos seus pitacos estúpidos?

Nenhum!!!

Já disse e repito Hugolino, vá pro confusionário confessar os seus pecados.

A discussão aqui está em um nível que você é incapaz de acompanhar.

Hugo disse...

Tambosi,o dracon é porque no brasão de minha família no quadrante da direita tem um dragão de prata.O 73 se refere ao ano em que fui à Alemanha visitar meus parentes na Baviera.Visitei meus avós paternos pela única e última vez porque vieram a morrer em 1974 e 1975.Apesar da distância eles sempre escreviam com frequência e tenho o maior carinho por eles.

Até disso usas pra me atacar?Cadê o tal espírito científico e intelectual?

Como diria meu pai:"Um embate é válido somente se um dos contendores faz o embate valer a pena".Não é o seu caso,Tambosi.

Ah!sim:"História da Química" do Prof.Jurgeen Maar da UFSC.Leia ao menos a parte sobre a Química Árabe.De repente você para de achar que o mundo ´so é mundo por causa dos gregos....

Leonardo de Oliveira Martins disse...

Eu, que admiro as inovações científicas e as tecnológicas não entendo a crítica ao post. O texto é claro em atribuir a genialidade de egípcios e chineses, e a mim me impressiona ainda mais que eles a tenham conseguido sem um conhecimento científico. Não os diminui.

Por outro lado, talvez, se minha ideologia me impedisse de reconhecer avanços tecnológicos como importantes, eu tentaria chamá-los de científicos...

Orlando Tambosi disse...

Não acredito em mais nada do que você diz, Hugo.
Chega.

Orlando Tambosi disse...

Ei, Leo,
me mande o endereço (por e-mail) para que eu mande o livro autografado.

Abraço

Maria do Espírito Santo disse...

Se Hugolino voltar aqui, seu brasão vai virar falta de vergonhão no carão...

Anônimo disse...

Hugo é o DF do sul

Anônimo disse...

calma pessoal
calma e maracugina.
temos muitas trucadas pela frente

Até Honduras vai ao encontro europeu,apesar do bolivarianos ameaçarem com boicote!
A alegação agora é que pode ir mas não pode usar o mesmo banheiro,ou a mesma mesa,sei lá.
MAS QUE VAI,VAI Sr Porfirio Lobo Sosa

http://www.elheraldo.hn/Pa%C3%ADs/Ediciones/2010/05/06/Noticias/Honduras-si-participara-en-cumbre-con-UE
fui.

Anônimo disse...

Pois eu virei hugófobo!!!


Nelson

Anônimo disse...

Trasímaco
Sócrates
Gláucon
Adimanto

Vamos ver quem é quem por aqui?

Anônimo disse...

tô na área
Ciência?
Por incrivel que pareça ACHARAM AS CAIXAS PRETAS do avião da Air France.
Será verdade?.

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/air-france-caixas-negras-do-voo-af-447-encontradas
fui.

Anônimo disse...

A filosofia grega jamais teria sido desenvolvida sem a democracia ateniense, a independência das cidades estado e a tolerância da religião grega. O primeiro imperador da China mandou queimar as obras de Confúcio. O livre pensamento representava uma ameaça à unidade do império. O fanatismo religioso e ideológico emperram o desenvolvimento científico.

DD disse...

O curioso, Anônimo, é que a conclusão a que chegou essa mesma filosofia grega foi que a democracia não prestava.

Anônimo disse...

Platão realmente se opôs à democracia. Convém lembrar que em sua época a democracia era direta e os cidadãos opinavam sobre tudo. Segundo Platão, as decisões de estado deveriam ser tomadas apenas por especialistas altamente qualificados. O que é apenas uma utopia inviável porque o poder absoluto corrompe de forma absoluta.

Anônimo disse...

"Utopia inviável". Me desculpem pela redundância.

DD disse...

O "arranjo" institucional de hoje, parece, tem menos a ver com a Grécia do que com Roma e o seu "regime misto". A democracia moderna parece ter emergido mais do pragmatismo do que de uma filosofia política clara, como desejavam os filósofos gregos. Roma tornou-se um símbolo da opressão e da ausência da liberdade no mundo moderno, mas, curiosamente, desde que os gregos foram colocados no lugar dos romanos como mestres do Ocidente (o que foi obra do idealismo e da filologia alemã), o pensamento tirânico passou a correr solto. Isso é apenas uma observação. Veja, por exemplo, a oposição que há nos EUA, o regime liberal mais bem acabado que temos hoje, entre "republicanos" e "democratas" que nos lembra de que esses termos não são exatamente sinônimos.

