sexta-feira, 29 de abril de 2016

Nos últimos dias do governo Dilma, a meticulosa destruição do Brasil.

Texto de José Nêumanne no Estadão, analisando os últimos atos do moribundo governo Dilma, que já vai tarde, muito tarde. R.I.P.:


Esta semana começou com a ainda presidente Dilma Rousseff recebendo em palácio três líderes dos chamados movimentos sociais, que prometem mantê-la no poder a qualquer custo. E, para isso, contrariam 61% da população entrevistada pelo DataFolha, 69% dos deputados federais que autorizaram seu impeachment em plenário e 61% dos senadores (talvez isso não seja mera coincidência) que se manifestam diariamente no placar do impeachment, publicado no nosso Estadão.

Um deles foi João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que está sendo agraciado com mais de 30 decretos de desapropriação de fazendas dadas como improdutivas pelo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, nomeado há pouco mais de um mês. Neste prazo ele superou o desempenho do antecessor, José Eduardo Cardozo, ao longo de cinco anos. Também foi recebido por ela Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), de quem não se ouve um pio reclamando do desemprego avassalador, mas ameaçou em palácio pegar em armas para defender o mandato dela. O terceiro convidado à sede do poder republicano, Guilherme Boulos, lidera o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que levou dúzias de gatos pingados a ruas das grandes cidades brasileiras para protestarem contra a deposição de Dilma na manhã desta quinta-feira de outono. Eles incendiaram pneus fora de uso – mas não o Brasil – e interditaram vias públicas importantes para dar o recado de que não deixarão o vice Michel Temer governar em paz, em tentativa nada velada de tocar fogo no circo.

Ninguém reclamou da ausência de lideranças indígenas, se é que ainda há alguma, na reunião palaciana. Mas ainda esta semana madama anunciará na sede do poder republicano mais decretos demarcando terras para índios. E o fato é que, enquanto berra que impeachment sem crime é golpe, Dilma faz uma investida para favorecer as etnias que habitavam o Brasil antes de Cabral aqui desembarcar. Talvez para acalmar os ímpetos belicosos de Tupã, deus dos trovões e das tempestades, nestes tempos de mar revolto. Uma vez mais superando o investido na Advocacia-Geral da União (AGU), mas que, de fato, desempenha o ofício de causídico pessoal de Sua Majestade Insolente, Eugênio Aragão, nomeado para deter a velocidade alucinante da descoberta de falcatruas pela Operação Lava Jato, encaminhou ao Diário Oficial da União o reconhecimento de quatro terras indígenas que ocupam 56.512 hectares. A demarcação de Sawré Maybu tornará inviável a construção da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no Pará. Mais um feito para pôr Cardozão nos borzeguins ao leito. Nem Juscelino tinha pensado nessa performance: mais de cinco anos em um mês. Pelo visto, Dilma não quer voltar ao ostracismo sem tomar decisões que a tornarão morubixaba da grande Oca Tupiniquim.

Essa avalanche de medidas absurdas, contudo, seria de menas (sic, apud Lula) monta se a “presidenta” não tivesse adotado duas providências ainda mais nocivas à recuperação econômica do País, por ameaçarem a reconquista da credibilidade no exterior. Ela proibiu que se fizesse a transição de seu governo agônico para o eventual substituto – cada vez menos eventual e cada vez mais substituto –, Michel Temer. E mais: determinou que fossem realizadas obras a toque de caixa para evitar que estas viessem a ser apropriadas de maneira imprópria pelo vice que, segundo ela, virou traidor. Aliás, esta circunstância é mais rotineira do que imagina ela, em sua sesquipedal ignorância da História. Seu criador e padrinho Luiz Inácio Lula da Silva poderia contar com os nove dedos das próprias mãos os feitos que compõem o legado da afilhada: licitações para privatizar os aeroportos de Porto Alegre, Florianópolis e Salvador; privatizações de portos; e medidas tributárias, como mudanças no Supersimples. Mas se ela continuar contando com a benemerência de seus compreensivos aliados no Senado, Renan Calheiros e Raimundo Lira, poderá ainda, anote aí, instalar o Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI). Não se sabe se nesta urgente e muito relevante medida (atenção, é ironia!) – que decerto acompanhará a mudança do currículo de História, no qual se pretende substituir o relato da colonização branca pelos contos do antigo domínio silvícola -, se incluirá a troca da denominação Brasil (de vez que pau-brasil não há mais na costa brasileira) por Pindorama. Seria mais condizente com o paraíso tropical de nossos morenos desnudos. E se a faixa positivista, também em desuso e sem justificativa ideológica, dará vez a algo mais nosso, tal comomandioca sapiens. Ou mosquita marvada.

