segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eleições na França: a ilusão pós-nacional.

Brilhante artigo do professor João Carlos Espada sobre as eleições francesas, que demonstraram a persistência do Estado-nação e do "sentimento nacional", tão repudiado pelo racionalismo dogmático: "a democracia liberal", ressalta ele, "não pode nem deve ignorar o sentimento nacional. Os partidos centrais da democracia francesa, agora seriamente enfraquecidos, fariam bem em refletir sobre este tema":


No rescaldo da primeira volta das perturbantes eleições presidenciais francesas de ontem, limito-me por agora a salientar dois aspectos:

Em primeiro lugar, os dois partidos centrais da democracia francesa — os Republicanos, ao centro-direita, e os Socialistas, ao centro-esquerda — ficaram em ruínas. Nenhum dos seus candidatos estará na segunda volta. Em conjunto, não terão alcançado 30% dos votos. Isto merece uma análise ponderada, pois terá necessariamente consequências muito sérias para a democracia em França. E deve ser olhado em perspectiva comparada com o que sucedeu no Reino Unido e nos EUA.

No Reino Unido, uma ruptura política radical — a decisão de sair da UE — não afectou a solidez dos partidos tradicionais. O partido político que associou essa decisão a uma revolta popular contra “o sistema” — o Ukip de Nigel Farage — tem hoje 7% nas sondagens e não detém neste momento nenhum deputado no Parlamento britânico (o único que tinha acabou de se demitir).

No caso dos EUA, a vitória presidencial de Donald Trump ocorreu em simultâneo com uma muito expressiva vitória dos candidatos republicanos nas duas Câmaras do Congresso e na maioria dos estados. Mas a candidatura de Donald Trump não recebera o apoio da maioria dos congressistas e governadores republicanos entretanto reeleitos. Isso significa que, à semelhança do que ocorrera no Reino Unido, uma ruptura política radical — a eleição de Trump — não conseguiu abalar os partidos tradicionais.

Em França, pelo contrário, não apenas um, mas os dois partidos centrais foram eclipsados. Simultaneamente, e este é o segundo aspecto que gostaria de sublinhar, o apagamento dos partidos centrais em França ocorreu numa campanha eleitoral dominada pelo sentimento nacional. Pelo menos oito, talvez mesmo nove, dos onze candidatos centraram a sua mensagem, de uma maneira ou de outra, na restauração da identidade e da soberania gaulesas.

O fenómeno parece acompanhar o que terá sucedido noutros lugares: no referendo britânico de Junho passado, centrado na restauração da soberania do Parlamento nacional; na campanha de Donald Trump nos EUA; nas turbulentas eleições da Holanda em Março; e certamente também no discurso político crescentemente dominante em vários países da Europa central e oriental. Como interpretar este regresso do sentimento nacional ao núcleo das paixões políticas de democracias liberais desenvolvidas e abastadas?

Para iniciar a reflexão sobre esta pergunta crucial, recomendo vivamente a leitura da mais recente “Seymour Martin Lipset Lecture on Democracy in the World”, acabada de publicar na edição de Abril do Journal of Democracy. Ghia Nodia, um respeitado académico da Geórgia, desenvolve aí uma profunda e muito estimulante reflexão sobre a relação entre o sentimento nacional e a democracia.

O ponto de partida de Nodia é muito saudável: ele confronta as teorias dominantes sobre o chamado “nacionalismo” com os factos. Recorda, em primeiro lugar, que no século XIX o sentimento nacional esteve sobretudo associado ao crescimento da ideia de auto-governo democrático; em segundo lugar, que a resistência ao comunismo soviético esteve sempre associada ao sentimento nacional dos povos da Europa central e oriental; e, como referi acima, que o sentimento nacional parece estar de volta em democracias liberais tão desenvolvidas como o Reino Unido, os EUA, a Holanda e a França.

Os factos parecem por isso indicar uma séria dificuldade nas teorias dominantes sobre a obsolescência do Estado-nação e do sentimento nacional. De acordo com essas teorias, o Estado-nação estaria condenado a desaparecer, sobretudo devido à globalização e ao alegado atavismo do sentimento nacional. No entanto, as previsões dessas teorias parecem estar a ser refutadas pelos factos. Porquê?

Uma profunda razão filosófica, que não é possível discutir neste espaço, prende-se com o equívoco do Iluminismo continental. Ghia Nodia correctamente observa que houve vários Iluminismos, uns mais sóbrios do que outros. Mas, no continente europeu, foi sobretudo o Iluminismo francês (a que Karl Popper chamou de racionalismo dogmático) que perdurou. Esse racionalismo dogmático (por contraposição ao racionalismo crítico, de base céptica e experimental) acredita que sabe, sem saber que acredita. Aspira por isso a eliminar todas as tradições que não possam ser geometricamente demonstradas e a desenhar um mundo novo através da chamada engenharia social.