Quanto à "liberalidade" da democracia ateniense, tenho minhas dúvidas. A própria condenação de Sócrates aponta os limites claros desse regime. Além disso, Platão não teria necessidade de criar uma obra em que houvesse uma dimensão exotérica e outra esotérica se de fato estivesse num ambiente amigável.

Não me parece que Platão, depois do exemplo de Crítias, tenha desconsiderado o fato de que o poder pode corromper.

Jorge Luiz Lemos de Sá disse...

Gostei do texto do post e estou interessado na compra do livro.Como devo fazê-lo?

Platão era pouco realista e portanto ele achava que só a classe superior poderia governar.Cabia a inferior obedecer.E a democracia grega não era aberta a todos.Escravos,estrangeiros e mulheres não tinham direito algum a voto.A noção democrática que temos hoje provém da luta das comunas medievais contra o poder da nobreza e da regulamentação mediante leis das funções do rei também havidas na Idade Média.Creio que a Magna Carta e os Forais da Liga Lombarda são exemplos disto.

DD disse...

Eu não apontaria uma única origem para o regime liberal moderno, Jorge, embora você tenha nos lembrado de dois fenômenos importantes. Veja que essa legislação lombarda, por exemplo, não impediu que a região caísse nas mãos de ferro dos Visconti e dos Sforza posteriormente.

O exemplo da república romana me parece interessante nem tanto por ter sido inspiração direta para os modernos, mas porque mostra que uma liberdade maior é garantida por um processo de ruptura e acomodação, e nem tanto pela iniciativa de lesgisladores autoritários iluminados (dos quais o maior exemplo é Licurgo).

DD disse...

Ah, antes que eu me esqueça: também a república romana caiu em mãos autoritárias, ao fim, com ascensão de César.

Mas eu acho que o processo de degeneração das organizações políticas é inevitável.

Anônimo disse...

A democracia ainda é a melhor forma de governo. Há quem queira acabar com ela. Como os bolivarianos por exemplo.

José L.Lemos de Sá disse...

A República Romana foi na verdade a consolidação do poder das famílias patrícias com a eliminação da figura do rei.Durante o tempo que Roma foi pequena o domínio dos patrícios foi amplo e total.Quando porém Roma saiu de sua posição de potência local para regional e depois começou sua gloriosa caminhada para o poder mundial os ajustes vieram mas sem destruir a essência da República.Isto durou até que os interesses particulares de generais e suas legiões impusessem novamente e se fizessem valer mais sobre a letra da lei republicana.A situação do plebeu só foi melhorar de novo nos tempos da crise ddo século III D.C.

A Liga Lombarda é bem anterior aos Sforza e aos Visconti.Ela nasceu do desejo das cidades do norte da Itália se livrarem do jugo do incômodo Sacro-Império Romano Germânico.Os Visconti porém foram uma reação a uma certa anarquia que tomou conta das cidades italianas do norte depois que as comunas viraram um ninho de golpes e revoluções.

Agradeço a você DD pela atenção e pelas observações.

José L.Lemos de Sá disse...

Quem é ou o quê é Hugo?

Um tanto virulento e confuso mas até que algumas informações batem com o que li.

E porque alguns se dizem hugófonos?

Anônimo disse...

tô na área
alô J.LL de Sá
Acontece que o Hugo é um tanto quanto católico/cristão em demasia para alguns e eu me apresento como a mosca da sopa.O que temos que aprender que na net o espaço é limitado e as idéias obrigatóriamente necessitam ser suscintas mas NEM TUDO CABE NO SUSCINTO.
Bem vindo à este recanto de idéias,boas idéias suponho.
karlos

fui...

DD disse...

Sim, eu sei que a Liga Lombarda é anterior à ascensão dos Visconti e dos Sforza. O que eu quero sinalizar é que essa abertura, tempos depois, acabou sendo desfeita pelos tiranos iluminados dos séculos XV e XVI, como você bem notou, por conta de uma certa anarquia. Esse precedente não impediu a decadência do modelo e, dado que houve um interregno importante e bastante longo até a nova abertura e fortalecimento da democracia liberal (o despotismo "dourado" das grandes famílias italianas), não pode, a meu ver, ser tomado como única fonte de inspiração dos regimes modernos. Foi uma fonte relevante, sem dúvida, mas creio que outras também contribuíram bastante.

Quanto à república romana, é preciso dizer que foi fundada porque o povo tinha confiança nos patrícios, que, no início, davam provas de grande virtude e respeito às leis. Sem dúvida que auferiam dessa situação grandes benefícios, mas o povo, parece, não se sentia pisoteado: o recurso aos tribunos funcionava bem. Era um regime aristocrático no sentido clássico do termo. Aos poucos, porém, essa casta foi se acanalhando e corrompendo, tornando-se uma oligarquia pura e simples. A plebe, então, deu ouvidos aos Mários e aos Silas da vida, e o sistema político veio ao chão, tornando César a opção menos deletéria naquele momento. Novamente, observa-se aqui a noção de que os sistemas políticos não são indefinidamente sustentáveis (uma ilusão compartilhada por muita gente hoje em dia) e que, quando a sociedade é tomada de corrupção, uma mudança de regime torna-se quase inevitável.

