quarta-feira, 31 de maio de 2017

A República dos compadres

"Desfaçatez, chicanas e negaças não perfumam o ar apodrecido das catacumbas da máfia multipartidária que nos governa", escreve José Nêumanne no Estadão:


Em nossa capital dos convescotes, onde os três Poderes da República confraternizam nos fins de semana e passam os dias úteis conspirando para salvar a própria pele e esfolar a Nação, a máfia dos compadritos – malfeitores portenhos na ficção genial de Jorge Luis Borges – se esfalfa para não ser extinta.

No Poder Legislativo, bocas malditas dão conta à boca pequena de que se conspira para dar de mão beijada aos ex-presidentes José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (por que não Fernando Collor?) indulgência perpétua para manter Michel Temer solto, caso seja defenestrado, como o major boliviano Gualberto Villarroel – este foi atirado pela janela do Palacio Quemado e linchado pela malta enfurecida, em 21 de julho de 1946. Ninguém espera que Temer seja atirado vidraça afora do Palácio do Planalto, tendo a palavra defenestrado sido usada apenas como um reforço de linguagem, uma metáfora do desejo da quase totalidade da população brasileira, que o prefere sem poder. Mas que saia inteiro, como a rainha da sofrência Roberta Miranda se dirige ao ex-amor no sucesso Vá com Deus. Embora seja mais difícil querer que ele saia íntegro desde a explosão sobre a faixa presidencial da bomba H da delação de Joesley Batista, o marchante de Anápolis que virou tranchã do próspero negócio da proteína animal no mundo.

Passadas duas semanas das revelações do delator premiado, Temer não contestou nenhuma das acusações que lhe faz, com base na delação, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no pedido de abertura de inquérito encaminhado ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin: corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da investigação. Em vez disso, contratou o perito Ricardo Molina para acusar a gravação da conversa nada republicana de delator com delatado de má qualidade e de prova de incompetência e ingenuidade dos procuradores que a negociaram. OK. E daí?

O Palácio do Planalto já desmentiu o procurador-geral. Mas juntamente com o desmentido foi dada a prova mais evidente – para qualquer cidadão com quociente de inteligência superior a 50 – de culpa do chefe do governo ao introduzir o roque do xadrez na gestão pública. Insatisfeito com a “timidez” de seu ministro da Justiça na direção da Polícia Federal (PF), ele demitiu o deputado Osmar Serraglio (PMDB) e o substituiu pelo jurista Torquato Jardim, cuja opinião depende tanto do interesse do patrão quanto a do atrapalhado legista. Renan Truffi revelou neste jornal que, em texto escrito em julho de 2015, ele escreveu que, “desconstituído o diploma da presidente Dilma, cassado estará o do vice Michel”.

Como se sabe, em maio de 2016, dez meses depois, o vice Michel era presidente e, no mês seguinte, o renomado causídico assumiu a pasta da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Desde então, tornou-se um devoto discípulo do “Velho Capitão” Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, cujo engenho, mesclado à flexibilidade ética que praticava, produziu a pérola que pode servir de lema para o brasão do mais ilustre membro do clã Jardim: “A coerência é a virtude dos imbecis”. É ou não é?

Segundo relato de Felipe Luchete, do site de notícias jurídicas Conjur, o ministro criticou, em 21 de fevereiro passado, procedimentos da Operação Lava Jato: Jardim “listou problemas como as longas prisões provisórias, com duração de até 30 meses, e condenações sem provas, já reconhecidas pela Justiça. Ao comentar a operação, ele afirmou ainda que vazamentos seletivos geram ‘nulidade absoluta’ de processos”. O jornal Diário do Povo do Piauí publicou no dia de sua posse no Ministério de Temer sua profecia de que a Lava Jato teria destino igual ao das operações anteriores da Polícia Federal, caso da Castelo de Areia, sepultada no STF. Bidu!

Fiel ao brocardo de Chatô professado pelo chefe, sua assessoria tentou negar os fatos acima revelados, contrários à opinião da maioria da população, em nota ao Fantástico, que os noticiara. Mas isso não quer dizer que a troca de Osmar Serraglio por ele difira da substituição, feita por Dilma, do advogado José Eduardo Martins Cardozo pelo procurador Eugênio Aragão, alcunhado de “Arengão” por seu chefe, ex-amigo e agora desafeto, Janot.

Mais pernóstica do que a missão que ele nega, contudo, é a tentativa de transferir o antecessor para a pasta que antes o incoerente ocupava. O boquirroto Serraglio se jactava para quem se dispusesse a dar-lhe um minuto de atenção de que não era “pato manco” no governo Temer. E todos sabemos que isso se devia a que sua permanência na pasta garantia o salvo-conduto para o suplente Rodrigo da Rocha Loures continuar no lado bom do dilema “ou foro ou Moro”, mantendo o foro privilegiado na cadeira para a qual o ex-futuro ministro da Transparência foi eleito.

