domingo, 2 de abril de 2017

Políticas da vida

A luta contra as bactérias - que estão cada vez mais resistentes - é uma questão de saúde mundial, assim como as epidemias geradas por mosquitos. Caso as super-bactérias não sejam contidas, em 2050 micróbios resistentes aos antibióticos poderão causar mais mortes que o câncer e a diabetes somados. Artigo de Fernando Gabeira, publicado no Globo:


No momento em que a agonia da engrenagem político-empresarial ainda depende de uma Justiça lenta e burocrática, minha inspiração vem do trabalho cotidiano. Cobri o surto de zika em Pernambuco, de chikungunha em Aracaju, a febre amarela em Minas, Espírito Santo e Rio. Há dois meses uma superbactéria matou um homem no Rio Grande do Norte. Ouço falar de casos de malária em Petrópolis e estou cada mais inquieto com as condições das cidades brasileiras.

Dizem os especialistas que temos de conviver com o Aedes aegypti. O mosquito é um terrorista biológico, pois, além das doenças que transmite, pode ser também uma espécie de difusor da febre amarela, se ela chegar ao meio urbano.

Os autores americanos Michael T. Osterholm e Mark Olshaker lembram, em texto no “New York Times”, que as doenças e as epidemias são um caso de segurança nacional. E enfatizam algo que seria meu tema sobre a superbactéria encontrada no Brasil e pesquisada em São Paulo: alguns micróbios estão cada vez mais resistentes aos antibióticos.

Os americanos previram numa pesquisa que, se deixados sem tratamento adequado, micróbios resistentes aos antibióticos podem matar em 2050 mais do que o câncer e a diabete somados.

Num planeta com 7,4 bilhões de habitantes, 20 bilhões de galinhas, 400 milhões de porcos e uma rápida conexão entre os países, uma epidemia é de fato a grande ameaça. Lembram que a gripe espanhola, em 1918-19, matou mais gente do que todas as guerras do século XX. Citam o zika no Brasil e, sobretudo, a recente volta da febre amarela, que tende a matar a metade das pessoas infectadas. Não estamos sozinhos nisso. Os chineses têm o problema da gripe aviária H7N9, e os árabes, a chamada síndrome respiratória do Oriente Médio.

Falar dessas coisas, num passado recente, parecia um pouco coisa de louco. No filme “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, há um general obcecado por micróbios, aliás muito bem protagonizado por Sterling Hayden.

Mas agora se fala abertamente em jornais de medicina. O próprio Bill Gates, que doou uma parte de sua fortuna para pesquisas, afirmou: “De todas as coisas que podem matar mais de 10 milhões de pessoas no mundo, a mais provável é uma epidemia emergindo de uma causa natural ou do bioterrorismo”.

Os autores criticam Trump, que não compreende isso e decidiu cortar verbas de US$ 1 bilhão para o setor de prevenção às doenças. Mas os Estados Unidos, por meio de seus milionários e cientistas, estão cada vez mais conscientes de que precisam de um esforço planetário para atenuar essa ameaça. Não conseguiram impedir que o vírus zika chegasse ao seu território. Foi uma prova de limitação e, ao mesmo tempo, um susto.

Nessas longas viagens, penso no papel do Brasil, onde as coisas realmente acontecem: zika, chikungunha e, agora, a volta da febre amarela. Seria interessante de alguma forma considerar o tema como uma questão de segurança nacional? Nos tempos em que se discutia segurança nacional, lembro-me que a maior novidade em foco era a guerra cibernética, o desenvolvimento da criptografia, essas coisas. Hoje, os russos são acusados de intervir na eleição americana, os americanos, por sua vez, revelam que tentam neutralizar a produção nuclear norte-coreana enlouquecendo seus computadores.

Quando digo segurança nacional no caso de epidemias não penso, necessariamente, nas Forças Armadas. Sozinhas, fariam muito pouco. Imagino uma articulação nacional que não só analisasse a nossa situação e vulnerabilidades, mas que visse o mundo como aliado.

Acredito que, no momento, o Brasil teria muito a ganhar ao abrir para pesquisas e doações internacionais voltadas para nossos problemas. Um caso que precisa ser estudado, por exemplo, é a morte de mais de mil macacos no Espírito Santo. Além do mais, por ali, os pesquisadores já trabalham numa tentativa de estabelecer a progressão da febre na mata e, certamente, levantar hipóteses sobre o rumo de seu possível avanço.

Tenho um trabalho específico de documentar, e ele precisa, a cada vez, encontrar o tom exato: informar sem alarmar. O front da comunicação é vital no esforço de entender os cientistas e traduzir seus dados de forma a buscar levar a uma resposta racional das pessoas. No caso da febre amarela, nem sempre é possível alcançar essa racionalidade. É preciso definir prioridades e acalmar as pessoas, mostrar que a vacina fará parte do nosso cotidiano. Segundo um especialista, houve até pessoas que tomaram uma vacina e voltaram ao fim da fila, na expectativa de tomar outra.

Esse novo ciclo da febre amarela é muito forte. Mas não há nenhuma razão para se alarmar. Certamente sairemos dessa. Mas com tantas crises, talvez fosse a hora de nos perguntar o que aprendemos, esboçar uma ideia do que fazer diante desse novo momento. É novo porque doenças sempre existiram, mas o mundo não era tão interligado como antes, e os antibióticos só agora dão sinais de fadiga.

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