quinta-feira, 29 de setembro de 2011

As diferenças históricas entre ciência e tecnologia


Um dos posts mais acessados neste blog (desde maio do ano passado) é um trecho do meu livro A cruzada contra as ciências (quem tem medo do conhecimento?), lançado em2010 (ver seção Livros, à margem direita). Reproduzo-o aqui, em homenagem aos visitantes que não o leram e aos meus novos alunos - aos quais jamais recomendei o livro.

Bene, quem quiser conhecer o resto da história, que vá adiante...

(...) É importante distinguir ciência e tecnologia, cujas motivações são diferentes. Ambas estão hoje tão imbricadas que já se tornou comum aplicar-lhes a sigla C&T, ofuscando algumas diferenças fundamentais. Em poucas palavras, ciência produz idéias, teorias, informações; tecnologia produz objetos, bens, voltados para as necessidades e demandas do mercado. Uma busca simplesmente conhecer; outra, visa a fins práticos. Ambas envolvem processos cognitivos, mas seus resultados são diferentes. O produto final de uma atividade científica inovadora, em geral, é uma declaração escrita, um paper anunciando uma descoberta experimental ou uma nova teoria. Já o produto final de uma inovação tecnológica é, tipicamente, um acréscimo à realidade material: um relógio, uma máquina, um aparelho de barbear, um telefone celular. Fundamental, para a tecnologia, é o artefato - artefatos são seus meios e seus fins. 

Convém observar que a tecnologia é muito mais antiga que a ciência e possui uma história própria. O historiador da tecnologia George Basalla lembra que ela é tão antiga quanto a própria humanidade, sendo um equívoco defini-la como aplicação de teorias científicas para a resolução de problemas práticos. A tecnologia não é “serva da ciência”. Para ficar num só exemplo, a tecnologia egípcia era superior à dos gregos, criadores da ciência. Igualmente sem o auxílio de conhecimento científico, a antiga tecnologia chinesa realizaria expressivas conquistas (o papel, a imprensa, a bússola e a pólvora, entre outras). No entanto, embora fossem hábeis engenheiros e atentos observadores dos fenômenos celestes, os chineses deixaram poucas contribuições em termos de conhecimento científico. O fato é que eles cultivavam uma “visão mística do mundo”: o universo é concebido como algo organizado hierarquicamente, em que cada parte reproduz o todo. “O homem é um microcosmo que corresponde ao inteiro universo: o corpo humano reproduz o esquema do cosmo.” Joseph Needham, o grande estudioso e entusiasta da cultura chinesa, também se refere a essa concepção holística. “A concepção mecânica do mundo”, escreve ele, “não se desenvolveu no pensamento chinês e, pelo contrário, a idéia organicista segundo a qual cada fenômeno está conectado a todos (...) os demais, segundo uma ordem hierárquica, foi universal entre os pensadores chineses”. 

A investigação racional sobre o homem e sobre a natureza, como ressalta Pellicani, “é uma criação especificamente e exclusivamente grega”, fruto da ruptura entre mito e razão (Logos), que possibilitou o florescimento do pensamento filosófico e científico e a passagem da sociedade fechada à sociedade aberta. Trata-se de um rompimento com os valores sacros da tradição - a fé dos ancestrais - de que não se tem notícia em outras culturas. A análise é corroborada pelo historiador das ciências Charles Gillispie: 

A ciência deriva, em últimas palavras, do legado da filosofia grega. É certo que os egípcios desenvolveram técnicas de agrimensura e realizaram certas operações cirúrgicas com notável finesse. Os babilônios dispunham de artifícios numéricos de grande engenhosidade para prever os modelos dos planetas. Mas nenhuma civilização oriental foi além da técnica e da taumaturgia para chegar à curiosidade sobre as coisas em geral. Entre todos os triunfos do gênio especulativo grego, o mais inesperado, o mais verdadeiramente novo foi precisamente a concepção racional do cosmo (....). A transição grega do mito para o conhecimento foi a origem da ciência e da filosofia. 

