terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Elogio às pessoas comuns

Em sua coluna na FSP, Luiz Felipe Pondé critica os "inteligentinhos" de costume e afirma que dizer graças a Deus "é reconhecer a frágil beleza da vida." Cita alguns filósofos que "reconhecem a validade da sabedoria do homem e da mulher comuns": 


"Graças a Deus!". Essa frase é muito comum na boca das pessoas comuns. Aquele tipo de pessoa "ignorante" que nunca estudou muito. Aquele tipo desprezado por quase todo intelectual.

Émil Cioran (1911-1995), filósofo romeno, dizia que o povo simples da Romênia sabia de tudo. Tudo que ele teve que descobrir depois de muito estudo, insônia e sofrimento. Sua mãe, uma sábia segundo ele, sempre soube que o destino paira sobre todos nós sem nunca ter lido uma linha de filosofia. "O que sei aos 60 sabia aos 20, 40 longos anos de um trabalho inútil de verificação", dizia nosso trágico romeno.

Soren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, dizia que "só espíritos confusos julgam as pessoas pelos livros que leram". Essa frase deveria ser posta na parede de cada departamento de ciências humanas no mundo.

Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático, cientista e teólogo francês, dizia que os verdadeiros sábios descobriam aquilo que as pessoas comuns sabiam de modo intuitivo a vida inteira e que os falsos sábios ("demi-sevant" nas suas palavras) eram aqueles que acreditavam em suas próprias pequenas e equivocadas teorias.

O que há de comum nesses três casos? Os três reconhecem a validade da sabedoria do homem e da mulher comuns. E o que isso tem a ver com a expressão "Graças a Deus"? Esta expressão é pura sabedoria, nada tem de ingênua. Vejamos.

Sei que inteligentinhos (confesso aqui que minha inspiração para esse conceito antropológico de "inteligentinho" é o "demi-savant" de Pascal citado acima) entendem essa frase como uma marca de gente crente, alienada, ignorante, que serve de massa de manobra para ministros religiosos picaretas de todos os tipos.

E aqui fica clara a condição inteligentinha: ele, realmente, pensa que sacou tudo sobre religião quando diz isso (quando isso é, apenas, uma pequena parte do que religião é de fato). Mas, um inteligentinho nunca entende nada porque leva muito a sério sua dissertação de mestrado. Religião é coisa muito mais séria do que pensa nosso vão ateísmo de butique.

Ouçamos um outro grande intelectual romeno, Mircea Eliade (1907-1986), fundador da história comparada das religiões. Eliade dizia que uma das raízes das religiões é o "terror da contingência", aquele sentimento ancestral de que o acaso (sinônimo de contingência) domina nossa vida sem dó. As religiões seriam formas de lidar, compreender e dar significado a este sentimento esmagador de que a contingência age o tempo todo sobre nós.

Pois bem, quando uma pessoa comum diz "graças a Deus", ela não está manifestando sua idiotice atávica (apesar de que também se pode entender assim, mas será um entendimento inteligentinho), ela está manifestando um profundo entendimento da nossa relação com a contingência e os modos simbólicos de acolhê-la em nossas frágeis vidas.

"Deus" aqui (para além do cristianismo de fundo que organiza nossa forma de compreensão da ação da contingência no Ocidente) é essa gigantesca contingência que tudo decide, uma vez que nunca teremos controle absoluto sobre as variáveis em jogo na vida de cada um de nós.

No judaísmo deve-se ler o livro do "Eclesiastes" (o livro que fala que tudo é vaidade, vento que passa...) da Bíblia Hebraica sempre que a colheita for boa e que tivermos sucesso em nossas vidas, para lembrarmos que se tivemos sucesso é porque Deus assim o quis.

Martinho Lutero (1483-1546), teólogo fundador do protestantismo, dizia que o "Eclesiastes" é um livro sobre a graça, ou seja, a livre vontade de Deus, fora de nosso controle.

Pois bem. Voltemos as pessoas comuns. "Graças a Deus", reconhecimento intuitivo do fato de que estamos nas mãos da contingência incontrolável e que, por isso mesmo, devemos "agradecer" a ela tudo de bom que (por sorte) nos acontece, está em profunda consonância com a sabedoria israelita antiga e com Eliade e Lutero.

