sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Com vocês, a verve do jornalista português Alberto Gonçalves.

O jornalista Alberto Gonçalves é o mais novo colaborador do Observador, o excelente jornal on-line que acompanho desde a fundação. O artigo de apresentação já revela sua verve e seu estilo mordente:


O meu nome é Alberto Gonçalves e tenho um sonho. Sonho escrever crónicas que possam ser apreciadas pelos cidadãos que acham a menina Mortágua e o dr. Louçã economistas de gabarito. Sonho escrever crónicas que louvem a habilidade diplomática e o génio retórico do dr. Costa. Sonho escrever crónicas que saltitem de júbilo pelo facto de partidos estalinistas ajudarem ao governo do país. Sonho escrever crónicas que se orgulhem da influência do eng. Guterres nos destinos da Terra. Sonho escrever crónicas que resgatem o enorme contributo do eng. Sócrates para o progresso pátrio. Sonho escrever crónicas que apelem a consensos em volta dos poderes oficiais e oficiosos que só querem o nosso bem. Sonho escrever crónicas que tomem partido pelas “causas” justas, daquelas que têm vítimas fixas e culpados fatais. Sonho escrever crónicas tão despidas de interesses – mas não de interesse – quanto os isentos comentários televisivos dos “senadores” do PSD. Sonho escrever crónicas que usem as palavras “descrispação” e “proactividade”. Sonho escrever crónicas que repitam cada cliché disponível acerca do perigo que o sr. Trump representa. Sonho escrever crónicas que se derretam de admiração pelas “selfies”, pelos “afectos” e pelos obituários, salvo seja, do prof. Marcelo. Sonho escrever crónicas que denunciem as patifarias dos banqueiros, excepto dos que são perseguidos por Pedro Passos Coelho. Sonho escrever crónicas que sublinhem o pacifismo do islão e o belicismo israelita e a culpa ocidental. Sonho escrever crónicas que me candidatem a uma assessoria de imprensa ou a outro posto assim digno. Sonho escrever crónicas que agradem às inúmeras personalidades de relevo que transformaram Portugal naquilo que é.

Mas não consigo: falta-me a espécie de talento que apenas raras dezenas (ou no máximo centenas) dos meus colegas de ofício possuem. Com boa vontade, o que sou capaz de fazer é o tipo de coisas que indivíduos desprovidos de patriotismo, consciência social e sentido de Estado poderão apreciar, aqui no Observador, a partir deste sábado. Os restantes não digam que não avisei.

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