sábado, 29 de abril de 2017

Não me levem a mal, mas não haverá revolução liberal.

Alberto Gonçalves, no jornal português Observador: "os portugueses querem levar a vidinha sem sobressaltos, maçadas e vergonha na cara, promessas em que, por exemplo à imagem de Salazar, a esquerda é exímia. Falar-lhes de liberalismo é um luxo inútil":


À revelia dos meus princípios (é verdade, tenho dois ou três), há oito dias participei num encontro público. Em primeiro lugar, porque se realizou a escassos minutos de minha casa e a minha preguiça tem limites. Em segundo lugar, porque os organizadores são pessoas que estimo e detestaria desapontá-las. Em terceiro lugar, porque o tema era a conversão dos portugueses ao liberalismo e sou um devoto de causas perdidas e esotéricas.

Apareceram dezenas de curiosos, dos 17 aos – faço uma estimativa – 77 anos, talvez metade dos liberais disponíveis no país. Discutiu-se imenso. Não se chegou a conclusão nenhuma. Sobretudo, não saiu dali a sombra de um partido, um movimento, uma comissão, uma “iniciativa” sequer. É escusado acrescentar que a coisa correu maravilhosamente.

Apesar da retórica oficial e oficiosa em sentido contrário, gostar da liberdade não é para todos. Por cá, de resto, é para muito poucos. Há séculos que filósofos, pensadores e génios diversos tentam capturar, com rede ou zagalote, a “identidade” pátria. Eu descobri-a numa reportagem de “telejornal” sobre a eventual proibição de fumar em carros particulares na presença de menores. Inquirido a propósito, enquanto fumava ao volante com o filho no banco de trás, um indivíduo declarou-se irredutivelmente a favor da putativa lei. Ou seja, aquele portento de cidadão apenas esperava que o Estado o impedisse de cometer um comportamento que ele próprio achava condenável. E ele próprio não via nada de condenável nisso.

É natural. Inúmeros compatriotas esperam pelo Estado para quase tudo: a regulação de condutas, um “apoio”, um “jeitinho”, um abrigo, um ralhete, uma norma, um conforto, um emprego, o que calhar. Sem aval superior, nós – e por “nós” entenda-se a população quase em peso – não existimos. Pior ainda, desconfiamos que não somos dignos de existir. Não me canso de repetir, ou, para ser sincero, canso-me bastante: os portugueses são crianças, genuinamente desprovidas de um pingo de autonomia e para cúmulo satisfeitas com a situação. Às vezes resmungam? Claro que sim, já que é dever das crianças resmungar até que as devolvam à ordem ou lhes ofereçam o Cornetto de morango.

Esta semana, os dois principais animadores do encontro acima referido, o Telmo Azevedo Fernandes e o Vítor Cunha, assinaram no Observador artigos acerca da possibilidade de um liberalismo português. Começo pelo artigo do Telmo, que admiro pela inteligência e de que discordo pelo optimismo. Resumindo demasiado, o Telmo defende “a superioridade moral da defesa das liberdades individuais por contraponto a qualquer das alternativas ideológicas existentes”. Aqui, está evidentemente certo. Em simultâneo, defende ser possível convencer as gentes dessa superioridade. E aqui está infelizmente errado.

Os portugueses não são avessos à liberdade por desconhecerem os respectivos benefícios. Os portugueses são avessos à liberdade por conhecerem as respectivas desvantagens – e as vantagens da atitude oposta. Na medida em que deposita o destino nas mãos de cada um, a liberdade implica responsabilidade, risco e uma trabalheira desgraçada, em suma exactamente aquilo que o português evita, ou procura evitar, ao roçar-se diligentemente no Estado.

Menos esperançado que o Telmo, e para o final de um texto tipicamente admirável, o Vítor nota o ponto: “não basta o ‘argumento da superioridade moral do individualismo’”. Mais esperançado que eu, supõe que “a demografia envelhecida e a falência do Estado obeso farão mais pela necessidade de mudança que qualquer acção que os liberais possam directamente promover.”

É raríssimo divergir do Vítor. Logo, aproveito a oportunidade. Mesmo velhos e falidos, duvido que os portugueses culpem o socialismo mitigado ou demolidor em que intermitentemente vivemos. A culpa da derrocada final, se não for do Espírito Santo, será como sempre atribuída a outra força externa qualquer, empenhada por razões obscuras no enxovalho deste valoroso povo. Em parte, aceita-se: quem não se sente capaz de cuidar de si, não se sente forçado a assumir desvarios. O que não se devia aceitar é que os principais culpados, os manhosos senhores que instigam a dependência para reinar sobre multidões submissas, permaneçam invariavelmente impunes.