O episódio encerrado com a recusa de Serraglio de ocupar o novo cargo cancela os significados de transparência, fiscalização, controle, justiça e outras já expelidas da gestão pública e da política do País: ética, decoro, vergonha... Mas essa consequência é menor do que o motivo real do frustrado “movimento combinado do rei e de uma das torres, que se desloca para uma posição mais atuante para dar mais segurança ao rei”, como o [ ]Dicionário Houaiss[/ ] define o roque, aquela jogada de xadrez acima citada.

Assim como a tentativa de desqualificar o depoimento do marchante delinquente por causa de seus crimes pregressos ou da má qualidade da gravação que ele fez nos porões do palácio, o odor infecto da matéria orgânica à tona de 17 de maio para cá já ficou insuportável. E exige mais atenção às manobras com que os compadritos da política tentam manter seus privilégios no statu quo. Desfaçatez, chicanas e negaças não perfumam o ar apodrecido das catacumbas da máfia multipartidária que nos governa.

2 comentários:

AHT disse...

A VELHA REPÚBLICA, UMA MADRASTA MÁ COM SEUS ENTEADOS


A história da Velha República é uma sequência de repetidos e pouco alterados capítulos. Os seus milhões de enteados somente quando sentem na pele a Crise afetando suas famílias tornam-se indignados e revoltosos. Querem se ver livres de sofrimentos e medo dos sinais indicando um tenebroso futuro. Naturalmente, tornam-se ouvintes atentos às novas propostas e soluções, desde aquelas de líderes aparentemente bem-intencionados, e até às propostas dos representantes e arautos à serviço dos grandes amigos, além dos filhos protegidos da Velha República.

A Velha República sempre soube se apresentar com adequados trajes, maquiagens e truques escondendo as marcas do envelhecimento e das safadezas. Tenta preservar aquela imagem de jovem proclamada para substituir a Monarquia vinda para o Brasil e fugindo do Napoleão Bonaparte. No entanto, não deixa de ser uma mãe carinhosa com os seus filhos próprios, frutos de suas relações com amantes e galantes corruptos mantidos com dinheiro que ela, pouco se lixando com a tutelada e explorada Dona Nação, subtrai do cofre do seu marido, o Senhor Estado.

AHT
30/05/2017

Herege do Socialismo disse...

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Coisas que ninguém da MIDIA e nem mesmo de blogs irá destacar sobre a safadeza da PGR (claramente petista) com os bilionários da JBS:

Um acordo de leniência no valor de R$ 10,3 bilhões para serem pagos em 25 ANOS e apenas corrigiodo pelo IPCA ...PQP!!! ...PQP!!! ...PQP!!!

Primeiramente o IPCA é um índice fajuto, sobretudo para quem negocia em dólares. Sem contar que é manipulado entre pesos dinâmicos nos itens do calculo.

IPCA ...SEM JUROS???? ...Já é coisa de safados.

IPCA ...EM 25 ANOS???? ...Já é coisa de safados.

Outro fato importante é quando começarão a pagar???

Se antes dos 25 ANOS a JBS falir aqui no bananão, como ficará o pagamento???

Se simplesmente NÃO PAGAR, qual será a penalidade???? ..RENEGOCIAÇÃO????

Poderá pegar emprestado ao BNDES mais financiamentos para pagar tal dívida???
Afinal, com o acordo JÁ ESTARÃO HABILITADOS para conseguir NOVOS EMPRÉSTIMOS SUBSIDIADOS no BNDES.

Francamente...
Ademais, FUNDOS de PENSÃO, BNDES, Caixa Econômica e BB são, juntos, donos da maior parte da tal empresa ...FRANCAMENTE!!! ...esse tal acordo da PGR (canalhas corruptos do PT; PTGR) é um acinte à população.

Os irmãos bandidos do PT estão bilionários no exterior e pouco se lixando para J&F ou JBS.
Simplesmente NÃO HAVERÁ PAGAMENTO!!! ...Afinal os acionistas são FUNDOS de PENSÃO, BNDES, Caixa econômica e BB.

EM 26 ou 27 anos, fora renegociações, a JBS vai quebrar e não vai pagar tal multa. Além de ainda pegar mais financiamentos no BNDES, já que pelo acordo esta habilitada.

o PULHA ENGANOT apenas aplicou uma estratégia para engabelar imbecis com tal acordo. Os bandidos estão BILIONÁRIOS, LIVRES, LEVES e SOLTOS!!!

PGR, sobretudo ENGANOT = PULHAS, BANDIDOS!!!