terça-feira, 27 de junho de 2017

A peste grisalha

Comovente depoimento de Paulo de Almeida Sande, no Observador, sobre a velhice e seus desdobramentos. Boa leitura:


Vou falar sobre mim, com toda a crueza.

Passei, ou aproximo-me, da idade em que, em tempos idos, um homem ou uma mulher se reformavam; mais aqueles do que estas, pois estas, tenham a idade que tiverem, continuam a cuidar da casa, dos netos, das pequenas coisas que tornam a vida suportável.

Dizem-me que vou viver noventa anos, mais década menos década. Isso quer dizer que tenho ainda 20, ou 30 sobre a terra. Vou-me ocupar com quê?

Bem, eu fui ministro, fui ceo, fui um reputado economista. Aos 20 anos era irreverente, aos 30 jovem secretário de estado, vi-me director-geral, fiz-me cronista num jornal de referência, aos 40 reverenciavam-me, aos 50 escutavam-me com atenção. Tudo isso se começou a esvair quando que me tornei ancião – se notícias houvesse sobre mim então diriam “Idoso atropelado na via pública” ou “Senhor de idade sentiu-se mal a entrar no shopping…”.

Aos poucos perdi importância. Deixaram de me convidar para colóquios, para participar em programas de televisão, para entregar prémios ou abrilhantar festas. Ao princípio, ainda me pediam para moderar debates, prestar depoimentos, assistir a festas. Mas isso foi ao princípio. Um dia, nesse princípio que era já sinal de fim, dei por mim numa mesa redonda a ter uma epifania: eu era de todos o mais velho, o único idoso, o sénior da companhia.

O respeito que me dedicavam, interroguei-me, seria o resultado do respeito pelo meu trabalho ou só a reverência obrigatória, educada, pelos meus cabelos brancos? Talvez se os pintasse? Mas não, tenho orgulho nas cãs que o tempo semeou nas minhas têmporas, primeiro, na cabeça inteira, recentemente.

Como cheguei aqui? O percurso até ao topo foi longo e desgastante. Pelo caminho foram ficando os meus companheiros. Uns reformaram-se cedo e dedicam-se, desde então, a causas sociais, prestam assistência à família (mais elas do que eles), viajam, pelo menos até se lhes acabar a indemnização da reforma antecipada; outros adoeceram, desistiram, percorrem a via sacra dos tratamentos, dos médicos e hospitais; outros ainda ficaram desempregados, não serão os piores de todos mas a vida pregou-lhes uma partida, ou atingiram o patamar de incompetência. Vivem de óbolos, da caridade familiar, que implica sempre algum sacrifício e muita pena.

E por isso estou sozinho, um ancião activo num mar de jovens imaturos.

O relógio bate 60 e muitas horas e os colegas novos impacientam-se. Outro dia, sentado num sofá do clube, a virar a esquina da sala de reuniões, ao passar pela pool das secretárias, ouvi distintamente o comentário “quando é que o velho se vai embora?”; não deviam estar a falar de mim, claro, embora eu seja de facto o mais velho. Penso na experiência acumulada, na sabedoria esbanjada e sinto, de certeza segura, que não pode ser sobre mim que falam.

20 anos ainda. Eu sei que não me vão deixar ficar muito mais tempo. Na faculdade já me restam poucas horas; passa-se sempre da mesma forma, primeiro, “sabemos da carga que carrega, dividimos as suas aulas com um colega”, depois com dois, até à irrelevância máxima do tempo mínimo e ao respeito condescendente dos jovens perante o velho. Mestre, professor, mas velho.

Os meus amigos dizem-me o quanto são felizes por terem deixado os respectivos ofícios. Não lhes sobra senão a já referida actividade social, meia dúzias de associações e fundações de que são, ou recentemente se fizeram, membros, e duas ou três tertúlias mensais, almoços ou jantares com gente da idade deles, que aliás é a minha, onde se discutem coisas relevantíssimas, sem interesse para ninguém. Alguns convivem como nunca através das redes sociais, e contam com muitos amigos jovens, que nunca viram, nem verão, mas que ali, na lonjura distante dos megabites, estão ao seu nível, estão ao seu alcance, têm a mesma idade. É uma ilusão, bonita, mas uma ilusão.

Fui outro dia a uma conferência de aparato, na qual se tratou de um tema magno, nacional, fundamental. Gente importante, daquela que se ainda não foi presa por participação económica em negócio (adoro a expressão) é só porque ainda não houve tempo, perora. Na sala semi-vazia (isto hoje está cheio, dizia um dos presentes, na prateleira há dez anos), duas dúzias de idosos cabeceiam, fingindo interessar-se pelo que diz, em voz monocórdica, um ex-qualquer coisa; aguardam o momento do regresso a casa, à mulher com quem já não falam, para esperar coisa nenhuma a fitar com a boca aberta um ecrã onde a vida finge acontecer.

A velhice é um longo naufrágio, terá dito De Gaulle. Na sociedade actual, que nos chama velhos aos 40 e nos condena a um longo ostracismo até que a vida natural em nós se apague, 50 ou 60 anos mais tarde, é um longo, lento e doloroso naufrágio. Deixamos de ser relevantes e, a partir daí, pedimos licença para estar por cá, alistados num exército de velhos, contagiados pela peste da pela manchada, dos dentes gastos, dos cabelos brancos ou ralos.

O Mundo é hoje dos jovens. É tempo de lhes dar uma oportunidade; de deixar o meu lugar a um mais novo, a um mais enérgico, a um mais ambicioso. Como deve ser. Mas então, meu Deus, porque me deixas viver tantos anos?

PS. A população portuguesa só estabiliza cerca de 2049. Até lá, envelheceremos: em 2050, 32% dos portugueses serão idosos. O aumento do número de países em que um em cada cinco habitantes tem mais de 65 anos é um problema global, com implicações económicas significativas. Portugal torna-se um país “super-idoso” em 2020, juntando-se a mais 12 países.

Mas esta crónica não é sobre macroeconomia, sobre o envelhecimento do Ocidente, sobre os riscos para a nossa civilização e modo de vida. Esta crónica é sobre mim, que navego à bolina pelos 60, é sobre os leitores, a maioria fiel, e também tu, caro amigo, e vocês, que ocasionalmente me lêem, esta crónica é sobre todos quantos sentem o estigma da idade.

Façam de conta, continuem vivos, recusem o naufrágio; se for preciso, mandem o bote à água e embarquem nele para mais uma aventura, uma só aventura mais. Recusem a ideia da peste grisalha, dos velhos que impedem a progressão dos novos, porque tão racista é a recusa dos outros por causa da cor da pele, como de alguém por ter mais idade. E competência é competência, aos 20 como aos 60.

No fundo, somos apenas seres humanos. O tempo, inexorável e impiedoso, capturar-nos-á a todos. Não lhe facilitemos a tarefa. Afinal, os 60 são os novos 40. Ou não?

Um comentário:

Anônimo disse...

Realmente, emocionante o texto.

A pior velhice é a mental!!!! Contra essa não há o que fazer.

Conheço alguns jovens (de 40 a 50) que são velhos de espírito. Ao contrário, muitos que passam dos 60, muitas vezes podem ser vistos como ainda jovens e com vitalidade, dependendo de sua visão da vida.


Chris/SP