quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A violência simpática da esquerda que nos salva da barbárie

Mordaz como sempre, Maria João Marques faz uma bela crítica da estupidez politicamente correta da esquerda portuguesa (crítica que vale para as esquerdas de todos os países, notadamente a brasileira). Não me canso de repetir: ideologia, de fato, sempre emburrece:


Um chefe português participa num festival gastronómico em Israel. O que, concordo, é um crime hediondo. Israel é má rés em termos de nações, como se sabe. Associar-se gastronomicamente a um país destes não pode ser comparado com gestos nobres dos artistas portugueses que faziam peregrinações de amizade a Cuba, no tempo do extorsionário Fidel, e vinham de lá com lágrimas nos olhos garantindo o empenho dos cubanos na revolução e o enlevo geral com o seu benemérito ditador. (Sim, ainda sou do tempo em que se viam figurinhas destas aos vultos culturais nacionais.) Também não merece os elogios de um qualquer ato benigno de apoio de boas almas portuguesas às FARC na Colômbia ou às suas congéneres venezuelanas (tomando a bitola da destruição e sofrimento provocados), também conhecidas como governos de Chavéz e Maduro.

Apoiar assassinos, ditadores, protoditadores e catalisadores de pobreza generalizada, sendo estes de esquerda, é bom. Visitar um evento na única democracia decente do Próximo Oriente é mau.

Vai daí, um blogue anarquista decide punir o chefe português provocador que ousou associar-se ao extorsionário cubano, perdão, aos guerrilheiros terroristas colombianos, perdão, (muito pior!), aos israelitas. Fizeram muito bem. Pintalgaram-lhe o restaurante de tinta encarnada. É para o chefe aprender. Deixo aqui a justificação do ato:

‘O vermelho que escorre no vidro é o sangue que Avillez avilta com a sua colaboração culinária. A cola que veda a fechadura é a fome provocada que Avillez quer gourmet. As ementas recheadas de realidade são a face visível de que ‘o destino das nações depende da forma como elas se alimentam.’

Eu não percebi nada do que queriam dizer, ofereço um bombom a quem traduzir a algaraviada, mas em boa verdade as sequências de palavras e frases vindas das pessoas de extrema-esquerda costumam gritar falta de lógica formal e conteúdo revelador de um autor com QI aí, no máximo, 79. Pelo que não me espantei. Como de resto considerei a lambuça pretensiosa a armar ao poético refrescantemente consistente com o que esperamos da extrema-esquerda. Gosto sempre que não me desfaçam as desilusões.

E o chefe nem pode argumentar que não estava avisado, que estes anarquistas, perdão, anjinhos, que destroem propriedade privada são leais e avisam atempadamente o mundo das consequências das suas aleivosias. Depois do chefe ter ignorado os avisos feitos na ‘imprensa dos monopólios’ (e quem ousa ignorar avisos de maluquinhos deste calibre?), os criminosos, perdão, os justiceiros decretaram ‘que não nos encheu os olhos, deixando um travo amargo nos nossos estômagos de poetas, que apenas um copo de ação direta – essa forma máxima de poesia – mitigará’. Mais uma vez não se percebe nada, mas dá para rir com o estilo de escrita adolescente. E para nos questionarmos se os ‘estômagos de poetas’ não estarão a necessitar de transplante à conta da ingestão de comprimidos com substâncias alucinogénias.

O melhor disto tudo? É que os maluquinhos criminosos que vandalizam propriedade alheia têm fãs. O Bloco de Esquerda, essa simpática agremiação, desvalorizou o ataque antissemita a quem viaja para Israel como mero ‘protesto’ – supõe-se que pacífico e cheio de reproduções desafinadas de canções do festival de Woodstock. O militante do BE, José Falcão, ‘não hesita em apoiar os ativistas’. O PCP preferiu não comentar – nem sequer para dizer aos autores do blogue ‘vão aprender a escrever, seus mandriões’. Mas não temeis: estas pessoas coerentes da esquerda portuguesa já se escandalizam (muito) na hora de condenar o antissemitismo de apoiantes de Trump. Esse, claro, é antissemitismo do mau.

É que a extrema-esquerda é mais ou menos como acreditar nas cores das auras. Conto mais um caso. Um artigo na The Economist referia a correlação estatística entre a prevalência de problemas de saúde (menor esperança de vida, diabetes, obesidade,…) e os counties americanos que mais votaram em Trump. Mais problemas de saúde estão também correlacionados com menores rendimentos, pelo que uma pessoa com expetativas normais esperaria que alguém de esquerda se inquietasse com uma parte da população com poucos rendimentos, sem educação superior e com pouca saúde ter preferido votar em quem prometia exterminar o programa de saúde Obamacare.

Mas não. Ricardo Paes Mamede, por razões (mais uma vez) aquém da lógica, defendeu no Facebook que a obesidade é a causa do voto na direita – ou, nas suas palavras, no protofascismo. E termina mesmo apoteoticamente com ‘só o socialismo previne a barbárie’.

Novamente, não se percebe nada. Exceto se a barbárie afinal for sinónimo de obesidade. De facto, o socialismo costuma ser muito eficaz a prevenir uma dieta minimamente calórica nas populações onde é experimentado. Regressando a Cuba, li há uns meses algures numa revista americana que a revolução cubana tinha três grandes inimigos: o pequeno almoço, o almoço e o jantar. Aposto que há poucos obesos protofascistas em Cuba.

Mas isto não interessa nada. Está resolvido. Socialismo é bom, porque elimina a obesidade. Atos violentos da esquerda antissemita são meros protestos beatíficos. Se o caro leitor não entende esta cosmologia, também não faz mal, porque quanto menos usar os neurónios e a lógica mais as boas pessoas de extrema-esquerda gostarão de si. (Observador).

2 comentários:

Anônimo disse...

Bobos! O evento culinário devia ser feito na Lua, assim ninguém ficava magoado.

Anônimo disse...

Claro que Socialismo é bom, porque elimina a obesidade. Isso sempre esteve nos planes dos venezuelanos Chávez e agora Maduro.