domingo, 14 de agosto de 2016

Acordem, pais: aprendam a distinguir entre o normal e o patológico.

Artigo do médico-psiquiatra português Pedro Afonso, publicado no Observador, vai ao ponto: numa sociedade conturbada, perde-se a distinção entre o normal e o patológico. Falta às famílias o controle sobre seus filhos - no caso do Brasil, em geral, pequenos ditadores que não aceitam qualquer limite. Aqui, claro, isto piorou na Era lulopetista. Assino embaixo deste artigo:


Nas últimas semanas fomos confrontados com dois temas noticiosos referentes a enormes tragédias: os atentados homicidas na Europa e os fogos que destroem o país. De acordo com a informação disponível, em alguns casos, na sua origem há fortes indícios de terem sido cometidos por indivíduos mentalmente perturbados, criando um sentimento de insegurança na população. Apesar destes temas serem complexos e multifatoriais, eles também são do campo da psiquiatria, podendo ter várias origens e algumas delas pouco evidentes.

Julgo que se tem caminhado para um esbatimento perigoso dos limites entre o normal e o patológico, reforçado pela negação da existência de uma lei natural, coincidente com um conjunto de normas morais comuns, que qualquer ser humano pode conhecer à luz da razão: não matar, roubar, mentir, agredir, etc. Se forem esbatidos os limites entre o normal e o patológico coloca-se em risco a liberdade, destruindo-se uma legitima barreira de proteção contra o arbítrio dos insanos e dos perversos.

Apesar de ser um tema controverso, e com alguns dados contraditórios, existem diversos estudos científicos que estabelecem uma relação entre o aumento do risco de comportamentos disruptivos e agressivos e os videojogos violentos. A exposição continuada a este tipo de jogos pode reduzir a empatia e o comportamento social ajustado. Por outro lado, o uso excessivo da internet foi relacionado com baixa autoestima, sentimentos de isolamento e problemas de comportamento.

Os jovens de hoje passam cada vez mais tempo a jogar videojogos. Um dos jogos mais populares é o Grand Theft Auto (GTA). Embora destinado a adultos, é jogado maioritariamente por crianças e adolescentes. Basta ler a descrição do jogo, retirada da Wikipédia, para se perceber o que está em causa:

“O jogo é considerado exclusivamente dedicado a adultos, devido a temas como violência, assassinato, drogas, incitações e exposições sexuais, tortura, mutilação e etc. E também pela grande liberdade que o jogo dá em relação ao que o personagem pode fazer: este é capaz de agredir e matar pessoas, roubar veículos, propagar o caos, entre muitas outras coisas”.

Se é verdade que muitos jovens poderão jogar alguns jogos violentos sem haver um grande impacto na sua saúde psíquica, também é verdade que estes fatores podem ter um efeito cumulativo com uma fragilidade psíquica pré-mórbida, funcionando como um rastilho para comportamentos antissociais extremamente violentos. É preciso haver controlo parental, não apenas no tempo que as crianças passam a jogar, como ainda no conteúdo temático dos jogos.

Temos de admitir abertamente que nem tudo aquilo que nos é proposto é bom para nós, e que o autocontrolo é uma característica ligada à maturidade. É completamente demagógico e irresponsável querer educar as crianças e os jovens sem lhes criar limites, e sem lhes dizer claramente que existem comportamentos normais e outros patológicos. Por exemplo, pode ser normal beber álcool moderadamente, mas é patológico beber em excesso.

O ambiente familiar está na origem de muitas doenças psiquiátricas. A educação facultada pelos pais aos filhos é uma missão partilhada em família. A transmissão de valores éticos, morais, e um conjunto de competências para se viver ajustado em sociedade, é garantida pela educação. Mas a vida familiar tem mudado muito nos últimos tempos. O sequestro de pais e filhos pelos ecrãs (computador, telemóveis, televisão, etc.) é quase total, desaparecendo o espaço para a comunicação e o tempo destinado à partilha. O esgotamento de um dia de trabalho, que na sociedade atual se tem revelado cada vez mais prolongado, priva os educadores da energia e da disponibilidade indispensável para educar. A procura de fármacos para controlar os comportamentos das crianças, numa tentativa de substituir o afeto e a educação proporcionada pelos pais, é cada vez maior.

A saúde mental também se previne, e os comportamentos antissociais são muitas vezes reflexo de um desequilíbrio psíquico. Tal como na nossa vida pessoal, na sociedade os erros pagam-se sempre. A desconstrução entre o normal e o patológico, a prática, ainda que num mundo virtual, de comportamentos antissociais, juntamente com o esvaziamento do papel da família e de uma educação estruturada com regras e limites, terá como consequência o aumento do número de casos de perturbações psiquiátricas. Para defesa da sociedade, é importante garantir que hajam limites definidos entre o normal e o patológico, evitando-se a ideia de que a doença mental é apenas um problema de vida.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sobre este assunto, recomendo aos pais leitores do blog o livro, pequeno, simples, barato e efetivo publicado pela editora quadrante:
"Carinho e firmeza com os filhos" de Alexander Lyford-Pike. Um trecho da contracapa:
"Muitos pais, influenciados pelas mais diversas correntes psicológicas, têm-se limitado a tolerar todo tipo de condutas inadequadas, com receio de traumatizar as crianças; o resultado é uma geração de jovens e adultos com sérias dificuldades para viver em sociedade, assumir responsabilidades e construir a própria felicidade."

Selma SALMEN MAURÍCIO disse...

País precisam se conscientizar q quem ama educa.Muitas vezes por comodismo,incompetencia,sao omissos e deixam comportamentos totalmente incompatíveis com a educação passar,sem a devida correção.