Ignoro se os portugueses são subordinados cá dentro porque Portugal o é lá fora ou se Portugal é subordinado lá fora porque os portugueses o são cá dentro. Também ignoro se a ancestral pobreza de espírito advém da ancestral pobreza material ou se acontece o inverso. Porém, acredito que, privados de um vestígio de emancipação, somos presa fácil de pantomineiros vários. Acredito que os pantomineiros de hoje desceram a um descaramento inédito. E acredito que o descaramento dos que mandam é proporcional à vassalagem dos que obedecem. Quando, no dia seguinte a fingir comemorar a liberdade, a criatura que passa por primeiro-ministro informa o parlamento de que não lhe deve satisfações e a proeza não implica consequências, o nosso futuro é previsível.

Salvo os irremediavelmente patetas, os portugueses sabem que a liberdade de “Abril” é, no mínimo, um bocadinho fraudulenta. E sabem que a “justiça social” é um eufemismo para o controlo da economia por uns tantos. E sabem que a retórica das “causas” é um projecto de lavagem cerebral. E sabem que o regime é propriedade de grupos, grupúsculos e “personalidades”. Simplesmente não querem saber. Os portugueses querem levar a vidinha sem sobressaltos, maçadas e vergonha na cara, promessas em que, por exemplo à semelhança de Salazar, a esquerda é exímia. Falar-lhes de liberalismo é um luxo inútil, uma excentricidade similar a descrever os méritos do casamento aberto a um membro do Estado Islâmico. O tipo olha-nos com desprezo, vira costas e regressa à rotina de cortar cabeças. Os portugueses não cortam cabeças, mas não têm a sua em grande conta.

Um comentário:

SEMPRE mais do MESMO disse...


"E acredito que o descaramento dos que mandam é proporcional à vassalagem dos que obedecem"

PERFEITO!!!

Ora, discordo sobre a discordância quanto a força da moral e aponto que o problema não esta na moral oposta, MAS na sua PROPAGANDA.

- Primeiramente uma propaganda moral precisa de visibilidade: propaganda sem visibilidade nem é propaganda.

- As massas ou rebanhos humanos QUEREM um "macho alfa" ou um líder vigoroso. A esquerda, como TODAS as IDEOLOGIAS, é contraditória e ao mesmo tempo que propagandeiam uma moral PIEGAS (o politicamente correto), elas violam essa moral e se oferecem como sanguinários justamente por oferecerem uma ideologia em nome de um FIM REDENTOR que atinge o amago das EMOÇÕES.

- Resumo:
Ideologias se fazem irresistíveis às massas porque são incoerentes e oferecem a estas massas tanto uma liderança forte e IMPLACÁVEL quanto oferecem discursos emocionais piegas, repletos de inofensividade.

Aqueles que ambicionam o PODER exercitam tanto a MORAL do ESCRAVO quanto a MORAL do GUERREIRO.

Assim fazem segundo o INTERESSE do MOMENTO:

Por isso criticam a ditadura da milicada corrupta, acusando-os de violentos e ao mesmo tempo defendem a "firmeza do líder cubano", sua dedicação e blá blá blá. Ao mesmo tempo produzem quebradeiras e atacam covardemente indivíduos impotentes ante manadas de ensandecidos "manifestantes".

Ora, a ideologia que ENSINOU TODAS as DEMAIS exercitava tanto o amor, o perdão, o dar a outra face, o amar o senhor (sobretudo o mau) e etc., quanto tal langanhoso persoinagem ESPANCOU e ABUSOU da VIOLÊNCIA para EXPULSAR MERCADORES do TEMPLO.
Essa mesma ideologia que PROPAGANDEIA a MORAL do ESCRAVO também é aquela que previu que iria lançar folhos contra pais, vizinho contra vizinho e etc..

Não espanta nem surpreende que tal IDEOLOGIA TENHA, ao impor seus líderes, TENHA PERSEGUIDO HEREGES e ELABORADO INSTRUMENTOS de TORTURA a FIM de ATERRORIZAR os "INFIÉIS" para que assim NENHUMA VOZ CONTRÁRIA PUIDESSE SER OUVIDA como crítica à suas MORAIS em contradição.

Isso é propaganda moral com visibilidade.

Isso é estratégia:
Criminaliza a reação violenta contra o ataque violento para assim justificar a própria violência contra as vítimas que ousam reagir.

Não que se deva ser tão ignóbil como ideológicos, mas se há que OSTENTAR o COMPANHEIRISMO ou CORPORATIVISMO dos adeptos da MORAL LIBERAL.

Misturar-se com conservadores é por por terra qualquer dignidade moral de liberais. Há que OSTENTAR DESPREZO e SUPERIORIDADE tanto ante conservadores quanto ante socialistas e ao mesmo tempo OSTENTAR o VELHO "ASINUS ASINUM FRICAT" que tanto atrai as massas. Há que falar com "voz grossa" e ostentar ORGULHO de POSSUIR VOZ GROSSA.

Isso é propaganda moral para liberais. Deixar-se controlar pela MORAL do ESCRAVO que os líderes ideológicos querem para o rebanho popular, é CAPTULAR ante a mkoral ideológica.

Rebanhos querem líderes fortes, por maior que seja a contradição das morais ideológicas, é assim que funciona!!!