terça-feira, 28 de junho de 2016

A "cultura da ocupação", uma barbaridade da Era lulopetista.

Cena grotesca na USP
Artigo do editor Carlos Andreazza, publicado no jornal O Globo, critica a cultura da ocupação de escolas e universidades, onde grupos de militantes disfarçados de estudantes perturbam professores e alunos:


O professor está em sala de aula. Tenta dar aula. A seu lado, malemolente, um jovem dança, sensualiza. Tem a expressão do descompromisso a serviço. É o invasor. Há música. Alta. Ainda assim, o professor insiste. É firme. Mantém a calma. Escreve no quadro-negro. Tenta trabalhar. Outros dois sujeitos aparecem. Invasores também. Tendo-se decerto na conta de heróis, apagam o que fora escrito, rabiscam palavras de ordem. O professor, porém, continua. Num canto, apresenta uma equação matemática. Que o jovem dançante, na segunda tentativa, afinal apaga. Aula encerrada.

Descrevi acima o vídeo recente em que o professor Serguei Popov, da Unicamp, vê-se impedido de lecionar pela performance de jovens marionetes. (Ao menos um deles, o dançarino indolente, que cursa licenciatura em Geografia, em breve será professor de seus filhos e netos, leitor; e não é exceção.) É preciso, pois, explicar as coisas à luz do que são: a inconsequência dos manipulados não os exime de responsabilidade sobre a violência que praticam. É preciso também, portanto, pesar-prezar valores: não interessa qual seja a reivindicação dos agressores; esta cultura da ocupação — a interdição dos espaços públicos para impor a agenda de grupos de pressão — é das mais nefastas manifestações da doença terminal brasileira, e tudo invalida. Tudo.

Protestar no Brasil, hoje, é ocupar — um eufemismo para invadir, tomar, interditar. O diálogo e o respeito ao próximo são ignorados no ato, mas se travestem de democratas os atores, de guardiões da liberdade. E não importa se — na sala do professor Popov, por exemplo — ao menos um aluno estivesse disposto a estudar. Não importa. Os democratas estão acima dessa coisa ultrapassada de indivíduo. São corajosos também, incensados como novidade, manifestantes românticos e radicais de uma nobre causa — contra a qual, aliás, não há quem esteja. (Ou alguém se opõe a melhores condições para o exercício da docência e da discência?)

Não é por acaso que a cultura da ocupação encontra sua mais influente aplicação em colégios e universidades. A ideia romântica radicalizada — a do estudante não apenas consciente, mas que lidera (pensa liderar), que bota a cara e interdita a escola (na verdade, somente empresta seu corpo ao projeto do partido, que, por sua vez, não reclamaria de ter um corpo, um jovem morto, para fazer de mártir) — é elemento-chave aqui. Há método, pedagogia, nessa opressão contra os interesses da maioria.

O cerceamento aos que querem produzir resultou na barbaridade de que estudantes, os que desejam estudar, tenham de marcar aulas secretas. A manipulação da juventude modelou até um coletivo surrealista, o dos estudantes grevistas. Eles tomam o colégio para si (ninguém entra, salvo se autorizarem), acampam em suas dependências (espécie de colônia de férias politizada), cozinham para si (ocasião em que mostram avançadas técnicas de cooperação) e tocam violão como expressão de que podem. (Os maiores tocadores de violão do país, aliás, estão fechados com eles.) Muito bem assessorados juridicamente, agem com autoritarismo, afrontam a vontade — da maioria, repita-se — de estudar, de trabalhar, desconhecem os deveres inerentes à liberdade, mas são reverenciados como defensores de direitos ameaçados (só têm direitos), bravos representantes de uma geração que finalmente assumirá as rédeas do próprio futuro.

Esta é a medida da falência política e educacional do país. Perdemos de todo a noção de individualidade — logo, de responsabilidade. Funcionamos sob a lógica do bando. Acomodamo-nos desta forma, tratando por peças respeitáveis no tabuleiro do jogo político aqueles que nos assaltam o direito de ir e vir. Tomam-se ruas, escolas, repartições e empresas tal e qual elevado exercício da liberdade de expressão — como se assim, num só golpe, não se sustasse igualmente o debate público. Lembremo-nos: a ocupação das ideias — o sequestro da palavra, da linguagem — sempre precede. O Brasil, faz tempo, é gerido pelo norte ideológico da guilda, pelos interesses de classe, pelo modelo black bloc de negociação — e esses gestores tomaram e corromperam também o sentido do que seja direito, liberdade, democracia.

