quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Searle: contra o relativismo do mundo acadêmico.

Do filósofo norte-americano John Searle, um texto sempre atual, principalmente no ambiente acadêmico brasileiro, minado pelo relativismo feroz e ideologicamente infestado. Quem já leu, vale a pena reler.


Há décadas que assistimos, nas universidades americanas que se dedicam à investigação, a debates sobre a natureza do ensino superior. Controvérsias arrebatadas sobre o plano de estudos, sobre as exigências acadêmicas e mesmo sobre os objetivos do próprio ensino superior não são coisas novas. Mas os debates agora em curso são em certos aspectos invulgares. Ao contrário dos reformadores acadêmicos do passado, muitos dos que atualmente põem em causa a tradição académica têm fins políticos explicitamente de esquerda e procuram atingir objetivos explícitos. Além disso, e o que é mais interessante, põem em causa muitas vezes não apenas o conteúdo do plano de estudos, mas as próprias concepções de racionalidade, verdade, objetividade e realidade que foram dadas como garantidas no ensino superior, tal como têm sido dadas como garantidas em geral na nossa civilização. Não desejaria exagerar este aspecto. Aqueles que põem em causa a tradição apresentam vários pontos de vista e argumentos diferentes. Não estão de modo algum unidos. Mas houve uma mudança nas discussões sobre os objetivos da educação no sentido em que os ideais que previamente quase toda a gente partilhava nas disputas — ideais de verdade, racionalidade e objectividade, por exemplo — são agora rejeitados, até mesmo como ideais, por muitos dos que colocam as coisas em causa. Isto é uma novidade.

Em algumas das disciplinas das humanidades e das ciências sociais, e mesmo em algumas escolas profissionais, desenvolvem-se agora duas subculturas universitárias mais ou menos distintas, poderia quase dizer-se duas universidades diferentes. A distinção entre as duas subculturas atravessa fronteiras disciplinares e não está claramente marcada. Mas existe. Uma das subculturas é a da universidade tradicional, dedicada à descoberta, alargamento e disseminação do conhecimento, tal como este é tradicionalmente concebido. A outra exprime um conjunto muito mais diversificado de atitudes e projectos; mas, unicamente para ter uma denominação, irei descrevê-la colectivamente como a subcultura do «pós-modernismo». Não quero sugerir que este conceito está bem definido nem mesmo que é coerente, mas ao descrever qualquer movimento intelectual é melhor usar termos que os seus próprios partidários aceitariam; e este termo parece ser aceite como uma autodescrição por muitas das pessoas que irei discutir.

Referi-me acima a «debates», mas isso não é completamente exacto. Na realidade, não há grande coisa em termos de debate explícito entre estas duas culturas sobre os temas filosóficos centrais que dizem respeito à missão da universidade e às suas bases epistémicas e metafísicas. Há muitos debates sobre temas específicos, como o «multiculturalismo» e a «acção afirmativa», mas não há grande coisa em termos de debate sobre os pressupostos da universidade tradicional e das suas alternativas. Nos relatos jornalísticos descreve-se habitualmente em termos políticos a distinção entre a universidade tradicional e o discurso do pós-modernismo: a universidade tradicional reclama o amor ao conhecimento pelo seu próprio valor e pelas suas aplicações práticas, e procura ser apolítica ou pelo menos politicamente neutra; a universidade do pós-modernismo pensa que todo o discurso é em qualquer caso político e procura usar a universidade para fins políticos benéficos e não repressivos. Esta caracterização é em parte correcta, mas penso que as dimensões políticas desta disputa só podem compreender-se à luz de uma disputa mais profunda sobre questões filosóficas fundamentais. Os pós-modernistas tentam colocar em causa certos pressupostos tradicionais sobre a natureza da verdade, objectividade, racionalidade, realidade e qualidade intelectual. (Continua).

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1 comentários:

paulo araújo disse...

Muito legal o artigo, Tambosi

Os intelectos que trabalham no campo das disciplinas das humanidades teriam muito mais a ganhar se, por exemplo, dedicassem tempo e energia no estudo do renascentista Bacon ou do materialista Diderot.

A respeito de Diderot, a influência de Bacon em seu pensamento e outras iluminações não menos interessantes, há uma boa leitura: Diderot – O Espírito das “Luzes”. Jacó Guinsburg: “A Enciclopédia atuou de maneira decisiva sobre o pensamento do seu diretor. Com efeito, foi graças às tarefas que ela lhe atirou sobre os ombros que Diderot descobriu Bacon e preocupou-se a fundo com o método nas ciências.” Guinsburg mostra como ocorreu no pensamento de Diderot “uma efetiva introdução da variável tempo no universo, a história natural”. A partir dessa noção “e das ideias de geração espontânea e de transformação, Diderot sugere o quadro de um universo em perpétuo devir”.

“Que sequência prodigiosa de gerações de efêmeros atesta nossa eternidade!", diz Diderot na Carta sobre os cegos.

Contra a ideia da supremacia da intuição, como a exposta no campo idealista, Bacon procurou mostrar que ver de uma só vez as diversas partes de um conjunto é, em ciência, sempre algo a ser modificado, exatamente pelo trabalho de pesquisa unido aos acontecimentos mutáveis. O método de Bacon propõe uma nova maneira de estudar os fenômenos: a descoberta de fatos verdadeiros não depende mais exclusivamente de esforços puramente mentais, mas caminha unida à observação e à experimentação.

Assim, a noção de objetividade em ciência liga-se à objetividade dos instrumentos da pesquisa. E os instrumentos da pesquisa são o método [novum organum] aliado à maquinaria de correção e ampliação do objeto imediatamente visível ao olho nu. Bacon saudou a correção e o refinamento dos olhos propiciados pelas próteses óticas [o telescópio e o microscópio] surgidas no Renascimento. Os instrumentos óticos corrigem e refinam a vista, ampliando o seu alcance para infinitos físicos e biológicos, trazendo à luz do intelecto o que está oculto na natureza.

Em ciência, o pensamento é um contínuo exercício de pesar e medir e de trazer os dados empíricos para a língua dos conceitos. E os conceitos podem ser verificados se ao enuncia-los o pesquisador em ciência apresentar aos seus pares o método e os dados empíricos. É assim que funciona ou deveria funcionar a comunidade científica. Nessa comunidade não há lugar para a intuição do que estaria oculto na natureza. O campo da ciência é o fenômeno, controlado objetivamente.