segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O "fechamento" de certa esquerda...e de certa direita.

Artigo do professor João Carlos Espada, publicado hoje no Observador, analisa a autoritária "esquerda pós-moderna", que domina os campi norte-americanos, e as transformações sofridas pela direita:
Inicio hoje, nesta primeira segunda-feira de Agosto e previsivelmente nas próximas quatro, uma breve série dedicada a livros para férias. Receio que todos os livros que vou mencionar tenham alguma relação, directa ou indirecta, com a grave perturbação cultural e política que o mundo atravessa. Receio também que uma boa parte dessa perturbação tenha alguma relação, directa ou indirecta, com o declínio da auto-confiança e da memória do Ocidente.
Começo por The Closing of the Liberal Mind: How groupthink and intolerance define the left (New York: Encounter Books, 2016). Trata-se de um belo livro de Kim R. Holmes, “Distinguished Fellow” e antigo vice-presidente da Heritage Foundation, em Washington — uma das Fundações norte-americanas mais directamente associadas aos saudosos Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
O tema central do livro é a emergência de um novo tipo de esquerda na América, a que o autor chama — quanto a mim, muito apropriadamente — “esquerda pós-moderna”. Esta “nova esquerda” está patente nas entusiásticas hostes de jovens com educação universitária (sempre sem gravata e preferencialmente de T-shirt, jeans, ténis ou chinelos) que aclamaram (e continuam a aclamar) o ex-candidato Bernie Sanders. São eles que dominam hoje os campus universitários norte-americanos (e britânicos, para não vir mais perto).
Exigem censura sobre todas as opiniões que consideram politicamente incorrectas. Atacam a civilização ocidental, que acusam de racista, capitalista, machista e destruidora do ambiente. Denunciam as chamadas “elites”, em que incluem os empresários, os políticos eleitos (mas não os “militantes”), e em geral todas as instituições: militares, religiosas, universitárias, judiciais ou outras.
Da esquerda clássica, sobretudo da esquerda colectivista clássica, esta nova esquerda pós-moderna reteve as exigências de sempre mais controlo estatal sobre a economia e a sociedade. O Estado não deve obedecer apenas a regras gerais, o que é denunciado como “burguês”. Deve ter propósitos específicos: a obtenção da igualdade de resultados económicos e a uniformização dos comportamentos designados como “progressistas”.
Os comportamentos progressistas são os que rompem com o passado ou a tradição. São os que proclamam a total “libertação” do indivíduo relativamente a todas as limitações morais, culturais e institucionais sobre o capricho da vontade sem entrave. O Estado deve impor essa “libertação” a todos os que não concordam com ela: querem o aborto gratuito a pedido, o chamado “casamento” gay, e até a mudança de sexo gratuita e a pedido. (Há agora também uma curiosa discussão sobre casas de banho mistas, que receio não ter seguido em detalhe). Recusam o mais elementar direito “burguês” de objecção de consciência — quer por parte de indivíduos, quer por parte de instituições, sobretudo se forem de inspiração judaico-cristã.
Kim Holmes descreve exemplarmente todos estas crenças da nova esquerda pós-moderna, bem como o fanatismo com que elas são defendidas. Mas faz mais do que isso. Numa elegante investigação sobre história das ideias políticas, tenta descobrir as suas contraditórias origens intelectuais. E detecta uma curiosa e improvável mistura entre a esquerda radical e a direita radical.
Do lado da esquerda radical, Kim Holmes encontra o fanatismo da igualdade, em regra associado ao ateísmo. Detecta as suas origens em Karl Marx e, antes dele, naquilo que designa como ala radical do Iluminismo — onde inclui Espinoza, Rousseau e Diderot. E contrasta essa ala radical com o Iluminismo moderado e até conservador de John Locke, Adam Smith, Edmund Burke e, no caso americano, sobretudo James Madison e John Adams.
Do lado da direita radical, Kim Holmes encontra um outro fanatismo, que caracteriza como pagão e anarquista. Detecta as suas origens no contra-Iluminismo radical do irracionalismo pagão de Nietzsche e Heidegger, retomado no final do século XX pelo pós-modernismo anarquista de Derrida, Lyotard e Foucault.
Kim Holmes assume-se como conservador americano — aquilo que na Europa seria talvez designado por uma direita liberal com forte inspiração judaico-cristã. Tem portanto grandes clivagens relativamente à tradição da esquerda americana — a que os conservadores americanos chamam tradição liberal (e que, na Europa, corresponde em parte à esquerda social-democrata ou socialista democrática, isto é, não comunista).
É por isso particularmente reveladora uma das teses centrais do conservador Holmes: a de que a nova esquerda pós-moderna representa uma grave ruptura com a esquerda liberal (ou social-democrata, em linguagem europeia) tradicional. Holmes recorda que conservadores e liberais tradicionais (direita e esquerda moderadas, em linguagem europeia) sempre divergiram saudavelmente sobre um chão comum.
Direita e esquerda moderadas acreditavam em algum sentido de dever superior aos caprichos de cada um (embora discordassem sobre as origens e os contornos exactos dos deveres); acreditavam ambas na virtude da tolerância, acompanhada da fé na existência de padrões objectivos de Bem, de Verdade e de Beleza — que podiam ser gradualmente descobertos e aperfeiçoados através do diálogo racional entre pontos de vista rivais; acreditavam ambas nas raízes ocidentais da liberdade ordeira; e ambas acreditavam nas raízes plurais do Ocidente em Atenas, Roma e Jerusalém (embora discordassem sobre o relevo do contributo de cada uma) .
Sobre esse chão comum, recorda Holmes, cresceu a moderna experiência liberal e democrática, reformista e não revolucionária, do Ocidente. Sem esse chão comum, alerta ele, a democracia liberal estará em risco. Trata-se de um sério alerta — que deve ser levado a sério, quer pela esquerda quer pela direita moderadas.

