domingo, 4 de setembro de 2016

Escolas? Não, antros de doutrinação ideológica.

Assino embaixo do artigo publicado por Gustavo Ioschpe sobre as escolas brasileiras, que se preocupam mais em "formar cidadãos conscientes" do que transmitir conhecimentos. Isto ocorre também nas áreas ditas humanas das universidades, pouco importa se públicas, privadas ou confessionais - todas estão gramscianamente ocupadas. Fui professor universitário e conheço bem esses antros, onde sou persona non grata (na Unicamp, por exemplo, desde que defendi, nos anos 90, doutorado sobre a decadência do marxismo, publicado em livro aqui e na Itália - Perché il marxismo ha fallito, Mondadori, 2001):


Todo cidadão brasileiro deveria saber que nossas escolas são templos de doutrinamento político e ideológico, que essa conduta é indevida e que ela tem impactos nefastos no nosso sistema educacional e no futuro do país. Vamos por partes.

Que nossas escolas, tanto públicas quanto particulares, foram há muito invadidas por pregação ideológica, quase sempre de viés filossocialista, não deveria ser novidade para ninguém. Os próprios professores são réus confessos. Em perfil do nosso professorado publicado pela Unesco e pelo Ministério da Educação (bit.ly/2bFMem1), 72% de nossos mestres dizem que a função principal do professor é "formar cidadãos conscientes". "Proporcionar conhecimentos básicos" ficou com 9% e "formar para o trabalho" foi mencionado por 8%.

No mesmo questionário, 55% dos professores discordam (!) da seguinte afirmação, relativa ao comprometimento do profissional em início de carreira: "A atividade docente deve reger-se pelo princípio da neutralidade política". Caso você tenha alguma dúvida sobre para que lado pende o viés político adotado na sala de aula do seu filho, saiba que 76% dos professores dizem que "A liberdade e a igualdade são importantes, mas, se tivesse que escolher uma das duas, consideraria a igualdade como mais importante, isto é, que ninguém se veja desfavorecido, e que as diferenças de classe social não sejam tão fortes".

Essa preferência dos docentes foi mesmo institucionalizada durante a gestão petista. Nosso Ministério da Educação assim orientou editoras sobre quais deveriam ser os enfoques dos nossos livros didáticos (bit.ly/2bHnVkV): "promover positivamente a imagem da mulher"; "incentivar a ação pedagógica voltada para o respeito e valorização da diversidade, aos conceitos de sustentabilidade e da cidadania ativa"; "promover positivamente a imagem de afrodescendentes e descendentes das etnias indígenas brasileiras".

Neste ano, um dos itens indispensáveis listados no edital (bit.ly/2bFY2yz) para a seleção dos livros de ciências humanas e naturais adotados no ensino fundamental (atenção: alunos de 6 a 14 anos) é que as publicações visem "à formação de um cidadão do século 21, pronto para aprender como bem utilizar e conservar os recursos naturais, respeitar os direitos humanos, a diversidade cultural e para lutar pela construção de uma sociedade mais justa, solidária, sem preconceitos e estereótipos".

Basta folhear qualquer livro didático entre os mais adotados de história ou geografia para notar que as diretivas são entusiasmadamente seguidas (faça o teste com o do seu filho). A inclusão da filosofia e da sociologia como disciplinas obrigatórias no nosso currículo é garantia de que, se todas as outras disciplinas não tiverem conseguido fazer nosso aluno pensar do jeito "certo", haverá mais duas oportunidades de doutrinamento, para que todos possam realizar seu catártico praguejamento contras as elites, o neoliberalismo e o jugo capitalista.

Chega a ser quase surreal ter de argumentar que uma escola –especialmente a pública, da qual os filhos do cidadão de menos condições socioeconômicas recebem a escolarização obrigatória– não tem o direito de usar de seu público cativo para expressar os pontos de vista políticos de seus professores. O texto definitivo sobre esse assunto, na minha opinião, foi pronunciado por Max Weber no longínquo 1918, publicado posteriormente como "A Ciência como Vocação". Recomendo a leitura na íntegra (bit.ly/2ccTxNr).

Weber diz o seguinte: "Se, numa assembleia popular, se fala de democracia, não se faz então nenhum segredo da posição pessoal: pois tomar partido de uma forma clara é aí o maldito dever e a obrigação. As palavras que nessa altura se utilizam não são instrumento de análise científica, mas de propaganda política em vista da tomada de posição dos outros. Não são relhas de arado para abrir o campo do pensamento contemplativo, mas espadas contra o inimigo: meios de luta. Em contrapartida, utilizar assim a palavra numa aula ou numa conferência seria um sacrilégio". Por quê?

