quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Estado Islâmico: os novos arautos do apocalipse.

Não, o Isis ("Daesh") não quer construir nada, não cultiva nem sequer uma utopia. É uma doutrina apocalíptica de destruição do mundo, que tem por fim a violência por si própria. A morte, para esses neo-bárbaros, não é um meio, é a glória do niilismo, já personificada pelo nazismo. Artigo de Guilherme Valente, publicado no Observador:


O que fascina o terrorista jihadista é a revolta pura, não a construção de uma utopia. A violência não é um meio, é um fim.
Claude Roy

“Os terroristas que agem em nome do Islão estão condenados ao inferno para sempre.”
Mohamed VI, Rei de Marrocos (1)

1. As várias explicações estabelecidas, históricas, religiosas, políticas, sociológicas, não impedem que a pergunta incontível irrompa da inteligência e do coração: como é possível crer num Deus assim? Como é possível interagir com uma religião e uma cultura intolerantes (a tolerância implica simetria)? Conviver com uma vivência do amor ao próximo e da fraternidade reservada apenas à comunidade dos crentes?

“O islão é uma religião de paz” é um slogan criado e repetido pelos que querem absolver o islão dos crimes cometidos em seu nome. Na verdade não há nada de que se possa falar como sendo “o islão”. O islão são as várias interpretações e escolhas que os muçulmanos fazem dos seus textos, algumas claramente contraditórias. Há muitos islão, portanto. Uns com tanta legitimidade como os outros. As diferenças não são apenas entre o islão Sunita e o Xiita, com os quais a Europa continua a estar mais em contacto.

2. O islão nasceu guerreiro e conquistador na periferia de impérios pacificados de que as tribos árabes eram o reverso violento. A jihad é parte constitutiva do islão. Começou a ser praticada por Maomé e pelos califas que se lhe sucederam, desde logo contra os próprios muçulmanos. Esse é o islão violento e impiedoso, hoje minoritário no mundo islâmico, mas recentemente de novo hiperactivado.

Islão esse que tem devastado o Médio Oriente, atingindo e sacrificando esmagadoramente o islão pacífico, vítima submissa. Islão violento que os governos do Ocidente têm catalisado com intervenções ignorantes das culturas e da História e com um cego oportunismo.

Intervenções canhestras, que foram dificultando e contribuindo para comprometer a modernização do mundo muçulmano, “tirando o tapete” ao pensamento e movimentos modernizadores, abandonando os intelectuais resistentes, apoiando mesmo de algum modo os que os perseguem (ver os meus artigos publicados no Observador).

O Daesh é islão. Os seus líderes, com sólida formação teológica, aplicam rigorosamente versetos do Alcorão e seguem exemplos da vida do Profeta. Identificam-se com a ala jihadista de um ramo do sunismo, o salafismo, os ‘fundadores devotos’, tomando como modelo Maomé e os califas que se lhe seguiram.

O islão do Daesh, aplicado com todo o rigor teológico, junta à reprodução da realidade do século VII, que impôs no território conquistado e proclama querer impôr ao Mundo, um projecto apocalíptico, uma variante específica presente no integrismo fundador. O Daesh considera-se o agente desse apocalipse que se aproxima.

Aquilo que em 1939 Klaus Mann (2) escreveu sobre o nazismo pode ser aplicado ipsis verbis ao Daesh. Parece-me ser a esta luz que o projecto do Daesh deve ser compreendido e decididamente enfrentado. Transcrevo (3):

“O nacional-socialismo não é nem revolucionário nem conservador. É nihilista no sentido mais profundo e horroroso do termo. […] Os nazis querem dominar os outros povos para operarem o maior número de destruições possível. Nada lhes importa que o seu próprio nível de vida vá descendo enquanto dominam a Europa inteira. […] A revolução nihilista não representa nem significa outra coisa a não ser a morte. Mataram Polacos e Checos como mataram os melhores elementos da nação alemã. […] Quando os nazis proclamavam que ‘todo o mal vem dos Judeus’ na verdade o que estavam a dizer é que todo o mal vinha desse espírito indomável da razão, da tolerância, do progresso e do amor do próximo. O nihilismo não se opõe apenas a certas ideias e concepções, opõe-se ao próprio conceito de civilização.”

Substitua-se “nazismo” por “Daesh ” e tudo se tornará claro, desde os milhares e milhares de mortos, sobretudo outros muçulmanos (200 milhões de xiitas, que os sunitas consideram apóstatas, estão marcados para morrer), até à destruição do património histórico milenar. Destruição aparentemente absurda, mas que se torna lógica se se equiparar a acção e programa do Daesh ao nihilismo nazi, tal como proponho.

A morte do terrorista islamista não é uma possibilidade infeliz, está no centro do seu projecto, como também notou Claude Roy (4) “É esta associação sistemática com a morte [com a destruição] que constitui a chave da radicalização actual, em que a dimensão nihilista é central” .

É a revolta em si que fascina o jihadista. Não é, como acontecia no terrorismo político, a oposição a um modelo político e social, ou a construção de uma utopia.

Para o terrorista do Daesh (como a Al-Qaeda já “anunciara”) a violência não é um meio, é um fim. Nesse sentido é uma violência sem futuro, tal como ao observador não informado parece ser o combate que travam.

