terça-feira, 28 de março de 2017

É inaceitável criminalizar a produção de carnes do país

Em "Carne ponderada", texto publicado no Gloobo, o editor Carlos Andreazza afirma, com razão, que não se pode criminalizar a produção de carne. Criminosos é o grupo de fiscais corruptos, que causou tanto prejuízo:


Tornados defensores do estado de direito graças à (incapacidade de controlar a) Lava-Jato, petistas se reinventaram em indignados contra o que chamam de espetacularização das operações da Polícia Federal, cujo exemplo maior — abuso máximo de autoridade — estaria na célebre condução coercitiva de Lula.

Não se lembrarão, contudo, de que esse modelo hollywoodiano de ação teve origem no primeiro governo do PT, do mesmo Lula ora coitadinho — e era então exaltado como símbolo da República afinal fundada no Brasil, marco de quando a polícia enfim bateu à porta da elite.

Quem se recordará da operação cinematográfica que, em 2005, cercou a casa da empresária Eliana Tranchesi, dona da Daslu? Aquilo — havia um acerto de contas histórico ali, desforra contra os opressores — foi aplaudido pelos éticos de época, os perseguidos de hoje.

E aí?

Porque a Polícia Federal não mudou desde então, inclusive em seus métodos, excessivos ou não a depender do freguês. A PF apenas cresceu, em grande medida herdando o estandarte da moralidade implacável para o qual os ex-pobres perderam a mão. Eles, sim, os petistas, mudaram, ou se revelaram, alçados à condição de ricos ideais aos holofotes da vez.

E aí?

Não à toa espírito do mesmo tempo em que já se incorpora à normalidade o vazamento cotidiano de informações sob sigilo de Justiça, a espetacularização — seletiva ou não — é o tom de nossos dias. E que a engulamos. O barulho, porém, impõe-se como especialmente perturbador, grave, quando o show é também — e o é cada vez mais — expressão de autossuficiência e manifesta autoritarismo avançado.

Chegamos, pois, ao espetáculo da Carne Fraca — auge de alguma coisa fora de lugar. Ou haverá outra forma de ler uma operação que se intitula “a maior da história da Polícia Federal” e é assim comprada, sem dúvidas, inclusive pelo jornalismo? A que — ou a quem — tal jactância serve, se certamente não ao interesse, à melhor informação, do brasileiro? E daí, aliás, que seja a maior da história? Acaso pretensão de grandeza é chancela que imunize um movimento contra erros? Desde quando tamanho é garantia de eficiência?

Quem se lembrar da Operação Satiagraha, de 2008, lembrará que se tratou tanto de um espetáculo midiático até então sem precedentes — orgulho petista — quanto de um dos maiores micos da história da investigação no Brasil. Até a PF erra.

Leitor: as coisas são compostas também pelo modo como comunicadas. Mais ou menos bem-intencionada, não é aceitável que uma operação que investiga um grupo de fiscais criminosos acabe por criminalizar a produção de carnes do país. Porque é esta — a carne brasileira não presta — a compreensão generalizada a respeito, consequência do jeito sobretudo onipotente como a Carne Fraca se informou ao mundo.

Afinal, o que temos, hoje, de concreto? Que 21 frigoríficos — de um total de 4.837 processadores de carne — estão sob suspeita, dos quais apenas cinco interditados. Sim. Sei que se diz que existem provas ainda a serem reveladas; mas não é possível fazer análise honesta senão com o que se divulgou até agora.

Por exemplo: a nota da Associação Nacional de Peritos Criminais, de 21 de março — o que fala? Que a participação dos especialistas da PF em análise de fraudes alimentares não foi devidamente empregada durante as investigações da Carne Fraca; que a atuação adequada dos peritos criminais federais, em todas as etapas do processo, teria garantido a correta interpretação dos dados apurados e a definição dos procedimentos científicos necessários à materialização de eventuais crimes de fraude alimentar; e que a abordagem quase exclusiva de provas contingenciais deu aos responsáveis pela operação a equivocada impressão de que tudo poderia ser concluído de imediato e com base apenas em elementos circunstanciais.

A PF conta com 27 peritos criminais com formação em Medicina Veterinária, além de dezenas de outros especialistas em química, farmácia, agronomia e biologia. Por que esse contingente não foi plenamente utilizado pela operação, tanto mais se a maior da História? Será razoável vermos a população brasileira desinformada e os mercados internacionais fechando as portas à carne do Brasil quando, entretanto, sabemos do que vai acima e que, objetivamente, apenas um frigorífero fora periciado? Será aceitável que todo aquele estardalhaço possa ter efeito anulado em decorrência de manejo equivocado de dados técnicos?

Será razoável que a PF se possa lançar a tamanha operação — de natureza tão específica, sobre matéria tão delicada — sem se fazer acompanhar de rigoroso embasamento científico? É admissível que se desqualifique a produção de carne brasileira tendo como elementos probatórios aqueles colhidos em escutas telefônicas? Por que os bem-sucedidos exemplos das operações Ouro Branco (2007) e Vaca Atolada (2012), respectivamente sobre adulteração de leite e carne, ambas amparadas por laudos oficiais, não foram seguidos?

E o papelão, de quem é?

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