Para este racionalismo dogmático (a que F.A. Hayek também chamou “racionalismo construtivista”), o sentimento nacional é certamente uma das expressões primordiais (a par da religião) de tradições que não podem ser demonstradas geometricamente. Isto explica por que motivo o racionalismo dogmático gera uma profunda hostilidade contra o sentimento nacional, bem como contra o sentimento religioso. Em contrapartida, essa hostilidade racionalista em regra produz uma reacção crispada dos sentimentos nacional e religioso — gerando aquilo que Tocqueville designou por “estéril conflito entre revolução e contra-revolução”.

Em segundo lugar, existe um erro mais prosaico na hostilidade do racionalismo dogmático contra o sentimento nacional: o racionalismo dogmático ignora o papel crucial do sentimento nacional na viabilização da democracia liberal (ou constitucional). Sem sentimento de pertença a um todo superior às partes — em regra, o todo nacional — não é possível auto-governo em liberdade: as minorias tenderão a não aceitar as vitórias eleitorais das maiorias; as maiorias tenderão a perseguir as minorias.

Por outras palavras, é em última análise o sentimento nacional partilhado que viabiliza o princípio demo-liberal do “governo da maioria, direitos das minorias.” Esta razão (que, como vimos, não é a única) seria suficiente para concluir que a democracia liberal não pode nem deve ignorar o sentimento nacional. Os partidos centrais da democracia francesa, agora seriamente enfraquecidos, fariam bem em reflectir sobre este tema. (Observador).

6 comentários:

O MESMO de SEMPRE disse...

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Que idiotice desses carolas safados!!!

Esses pulhas estão é preocupados com o esfarelament6o do PODER POLÍTICO que esses tais CONSERVADORES tanto amam.

Esses pulhas, NADA DIFERENTES dos ESQUERDISTAS se unirão à esquerda para defender o PODER ESTATAL TOTALITÁRIO.

Quem o Estado poderoso e arbitrário para imporem suas manias, seus deuses e suas proibições imbecis e, claro, o sustento dos NEO SACERDOTES que INTERMEDIAM o tal DEUS-ESTADO.

Esse é o nó da questão que UNE ESQUERDISTAS e CONSERVADOIRES: o PODER ESTATAL e seu AUTORITARISMKO CORRRUPTO.

Reinaldo Azevedo já se revelou e logo logo Olavo e suas Olavetes também se revelarão.

Continuaremos com a oposição dos IGUAIS para ludibriar as populações ESCRAVIZADAS pelas OLIGARQUIAS ESTATAIS.

Anônimo disse...

http://radiovox.org/2017/04/24/foro-de-sao-paulo-em-acao-grupo-terrorista-do-pcc-ataca-ciudad-del-este/

SEMPRE MAIS do MESMO disse...


No ILUMINISMO se começou a questionar a UNIÃo DA igreja COM O ESTADO.

A IGREJA e sua ideologia do PODER DIVINO dos reis (leia-se Epístolas de Paulo ou ROMANOS) dava o APOIO IDEOLÓGICO à existencia do Poder do Rei e da NOBREZA sobre a plebe e os SERVOS de GLEBA.

A ideologia oferecia a salvação e a vida eterna como "justificativa" para as ARBITRARIEDADES da realeza e sobretudo da NOBREZA e CLERO. Sim, OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS e a esses apregoados meios são a "receita" ou ESTUDO de IDÉIAS ou IDEOLOGIA que levará aos FINS PROMETIDOS.

Daí TODA IDEOLOGIA se fundamenta nos FINS prometidos como justificativa para seu amontoado de idéias arbitrárias, CONTRADITÓRIAS e sempre imbecis.

Jeová disse: Não fará para ti imagens ara adoração (condenava os adoradores de ídolos ou imagens de deuses e semideuses)

- Porém católicos adoram imagens, possuem inúmeros santos intercessores. Apesar do lendário JC afirmar: Ninguém vai ao Pai a não ser por mim. Além de o Pai e o Filho serem exatamente o mesmo. ..Cruzes credo, SIC!!!

No fim dos tempos haverá quem realize prodígios em nome de deus, muitos serão aqueles que se afirmarão enviados pelo Sr., ungidos e etc..

- Aí os evangélicos seguiem e dão dinheiro a pastores que realizam milagres. Imaginam que estes são os UNGIDOS apesar de seu livro sagrado avisa-los de falsos profetas e dos prodígios que realizarão.

No Marxismo não é diferente, as contradições e as imbecilidades se amontoam, mas seus sectários imbecis NADA JULGAM e apenas seguem.

O objetivo das ideologias é o PODER HIERARQUIZADO para um ESTAMENTO que viverá de IMPOSTOS obtidos pela ameaça de violência e não pela oferta de bens e serviços (TRABALHO).

A MIDIA (TVs, jornais e artistas em geral: faladores profissionais) faz atualmente o papel que a igreja fazia na idade média: LAVAR o CÉREBRO das MASSAS com PREGAÇÃO INSISTENTE. Como bem disse Hitler: "UMA MENTIRA REPETIDA MIL VEZES VIRA VERDADE".

