quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Retrato do velho e feroz relativismo: tudo é opinião, ponto de vista, mero relato.

Para o relativista, é tão seguro ler em casa quanto no trilho do trem.

Muitas vezes falei aqui contra o relativismo. Tentarei explicar qual é a minha bronca com os relativistas. Não acho que tudo seja relativo nem considero que tudo seja absoluto. Há nuances.

Ninguém foi tão iluminante ao caracterizar as diferenças entre relativo e absoluto quanto o saudoso Robert Nozick (falecido em 2002, e do qual só foi traduzido aqui o juvenil Anarquia, Estado e Utopia, livro que já o irritava). Sua última obra, Invariâncias, traça o seguinte quadro:

Relativismo radical - "todas as verdades são relativas";
Relativismo brando - "algumas verdades são relativas";
Absolutismo radical - "todas as verdades são absolutas";
Absolutismo brando - "algumas verdades são absolutas".

Se você quiser, pode substituir a palavra "verdade" por "conhecimento". Ora, algumas verdades (ou conhecimentos) são, de fato, relativas a um indivíduo: sei qual a parte do corpo que me dói. Mas há verdades que são absolutas, isto é, objetivas, universais: a biologia e a física da América do Sul não são diferentes da biologia da Rússia ou da China. O DNA é DNA em qualquer lugar, assim como a tabela periódica dos elementos.

O que o epistemólogo Nozick (que estava longe de ser somente o filósofo político da juventude) mostra muito bem é que há compatibilidade entre um relativismo brando e um absolutismo igualmente brando. As verdades ou conhecimentos das ciências são absolutas (principalmente as das ciências formais, como a matemática e a lógica), isto é, valem para todos. Mas o reconhecimento dessas verdades não elimina as verdades relativas, isto é, os conhecimentos relativos a uma pessoa ou grupo.

Ocorre que os conhecimentos relativos a uma pessoa ou grupo podem - e devem, em casos exigidos - se tornar objetivos, universais: se eu relato em uma reportagem aspectos de uma cidade que só eu conheço, transformarei isto em conhecimento universal, desde que isto possa ser checado por qualquer pessoa, comprovando a verdade ou falsidade de meu relato.

O problema - eis a minha bronca - é que predomina nas ditas ciências humanas e sociais o relativismo mais radical, que é um narcótico. Onde ele perdurar, não há ciência, já que, para esta postura nefanda, todas as verdades ou conhecimentos são relativos a indivíduos, grupos, tribos, sistemas, culturas, países etc. A ciência é universal ou não é ciência. Resumindo: em relação a métodos, o que só vale para a América Latina dos ditadores - ou para a Europa - não é ciência, mas ideologia (e haja saquinho!).
***
P.S.: um jornalista que acha que tudo é relativo se dará bem com o PCC, o Comando Vermelho, as Farc etc. Sobretudo, será um bom petista.

2 comentários:

SHAMI disse...

QUO VADIS
Professor..
no texto não seria "LER EM CASA quanto no trilho"?.
abraços

Orlando Tambosi disse...

Corrigido antes de ver. Abs.