Uma diferença fundamental entre a afirmação no poder das grandes famílias romanas antigas e dos "ottimati" italianos a partir do final da Idade Média era a falta de legitimidade dessas últimas. Era difícil manter a estabilidade quando se estava à margem e sob a ameaça de poderes mais consolidados, como o Papado e o Sacro-Império. Mas o exemplo mais "bem-sucedido" de estabilidade da época, Veneza, que adotou um despotismo oligárquico que lhe deu alguma estabilidade, provou-se, ao longo do tempo, muito ruim, e o Veneto foi tomado por uma pobreza terrível depois de tantos séculos de opressão.

Vivendo, pois, numa democracia, nossa tarefa é lutar para que fiquemos dentro dos estritos limites desse regime, sem regredir a um estado de coisas oligárquico, ou, o que é pior, cair na oclocracia, que é sempre o vestíbulo dos tiranos.

Acho que estamos razoavelmente de acordo, não?

Eu é que lhe agradeço, José (Jorge?), pela atenção dispensada.

Anônimo disse...

vocês ficam discutindo com padre... dá nisso! Não falei que o cara estava preso lá na Idade Média?? Está lá, grudadinho no brasão da família. Brasão da família!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
lamento, mas jogaste um livro fora, professor :)
abraço
ph

José Luiz Lemos de Sá disse...

Caro DD:Mil desculpas mas eu nem vi que tinha postado aqui com o nome de Jorge.Desculpe-me a falha.Meu nome é José.Talvez eu estivesse com a cabeça cheia pensando em meu filho Jorge que está na Nova Zelândia faz uns 2 anos.Foi catar kiwi.E de novo não poderá visitar a sua mãe neste dia das mães.Pena.É a vida.

Anônimo disse...

O que difere a filosofia dos dogmas religiosos e ideológicos é que a primeira permite a contestação.

José L.Lemos de Sá disse...

Caro sr.anônimo(sic) ph:Ter um brasão de família não é nenhuma demonstração de estar preso na idade média mas sim o de manter vivas as lembranças gloriosas da família.Caso o senhor não saiba os de Sá-minha família-estão neste país desde 1616 e o brasão foi dado pela bravura de um meu antepassado Antônio Robalo Gomes de Sá que se destacou na luta contra o invasor holandês,tendo perdido inclusive 2 filhos durante a guerra.Um brasão lembra das glórias de uma família e mais nada,o que pra mim é importante.Zombar do senhor Hugo por mais fanático que ele seja em sua defesa de idéias meramente porque tem um brasão de família é ser simplista demais.Com certeza até você teria direito a um brasão se pesquisar bem.E com certeza se for de alguém importante vai me dizer que não exibirá isso com orgulho pra impressionar as pessoas?Para mostrar o orgulho que tens da tua família?

Anônimo disse...

As ditaduras comunistas ficaram de tal forma estigmatizadas que os seus defensores agora falam em aperfeiçoamento da democracia. Querem aperfeiçoar a democracia enfraquecendo as instituições democráticas. Defendem medidas autoritárias disfarçadas de plano de direitos humanos.

Cfe disse...

Que grande dor de cotovelo...

Anônimo disse...

Me dá, um brasão, tio, me dá um brasão, por favor??!!
buá, buá, eu não tenho brasão! vou já fazer análise. Será que Freud me ajuda a superar a falta de um brasão familiar?
ph

Anônimo disse...

???????

Anônimo disse...

malandro esperto da gema...

Anônimo disse...

Definitivamente, os padrecos estão em plena cruzada. O que diabos (ops!) fazem tantos carolas num blog de um ateu (ok, agnóstico, vá lá)?
ph

Jairo disse...

Só vi dois carolas.Um foi embora pra sempre e o outro sumiu.Estamos livres deles.

Mas fica a impressão de que a democracia não é o forte de alguns por aqui.....

Anônimo disse...

Dogmas são dogmas.
Não importa se religiosos ou ideológicos.
São Marx.

Luis Anastasía disse...

