terça-feira, 12 de julho de 2016

Flip, a festa dos senhores da cultura brasileira.

A festa literária de Parati praticamente desconhece o Brasil e não dá margem a discordâncias. É coisa dos senhores da cultura brasileira, a suposta elite intelectual do país, que desrespeita os poucos (e verdadeiros) intelectuais que ousam fugir do figurino pré-traçado. O editor Carlos Andreazza faz um cáustico resumo da "festa da firma":


É dramático que a repetição de palavras de ordem e a imposição de agendas político-partidárias sejam confundidas com a livre discussão de ideias. Mas é assim que a coisa vai. Baterei muito nesta tecla: a ocupação — a corrupção — da linguagem sempre precede; uma das explicações para a ruína da vida pública brasileira. Escrevo isso enquanto penso na programação oficial da Flip.

A festa literária — é verdade — fala muito pouco do (ao) Brasil real, mas é possível propor uma reflexão sobre o Brasil dos senhores da cultura a partir do que se passa em Paraty uma vez por ano. Porque ali se reúne a suposta elite intelectual do país. Porque ali, na Tenda dos Autores, não há o mais mínimo espaço para o contraditório. E porque ali, no entanto, a maioria dos presentes está certa de travar o mais franco e plural debate público já havido na Terra.

Esta é uma miséria brasileira: as pessoas pensam — acreditam mesmo — estar discutindo a valer, dialogando e enfrentando questões prementes, quando, porém, nada mais fazem do que pregar para convertidos, afastar o divergente e interditar o debate. Nunca uma cidade brasileira — das mais caras — terá reunido tantos golpeados e oprimidos quanto Paraty em 2016, destino da romaria de brancos manifestantes, todos seguros de representar os desejos e os interesses do povo brasileiro — que, desempregado e endividado graças ao governo popular, mais uma vez não pôde comparecer.

“Fora Temer!” Eis o resumo da finada Flip. Pouca literatura terá sido mais aplaudida na Tenda dos Senhores, de modo que, em apuros, havendo somente seus próprios escritos para por meio dos quais brilhar, o “Fora Temer!” logo se tornaria a muleta de escritores em busca de glória. O curioso é que não havia, em Paraty, quem fosse a favor do presidente interino. Ainda assim, bradar “Fora Temer!” não só era senha para o aplauso e o pertencimento progressista como — juro — manifestação de extrema coragem.

No palco em que se transtorna a velha cidade, a intelligentsia pátria faz desfilar — sempre em defesa da democracia — o teatro da opressão contra a individualidade e o dissenso. Alguma atividade paralela resiste, investe na dissonância, em literatura mais que em política-eleitoral, e até oferece algum vislumbre de pluralidade. Mas a presença de indivíduos — de seres autônomos, de ideias outras — não é mesmo o forte da convenção. Abundam papéis a preencher, isto sim; a existência individual validada apenas se cumpridas as exigências do script. Tudo muito bem ensaiado.

Viu-se, por exemplo, gente graúda reagir energicamente a uma doidaraça que, numa mesa urgente sobre sexo, convicta de que fiel a seu roteiro, mostrou a calcinha à plateia e o dedo médio aos jornalistas — um escândalo, o suprassumo da divergência, a cota-controvérsia da semana. O gringo cujo livro transforma um traficante assassino em Robin Hood, entretanto, é autoridade inquestionável na hora de propagandear o fracasso da tal “guerra às drogas” no Brasil. (Estamos em 2016, mas, homenageada Ana Cristina Cesar, aquela tinha de ser também, claro, uma jornada de atitude, ora, de retrocesso ao século XIX, cinco românticos dias de elogio ao suicídio — contra o que tampouco se levantou um incômodo sequer.)

Encenações como essas são terríveis sobretudo porque desqualificam, por método, todo o genuíno momento de independência, de expressão da liberdade, de consciência individual — e assim se enterrou aquela que terá sido das únicas falas verdadeiras na festa da firma, certamente das poucas capazes de provocar o debate na plenária, o confronto de ideias: “Sou egoísta, não quero ser a voz da Síria. Juro por Deus que não há sociedade mais doente que a culta e intelectual e os que trabalham com direitos humanos. Quero viver minha vida.”

A declaração é do poeta sírio Abud Said. Um caso exemplar. Ele não sabia, mas fora convidado à Flip para representar um tipo. Em Paraty, não seria — não poderia ser — nem Abud nem poeta. E, no entanto, queria falar sobre poesia. O leitor avalie: ele estava num evento literário — foi o que lhe contaram — e pretendia ler e discutir versos. Não disse que a ditadura de seu país é boa. Mas apenas que não queria tratar de política e que tinha pavor da patrulha dos controladores da solidariedade. Foi xingado de babaca, vaiado, amaldiçoado. Era sírio. O sírio. Só sírio. Tinha, pois, de falar sobre a Síria — especificamente: sobre a tirania na Síria e sobre como a arte é perseguida no país.

Poucos ali, no comitê, estavam interessados em enfrentar as consequências de desbravar à vera o tanto que há na expressão de Said. O negócio era empastelá-lo. O “babaca” fora longe demais em seus improvisos. Até em Deus falou. Nem um “Fora Temer!” o salvaria. Nem o suicídio. Nem uma selfie com Gregório Duvivier. (O Globo).

3 comentários:

Anônimo disse...

Artur Nogueira diz:
Fico pensando o esforço hercúleo para tentar ser culto e honesto moral e intelectualmente neste país.Aturar os oportunistas/vigaristas que brotam qual erva daninha, aturar os medíocres travestidos de "intelectuais" e quejandos é tarefa quase que insana.O que restou de nossa cultura, de nossa educação moral e cívica ?? Bem pouco. O Brasil, que já não era bom, agora apodreceu de vez.

shamijacobus disse...

QUO VADIS
Sugiro trocar o nome daquele "centro histórico"decadente para
PARAELES..já que Paraty NÃO É MAIS...
Buraco decadente que só sobrevive graças ao que antepassados em eras anteriores souberam construir.
Ter uma "natureza"exuberante ao redor não faz idiota ou indigena algum mais ou menos inteligente é um ACIDENTE GEOGRÁFICO somente.

eu não guento

shamijacobus disse...

Quo vadis
Hoje o país da libertinagem que ousou trocar um poder imperial por uma plebe no poder comemora sua "INDEPENDENCIA",correndo de medo,destruida pelos ideais libertários porém submetidos a um poder central inócuo e complacente.
Ainda manteem sua lingua e costumes originais graças aos povos que julgam inferiores e dos quais sempre solicitam ajuda quando a cueca aperta...eheheheh
Queda da Bastilha e abaixamento de calças andam juntas atualmente.

eu não guento