segunda-feira, 28 de março de 2016

Sobre o progressismo e o politicamente correto

Um instrutivo artigo de José Carlos Alexandre, publicado no blog A Destreza das Dúvidas (via O Insurgente):


Doris Lessing escreveu algures que não terá sido uma coincidência o politicamente correcto ter surgido após a derrocada do comunismo. Muitos progressistas, activistas e pacifistas (zarolhos, porque só viam o perigo do “imperialismo americano”) viveram décadas a pregar “os amanhãs que cantam". Só caíram na real quando o muro de Berlim lhes caiu literalmente em cima da cabeça e o admirável mundo comunista ficou à vista de todos. Deixou então de ser possível continuar a atribuir à propaganda reccionária do ocidente as histórias que ouvíamos sobre o gulag, as filas intermináveis nos supermercados dos países comunistas, as fugas para o lado de cá. Lembro-me de no liceu uma professora de geografia me ter dito com ar muito sério que, infelizmente, ninguém falava dos milhares que tentavam fugir do ocidente para os países comunistas. A cegueira ideológica tem destas coisas.

Muitos dos “progressistas” eram idiotas úteis, como lhes chamaria Lenine, um dos santinhos adorados durante décadas por parte da esquerda. Outros eram uns aldrabões, que só viam o que lhes interessava. Na verdade, desde a década de 30 que era difícil ignorar e desconhecer as atrocidades cometidas por Estaline.

No início dos anos 90, esta gente viu-se de repente órfã. Caído em descrédito o “socialismo científico”, era necessário arranjar outra maneira de continuar a instruir e a iluminar as massas ignaras e reacionárias – curiosamente, essas massas ignaras e reacionárias perceberam primeiro que a maioria dos intelectuais de esquerda o resultado do comunismo. É este o ponto de Doris Lessing, evocada acima. É neste contexto que surge o chamado “politicamente correcto”. Uma moda que nasceu nos EUA e foi alastrando pelo resto do ocidente, sempre sob a capa das boas intenções – e não duvido de que em muitos casos houve de facto boas intenções.

Desde então, as brigadas do politicamente correcto, espalhadas pelo espaço público, vergastam o menor desvio em relação ao que elas entendem ser o correto. Quem questionar essas “verdades” sujeita-se a ser enxovalhado ou crucificado nos tribunais públicos. E ninguém quer ser rotulado de reacionário ou troglodita. Estes novos sacerdotes dos tempos modernos pedem a criminalização de tudo o que os incomoda e, quando tal não é possível, recorrem ao velho truque de substituir as palavras, criando uma novilíngua como lhe chamou George Orwell. Já não há cegos, há invisuais, etc., etc. É uma ilusão pensar que se pode mudar a realidade mudando as palavras. No último “governo sombra”, o Ricardo Araújo Pereira dizia que recusar apertar a mão a um negro é racismo; mas dizer que não se deve fazer uma piada sobre alguém porque é negro é apenas racismo disfarçado de anti-racismo - quem diz negro diz muçulmano, por exemplo.

Há anos vi um documentário muito interessante sobre Norman Mailer, um liberal (no sentido americano) que, com o tempo, percebeu que o politicamente correcto é uma tirania travestida de modernidade. Dizia o autor americano que, muitas vezes, o máximo que podemos fazer é convidar os outros a considerarem a possibilidade de ver a realidade a partir de outro ângulo. “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”, como diria o Mário de Carvalho. Querer mudar as pessoas sob coacção pode ser altamente insensato e contraproducente.

Verdade que muitos “reaccionários”, à cautela, podem calar as suas indignações e fúrias por longos períodos de tempo. Todavia, isso não significa que se deixem convencer pelos ditames do politicamente correcto. Esta massa silenciosa de indivíduos não aparece nos media. E o que não se conta nos media é como se não existisse, ou melhor, as suas possibilidades de fazer parte da “realidade percebida” são reduzidas. Quem confundir o mundo com o retrato do mundo pintado pelos media corre assim o risco de um dia, para seu espanto, se ver rodeado pelas hordas de recalcitrantes ou “reaccionários” que por aí pululam.

Sigmund Freud, um pessimista pouco amado pelos seus contemporâneos, avisou que a nossa cultura, a nossa civilização, é apenas uma fina camada em risco de ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tarde ou cedo, essas forças subterrâneas explodem e a explosão será tanto maior quanto maior tiver sido a pressão a que foram sujeitas. Quanto maior é a submissão ou pressão, maior e mais violenta será depois a revolta ou explosão.

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