sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Hobbes tinha razão: o homem é o lobo do homem.

Os humanos são predispostos a matarem uns aos outros, segundo estudo publicado na revista Nature. As instituições construídas ao longo da civilização, entretanto, tendem a modular essa violência congênita. Haja lei, haja cadeia:


Os seres humanos são predispostos a matarem-se uns aos outros, mostra um novo estudo publicado na revista científica Nature. Cientistas espanhóis que analisaram centenas de outros estudos e compilaram dados históricos mostraram que não são apenas os seres humanos que têm uma tendência para matar membros da mesma espécie: o mesmo sucede com os primatas. E estimaram que 2% das mortes humanas e dos grandes primatas têm como origem a violência entre comunidades ou no seio dessas comunidades.

O El País afirma que os autores do estudo analisaram dados relativos a 1.024 espécies de mamíferos (abrangendo 137 famílias de animais) durante dois anos. Os investigadores compilaram também informação sobre mortes em conflitos em 600 civilizações humanas, recuando até há 50 mil anos assim englobando o que sabemos das sociedades pré-históricas.


No jornal britânico The Guardian, Mark Pagel, um professor na Universidade de Reading que não está envolvido neste estudo, explicou que este trabalho comprova que “os seres humanos evoluíram estratégias para resolver problemas com a violência”. Ou seja, a ideia de que o homem é um lobo para o próprio homem — homo homini lupus est na famosa formulação de Thomas Hobbes, o autor de Leviatã — é verdadeira, mesmo tendo sido possível detetar que a nossa predisposição congénita para a violência pode ser modulada pelas sociedades e civilizações.

De facto os autores também mostram que a organização da sociedade, a existência de lei e de forças capazes de impor o respeito por essas normas, pode moderar a forma como os seres humanos são agressivos. Para José María Gómez não se pode afirmar que os 2% de mortes violentas que a sua equipa detetou se devem exclusivamente a fatores genéticos, pois existe outros elementos que afetam esta tendência, como “as condições ambientais e restrições ecológicas”. Em concreto, “a violência tem uma componente evolutiva, está nos nosso genes, mas isso não significa que existe um determinismo genético”.

Mark Pagel considera no entanto que é importante sublinhar que as adaptações genéticas selecionadas ao longo de milhões de anos de evolução dos mamíferos, depois dos primatas e, por fim, da nossa própria espécie têm uma evidente responsabilidade nas tendências detetadas neste estudo. Este professor de biologia evolutiva defende que os primatas expressam “níveis relativamente elevados de violência mortal” quando comparados com outros mamíferos, por exemplo. O mesmo cientista sublinha contudo que os níveis de violência entre os seres humanos têm sofrido alterações ao longo do tempo, mas que estes cálculos confirmam a sua hipótese, sendo que o valor de 2% corresponderia ao homem pré-histórico. Entre os séculos X e XV esse valor foi mais elevado (pode ter chegado a 12%), mas diminui bastante nos últimos séculos.

O estudo foi também elogiado por Steven Pinker, um psicólogo evolutivo que publicou alguns livros em que discute precisamente o tema da violência inata na nossa espécie, nomeadamente The Blanck Slate e The Better Angels of Our Nature. Trata-se, para ele, “de uma análise criativa e minuciosa, e no essencial consistente com a minha visão da história da violência”, isto é, de que a violência tem vindo a diminuir com a evolução da civilização moderna e que vivemos hoje num tempo que e um dos menos perigosos para a nossa integridade física. “Teria gostado imenso que este estudo já tivesse sido publicado quando escrevi o meu último livro”, acrescentou Pinker: “O que procurei mostrar em The Better Angels of Our Nature aparece aqui sustentado com muito mais rigor, precisão e profundidade”.

Sendo certo que há muitos outros animais para além do homem que matam membros da sua própria espécie, sobretudo quando se trata de espécies sociais e territoriais, o que Pinker defende e este estudo reforça é que as instituições que criámos nos últimos séculos e as leis que desenvolvemos têm conseguido mitigar a nossa violência congénita. Afinal, hoje somos menos lobos para os outros homens do que no tempo de Thomas Hobbes. (Observador).

2 comentários:

O MESMO de SEMPRE disse...

Conversa fiada!

Todos os animais matam-se na mesma espécieem disputas por lideranças, fêmeas ou terriotório.

Vejo essa nova firula como mais uma formulação em tentativa de SALVAR O PODER de UNS SOBRE OS NOUTROS como remédio.

Rousseau dissimuladamente emulou Hobbes quando sutilmente sentenciou que "O FORTE NÃO SERÁ SEMPRE O MAIS FORTE SE NÃO FIZER DA SUA FORÇA UM DIREITO E DA OBEDIÊNCIA UM DEVER".

Pode-se perceber que a idéia do PRINCIPE-ARBITRO de Hobbes não é diferente desse "FORTE" de Rousseau. Hobbes apelou para a concessão de todos a um príncipe para que todos se submetessem à VONTADE desse príncipe como meio de eviotar a "guerra de todos contra todos". Ou seja, Hobbes advogava uma CONCESSÃO de todos ao príncipe. Já Rousseau sugeria que tal fosse uma CONCESSÃO UTILITARISTA, mas SIM que se tornasse um direito do príncipe arbitrar sobre os demais. Rousseau, desta forma, preconizava a dispensa de explicações simplesmente defendendo UM DOGMA a ser repetido e INCUCADO nas mentes: "uma mentira repetida mil vezes se torna verdade".

Dois defensores do Poder arbitrário da autoridade instituida.

Orlando Tambosi disse...

Não acho que a pesquisa seja uma piada, mas uma constatação.E não colocaria Hobbes e Rousseau no mesmo saco. E