quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Europa, Israel e o terrorismo.

Sadiq Khan, prefeito de "Londonistão".
Paulo Tunhas reflete sobre as perigosas deficiências do multiculturalismo inglês - "Londonistão"? -, sugerindo que a Europa poderia muito bem aprender algumas lições com Israel, que vive cercado de inimigos:


Sadiq Khan, o mayor de Londres, declarou no ano passado que estar preparado para conviver com atentados terroristas é parte integrante da vida numa grande cidade. Esta terrível confissão de impotência está longe de ser absurda. Sinal dos tempos, ela é menos absurda a cada dia que passa. A frequência dos ataques do terrorismo islâmico parece justificá-la. Ninguém, é claro, o teria dito no passado a propósito do terrorismo do IRA, da ETA, das Brigadas Vermelhas ou do grupo Baader-Meinhof. Por múltiplas razões, nesses vários casos podia-se aspirar a um fim, e aspirar a um fim era incompatível com qualquer princípio de habituação. Não nos podíamos habituar, porque o hábito seria afim da capitulação.

Com o terrorismo islâmico não é assim. Dada a sua natureza, dada a extensão da sua base, dada a forma como a sua gestação foi, e continua a ser, tolerada e dada a incompatibilidade radical dos seus motivos com a nossa maneira de pensar e viver, o seu espírito de conquista, não há fim concebível à vista. Sadiq Khan tem, à sua maneira, razão. O terrorismo islâmico passou a fazer parte das nossas vidas como uma ameaça existencial permanente. Pelo menos na Europa. Provavelmente nos Estados Unidos não será assim.

Resta saber como conceber tal habituação. Há duas possibilidades. A primeira consiste num hábito conformado. A polícia e os restantes organismos competentes fazem o que podem, os atentados vão-se sucedendo, e a cada novo atentado vamo-nos repetindo que não podemos ter medo. Acrescenta-se normalmente que ter medo é fazer o jogo dos terroristas. Devemos é continuar a viver como sempre vivemos. O problema é que essa atitude, que suponho ser a recomendada por Sadiq Khan, e que é certamente a que transpira no grosso dos discursos políticos e na opinião generalizada de jornais e televisões, contém em si qualquer coisa de irreal. Insensivelmente, ela aproxima-se de resignação. As palavras lindas sobre a necessidade de não ter medo são, pelo menos em parte, uma forma de assobiar no escuro. A cada “não podemos ter medo”, o medo vai-se tornando uma cada vez mais profunda segunda natureza, e ainda por cima uma segunda natureza que as palavras tudo fazem para que nos permaneça inconsciente.

Há, no entanto, uma outra habituação, mas desta vez inconformada, aquela que observamos em Israel. Por mais complexa e contraditória que seja a sociedade israelita, a resistência à permanente ameaça existencial do terrorismo não sofre nunca daquela forma peculiar de resignação disfarçada de não-resignação que a todo o momento se manifesta entre nós nos discursos sobre o medo e sobre o “fazer o jogo” dos terroristas. A questão de “fazer o jogo” não se coloca e Israel não se pode permitir o terrível luxo de vítimas que nós podemos, a normalidade de que falava Sadiq Khan. As coisas são declaradamente olhadas de frente, sem deixar que o véu das palavras tolde demasiado a nossa percepção da realidade. Não é agradável? Pode não ser: mas salva vidas.

É claro que, sob muitos aspectos, as diferenças entre Israel e a Europa são abissais. O minúsculo território de Israel (muito pouco espaço para muita história, como alguém disse) não é o da vasta Europa. Não há no fundamento da Europa a perpétua presença da memória do Holocausto, que corresponde ao elemento decisivo da fundação de Israel. Os perigos que rodeiam Israel são muito mais presentes do que os nossos. A própria natureza do terrorismo islâmico obedece em Israel a condições em parte (não totalmente: em parte) distintas das europeias. E por aí adiante.

Há, no entanto, algo de perfeitamente comum entre as duas situações. Em ambos os casos, lidamos com democracias que procuram preservar o seu modo de viver, o seu pluralismo, o império da lei e a defesa da liberdade individual face à ameaça do terror islâmico, isto é, face a um extraordinário ressurgir do mais absoluto arcaísmo que se apoia, entre outras coisas, no retorno a uma dimensão pré-política da existência social humana. E essa comunidade de situação entre Israel e a Europa é tudo menos despicienda. É o essencial do essencial. A manutenção da comunidade política contra as tentativas de retorno a um modo pré-político de viver é a questão essencial.

De resto, desde há muito que é lícito ver em Israel um concentrado dos problemas que afligem os europeus. A defesa de Israel e a defesa da Europa partilham, quaisquer que sejam as diferenças antes mencionadas, pontos comuns que, não fosse a espessa barreira retórica em que nos habituamos a viver, saltariam aos olhos dos mais míopes. Pela negativa, que é o modo mais simples, isso é óbvio. Entre nós, europeus, todos aqueles que insistem na necessária “compreensão” dos actos do terrorismo islâmico coincidem, quase sem falhas, com aqueles que militam a favor da destruição de Israel, quaisquer que sejam as roupagens verbais com que vestem o seu pensamento. E não apenas a “compreensão” do terrorismo. O desprezo pela democracia também. Os que vêem as democracias liberais como algo que deve ser substituído por outro modelo político são igualmente aqueles a quem a pura e simples existência de Israel parece condenável.

Agora, será possível entre nós o tipo de atitude face ao terror idêntica à dos israelitas? As dúvidas são legítimas e imensas. As nossas sociedades podem sobreviver sem aquele tipo de atitude. Israel, obviamente, não poderia. Sobreviveu, e sobrevive, nessa estrita condição. Não nós. A Inglaterra permitiu durante um tempo imenso, e ainda permite, as mais inconcebíveis pregações islâmicas no seu território. Melanie Phillips publicou em 2006 um livro célebre sobre o “Londonistão”: é arrepiante. Não só pelo que conta dos islamistas como pelo que narra da mais do que extravagante complacência das autoridades. A tradição, de resto, vem de longe. Lenine e os outros bolcheviques tinham Londres como lugar ideal para as suas reuniões durante muito tempo antes de 1917. Motivo? Nunca a polícia minimamente os incomodava.

Mas se uma atitude como a de Israel não é inevitável para a sobrevivência da Europa, convém não exagerar no sentido oposto. O hábito conformado de Sadiq Khan pode conduzir à eleição de gente como Corbyn, com um longo historial de “compreensão” de vários terrorismos e de pactuação com anti-semitismos sortidos. Por acaso, estou muito longe de acreditar nessa possibilidade passar à realidade: a apostar, apostava que Theresa May vai ganhar com maioria absoluta. Mas a existência da simples possibilidade assusta.(Observador).

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu admiro Israel: eita povinho que entende de muçus, gente, sabe tratar com amor e carinho, não é, embora de vez em quando dê umas palmadinhas, bem de leve, sem machucar...
Afinal, os muçus são tão bãozim, e merecem, né?