sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O preconceito europeu contra a América do Norte

Miguel Tamen, do Observador, faz uma interessante crítica dos preconceitos europeus em relação à América do Norte - que se tornaram ainda mais visíveis com a eleição de Donald Trump para a presidência. Ora, a Europa que se cale, pois foi o laboratório de monstruosidades como o nazismo, o fascismo e o comunismo:


Acabadas as eleições, irá diminuir a condescendência com que na Europa elas e a América são vistas? Ambos os finalistas, observara recentemente uma revista, podiam nos seus programas ser membros das duas alas de um partido democrata-cristão europeu. Percebe-se a ideia, mas numa coisa não podiam. Nos últimos cem anos nenhum partido democrata-cristão teve alguma vez tantas ideias como a mais ínfima secção local de qualquer dos partidos dos dois finalistas americanos.

Na Europa acrescentou-se até à náusea que os finalistas não eram recomendáveis, e um deles especialmente. Acabadas as eleições irá diminuir a condescendência astuciosa com que nos jornais e televisões se tentou persuadir quem não podia votar a votar contra ele? E a condescendência ainda maior com que se cooptou a outra? Um jornal português chegou a abençoar a América em inglês. Ocorre a imagem de uma lesma a tentar conversar sobre um podengo.

No melhor dos casos na Europa admira-se a América da música americana, que derrotou os nazis e os comunistas, os quais em boa verdade eram normalmente europeus; a América que inventou pela segunda vez as universidades, e pela primeira as lojas de conveniência. No pior deplora-se a destruição da gastronomia, a introdução da gorjeta extorsionária, e o Texas. Não se percebe que alguém ache que só pode haver justiça numa sociedade em que nunca se está a pensar como mudar a Constituição; ou numa sociedade em que se erra espectacularmente, e ainda por cima se pedem desculpas em público. E por via das dúvidas acrescenta-se que na América também não existe um sistema de saúde, e que as pessoas podem arranjar armas pelas esquinas; que existem bairros inteiros segregados; que em dezoito estados não se pode comprar vodka num sítio normal; e sobretudo que as maneiras de mesa deixam a desejar, com aquele braço esquerdo oculto.

Na Europa não se percebem porém duas coisas: uma é a liberdade; e outra é que alguém ache que a liberdade é mais desejável que outras coisas. Um filósofo americano imaginou um teste que, embora também espectacularmente errado, se poderia com vantagem aplicar neste caso: se sem saber em que berço nasceríamos tivéssemos a escolha entre viver num país onde as leis eleitorais são varáveis, se pode desaparecer sem deixar rasto, e as igrejas não pagam impostos; e num país onde existe o método de Hondt, o bilhete de identidade, e “o estado social,” o que escolheríamos?

Na Europa escolhe-se sempre a segunda alternativa. Na Europa as pessoas comuns preferem a saúde à liberdade; os teólogos preferem a esperança à caridade; e os juristas a injustiça ao erro. Na Europa é considerado natural ter a economia à mão, a educação ao pé, e a arte por perto. Na Europa distinguem-se os políticos entre aqueles com quem gostaríamos de jantar e os que usam capachinho. Na Europa prefere-se tudo à América.

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