segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A licença moral das esquerdas

Lula e José Sócrates: amigos no banco dos réus.
Hillary Clinton, José Sócrates, Lula da Silva e outros líderes esquerdistas sempre falaram em abolir as desigualdades, mas vivem mais suntuosamente que milionários de cepa. Carlos Guimarães Pinto, colaborador do Insurgente, tece bons argumentos sobre o tema. Este blogueiro preferiria, no entanto, denominar esse comportamento como licenciosidade moral:


Hillary Clinton nos EUA criou uma fundação multimilionária com o marido, vive de forma luxuosa desde que ele deixou de ser presidente e dá conferências nas quais recebe mais para falar uma hora do que a maioria dos americanos ganha num ano. José Sócrates foi viver para um apartamento de luxo em Paris logo após o fim do seu mandato e era conhecido por, ainda em Lisboa, ter uma vida digna de um milionário. No Brasil, Lula da Silva, um simples metalúrgico como gostava de se identificar, é suspeito de ser o verdadeiro dono de uma quinta de luxo e outros imóveis com que um metalúrgico brasileiro normal só pode sonhar. Independentemente da discussão sobre a forma como obtiveram os rendimentos, há uma questão que fica no ar: porque é que tantos líderes de esquerda sentem-se confortáveis para viver uma vida luxuosa? Porque é que os apoiantes dos partidos de esquerda, que afirmam lutar contra as desigualdades, aceitam tão bem que os seus líderes tenham estilos de vida dignos das pessoas contra quem sempre direcionaram os seus discursos? A resposta para este aparente paradoxo é que os líderes de esquerda sentem-se à vontade para viver vidas luxuosas acima do cidadão comum precisamente porque acham que a sua luta contra a desigualdade em público lhes dá esse direito. Consideram que as suas posições políticas públicas lhes dão créditos suficientes para uma vida privada de luxo. Ou seja, é por acharem que lutam contra a desigualdade – e não apesar de lutarem contra a desigualdade – que as pessoas de esquerda se consideram moralmente aptas para adoptar estilos de vida que reflectem exactamente essa desigualdade.

É a isto que em psicologia se dá o nome de “Licença moral”. Em 2009, investigadores em psicologia da Universidade de Stanford fizeram um estudo no qual concluiram que pessoas que expressavam abertamente o seu apoio a Barack Obama tinham maior probabilidade de ter atitudes racistas. A explicação para este paradoxo era simples: os apoiantes de Barack Obama sentiam que, ao apoiar um candidato negro à presidência, se tinham livrado de qualquer suspeita de serem racistas, sentindo-se mais à vontade para, paradoxalmente, terem atitudes racistas.

Com os líderes de esquerda a situação é semelhante. Independentemente dos fracos resultados das políticas de esquerda em tirar pessoas da pobreza de forma permanente, a verdade é que esquerda tem a reputação de atacar as desigualdades, e de penalizar os mais ricos. Independentemente dos efeitos de longo prazo destas políticas, que muitas vezes até acabam por prejudicar os mais pobres, os efeitos directos e imediatos aparentam beneficiar os mais pobres. Esta percepção alivia a sua consciência e faz com que os políticos de esquerda se sintam mais à vontade para beneficiar dessa desigualdade de rendimentos que afirmam ser imoral. O perfil sócio-económico dos apoiantes do Bloco de Esquerda (a chamada esquerda caviar) é outro bom exemplo disso. Outro bom exemplo aconteceu há uns meses quando a deputada do PS Isabel Moreira e a activista de extrema-esquerda Raquel Varela, entre textos sobre a desigualdade salarial e o salário mínimo, publicaram uma fotografia sua a jantar num restaurante onde a refeição custava tanto como uma semana de salário de um operário fabril. Elas tinham passado semanas a pedir o fim dos salários baixos, defendiam o fim das desigualdades, portanto já tinham feito a sua parte pelos pobrezinhos. Agora era a altura para aproveitar esses créditos para jantar num restaurante de luxo. As suas consciências estavam tranquilas: podiam agora aproveitar o facto de estarem no melhor lado da desigualdade. Mais um típico caso de Licença Moral a funcionar.

Mas não é só à esquerda que este sentimento se nota. À direita também se aceita, implicitamente, esta realidade. Tendo a reputação (merecida ou não) de não lutarem contra as desigualdades, e de se colocarem menos ao lado dos pobres, os líderes de direita evitam a todo o custo serem vistos a ter vidas luxuosas durante e depois dos seus mandatos. Não considerem ter a mesma licença moral que os líderes de esquerda têm. É irónico que dois dos líderes da esquerda que mais tempo governaram o país (Mário Soares e José Sócrates) tenham ficado conhecidos pelas vidas sumptuosas que levavam, enquanto os dois líderes da direita que mais tempo governaram (Cavaco Silva e Passos Coelho) fizeram sempre um esforço por passar a imagem de levarem um estilo de vida comum, com os seus apartamentos nos subúrbios e férias baratas em Portugal. Eles sofrem do problema simétrico aos líderes de esquerda: por existir a percepção de que lutam menos pelos pobres do que os seus opositores de esquerda, eles sentem a necessidade de exibir as credenciais de homens do povo.

Vivemos assim numa situação paradoxal em que aqueles que defendem políticas que levaram milhões à pobreza assumem ter licença moral para viver como milionários, enquanto que aqueles que defendem políticas mais próximas (ainda que em Portugal bastante distantes) das que elevaram milhões da pobreza, sentem-se obrigados a viver vidas modestas para ganharem a credibilidade necessária para aplicar essas políticas.

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