sexta-feira, 23 de junho de 2017

Um ano de Brexit: olhem a cara de sofrimento dos ingleses.

Um ano depois do Brexit, os ingleses continuam com a cabeça no lugar, só se permitindo alguns momentos de delírio, com "chapéus enlouquecidos" - e apesar da birra de franceses, alemães e tutti quanti. Texto de Vilma Grysinski (Veja.com):


Os perdedores continuam chorando como bezerros desmamados. A cabeça de Theresa May continua por um fio. Franceses, alemães e outros continuam a fazer birra.

E o povo britânico continua com a cabeça no lugar – só se permitindo uns momentos de delírio, manifestados em chapéus enlouquecidos, durante a temporada de corridas de cavalo, o carnaval deles.

Um ano depois do plebiscito que aprovou a saída da União Europeia, a situação é a seguinte: 45% dos eleitores que votaram pelo Brexit continuam querendo; 23% que votaram contra, acham que o governo precisa seguir o desejo da maioria; 22% continuam sendo contra, mesmo que isso contradiga o voto popular.

Ainda são altas, embora ligeiramente menos do que há apenas poucos dias, as probabilidades de que a primeira-ministra Theresa May seja tirada pelo próprio partido, uma das vantagens do sistema parlamentarista para os casos de governos que se tornam impopulares.

Só para lembrar: ela seria substituída por outro líder escolhido pelo Partido Conservador, o qual, nem se fosse suicida, poderia tentar o Brexit light, uma versão atenuada da separação. Sair é sair e May foi tratar disso na Bélgica.

TRAGÉDIAS IMAGINÁRIAS

A ideia de que ela seria “humilhada” é mais fruto da imaginação da turma do chororô. Como deveria ter feito desde o começo, May propôs que todos os cidadãos europeus radicados no Reino Unido até março passado, quando ela invocou a cláusula de ruptura, poderão continuar desfrutando dos mesmos benefícios.

A expulsão em massa de cônjuges e criancinhas, entre outras tragédias imaginárias, foi mais uma das muitas bobagens dos inconformados com o Brexit. E é claro que os mais de 900 mil britânicos vivendo em outros países da União Europeia precisarão ter tratamento equivalente.

Também seria absurdo se a questão dos cidadãos europeus residentes ficasse sob a jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça. O principal motivo da aprovação da saída foi o excesso de intervenção de organismos europeus em esferas da soberania nacional britânica.

Mas os burocratas-chefes europeus estão se achando. Querem jogar para a plateia – o público remanescente nos países da União Europeia que, na proporção de 65%, apoiam um tratamento severo para a Pérfida Albion.

Jean-Claude Juncker sempre fez este estilão e Donald Tusk só pensa naquilo – voltar para a política de seu país, a Polônia, e ser primeiro-ministro. Mas, quando pesam na mão, provocam o efeito contrário: muitos ingleses se sentem aliviados com a hipótese de que se livrarão de uma burocracia super-turbinada.

A conversa do momento é um tal de PESCO, ou Cooperação Permanente Estruturada, uma espécie de proto-exército europeu. Muitos britânicos preferem continuar com seu exército mesmo. Ainda por cima, o novo leviatã burocrático soa como Tesco, a rede de supermercados populares, nada muito inspirador. Nem marcial.

MODELO VENEZUELANO

O grande balanço da opinião popular feito um ano depois do plebiscito mostra que as três maiores preocupações com o Brexit são na esfera econômica: aumento de preços (30%), queda nos investimentos (27%), dificuldades no comércio externo (25%).

Curiosamente, do lado dos pontos positivos, os que vêem mais oportunidades nas trocas comerciais chegam perto de 35%. Queda na imigração (25%) fica em segundo lugar, mais dinheiro para serviços (18%) em terceiro.

Punida por ter deixado o sucesso subir à cabeça, Theresa May ainda é considerada a melhor líder para conduzir o Brexit por um terço da população – uma queda dolorosa dos 48% de que desfrutava, ainda mais quando comparada à subida de Jeremy Corbyn.

