segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Derrotado o petismo, nada será como antes para o chavismo na América Latina.

O bolivarianismo estrebucha na América Latina. Com o governo Temer, perdeu apoio do Brasil. O ministro das Relações Exteriores José Serra já sinalizou o endurecimento na diplomacia. Artigo de Héctor Shamis, publicado no El País:


É axiomático no realismo. Nas relações internacionais o poder deve ser usado. Quando um Estado tem poder estrutural —seja por sua geografia, riqueza, poderio militar ou a mistura de tudo isso— em geral não perde tempo anunciando o que vai fazer. Comunica fatos consumados.

A política externa se converte assim na linguagem corporal das nações. Esperava-se que uma vez concluído o impeachment, o tímido Brasil dos últimos tempos deixaria de sê-lo. Quando o governo já não fosse temporário, o Brasil voltaria a nos lembrar do Brasil.

É que, em termos de distribuição de poder, a América Latina não é a Europa. Pelo contrário, o poder está muito mais concentrado: primeiro vem o Brasil e depois os demais. É uma assimetria ainda mais pronunciada na América do Sul e mais ainda até no Mercosul. Por isso foi suficiente que o Brasil aparecesse em cena para colocar data de vencimento à participação da Venezuela no clube do sul.

Se era impensável que a política externa do PT, protetor do chavismo, continuasse sob Temer, era impossível com José Serra como chanceler. Socialdemocrata, reconhecido economista, afilhado político de Fernando Henrique Cardoso, exilado na juventude, defensor dos direitos humanos, o nome de Serra significaria o fim de um Brasil bolivariano.

Ele já tinha emitido um sinal quando disse que Bolívia e Equador, sempre câmara de ressonância de Caracas, tinham muito a aprender sobre democracia antes de falar dadestituição de Dilma Rousseff. Agora bastou um tuíte de @joseserra para que os ambivalentes —as chancelarias de Argentina e Uruguai—sentissem o chão se mover sob seus pés. A posição que o chanceler Loizaga, do Paraguai, tinha defendido desde o começo se tornou letra oficial do bloco.

Curiosamente, e em função de fatos consumados, o tuíte de Serra entrou no ar antes do comunicado oficial dos ministérios das Relações Exteriores: “Finalmente solucionamos o impasse criado no Mercosul pela possibilidade de que a Venezuela assuma a presidência do bloco”. Anuncia também que a presidência será exercida por uma comissão dos quatro países fundadores e que a Venezuela tem prazo até 2 de dezembro para cumprir os compromissos contraídos, ou “será suspensa do Mercosul”.

A beleza dos 140 caracteres é que não há espaço para as miudezas que alguns usam como sinônimo de diplomacia. Logo chegaram os comunicados oficiais de todos Ministérios de Relações Exteriores, com um parágrafo adicional no do Paraguai referindo-se a que nenhum dos quatro países colocou objeções à decisão. Talvez tenha sido uma estratégia de Assunção para neutralizar possíveis acenos a Caracas.

Não é supérfluo, em se tratando de acenos. Acontece que a chancelaria do Uruguai não emitiu um comunicado próprio, apenas reproduziu a resolução do Mercosul em seu portal, escaneada, e a da Argentina só fez referência a negociações comerciais e à importância de que a Venezuela se adeque aos protocolos, em uma linguagem tão híbrida quanto possível.

As interpretações da imprensa que chegam de Montevidéu e Buenos Aires inferem que o primeiro caso explica por que o governo de Tabaré Vázquez tem esperança de que a Venezuela pague sua dívida com os produtores agropecuários, entre outros rumores. O segundo caso teria a ver com o fato de a chanceler Susana Malcorra continue indicada à Secretaria Geral das Nações Unidas e a Venezuela continue no Conselho de Segurança.

Em contraste, o Itamaraty não só fez referência ao “Acordo de Complementação Econômica número 18” de 1991 mas também ao “Protocolo sobre Compromisso com a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos” de 2005. O chanceler Serra, além disso, falou sobre a questão de direitos humanos em uma entrevista ao jornal paulista Estado de S. Paulo no dia seguinte. A vingança é um prato que se come frio, devem ter pensado em Mburuvicha Róga em Assunção.

Enquanto isso, em Caracas, no fim de uma semana de intrigas, segredos e chantagens várias, o deputado Timóteo Zambrano, coordenador de assuntos internacionais da MUD, quase se tornou porta-voz da chancelaria. Em linguagem que parece emprestada da sempre loquaz Delcy Rodríguez, o deputado rechaçou as sanções do Mercosul —a “ameaça do Mercosul”, segundo divulgou El Universal de Caracas— uma vez que prejudicaria os venezuelanos residentes nos países membros.

Muito louvável, mas isso se resolve com a generosa política migratória que existe com os exilados venezuelanos, pois é o que são. Não é preciso nada além de tomar um café em qualquer capital da região e conversar com os tantos jovens venezuelanos que ali trabalham. Para que Zambrano não se preocupe, também são encontrados em Bogotá, Lima ou no DF, capitais de países que não são membros do Mercosul.

O que acontece é que a pressão internacional sobre Maduro deu um giro e Zambrano reage diante disso, menos como opositor do que como oficialista. Agora é o Brasil que começa a agir. Nada será como antes na América Latina para o chavismo.

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