Não gostou de algo, senhor taxista? Ora, tranque a cidade. Obstrua as principais vias. Impeça o cidadão de circular. Intimide a população. Terá o endosso do poder público, o exemplo esclarecido de professores-doutrinadores e estudantes profissionais. Terá também a chancela da intelectualidade neste Brasil dos abaixo-assinados de patota, sempre democráticos, mas de que não se pode querer ficar de fora; país em que a discordância individual — a intenção de não subscrever um manifesto (sempre pela liberdade) — transforma em pária e aproxima o degredo.

Num futuro não distante, todo mundo será manifestante — se quiser prosperar. Será abaixo-assinado — se quiser pertencer. Terá de ser militante — se quiser ter existência reconhecida.

4 comentários:

Helena Amorim disse...

Caro Tambosi.
Recebi e aceitei convite para apresentar trabalho com o tema CULTURA, EDUCAÇÃO E CIBERNÉTICA: IMPACTOS E CONFLITOS NA SEGURANÇA E NA SOBERANIA na EASA/Cruz Alta/RGS. Outros profissionais civis também aceitaram e um deles vai "destroçar" Paulo Freire. A UNICRUZ se aliou a EASA e pelo que posso perceber as instituições militares de ensino tem na qualificação do ensino seu principal trunfo e já estão socorrendo os estabelecimentos civis (pelo menos em Cruz Alta). Caso tenhas interesse mande e-mail pessoal para que possa receber convite.
Faz um tempão (16 anos) que me afastei das salas de aula das IES pelos motivos que tua coluna expõe (já salvo p/ servir de referência) mas sempre guardei a esperança de assistir a mudança na tragédia do nosso sistema de ensino.
Grata pelo material/coluna.
Grande abraço.

Orlando Tambosi disse...

Salve, Helena,

abração.

Silas Velozo disse...

É um pesadelo q nós temos d enfrentar com coragem & lucidez. Contraizer a militância gritalhona sempre, pra q essa patologia retorne ao q realmente é: uma doença. Agradeço a vc, Orlando Tambosi, à profa. Helena e a todos q enfrentam diariamente a maré da boiada vermelha. Abraços.

Helena Amorim disse...

Boa Noite Silas e Tambosi!
Bom saber que tenho companhia. Vou tentando manter o site (de vez em quando sai do ar e eu recoloco... Por que será?) como posso e creio que meus escritos e análises sobretudo sobre a Cultura Nacional estão motivando o crescimento de acessos ao site. Minha última análise sobre imigração e terrorismo já figura no Google.
O enfoque de minha apresentação na EASA põe por terra a tradicional visão antropológica sobre Cultura (um dos motivos de meu afastamento da Antropologia acadêmica atual) além de se opor ao ridículo limite dos luminares e intelectuais (arte e literatura). Será uma apresentação (PPS acompanhado de texto) ilustrada com imagens pesadas e agressivas das manifestações feitas em Ipanema (Marcha das Vadias) mas me recuso a suavizar. Acho que me acostumei a apresentações exclusivamente no meio militar e confesso minha preocupação c/ os o pessoal da UNICRUZ e demais civis. Paciência. Paguei o preço exigido pelo acossamento político, e, sinceramente, meu único arrependimento e ter acertado em todas as hipóteses que levantei. Não estaria assistindo o esgarçamento e a miséria (em todos os sentidos) que agora se concretizam pelos fanáticos seguidores de Hobsbawnn e outros tantos ilusionistas pagos a peso de ouro nas tertúlias de Paraty. Como eu queria ter errado!
Para o Silas se tiver interesse (Tambosi já conhece) seguem links dos trabalhos mais recentes. Também podem ser acessados em TEXTOS BRASILEIROS (http://www.brasilbrasileiro.pro.br/textos.htm)

1 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/IMIG%20CON%20TERROR%20-%202016.pdf
2 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/2014-15%20MHAW%20Conflitos%20assimetricos.pdf
3 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/capabrbSeguem links dos trabalhos recentes último trabalho.r.pdf
4 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/ECEME%20-%20MHAW%20-%202013%20CCM.pdf
5 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/FronTransTerrCiber.pdf
6 - http://www.brasilbrasileiro.pro.br/SobTerDef.pdf
Obrigada pelo contato e perdoem o alongamento do comentário.