2 comentários:

O MESMO de SEMPRE disse...

Aqueles que CEVARAM as esquerdas, de todas as inspirações, com o objetivo de defender o Poder estatal absoluto com sua hierarquia social, agora se voltam a financiar o chamado "conservadorismo" para atacar as idéias liberais.

É notório que as ideias liberais classicas foram combatidas não só pelos propagandistas do Estado totalitário marxista (sempre com muito dinheiro sem fonte revelada) como também pelos tais conservadores que defendiam o chamado MERCANTILISMO em nome do "bem do povo".

Foram as ideias liberais que lá por meados dos anos 80 começaram se se fazer novamente conhecidas e assim conquistaram as mentes daqueles que jamais as tinham ouvido ou lido.
Com o crescimento das ideias liberais, sobretudo patrocianadas por Ronald Reagn, em alguns de seus princípios, ou rumo implicito, no exato momento que se institui o Libertarianismo a fim de diferenciar-se dos "liberais" da esquerda, surge uma massiva propaganda com o uso do termo CONSERVADORISMO a fim de SOLAPAR a tendencia ao liberalismo.

Perceba-se que a esquerda passa a divulgar o termo "CONSERVADOR" a fim de matar as ideias liberais ignorando-as. Nem mesmo se referem aos exótico "neoliberalismo". O objetivo é simplesmente "matar" a palavras e suas derivações com o intuito de não deixar espaço para reflexões a respeito do liberalismo.

Essa associação à "judaico-cristão" com alegada liberdade é absurda e contraditória. FOI SOB o CRISTIANISMO (judaico-cristianismo? ...cof cof!!) que se implantou o FEUDALISMO que impôs uma sociedade hierarquizada e as perseguições para implantação da ideologia VIA o TERROR.

Sim, as perseguições aos hereges sempre existiram e os tribunais do Santo Oficio apenas IMPUSERAM a perseguição aos hereges com TORTURA e ELIMINAÇÃO através da LEI. A INQUISIÇÃO não inventou a perseguição aos "infiéis do cristianismo", mas apenas a tornou OBRIGATÓRIA.

Ideias socialistas PRECEDERAM o MARXISMO com base no POPULISMO ASSISTENCIALISTA CRISTÃO. Sim, esse populismo nasceu, não coincidentemente, na decadência do Império Romano. Decadência decorrente de suficiebntes POVOS A CONQUISTAR e consequente EXPLORAÇÃO da PRÓPRIA POPULAÇÃO. Tudo isso permitindo acirradas DISPUTAS INTERNAS PELO PODER. Nem mesmo a INFLAÇÃO de PREÇOS é algo moderno. Pois que realizada pelos governos de Roma. As disputas acabaram por levar a uma CISÃO, gerando a Igreja Romana e a Igreja BIZANTINA. Então 2 (DOIS) IMPÉRIOS: Católico Romano e Católico Bizantino.

Cristianismo jamais teve qualquer relação com liberdade ou liberalismo. Não só na sua criação pratica do FEUDALISMO, mas sobretudo do que se pode ler na BÍBLIA sobre deliberações da doutrina dos deus esquisito que usa um "filho" humano como sacrificio a si mesmo (um bode expiatório) para perdoar o pecado humano: O "cordeiro de deus que tira os pecados do mundo".

Tal e qual os sectários da ideologioa marxista em seus discursos desconexos, os novos adeptos do velho conservadorismo, que igualmente defende um Estado ideológico, repetem desconexos discursos associando judaico-cristianismo com as idéais de Estado limitado e liberal. Uma ABERRAÇÃO!

O MESMO de SEMPRE disse...

Uma ABERRAÇÃO!


Aliás não menos aberrante é a contradição, strictu senso, do "judaico-cristianismo". Afinal, o cristianismo se firma através de um POLITICAMENTE CORRETO como MORAL CAPITULACIONISTA, concebida para induzir a população à submissão e ao desprezo por bens materiais para formar resignados conquistados, enquanto o judaísmo é uma ideologia volatada para formar conquistadores.

Evidentemente que os líderes romanos do Império não queriam povos guerreirosque valorizassem as conquistas, mas sim ansiavam por POVOS SUBMISSOS, permissivos, SEM ORGULHO, sem AMBIçÔES, SERVIS e RESIGNADOS. Exatamente por isso a ideologia cristã incentivou a moral do "POLITICAMENTE CORRETO" (segundo apreciação moderna) a fim de transformar a população revoltada com o governo numa população inerme, sem brio e EXALTANDO sua SUBMISSÃO como um valor moral: SERVIR foi incentivado como um valor moral para induzir aquilo que Aristóteles reconheceria como a MORAL do ESCRAVO e tal ideologia cristã muito se inspirou em PLATÃO, como nem mesmo Tomas More bem apontou ao conceber sua UTOPIA CRISTÃ de pretenso igualitarismo que inspirou os adeptos de todos os socialismo e marxismos.