Sabe-se mesmo é que ela tentará, antes de ser deposta, nomear mais médicos cubanos para atender no interior de Cabrália. E participará da Conferência Conjunta dos Direitos Humanos, na qual poderá denunciar delações seletivas e outras formas de tortura usadas por coxinhas fascistas e golpistas. E, claro, viajará pela maloca inteira inaugurando conjuntos do programa Minha Casa Minha Vida, que poderão ser batizados com nomes de vítimas da colonização coxa branca lusitana, como os caetés que comeram o bispo Sardinha, ou da ditadura militar, caso de Theodomiro Romeiro dos Santos, o condenado à morte que não foi fuzilado pelos milicos. Para demonstrar seu espírito conciliador, talvez fosse recomendável que homenageasse também uma inimiga, Heloísa Helena Magalhães, a Maçã Dourada, condenada à morte pelos estudantes rebelados liderados por José Dirceu, mas nunca enforcada pelos desgovernos socialistas, talvez por falta de lembrança de Lula, Dilma e Zé de Abreu, o astro da Globo que fez da saliva poderosa arma da revolução.

Enquanto essa lista de medidas, do tamanho de um rol de compras em supermercado, que a crise encolheu, será anunciada por Dilma, ela pregará mais uma vez a seus inamovíveis devotos contra Eduardo Cunha e Michel Temer. E lembrará que, ao contrário deles, ela mesma não é nem nunca foi corrupta. Mas quanto a isso há controvérsias. Lionel, que não é Messi, mas Zaclis, mandou-me, por e-mail, a quinta e sexta definições do verbete “corrupto”, impresso na página 848 do Dicionário Houaiss. A quinta definição é:que ou aquele que age desonestamente em benefício próprio ou de outrem, esp. nas instituições públicas, lesando a nação, o patrimônio público etc. O maldoso leitor insinua que a “presidenta” não foi tão honesta quanto afirma ao tomar emprestado, contrariando a Lei de Responsabilidade Fiscal, R$ 72 bilhões de bancos públicos, e só os repôs 11 meses depois. E também ao alegar que o dinheiro foi para o Bolsa Família, o que foi feito apenas com R$ 1,5 bilhão (ou seja, irrisórios 2%). A sexta é: que ou aquele que age de maneira indefensável. Neste ponto sou obrigado a concordar com o perverso Zaclis: a insistência com que Cardozaço e a própria Dilma a têm defendido não pode ser confundida com argumentação jurídica, mas se trata apenas de chicana pra protelar. E mais: para completar, ou Dilma é corrupta ou Houaiss é ignorante. O amigo leitor não precisa se apressar para responder à pergunta. A minúscula bancada contra o Brasil no Senado ainda conseguirá o beneplácito da dilatação do tempo, cedido pela dupla Lira-Calheiros.

Enquanto isso, contudo, conforme lembra outro leitor, César Souza, teremos de lidar com uma presidente sem votos no Congresso suficientes para governar. Embora ela se tenha dedicado quase exclusivamente a negar que Michel Temer não teve um mísero voto nos dois turnos da eleição de 2014. Como, porém, Dilma teria chegado sequer ao segundo turno sem os votos do PMDB, portanto, do aliado Temer? “Mistério!”, diria Perpétua, a vilã do romance de Jorge Amado Tieta do Agreste, interpretada na telenovela global de Aguinaldo Silva por Joana Fomm.

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