Depois de longo tempo, a Editora da UFSC publica, enfim, meu livro A cruzada contra as ciências (quem tem medo do conhecimento?), que será distribuído às livrarias a partir desta semana. Versões resumidas dos dois primeiros capítulos, que ocupam mais de 100 páginas do livro, circulam na Internet e servem de aperitivo. Por enquanto, A cruzada pode ser adquirido na Livraria Virtual da EdUFSC. Eis o resumo da contracapa:O livro desmascara as ideologias anticientíficas contemporâneas, tanto de raízes religiosas (criacionismo) quanto filosóficas (relativismo pós-moderno), observando que a tecnologia, em parte, já conquistou os corações, mas as ciências ainda não conquistaram as mentes. O que essas ideologias mais temem é o poder dessacralizador do conhecimento, especialmente o científico.
Abaixo, reproduzo o sumário:
Capítulo 1 – A cruzada contra Darwin
Literalismo bíblico e analfabetismo em ciências
Darwin no banco dos réus
Criacionismo no Brasil
Sob o guarda-chuva do relativismo
Ciência definida (e defendida) no tribunal
Os mecanismos da evolução
A cruzada invade a academia
Do relógio de Paley à “caixa preta” de Darwin
A ratoeira de Behe
Desarmando a ratoeira
Capítulo 2 – É a ciência perigosa?
As feridas da modernidade e a anticiência
A bandeira do pós-modernismo
O legado frankfurtiano
De Marcuse ao Unabomber
Latouche e o “fim do Ocidente”
Ciência & tecnologia: um perigo?
Problemas éticos: da eugenia à bomba atômica
Capítulo 3 – Marxismo: tão perto da dialética, tão longe da ciência
A “nova lógica” de Hegel
A tortuosa trilha da dialética
A irrefutável crítica de Trendelenburg
Contradição lógica ou oposição real?
Marx: da crítica a Hegel...
...à jaula da dialética
Dialética e finalismo
Capítulo 4 – Kant, filósofo da ciência
Hegel, Kant e as ciências
Oposição real e crítica da metafísica
A concepção positiva da matéria
Kant e o realismo
Apêndice – Bobbio e o labirinto da história
Diálogos e polêmicas
O adeus do mestre
P.S: o livro é uma homenagem aos meus dois grandes mestres: Lúcio Colletti (1924-2001) e Fausto Castilho, um dos fundadores da Unicamp, ainda em plena atividade aos 80 anos.
E aqui vai, também, o Prefácio:
Apesar dos avanços propiciados à humanidade, as ciências e a tecnologia têm sido maltratadas por muitos filósofos (modernos e contemporâneos) e atacadas por movimentos religiosos e ideológicos de variada origem, a exemplo dos criacionistas e pós-modernistas, além de outras vertentes anticientíficas ou pseudocientíficas. A tecnologia, em parte, já conquistou os corações, mas as ciências ainda não conquistaram as mentes. E a ciência é, mais que tudo, um modo de pensar: aberto, não dogmático, falível, mas corrigível e aperfeiçoável. Distante da metafísica tradicional, ela não tem a pretensão de conhecer o “supra-sensível”, ou seja, alimentar certezas sobre o que está além da nossa condição de seres sensíveis e (razoavelmente) inteligentes. Busca romper a persistente opacidade do real e descrever o mundo tal qual é - ainda que aproximativamente, passo a passo -, sem prescrever normas ou valores morais, ideológicos ou religiosos. Se algum valor a guia, é unicamente o cognitivo. As revoluções científicas (astronômica, darwiniana) nos revelaram um universo sem desígnio, não antropocêntrico nem teocêntrico, mas fascinante por isso mesmo, porque acessível ao conhecimento, por mais insignificante que seja a nossa espécie – apenas uma entre milhões de outras. A imagem científica do mundo provoca mal-estar, mas o conhecimento tem seu preço.
Aparentemente tão poderosas, as ciências são, no entanto, frágeis. Correm sérios riscos, ou nem sequer florescem, em sociedades e culturas que lhe são hostis, embora apreciando os confortos e facilidades das tecnologias. Assim se esvaneceu um dia a ciência grega, com a civilização regredindo a um estado pré-científico, de que só emergiria no século XVII. Não bastam apenas descobertas e inovações para amoldar uma sociedade: é necessário passar adiante também o pensamento que as engendrou. Por isso, difundir o conhecimento e seus métodos é tão importante quanto gerá-los - uma tarefa para as escolas e universidades, para os próprios cientistas e para o jornalismo científico. A história nos ensina que essa luta já foi perdida uma vez.
Quanto aos capítulos do livro, pode o leitor seguir a ordem que lhe interessar, já que não se trata de um relato cronológico. O primeiro deles aborda a persistente cruzada dos criacionistas contra Darwin e a teoria da evolução, calcada na idéia – contrária a todas as evidências científicas – de que o universo foi criado de acordo com o Gênesis bíblico e de que a evolução segue um plano inteligente. O segundo capítulo trata dos adversários da ciência em geral, num panorama que vai de Marcuse e os frankfurtianos (excetuando-se Benjamin) ao Unabomber, passando por neoluditas, pós-modernistas e apocalípticos como Serge Latouche, o novo profeta de uma velha idéia: a do “fim do Ocidente”. O terceiro analisa a questão da dialética, incompatível com os métodos científicos, a partir da conexão entre o marxismo e Hegel. É justo ressalvar, a propósito, que nem Marx nem o marxismo são inimigos da ciência e da tecnologia. Mas, quanto mais se aproximaram da dialética, de que são herdeiros, mais se afastaram da ciência, supondo erroneamente a existência de contradições na realidade. O quarto e mais complexo capítulo – uma defesa do princípio aristotélico de não-contradição - é dedicado a Kant, o único pensador da filosofia clássica alemã a manter uma relação positiva com as ciências, já que seus pósteros tentaram, na verdade, reabilitar a velha metafísica, com Hegel na linha de frente. Em apêndice, o capítulo sobre Bobbio, cuja visão da história como labirinto – isto é, sem finalismo – converge para o realismo do pensamento científico.
* * *
Em agradecimento, não poderia deixar de mencionar alguns colegas e amigos, primeiros e pacientes leitores: Desidério Murcho, um guerreiro da filosofia em Portugal, pelo incentivo; Regina Carvalho e Maria do Espírito Santo G. Canedo, pela corretiva leitura destas páginas, duras e intrincadas em alguns trechos, como perceberá o leitor; e Hélio Schwartsman, editorialista da Folha de S. Paulo, que me brindou com críticas e sugestões pertinentes. Sou grato a todos, ressalvando que a responsabilidade por tudo é exclusivamente minha. O livro é dedicado a Elzira e Lina.

"A cruzada contra as ciências" sai do forno