O líder do Partido Trabalhista, que aumentou o número de deputados na eleição provocada pelo entorpecimento de May com o poder, tem um programa destinado a destruir o país em todas as esferas, incluindo uma nacionalização de indústrias extraordinariamente parecida com a feita na Venezuela. Nada como querer imitar modelos de sucesso.

Com uma diferença vital: se Corbyn se tornasse primeiro-ministro, dificilmente conseguiria colocar em prática as insanidades prometidas.

A estabilidade embutida no sistema foi o sustentáculo que segurou o país nas últimas crises: três atentados terroristas sucessivos, praticados por extremistas islâmicos. Depois, um atentado de “vingança”, contra muçulmanos que saiam de uma mesquita feito por um desequilibrado.

MASSA DE MANOBRA

O “efeito maluco” não pode ser desprezado. Antes do atropelador da mesquita de Finsbury Park, que tinha seis tentativas de suicídio no currículo, outro doente mental assassinou uma deputada trabalhista, Jo Cox. Nos Estados Unidos, teve o caso recente da tentativa de assassinato de vários políticos republicanos durante um treino de beisebol. O Estado Islâmico também costuma atrair e manipular desequilibrados mentais.

Além dos atentados, com o potencial de provocar o pior dos pesadelos para as autoridades – confrontos diretos entre diferentes comunidades -, Theresa May ainda deu o azar do grande e ainda inexplicado incêndio de um edifício popular recém-reformado.

A revolta natural diante da extensão e da rapidez do fogo que consumiu 79 vidas foi rapidamente explorada por políticos de varias tendências de esquerda. Entre os quais, o próprio Corbyn, que propôs a ocupação de imóveis de luxo para desabrigados.

Atém de perder tanto no incêndio, os sobreviventes da Grenfell Tower se tornariam assim tomadores de coisas dos outros e massa de manobra de candidatos a revolucionários.

EXPLOSÃO EMOCIONAL

Como Theresa May é a primeira-ministra, a culpa acaba em seu colo, ainda que não tenha nem um centímetro de responsabilidade pelo uso de um revestimento inflamável, considerado no momento a causa principal da fúria devastadora do fogo.

Ela foi acusada de insensibilidade durante uma visita ao logo, na qual “apenas” falou com bombeiros. Quem assistiu o filme A Rainha, lembra-se da narrativa principal, baseada em fatos reais: diante da morte chocante da princesa Diana, a rainha Elizabeth levou os netos e a família mais próxima para a Escócia.

Foi Tony Blair, o primeiro-ministro de lábia hábil, quem convenceu a rainha a voltar para Londres e fazer uma manifestação pública de sentimento – algo bastante difícil nas classes altas ou médias da Inglaterra. O povo estava com raiva e exigiu que a família real, tão hostil a Diana, exibisse luto.

Sabe-se agora que, apesar das cenas registradas em vídeo na qual Elizabeth recebe flores e acenos discretos ao circular diante do palácio que havia virado monumento temporário a Diana, ela, tão acostumada a ser amada, sentiu muita agressividade naquele dia.

A morte de Diana completará vinte anos no próximo dia 31 de agosto. O furor emocional que tomou o país na época há muito passou. As últimas semanas, com crianças estraçalhadas por um homem-bomba ou queimadas num incêndio hediondo, lembraram em alguma coisa a mesma explosão pública de sentimentos.

Não existe um único motivo para se acreditar que não haverá outros atentados. E outros políticos de carreira subitamente abreviada. E, felizmente, Ascot, um lugar onde só explodem os chapéus e o encantador mau gosto da plebe. Comentar os vestidos feios e os adornos extravagantes traz um enorme alivio nacional.

Um comentário:

Anônimo disse...

Os países europeus, após a caída, melhor, derrubada do Muro de Berlim estava devastados, em nada se diferenciavam da Venezuela em materia de miseria - como todo país comunista após se retirarem do poder!
A exceção, para a mafia do partido e do bando de quadrilheiros puxa-sacos capachos da corja em todos os níveis!
O povão? Coitado, como em Cuba e Venezuela, pastando, comendo capim!