terça-feira, 1 de novembro de 2016

A era do não: cariocas deram um pontapé no anacrônico Psol.

O derrotado Freixo: defensor de bandidos.
Crivella, o prefeito eleito, não precisa comemorar. O que os cariocas fizeram, na verdade, foi manifestar repulsa ao Psol e seu vetusto aliado, o PCdoB. Dizer não a essa escória ideológica foi um grande passo. Artigo do editor Carlos Andreazza publicado no jornal O Globo:


Ainda por muito tempo o carioca digerirá o fracasso de haver chegado ao fim do ano em que sediou uma Olimpíada tendo, no entanto, de escolher um prefeito entre os retrocessos Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, homens de séculos passados, um duro golpe na ideia de cidade cosmopolita conforme a ilusão de quem não faz ideia do que seja uma cidade cosmopolita.

Mais do que a crise em que a fantasia criminosa decorrente da associação entre Lula e Sérgio Cabral Filho — entre PT e PMDB — afundou o estado, mais do que o esfacelamento da mentira chamada de UPP, mais do que o anel de R$ 800 mil no dedo da primeira-dama do fanfarrão cujo desejo de ascensão irresponsável ora resulta em servidores sem salário, mais do que a acefalia de ter dois governadores e ter nenhum, mais do que o fato dolorido de serem daqui patriotas do naipe de Eduardo Cunha e Jorge Picciani, mais do que a constatação de que o legado desses estadistas é a paralisia moral em que nos atrasamos, aquilo que melhor representa a depressão profunda do Rio de Janeiro, a doença do Rio de Janeiro, é a disputa, na capital, de um segundo turno que, em pleno ano da graça de 2016, confronte um representante da Igreja Universal, com seu projeto de poder hostil à liberdade, e um do PSOL, o partido em cujo nome o socialismo — de acordo com sua tradição — tenta aprisionar um valor que lhe é oposto e inconciliável; de novo: a liberdade, essa hostilizada.

Eis o retrato na parede de um Rio que se desconversou; cidade cuja população se orienta — e quem dirá que está errada? — para rejeitar, para repelir, para dizer não.

A eleição municipal carioca teve dois turnos. Ambos de natureza plebiscitária. Tanto faz se no primeiro ou no segundo, a maioria dos eleitores ou se absteve — numa alarmante manifestação contrária à política — ou votou contra. De início, contra o PMDB fluminense, contra Cabral, Pezão e Cunha, contra o prefeito olímpico Eduardo Paes — que se acreditou, talvez pelos anos de convivência com Lula, capaz de eleger um poste; no caso, um cassetete. Depois, com o páreo reduzido a somente dois pangarés, numa campanha cujo baixíssimo nível serviu para desnudar os monges, o cidadão do Rio tapou o nariz e digitou o número por meio do qual daria um não a Freixo, ao PSOL, à esquerda — mas principalmente um não aos que chamam de golpistas aqueles a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Não menospreze isso, leitor.

Que Crivella, portanto, nem por um segundo se imagine consagrado pelas urnas. Será erro grave de avaliação. Ele, que já disputou e perdeu algumas eleições para prefeito e governador, tampouco venceu esta. Ou, experiente que é, compreende o recado, ou terá mandato turbulento para muito além dos problemas decorrentes da real situação financeira do município (que logo descobrirá) — porque ainda vai apanhar muito, e sem ter um Freixo para fazê-lo de “menos pior”. Esse, aliás, é o ponto.

A forma como Crivella resistiu, com poucos abalos, a tantas acusações no curso do segundo turno — inclusive àquela encarnada pela foto de sua prisão — não lhe é mérito, ao menos não primordialmente, e embute, na explicação, o motivo pelo qual tanto trabalhou por ter Freixo como oponente na rodada final. Fosse seu adversário qualquer outro — Pedro Paulo, Flávio Bolsonaro, Indio da Costa ou Carlos Osorio — e teria hoje mais uma derrota para chamar de sua.

Contra Freixo, contudo, beneficiou-se — até Garotinho se beneficiaria (para que o leitor avalie a força do fenômeno) — de um voto de repulsa ao PSOL e a tudo quanto este partido significa, compreendido que é, com bom humor, como a linha auxiliar circense do PT; como DCE para recreio de marmanjos. E, não importando o humor, como o sustentáculo político do criminoso “movimento” black bloc; como o partido que concorreu à prefeitura do Rio, numa eleição no século XXI, em coligação com o Partido Comunista Brasileiro. Repito: Partido Comunista Brasileiro. Repito: Partido Comunista Brasileiro — aquele de Mauro Iasi, o poeta que cita Bertold Brecht para incitar o assassinato dos inimigos conservadores.

Administrando os engulhos, pois, o carioca engoliu tudo o que havia contra Crivella, que igualmente despreza, para não eleger aquele em quem identifica perigos maiores do que os representados por ter a Igreja Universal à frente do município.

A cidade, afinal, fez uma escolha entre desonestidades.

Enquanto trata (espero que trate) de suas chagas políticas, o cidadão do Rio de Janeiro talvez não tenha tempo (certamente não tem motivo) para se envaidecer com a leitura segundo a qual sua eleição municipal antecipou e experimentou o cenário eleitoral de 2018; mas assim é, assim será: o brasileiro elegerá seu próximo presidente, entre muitos candidatos, num plebiscito em que dirá sobretudo não.

Sabemos a quem — a o quê — se destinará o não. O desafio é observar o tabuleiro e ver qual o bispo que avança.

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