"Graças a Deus" é uma profunda forma de reconhecimento da frágil beleza da vida, e uma confissão de humildade que é, sempre, uma forma dessa mesma beleza. Bom ano pra você.

6 comentários:

Paulo Robson Ferreira disse...

O verdadeiro conhecimento é vivencial não é acadêmico. A busca pelo conhecimento acadêmico vicia o indivíduo e atrofia seu senso crítico. Como dizia Einstein, a imaginação é mais importante que o conhecimento, ou seja, o conhecimento fruto da reflexão é mais consistente que o conhecimento encontrado nos livros e não devidamente contextualizado. O grande perigo que paira na cabeça dos "intelectuais" é o "preconceito da origem", ou seja, aquele no qual o indivíduo assimila uma informação não pelo seu conteúdo, mas pela credibilidade que ele atribui à fonte que produziu aquela informação. Aliás essa é a grande falha da maioria daqueles que adotam uma ideologia, são cheios de convicções mas paupérrimos de argumentos.

Anônimo disse...

Gott sei dank!

O MESMO de SEMPRE disse...

.
O dinheiro que antes ia para a esquerda agora vai para os conservadores.
O que esses DONOS do PODER não podem permitir é que as ideologias percam a capacidade de hipnotizar as massas e assim os DONOS do PODER perderem esse Poder.

Quando as idéias liberais despontaram no Iluminismo; diante da absoluta ausência de argumentos contra elas a única solução da ARISTOCRACIA manter o seu Poder político foi PATROCINAR o Socialismo "científico" de Marx/Engels dando-lhe uma aparência anti-religiosa. Assim conseguiriam que as idéias liberais fossem abafadas através de um ARDILOSO ANTAGONISMO BINÁRIO onde o VELHO SOCIALISMO se ostentaria a "verdadeira" oposição a proposta do NOVO SOCIALISMO de MARXISTA. Assim o NOVO SOCIALISMO, ao qual não faltou DINHEIRO para se propagandear, chamou o VELHO SOCIALISMO que tão bem convivia com o MERCANTILISMO de SOCIALISMO UTÓPICO e a si chamou de SOCIALISMO CIENTÍFICO.

Pronto! ...Para as MENTES BINÁRIAS que se deixam capiturar por dicotomias antagônicas que fazem o mundo bipolar, como se as disputas fossem consequência de oposição entre BEM e MAL. O velho MANIQUEÍSMO como manipulador dos imbecis.

Muitos dos que surfaram com as idéias liberais agora precisam defender ideologias para GANHAREM DINHEIRO e FAMA.

Coonstantino tentou fugir disso achando que poderia voltar ao que era inicialmente, pois já tinha fama. Foi o bastante para cair em desgraça e exiguo período. Logo teve que retomar sua defesa da ideologia que o catapultou à fama e ao dinheirinho.

O Instituto Liberal do Rio de Janeiro tão logo começou a crescer demais e obter simpatizantes foi TOMADO por uma HORDA de esquisitos BEATOS e BEATAS oriundos das sacristias. Isso fez o gigante professor OG LEME não conter seu lamento diante de tal estranha invasão. Aliás, tão estranha que algumas das figuras eram oriundas do PSTU. Sim, alguns dos "NOVOS LIBERAIS" saídos de sacristias eram ex-sectários do PSTU e agora adeptos do Liberalismo, embora ainda com resquicios de sua velha militância.

Pronto, o bom e velho IL de Donald Stewart Jr., dono da Ecisa, foi desgraçado por carolas em boa parte oriundos do PSTU, sob certa tristeza do prof. Og Leme.

Não tem jeito, os DONOS do MUNDO querem ideologias imbecilizando as massas e para isso não faltará DINHEIRO e CONVITES para a fama.

Beatriz Helena disse...

Graças a Deus!

Marco A. Cortese Barreto disse...

Pondé:

Nada como fazer parte do universo dos homens/mulheres comuns, desde sempre.

GRAÇAS A DEUS!!!

Anônimo disse...

Esse sujeito representa a clássica "em terra de cego quem diz que tem um olho é rei"... se diz filósofo?!?!... só fala de escritos de dois mil e tantos anos atrás... (típico de quem imagina-se intelectual)... faz um esforço sem fundamento para parecer original... para mim e minha minúscula intelectualidade não passa dum bobalhão... não acrescenta nada em lugar algum... só ao seu ego e vaidade típicas do rei em terra de cegos!