
Recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu que a obra Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século continue sendo distribuída a alunos da rede estadual, por ter "elevado conteúdo sexual".
O conto que gerou a a decisão do TJSP é "Obscenidades para uma Dona- de- Casa", de Ignácio Loyola Brandão, que conta a história de uma mulher casada que recebe cartas anônimas de um homem.
Cito o primeiro parágrafo do perigoso texto:
Três da tarde ainda, ficava ansiosa. Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo. (Continua).
(Danke, Maria).
4 comentários:
tô na área
A rede estadual não é o problema.
Seria a turma que teria acesso ao livro?
Para adolescentes não tão adolescentes não me parece uma linguagem desconhecida,mas para pré adolescentes a história é outra.
fui....
Se a censura a textos jornalísticos é inconcebível, o que dizer da censura a textos literários?
A literatura é impura em si mesma no sentido de ser sempre mistura de tudo o que o homem vê, imagina, acredita, pensa, sente, sonha e deseja.
Se é um abuso a censura ao jornalismo que lida com a realidade cotidiana, do que chamar a censura ao que é a expressão mais completa daquilo que somos? De ultracensura?
Além disto, a função catártica da literatura ajuda tanto o autor quanto os leitores a conviverem com seus fantasmas, suas frustrações, seus impulsos destrutivos, o lidar com luto pela morte, a comemorar a alegria da vida.
Quem não sublima sentimentos e desejos condenáveis - e não estou me referindo aos sexuais e sim aos desejos de espancar um desafeto até a morte, por exemplo - corre o risco de reprimir tanto esse tipo de impulso a ponto de ele vir a se manifestar em atos extremos.
Assim sendo, a literatura é também uma via de autoconhecimento que propicia também a possibilidade de um autocontrole desejável para a vida em sociedade.
De certa forma, a literatura é uma forma de se conhecer a si mesmo, como recomendava Sócrates ou como propõe a psicanálise.
Como é possível, então, censurar uma atividade que além de lúdica, de crítica e de pedagógica, é acima de tudo uma atividade de autoconhecimento?
Censurar a literatura tira dos homens que a produzem e a desfrutam muito mais do que a liberdade: tira de todos nós a consciência de sermos animais simbólicos, com tudo o que essa característica tem de jubilosa ou de lamentável.
Além de tudo isso, escrever e ler costumam ser atos individuais, solitários, e que dizem respeito à vida privada. E quando braços do Estado se julgam no direito de invadir a privacidade e a intimidade dos indivíduos, está dado o adeus irrevogável à democracia.
Pegou pesado o Ignácio!
Sarsarugo!?!?
Bilola!?!?
Cacete, que vocabulário é esse???
Mais um vez a questão da execução de serviços públicos. Quem escolhe os livros a distribuir? Quem faz a triagem de conteúdos, avaliação de conteúdos? Quem avalia o preparo de professores para abordar os assuntos em classe e nas leituras de reforço? Essa e outras questões são pertinentes. Para que judicializar a entrega de livros para escolares pré-adolescentes e adolescentes? Não há critérios estabelecidos antecipadamente? Todo esse barulho poderia ser resolvido na raiz, sem alardes. Agora, da forma como está sendo feito, parece simplesmente censura. E censura é inadmissível.
Dawran Numida
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