O jihadista quer morrer. “Nós amamos a morte, vocês a vida.”, disse Bin Laden. Parece ser esse fascínio mórbido que atrai os que se ligam ao Daesh.

A observação destes factos e a atracção que a jihad exerce em jovens de todo o mundo levaram Claude Roy a considerar que este terrorismo suicidário não pode ser explicado APENAS pelo extremar do fundamentalismo.

Ponto de vista que foi, então, criticado. Por um lado, por supostamente ignorar as causas políticas e sociais do fenómeno, designadamente, a revolta contra a herança colonial, as intervenções militares ocidentais e a exclusão dos emigrantes e seus descendentes nas sociedades de acolhimento. Por outro lado, por ignorar a ligação entre a violência terrorista e a radicalização religiosa do islão sob a forma do salafismo.

Mas essas causas não foram ignoradas, foram apenas consideradas insuficientes para explicar alguns dos dados empíricos observados.

Há, segundo este especialista, uma especificidade neste terrorismo e jihadismo suicidários que não pode ser vista como uma simples consequência da tragédia, infelicidade e bloqueio das sociedades muçulmanas. Quer resultem de uma opressão exterior, quer do fechamento numa lógica religiosa fundamentalista.

E vai mais longe ao afirmar que essa relação com a morte se liga a uma outra originalidade: o jihadismo é, pelo menos no Ocidente e no Magrebe, um movimento de jovens. Movimento que se constitui não apenas em divergência com as opções religiosas e culturais dos pais, mas é “inseparável da ‘cultura jovem’ das nossas sociedades”. Por isso, diz este autor, não deve ser visto como uma radicalização do islamismo mas como uma “islamização da radicalidade”.

Não se trata, pois, de uma revolta contra um modelo político ou uma classe, mas de uma revolta geracional que se manifesta também numa dimensão iconoclasta cultural. O Daesh destrói não apenas as pessoas, mas estátuas, templos, monumentos e livros. Destrói a memória, quer fazer “tábua rasa”.

É essa crença num apocalipse final, de que o Daesh se considera o agente promotor, que explicará porque tem atraído psicopatas e fanáticos SOBRETUDO de populações marginalizadas do Médio Oriente e da Europa. Explica porque tem atraído o ressentimento, o ódio, a violência e o vazio oriundo de todas as latitudes.

Como explica Graeme Wood num artigo publicado atempadamente no Atlantic Review (5), “A conquista do poder pelo Daesh é menos parecida com o triunfo da Irmandade Muçulmana no Egipto (considerada apóstata) do que com a realidade alternativa distópica que os líderes de seitas americanas como David Koresh ou Jim Jones quiseram criar para governar não apenas umas centenas de pessoas, mas milhões.”

Estas teses, note-se, não resolvem nem eliminam a questão do Médio Oriente nas várias vertentes em que tem de ser equacionada, nem a questão do relacionamento do islão com o Ocidente e a da emigração muçulmana na Europa. Este terrorismo jihadista fulminante está inclusivamente a ocultar essas questões, a adiar a sua consideração, designadamente o problema da recomposição geoestratégica do Médio Oriente e o da reforma e reposicionamento (inadiáveis…) da religião muçulmana.

3. Islãos contraditórios, portanto, como são contraditórios os versetos do Alcorão e cenas da vida de Maomé, registadas pelos seus companheiros.

Há, por exemplo, uma distância de séculos entre as interpretaçōes que definem o islão de Java e as do islão sunita extremista da Arábia Saudita. Arábia Saudita com a qual os governantes europeus continuam a trocar por petróleo a alma da Europa.

(1) Discurso de Dezembro de 2016, de que não resisto a transcrever mais um fragmento: “Face à proliferação dos obscurantismos promovidos em nome da religião, todos, muçulmanos, cristãos, judeus, devem construir uma frente comum contra o fanatismo, o ódio e todas as formas de fechamento em si próprio. A história da Humanidade é a melhor prova de que o progresso não pode ter lugar em sociedades dominadas pelo extremismo e o ódio, os quais constituem o principal factor de insegurança e instabilidade. Pelo contrário, a civilização humana abunda em modelos de sucesso que confirmam que a interacção e a coexistência intereligiosas geram sociedades civilizadas abertas onde reinam os afectos e a concórdia, o bem estar e a prosperidade. Um testemunho disso são as civilizações islâmicas de Bagdad e do El-Andaluz que foram na História das mais evoluídas e abertas”. Vai o Ocidente e o mundo civilizado deixá-lo sozinho também a ele? Como escreveu Bérnard Henri-Lévy, VIVA O REI!

(2) Romancista e ensaísta que percebeu muito cedo a natureza do nazismo que enfrentou. Filho de Thomas Mann.

(3) Texto de 1939 retirado de um artigo da revista Equality. Agora oportunamente republicado numa pequena antologia de textos do autor lançada pela editora Phoebus, Paris.

(4) “Al-Qaeda in the West as a Youth Movement – The Power as a Narrative”, e agora num livro a publicar em breve em França, “Le Djihad et la mort” (Seuill).

(5) Traduzido e divulgado muito oportunamente pelo Público, 29/3/2015.

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