terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Quase tudo dominado

O PCC é uma multinacional do narcotráfico que disputa a liderança na área, custe o que custar, decapitações inclusive. É conveniente mirar-se no exemplo dos cartéis mexicanos, que já alcançaram o plano político. Adverte o editor Carlos Andreazza: "sem que o governo brasileiro — não importa se com FHC, Lula, Dilma ou Temer — compreenda (ou queira compreender) o que ocorre, o PCC logo chegará lá:


É espantoso ler e ouvir, de autoridades e especialistas, que o projeto de internacionalização do narcotráfico brasileiro, mormente do multinacional PCC, pode transformar o Brasil numa Colômbia. Não, não pode. É simples: aquele é um país produtor de droga. Não é o caso do Brasil. Não há, porém, o que festejar; razão pela qual sugiro ao governo federal que estude a história dos cartéis mexicanos. Está no México o modelo de expansão do Primeiro Comando da Capital.

Já escrevi, mas repito: ninguém foi decapitado — no Amazonas, em Roraima ou no Rio Grande do Norte — porque os presídios estivessem superlotados. Poderiam estar vazios — e seria igual. Matou-se por motivo econômico; porque há um negócio em disputa, business que depende do controle territorial também de presídios.

É o ambicioso projeto de crescimento do PCC o elemento detonador da crise de segurança nacional brasileira ora em curso.

Por cerca de dez anos, até 2016, a geopolítica do narcotráfico no Brasil esteve anestesiada em decorrência do acordo firmado entre o grupo criminoso paulista e o carioca Comando Vermelho. O PCC dominava, soberano, a chamada rota caipira, aquela por meio da qual, principalmente desde o Paraguai, a droga produzida (sobretudo) na Bolívia abastecia os mercados do centro-sul brasileiro — conforme esmiúça o jornalista Allan de Abreu em seu livro “Cocaína”, ainda a ser lançado.

Ao CV, alimentado especialmente com droga colombiana graças à sua antiga aliança com as Farc, ficava reservado o Rio de Janeiro, o Espírito Santo e alguns estados do Nordeste. E aos dois grupos maiores, de alcance nacional, cabia lidar com bandos locais, fosse para estabelecer parcerias ou tirá-los do caminho. O tráfico na Região Norte, abastecido preferencialmente pela rota estratégica do Solimões, tanto com droga colombiana quanto boliviana, era gerido por pequenas facções regionais, como a Família do Norte.

Neste ínterim, já tendo implantado no Paraguai sua infraestrutura de penetração e distribuição de droga no Brasil, o PCC daria o passo decisivo em seu movimento de verticalização: a entrada na Bolívia, com o que aboliu os intermediários e passou a comprar diretamente dos pequenos fabricantes. Não demoraria, pois, a que projetasse o salto, nos mesmos moldes, para a Colômbia, em busca não apenas de produto de melhor qualidade, mas, com aval das Farc, da rédea da gestão do acesso da droga colombiana em território brasileiro; um duro golpe no CV, que teve reduzido um campo de atuação historicamente seu.

Neste conjunto de ações rumo ao norte do continente, o PCC pretendia também conquistar o Solimões, o que, num só lance: garantiria uma alternativa à rota paraguaia; facilitaria o escoamento da droga colombiana; e abriria os caminhos para que disputasse o mercado amazônico.

É onde estamos. Como já muito falado, a explosão do Compaj, em Manaus, comandada pela FDN, aliada recente do CV, foi uma reação à progressiva presença do PCC no Norte do Brasil e, mais amplamente, a seu plano de dominação do narcotráfico no país.

Os cartéis mexicanos, anos antes, haviam cumprido a mesma estratégia. Acertaram-se com as Farc — explorariam, para além do seu próprio, somente o mercado americano — e se estabeleceram na Colômbia, desde onde, com fornecedores exclusivos, aprimoraram sua logística de transporte de drogas.

Ainda é incerto o que acontecerá na Colômbia em decorrência do acordo de paz farsante entre governo e os terroristas das Farc, cuja ação criminosa continuará intacta, mais ou menos disfarçada em núcleos dissidentes. Ainda é incerto, portanto, de que maneira os cartéis mexicanos e o PCC lidarão com este cenário, se se recompondo com a nova conformação das Farc ou se lhes tentando tomar as atividades — neste caso ao investir num improvável vácuo de poder consequente do novo arranjo.

Aposto na primeira opção, mais vantajosa empresarialmente — aquela em que melhor se ajustaria a futura convivência entre cartéis mexicanos e PCC, não concorrentes, com modelo de negócios semelhante e ótimas condições para se tornarem sócios. Se já não o forem. A Polícia Federal detém informações de que talvez o sejam.

Como os mexicanos em relação aos EUA, o PCC se tornou também exportador, dono do entreposto que infiltra droga, a partir do Brasil, na Europa. Deflagrada pela PF em 2014, a Operação Oversea, ao investir contra o tráfico no Porto de Santos, rastreou um carregamento de cocaína colombiana despachado pelo PCC — estranha e sintomaticamente — para o México.

O que ainda diferencia cartéis mexicanos e PCC é que aqueles têm sólida presença política, com representantes em todos os Poderes, e impõem a barbárie não apenas contra Estado e adversários — mas diretamente contra civis, inclusive jornalistas.

Sem que o governo brasileiro — não importa se com FHC, Lula, Dilma ou Temer — compreenda (ou queira compreender) o que ocorre, o PCC logo chegará lá. (O Globo).

2 comentários:

Anônimo disse...

Isto o Jornal Nacional não mostra nem comenta!

Anônimo disse...

"Legalaize", dizia FTHC. Taí.