quinta-feira, 16 de março de 2017

A moral (estúpida) da luta armada

Em texto publicado no Globo, Miguel De Almeida critica a tática de avestruz da intelectualidade "orgânica" do PT, que vira as costas à realidade:


Meses atrás, diante de uma frugal salada de folhas e legumes, perguntei ao meu querido amigo Ferreira Gullar: por que um cara inteligente e talentoso como Chico Buarque ainda defende esse pessoal que enfiou o país nesse salseiro de corrupção? Ex-comunista que amargou sete anos de exílio por suas ideias e defesa da liberdade, mas chamado de reacionário pelos cães digitais do aparelho petista, não titubeou: Chico acha que qualquer critica sua fará o jogo da direita.

O naufrágio petista e a tática avestruz de parte da intelectualidade ligada ao partido, de tudo negar, inclusive as evidentes marcas de batom na cueca, custarão cada vez mais caro à democracia brasileira. Chico Buarque e Marilena Chauí, entre outros, se comportam à semelhança de Michel Temer ao elogiar as qualidades do lar da mulher contemporânea: são autistas por oportunismo, não desinformação.

Desde a redemocratização, o brasileiro experimentou as diversas receitas postas à mesa: do enlouquecido Collor ao populista Lula, com passagem pelo cordato FHC (Dilma não conta: é pau-mandado). Transformou um tipo anacrônico como Itamar Franco em reformista radical e agora torna Temer, um ventríloquo da velha política e sacros privilégios, em arauto das reformas que não querem calar.

Não se pode dizer que o eleitor brasileiro não tentou vários caminhos, mesmo que tenha dado com os burros n’água. Só que ele lida com as possibilidades postas à sua escolha. Teve de escolher entre Freixo e Crivella. Antes, entre Dilma e Aécio. Percebe-se então que o cardápio de opções refletem ideias ainda contaminadas pelo embate político forjado no pós-guerra.

Será interessante notar o percurso errático a ser trilhado por Trump nos próximos anos. Eleito com um discurso passadista, antiglobalização, suas medidas têm sido contestadas pelas empresas (conceitos) que representam o mundo pós-nações: Apple, Google e Airbnb. Como Trump enfrentará a força de filosofias como a economia compartilhada e o mundo em rede dentro da sociedade do conhecimento? Marcas como Microsoft e Facebook deixaram-no nu ao dizer que precisavam do cérebro dos cientistas iraquianos, e as principais universidades americanas não abriram mão de seus professores iranianos. O mundo pós-nações torna obsoleto conceitos oitocentistas como a rigidez de cascos pregada à esquerda e à direita.

Daí o pauperismo de ideias fornecido pelo quadro político partidário brasileiro, sempre caudatário. Ainda preso a modelos e discursos ultrapassados pela História. A relutância do PT e de seus principais apoiadores em oferecer uma autocrítica de suas práticas — ora avaliadas em Curitiba — enfraquece ainda mais o debate político. Tivesse a esquerda melhor julgado a luta armada, e o Brasil teria sido salvo de José Dirceu e Dilma Rousseff, entre outros. A moral dos guerrilheiros — em nome da causa tudo se justifica, da expropriação ao justiçamento — contaminou o modus operandi da política petista. Ao encontrar um notório social climbing como Lula, a coisa toda ganhou colorido de oportunista luta de classes.

Com receio de servir à direita, rematados intelectuais e formadores de opinião conduzem o país ao infantilismo político quando não exigem uma autocrítica dos meios operativos do PT no poder. Nem a revelação do montante amealhado — extorquido? — das empresas por José Dirceu levou seus simpatizantes a uma única critica pública. Só nas coxias.

Isso faz bem a quem? Só aos delituosos. Nikita Kruschev escancarou os crimes de Stálin, mas o silêncio de Chico Buarque é incapaz de me convencer que José Dirceu e Delúbio Soares sejam heróis do povo brasileiro.

2 comentários:

Paulo disse...

Se esse cantor vagabundo gosta tanto da ¨esquerda¨ assim porque ele não se muda de mala e cuia para Cuba ou Coreia do Norte?

Anônimo disse...

O silêncio obsequioso de chico buraco seria o réquiem ideal para essa página infeliz da nossa história, os "ânus" de lullalau, zé desceu, dilmanta e tantas outras nulidades ou bandidos.