segunda-feira, 29 de maio de 2017

Torquato: uma escolha meio Dilma, meio Lula.

Pedro Dias Leite, editor de País do jornal O Globo, afirma que o novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, pode salvar Temer da degola, como fez Thomaz Bastos com o ex-presidente Lula no mensalão:


A decisão de Michel Temer de deslocar o advogado Torquato Jardim para o Ministério da Justiça remete a nomeações feitas por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que foram essenciais em momentos de crise.

No auge do mensalão, em 2005, Márcio Thomaz Bastos, no comando da Justiça desde o início do primeiro mandato de Lula, foi essencial para para traçar a estratégia jurídica que ajudou a livrar Lula. O experiente advogado, chamado de "god" (Deus) por seus pares, foi o principal artífice da tese de que os milhões de reais daquele escândalo não passavam de "recursos não contabilizados", um eufemismo para caixa dois, que por si só já era um eufemismo para os crimes de corrupção do mensalão.

No ano passado, durante o impeachment, outro advogado no Ministério da Justiça foi fundamental para a defesa de Dilma Rousseff. Embora derrotado jurídica e politicamente, José Eduardo Cardozo foi o responsável por martelar em entrevistas e artigos a tese de que aquele era o julgamento de uma presidente honesta que não havia cometido crime de responsabilidade.

Com desenvoltura diante dos microfones e das câmeras, não conseguiu salvar a chefe da guilhotina, mas ajudou a sedimentar a tese do "golpe" - e foi um dos poucos dilmistas que saíram do processo de impeachment melhor do que entraram.

Ao nomear Torquato Jardim para a Justiça, Temer tenta construir uma saída mezzo Thomas Bastos, mezzo Cardozo.

O novo titular da pasta transita entre os gabinetes jurídicos de Brasília há quarenta anos. Ainda no final dos anos 1970, foi assessor do Supremo Tribunal Federal (onde foi instaurado um inquérito contra o presidente); nos anos 1980 e 1990, foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral (onde Temer enfrenta um processo de cassação). Ou seja, terá um papel privilegiado para os chamados "embargos auriculares", as negociações de bastidor destinadas a encontrar uma saída jurídica para salvar o mandato do presidente. Essa é a faceta que remete a Thomaz Bastos.

Por outro lado, é tão loquaz quanto o antecessor dos anos Dilma. Só nos últimos quatro dias, falou à GloboNews, à "Folha de S.Paulo", e ao "Estado de S. Paulo". Se se recuar mais algumas semanas, deu entrevista também ao GLOBO. Fez declarações inclusive ao "Diário do Piauí", em maio do ano passado, em que minimizou a Lava-Jato. Nas entrevistas mais recentes, um de seus principais objetivos foi desqualificar o áudio da comprometedora conversa de Temer com o empresário Joesley Batista.

As próximas semanas serão decisivas para definir se Torquato Jardim vai entrar para a história como um ministro que ajudou a salvar um presidente da degola, como Thomaz Bastos, ou como um auxiliar que caminhou junto para o cadafalso até o final, como Cardozo.

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