Antes a classe ideológica CLERICAL fazia a lavagem cerebral e justificava seus meios no PARADÍSIACO FIM.
Atualmente é a MIDIA que faz a repetição para lavar cérebros prometendo a "igualdade" no Paraíso que o Socialismo construirá, onde haverá a igualdade comunista e nem mesmo haverá Estado. Já que o socialismo transformará o ser humano em santos como S. Francisco. SIM, MARX SINCRETIZOU COMPLETAMENTE o CRISTIASNISMO em sua criação religiosa, INCLUSIVE prometendo o MILÊNIO SOCIALISTA (ditadura do proletariado) que TRANSFORMARIA a humanidade em santos e que SÓ ENTÃO o tal COMUNISMO se implantaria e o Estado desapareceria naturalmente por ser desnecessário.

COMO TODA IDEOLOGIA:

UMA PROMESSA ESTÚPIDA para um futuro SEM DATA e INCERTO como justificativa para a IDEOLOGIA (conjunto de idéias que se dizem receita para o FIM prometido ou profetizado).

SEMPRE uma CENOURA na ponta da vara AMARRADA ao LOMBO dos BURROS que sempre a seguirão, mas jamais alcançarão o objetivo prometido e os queb se fizeram poderosos, através destes jumentos que correm atras de cenouras, SEMPRE SE MANTERÃO PODEROSOS e NABABESCOS.

SEPARAÇÃO das MIDIAS e Estado JÁ!!!! ...a Igreja se separou, pero não mucho do Estado e continua sua organização mafiosa influente.

PLUS ÇA CHANGE PLUS C'EST LA MÊME CHOSE!!!!

SEMPRE MAIS do MESMO disse...


Os romanos ao se verem ameaçados em seu império, dadas as disputas internas pelo Poder e os custos da manutenção do imperio:

- Recorreram aos ensinamentos de SUN TZU e semearam a discódia para dominarem a propria sociedade que teriam que saquear. Pois não havia mais tantos reinos a serem conquistados e saqueados para custear seu Poder.

...então, como recomendou SUN TZU inventaram o CRISTIANISMO para JOGAR os POBRES contra os RICOS a quem almejavam saquear com o apoio das massas.

- As disputas políticas acabaram unindo cristãos e barbaros, na ânsia de ESCRAVIZAREM a PRÓPRIA POPULAÇÃO: DAÍ IMPLANTOU-SE o FEUDALISMO onde inexistia a PROPRIEDADE PRIVADA das TERRAS e estas eram gerenciadas por SENHORES FEUDAIS que arrecadavam IMPOSTOS dos SERVOS (escravos explorados por força das armas).

Sim, o FEUDALISMO transformou os trabalhadores da sociedade em SERVOS (escravos) sob a idéia de não haver ricos proprietários de terras.

Logo em seguida os senhores feudais, autoridades e guerreiros aquinhoados com títulos de nobreza com as bençãos do CLERO propagandista, se fizeram DONOS dos FEUDOS e estes se tornaram HEREDITÁRIOS.

Depois, com o ILUMINISMO o Poder foi ameaçado e aí SUN TZU foi REEDITADO:

Não só POBRES X RICOS, mas agora surgiram os PROLETÀRIOS ASSALARIADOS X BURGUESES MALVADOS para suceder o enfraquecido IDEOLÓGICOS X HEREGES.

...Sem explicar que a burguesia surgiu dos PÁRIAS da SOCIEDADE FEUDAL a qual os SOCIALISTAS e CONSERVADORES TANTO AMAM.

Já atualamente, pós iluminismo, temos mais ANTAGONISMOS, entre raças, sexos e tantos "oprimidos" X "opressores" quanto se possa imaginar:

- NEGRO X BRANCO
- Mulher X Homem
- Gay X Hetero
- Consumidor X Comerciante/produtor
- e etc.. Tantos quanto se possa inventar de "INIMIGOS" para ALICIAR amigos.

...e como o mundo dá voltas, como o Poder esta ameaçado por um colapso (a profecia de Marx que pode dar certo, MAS com SINAL TROCADO)
...Novamente se ensaia e SE PROMOVE para o futuro príoximo os REQUENTADOS ANTAGONISMOS RELIGIOSOS:

ISLÂMICOS X CRISTÃOS ...afinal já houve católicos X protestantes (ambos cristãos).

OU SEJA, os DONOS do PODER SEMPRE INSUFLARÃO CONFRONTOS e ÓDIOS, sempre inventarão "INIMIGOS" para ALICIAREM AMIGOS OBEDIENTES.

Essa é a DINÂMICA do PODER!!!! ...SEMPRE FOMENTAR DISPUTAS e INIMIZADES para que todos almejem o PODER para ATRAVÉS DELE OBTEREM VANTAGENS UNS SOBRE os OUTROS...

...AÍ os MESMOS de SEMPRE SE MANTERÃO NO PODER EXPLORANDO os JUMENTOS que correm atras de cenouras em varas amarradas a seu próprio corpo.


PLUS ÇA CHANGE...

Orlando Tambosi disse...

Se non è vero, Mais do Mesmo, è ben trovato.

Anônimo disse...

"Mais do mesmo" fugiu belamente do tema do artigo, mas quando diz que os romanos seguiram um autor chinês, viaja na maionese...