Num livro tão admirável quanto provocativo, o matemático e historiador das ciências Lucio Russo compartilha essas interpretações sustentando que não havia “ciência” nos antigos impérios, nem mesmo na Grécia do século V a.C. e nem sequer nas obras de Platão e Aristóteles, embora este último tenha antecipado algumas características das ciências empíricas. O método científico só despontaria no curso do século III a. C., sendo “uma característica essencial da civilização helenística”, cujo ponto de origem é o império de Alexandre Magno. Traçando um panorama histórico da ciência grega desde o nascimento até a decadência, com o advento do Império Romano (e a conseqüente regressão da civilização a um estado pré-científico, que perduraria até o século XVII), o autor demonstra que a revolução científica moderna - a partir de Copérnico, Galileu e Newton - foi em parte uma retomada do que se perdera com a destruição da civilização grega: Aristarco de Samos, por exemplo, já desenvolvera a hipótese heliocêntrica no referido século III a. C. 

Em resumo, todos os povos produziram tecnologias, mas só o povo grego criou a ciência e a filosofia de que somos herdeiros. Basalla demonstra que, até o século XIX, a ciência exerceu pouco impacto sobre a tecnologia. Sem auxílio da ciência, a tecnologia gerou a agricultura, os artefatos de metais, as conquistas da engenharia chinesa e até mesmo as catedrais do Renascimento. Essas imponentes catedrais, com suas enormes cúpulas e altas naves, foram erguidas por engenheiros que se baseavam na experiência prática, aprendendo diariamente com os erros, e não em teorias científicas. Prevalecia então, como sugere outro autor, o “teorema dos cinco minutos” – se uma estrutura permanecesse de pé por cinco minutos depois de retirados os suportes, presumia-se que se manteria de pé para sempre. 

O recente matrimônio entre ciência e tecnologia pode ser ilustrado com a história da comunicação radiofônica. As ondas eletromagnéticas não foram descobertas por experimentação, mas a partir das equações elaboradas pelo físico escocês Maxwell (1831-79). Em 1887, Hertz (1857-94) demonstraria a propagação de tais ondas, sem atentar, contudo, para a sua importância para as comunicações. Coube ao italiano Marconi (1874-1937), um autodidata, lançar as bases para seu aproveitamento industrial e comercial: foi ele o primeiro a estabelecer comunicação entre a Europa e os Estados Unidos. Desde o final do século XIX, portanto, C&T andam de mãos dadas – com as bênçãos da indústria, que na mesma época fundaria as primeiras empresas baseadas em conhecimento científico (nas áreas de química e eletricidade). Hoje, nada de realmente novo existe que não seja resultado da pesquisa científica. (copy: Orlando Tambosi)

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4 comentários:

Anônimo disse...

tô na área
Sou "obrigado",creio que pela primeira vez em blogs dizer:
Parabéns pelo texto.
Sou por demais econômico em rasgar elogios,pois devemos estar sempre à espera de coisa melhor!!.Mas,existem alguns conhecimentos chineses,que chegaram meio que vagamente até nós que devem ter sido fruto de trabalho"científico",e de concordar com o autor da idéia chinesa/oriental do mundo distinta da visão grega/ocidental.
Para quem desejar penetrar no mundo chino,vai o site dedicado à CONFUCIUS
http://www.chinakongzi.com/2550/eng/
E uma página muito boa(?)de tudo,ou quase tudo sôbre a China.
http://www.chinapage.com/

fui...

lgn disse...

Sr. Orlando. Surgiu-me a curiosidade sobre a área em que o senhor dá aulas.

Orlando Tambosi disse...

Ign,

dou aula na graduação e pós-grad. do Curso de Jornalismo (disciplinas de Filosofia e Epistemologia, entre outras).

lgn disse...

Obrigado pela resposta. Como permanente estudante, penso que aproveitar o seu conhecimento me é muito útil. Tenho um pequeno grupo de amigos, de diversas atividades profissionais, que trocam idéias sobre vários assuntos permitindo que haja uma espécie de sinergia de grupo que nos mantém ao menos próximos dos acontecimentos que julgamos mais importantes para cada um de nós. Quanto mais o sr. se dispor a contribuir em seu blog com artigos de própria lavra, melhor para nós seguidores.