"Tanto ao profeta como ao demagogo se diz: 'Vai pelas ruas e fala publicamente'. Ou seja, onde a crítica é possível. Num auditório, deve o professor falar diante dos seus ouvintes, e estes guardar silêncio; os estudantes, em vista da sua progressão, estão obrigados a frequentar as aulas de um professor e nelas não é permitido fazer críticas. Considero, pois, uma irresponsabilidade que o docente aproveite esta circunstância para estampar nos ouvintes as suas próprias ideias políticas, em vez de se limitar a cumprir a sua tarefa: ser útil com os seus conhecimentos e com as suas experiências científica. [...] Sempre que o homem de ciência surge com o seu próprio juízo de valor, cessa a plena compreensão dos fatos."

TRAIDOR

O professor que faz política em sala de aula é um duplo traidor. Trai a confiança do aluno na sua imparcialidade e na crença de que um professor não abusará da sua posição de poder para tratar de assuntos que transcendem o universo acadêmico, e trai também a ciência que representa, pois a partir do momento em que se posiciona, não há como saber quantas e quais distorções ele haverá de fazer sobre a matéria que deveria ensinar para que ela se adeque à sua cosmovisão.

No Brasil atual, porém, nem acho que essas traições sejam a faceta mais condenável da saturação ideológica vivida em nossas salas de aula. A consequência mais perniciosa dessa politização é que ela serve para encobrir a acachapante incapacidade de nossa escola de cumprir sua missão. Se você reclamar de algum profissional por ele não estar conseguindo cumprir seu trabalho a contento, a maioria deles haverá de buscar melhorar e se sentir embaraçado pela crítica.

Diga a um professor brasileiro típico que seus alunos estão analfabetos, ou não sabem fazer uma multiplicação, ou que não dominam qualquer outra competência básica que qualquer pessoa precisa ter em sua vida e ele lhe responderá que "educação é muito mais do que isso", "essa é a agenda neoliberal da formação para o trabalho", "isso é reducionismo", "a formação do cidadão crítico e consciente é muito mais importante" e outras tertúlias.

Com essa ideologização, o establishment educacional brasileiro se blinda, vira refratário a qualquer autoanálise e bloqueia toda tentativa de reforma que objetive melhorar o desempenho dos nossos alunos. Nossa ideologização não é apenas um mal em si mesmo: serve para encobrir e perpetuar o mal maior, que é o nosso fracasso educacional.

Desnecessário dizer que é esse fracasso, mais do que qualquer ausência de espírito "crítico e consciente", que condena nossa sociedade à pobreza, à desigualdade e a tudo aquilo que os professores militantes dizem combater.

Não poderia concordar mais, portanto, com o diagnóstico do movimento Escola Sem Partido. Sou partidário da causa. Mas discordo da posologia. A solução para esse problema não é uma lei. Nem uma lei que proíba os professores de se posicionarem politicamente, como aquela aprovada em Alagoas e que tramita em outros Legislativos estaduais, nem aquela que defende a mera colocação de cartazes em sala de aula alertando alunos contra a pregação dos mestres, como quer o projeto de lei federal. Creio que ambas serão inúteis, porque não se pode fiscalizar o que ocorre em cada sala de aula do país, e o aluno não tem poder para impedir que seu professor destile sua cantilena.

Alunos e famílias que protestam sozinhos contra os desmandos de suas escolas costumam ser hostilizados e perseguidos pelos professores. A lei que proíbe os professores de se pronunciarem politicamente também me parece ser inconstitucional.

Há alguns anos fiz uma consultoria para o Ministério da Educação sobre sistemas educacionais de excelência. Uma das conclusões, resumível em uma frase, é de que, nos países de ponta, o consenso substitui a legislação, enquanto que no Brasil a legislação substitui o consenso.

Nossos problemas educacionais –tanto a ideologização quanto a péssima qualidade do ensino– têm a mesma causa-raiz: quase ninguém se importa com o que acontece em nossas escolas, quase ninguém reclama. Não precisamos de mais leis. Precisamos, isso sim, de pais e mães que devotem uma porcentagem minúscula de seu tempo para saber o que acontece na aula de seus filhos e se organizem para, juntos, reclamar junto ao diretor de sua escola ou à Secretaria de Educação do seu município ou Estado.

Pode apostar e me cobrar: no momento em que um professor ou diretor souber que vai ser incomodado por um grupo de pais porque seu filho teve uma aula medíocre ou eivada de propaganda política, começaremos a ter a educação de que precisamos. (Folha, Ilustríssima).

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