segunda-feira, 2 de maio de 2016

Social-democracia? Nem sempre.

Carlos Guimarães Pinto publica artigo no blog português O Insurgente que traz boas reflexões também para os brasileiros. Já que estamos longe de uma tradição liberal, também aqui viceja a social-democracia, sempre ambígua em relação ao Estado:


"Social-Democracia: ideologia política que advoga a transição gradual e pacífica de uma sociedade capitalista para o socialismo, utilizando os processos políticos estabelecidos.(...) A social-democracia partilha as raízes ideológicas do comunismo, mas rejeita a militância e totalitarismo".

Não há como rejeitar: esta é a definição de social-democracia e encaixa perfeitamente nos partidos de esquerda portugueses, com excepção do Partido Comunista. Tanto Bloco de Esquerda como o Partido Socialista defendem uma transição para uma sociedade socialista através de processos políticos estabelecidos em vez da via revolucionária. A maioria dos deputados de ambos os partidos admitirão sem grandes problemas serem sociais-democratas.

Em 1974, fazia sentido a alguém reformista e liberal como Sá Carneiro ser social-democrata por três motivos. Primeiro porque o país estava suficientemente longe do socialismo para poder ser positivo dar uns passos naquele sentido (desde que não se chegasse ao destino). O Estado tinha pouco peso na economia, na educação ou na saúde, pelo que aumentar esse peso não era algo necessariamente prejudicial. Em segundo lugar porque a alternativa mais imediata era caminhar para o socialismo por via revolucionária (o comunismo). A única alternativa politicamente viável ao socialismo revolucionário, era a social-democracia. Finalmente, porque, pragmaticamente, todos nós sabemos o que acontecia nessa altura a quem não defendesse o socialismo como seu objectivo final. Não sendo possível fazer política com uma bala alojada no crânio, qualquer liberal e reformista, teria que adoptar a social-democracia com alternativa política (e mesmo assim Sá Carneiro acabou a sua carreira da forma que todos sabemos).

Entretanto passaram mais de 40 anos. O estado, que pesava menos de 20% na economia hoje tem um peso acima de 50%. A economia está regulada até ao tutano, ao ponto de existir um serviço de transportes de maior qualidade a preços mais baixos (o objectivo normal da regulação) que é proibido. Os partidos de centro-esquerda europeus (muitos dos quais designados de social-democratas) já desistiram da via do socialismo, escolhendo uma terceira via entre o socialismo e o capitalismo.

Neste contexto, faz sentido a um partido que pretende ser alternativa reformista de direita se continuar a declarar social-democrata? Alguém acredita que se surgisse um Sá Carneiro hoje, com o mesmo espírito liberal e reformista de 74 seria social-democrata em toda a sua plenitude? Depois da falência do país, do sofrimento subsequente, do peso do estado na economia, alguém acredita que o que precisamos é caminhar para o socialismo e não fugir dele a 7 pés? Alguém acredita verdadeiramente que Sá Carneiro defenderia hoje que continuassemos a caminhar para o socialismo?

Uma alternativa ao socialismo não se pode chamar social-democrata. Ou se quisermos que se chame por motivos afectivos e emocionais, então é preciso dar-lhe outro significado qualquer, para que ninguém venha ao engano. Para que ninguém julgue que faz parte da alternativa, quando na realidade é adepto do problema.

Sá Carneiro seria hoje liberal. Seria hoje aquilo que muitos à esquerda gostam de chamar "direita radical". Aliás, era isso que diziam que ele era em 1974.

2 comentários:

Anônimo disse...

INTERESSANTE OPINIAO NO ESTADAO:

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,inepcia--deficit-e-recessao,10000048487

Orlando Tambosi disse...

Ô, Anônimo,

foi o primeiro post do dia.