quarta-feira, 30 de março de 2016

A sociedade aberta e seus inimigos

Em artigo publicado no jornal Observador, o professor João Carlos Espada (autor de A tradição anglo-americana da liberdade, entre outros) critica severamente o multiculturalismo que prolifera na Europa. Essa doutrina politicamente correta não defende a liberdade e a sociedade aberta. O multiculturalismo é, na verdade, "defensor da tribalização das sociedades em grupos colectivistas nos quais as pessoas são definidas pela pertença de origem". Está longe de ser, portanto, uma livre concorrência entre múltiplas tradições culturais e religiosas. Segue o texto na íntegra:


Os atentados terroristas da semana passada em Bruxelas chocaram o mundo civilizado. Contrariamente ao que pretendem os terroristas, também reforçaram a determinação de lhes fazer frente. Esta determinação deve ser subscrita por todos os defensores do mundo livre. E deve agora ser acompanhada das medidas necessárias para derrotar o terrorismo. É uma batalha longa e difícil. Mas é uma batalha que pode seguramente ser ganha pelas nossas democracias.

Um primeiro passo consiste em reforçar as forças de segurança e a articulação entre elas. Vários especialistas nesta área sublinharam a importância de reforçar os serviços de informação. Destacaram a urgência de infiltrar as redes terroristas e as comunidades em que se movimentam. E sublinharam a necessidade de reforçar a partilha de informação entre os serviços de informação euro-atlânticos. Tudo isto pode ser feito rapidamente, desde que exista vontade política e determinação.

Mas as forças de segurança e informação não podem agir sozinhas. É indispensável que as redes terroristas não possam movimentar-se em “zonas de excepção” no interior dos nossos estados de direito. Aqui enfrentamos um problema mais fundo, a chamada ortodoxia politicamente correcta, também conhecida por “multiculturalismo”.

A expressão é, aliás, enganadora. À primeira vista, multiculturalismo deveria querer dizer livre concorrência entre múltiplas tradições culturais e religiosas. Este é um princípio da sociedade aberta, fundada na igual liberdade das pessoas perante a lei. O seu alicerce fundamental reside na liberdade de expressão, o que inclui obviamente a liberdade de crítica mútua e pacífica entre as várias tradições culturais e religiosas.

Mas o “multiculturalismo” realmente existente não é defensor da liberdade e da sociedade aberta. É defensor da tribalização das sociedades em grupos colectivistas nos quais as pessoas são definidas pela pertença de origem. Em torno desses grupos colectivistas, o “multiculturalismo” ergue muros para impedir o diálogo e a crítica, alegando que está a fornecer-lhes igual protecção e igual direito a “identidades diferentes”. Na verdade, está a impedir a conversação entre pontos de vista diferentes e, nos casos limite, está a criar “guetos” onde o primado da lei não pode entrar.

Acresce que a protecção das diferentes identidades não é igual para todas. Há umas identidades que são mais iguais do que outras. O “multiculturalismo” é uma nova versão das velhas doutrinas anti-ocidentais que descrevem o Ocidente como sede de opressão, imperialismo e expansionismo cristão. Na prática, o “multiculturalismo” quer silenciar as vozes ocidentais e quer promover as chamadas identidades não ocidentais. O resultado são “guetos” anti-ocidentais no interior dos quais germina sem entrave o ódio contra as sociedades abertas que os acolhem. É aí que crescem as redes terroristas.

Muitas vozes genuinamente se interrogam hoje sobre a possibilidade de as nossas democracias fazerem frente a este vírus terrorista ilibado pelo “multiculturalismo”. Creio francamente que há aí um mal entendido. As democracias têm os melhores instrumentos para esse combate. Basta que sejam autorizadas a utilizá-los.

Esses instrumentos chamam-se primado da lei, liberdade, concorrência, sociedade civil. Reforcemos, por um lado, os serviços de segurança e informação sob a alçada da lei. Deixemos, por outro lado, as pessoas livre e pacificamente exprimirem as suas opiniões. Deixemos falar as instituições intermédias, ou os “pequenos pelotões” de que falava Edmund Burke — as famílias, as vizinhanças, as igrejas, os clubes e associações voluntárias de todos os tipos, nomeadamente as escolas.

Para retomar uma grande frase, “libertemos a sociedade civil” — no caso presente, libertemos através do primado da lei a sociedade civil do espartilho politicamente correcto do “multiculturalismo” e da ortodoxia anti-ocidental.

***
P.S.: vale lembrar que A sociedade aberta e seus inimigos é, também, o título de uma obra clássica do filósofo Karl Popper.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pelo que tenho observado tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, multiculturalismo significa qualquer cultura menos a cultura europeia. Diversidade significa qualquer raça menos a branca. Eu só escuto falar em 'diversidade' em países europeus e países majoritariamente brancos como: Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Nunca vi nenhum órgão, político ou acadêmico falar sobre diversidade em países africanos, árabes, asiáticos, latino-americanos ou em Israel. Diversidade significa inundar uma área, região, país ou continente onde há predominância de brancos por não brancos.

Orlando Tambosi disse...

Excelente comentário, anônimo.