Apreciado Orlando:
muy interesantes reflexiones. Leí el post y todos los comentarios. Algunos también muy interesantes y otros divertidos hasta la pura risa. Me parece que Hugo tiene una gran confusión mental. Un simple razonamiento: los chinos no inventaron la pólvora por un proceso científico que llevaron a un conocimiento de la química y dijeron... caramba, si mezclamos tales compuestos, producidos con tales elementos, tendremos una reacción fuertemente exógena (no se como se escribiría en chino, pero más o menos sería la traducción) sino por ensayos, prueba y error o pura casualidad. Tampoco levantaban cometas con el viento, y las terminaron usando hasta como usos militares importantes, porque tuvieran conocimiento profundo de dinámica de fluidos y aerodinámica, sino por prueba y error.
No carece de verdad lo que Hugo menciona sobre los árabes y su civilización. En realidad fueron los responsables de atesorar el conocimiento de los grandes pensadores antecesores de la civilización griega y romana, lo expandieron por el norte de África y lo reintrodujeron en Europa por la península ibérica. Su propia religión fue un impedimento para una mayor expansión intelectual, pero sus escritos fueron los cimientos para el resurgimiento de la base de la ciencia actual en la protociencia de la edad media. Para más ejemplo, Ibn Sina (o Avecina en español y portugués) el gran médico persa lo que hizo fue desarrollar esa rama de la ciencia en base a una enorme capacidad de síntesis de conocimientos anteriores y de pura observación, pero no fue, tal como se concibe en la actualidad, un verdadero científico.
Lo triste, lo más terrible, es que ahora se habla de una ciencia post normal por la cual el conocimiento y la verdad se hace por concenso.

Cuando tu libro esté disponible me gustaría saber como acceder a él.
Abrazos

Paulo Henrique disse...

Democracia é deixar os carolas c. regra por aqui, pois não? Se falam o que querem, devem ouvir o que não querem.
O problema, meu caro Jairo, é que discutir com esses caras é uma perda de tempo. Qualquer discussão vai descambar para a defesa do catolicismo, essa elevada entidade que tanto tem contribuído para o desenvolvimento da humanidade. Veja, eu defendo o direito de cada um acreditar no que quiser, mas daí a trazer suas convicções religiosas para todo santo debate é um saco. O cara não consegue deixar o crucifixo em casa!

Anônimo disse...

Neocomunas não toleram o livre pensamento. Consideram a si mesmos como iluminados. Cabe aos outros apenas seguir o que determinam.

Paulo Henrique disse...

Never argue with an idiot, they drag you down to their level and then beat you with experience.(Scott Adams)

Jairo disse...

Eu não gosto de carolas mas se as idéias discutidas aqui tiverem algum embasamento razoável dentro de um espírito científico acho que é válido ao menos conferir se o que dizem é verdade ou propaganda religiosa apenas.Taxar alguém de idiota apenas porque seu ponto de vista é distinto do seu é um passo ruim em direção ao fascismo.Eu não gosto de comunistas e carolas mas entendo que rebater seus delírios traria mais luz do que simplesmente xingá-los.Mostrar suas falhas ou desmascarar suas invencionices é bem mais salutar.

Cfe disse...

Alguem que cita o criador do "Dilbert" só pode ter uma eterna dor de cotovelo e uma necessidade de explicar sua frustação pelos defeitos daqueles com o quais não concorda: não vê pessoas mas grupos

Não duvido nada que admire Hitler, ou indivíduos do genero.

Paulo Henrique disse...

No sense of humor??!! Don´t you guys like Dilbert?
CFE, fique tranquilo, você não é um idiota.

Paulo Henrique disse...

Pessoal, eu estou acostumado com discussões sobre ciências, entre pessoas com pontos de vista muito diferentes. meu mestrado tinha professores, digamos, muito heterodoxos, com pontos de vista muito diferentes dos do Tambosi, por exemplo. Mas eram discussões laicas; ninguém trazia pontos de vista religiosos, ainda que estivessem tratando de pensadores com fortes ligações religiosas, como Roger Bacon ou Agostinho. não estavam em cruzada em defesa da igreja católica. O mesmo para Avicena, Averrois, etc. Não me venham com esta historinha de comparação com fascismo porque isso, sim, é um comportamento fascista.
toda discussão aqui, e este post é uma prova disso, descamba para algum aspecto de religião.
give me a break.

Cfe disse...

"CFE, fique tranquilo, você não é um idiota."

Eu tô tranquilo... e com sua garantia estou mais ainda.


"toda discussão aqui, e este post é uma prova disso, descamba para algum aspecto de religião"

Onde é que está isso que afirma?

Eu não me envolvi, não acompanhei e não li todos os comentários, mas percepciono, como noutras alturas, essa espécie de acusação que parece pretender fuga.

PS: não aprecio muito o Dilbert, porque representa o tipo do funcionário que só daria lucro comprando o que realmente vale e vendendo pelo que julga valer.

Cfe disse...

"lucro comprando PELO o que realmente vale..."