domingo, 30 de julho de 2017

Venezuelanos forçados a votar na Constituinte golpista de Maduro. Quatro mortos até agora.

O jornal português Observador fez cobertura jornalística melhor que a dos jornalões brasileiros, que praticamente ignoram os acontecimentos na Venezuela sob a ditadura de Nicolás Maduro. Há, inclusive, jornalistas brasileiros presos. Segue a matéria:


Durante mais de dois meses as ruas das principais cidades da Venezuela fora palco de violentos protestos que envolveram oposição e apoiantes de Nicolás Maduro, presidente do país que tem sido fortemente criticado pela espiral de escassez e violência que envolve o país. Este domingo o país vota para eleger 545 membros de uma Assembleia Constituinte mas os protestos não acalmaram e os meios de comunicação locais estão a dar como certas as mortes de pelo menos quatro pessoas.

Uma vítima é Ricardo Campos, o secretário da Juventude da Ação Democrática (a coligação oposicionista em maioria no Parlmento), que terá sido baleado na cidade de Cumaná, no Estado de Sucre, segundo escreveu na sua conta no Twitter o líder da Ação Democrática Henry Allup.

Outras duas vítimas são Marcel Pereira e Iraldo Gutiérrez que, também segundo os deputados da oposição, foram assassinados por “coletivos”, milícias paramilitares de defesa da revolução, nas últimas horas, num protesto contra a Assembleia Nacional Constituinte no estado de Mérida.

Também o candidato José Félix Pineda Marcano foi assassinado na sua casa, na Cidade Bolívar, dá conta o jornal venezuelano El Universal.

Pineda e a sua família terão sido sequestrados no sábado à noite, depois de a sua residência ter sido invadida por homens armados. O político trabalha com menores e o lema da sua campanha era “Falando é que a gente se entende”. Ainda não estão totalmente esclarecidas as motivações do ataque, mas o jornal conta foram roubados vários bens. A polícia não descarta, contudo, motivações políticas.

Relatos de voto “à força”. Maduro votou de madrugada.

São vários os relatos que chegam à comunicação social de pessoas que se têm sentido pressionadas para votar. O Observador tem acompanhado a situação na Venezuela, através do contacto com luso-descendentes mas também falando com pessoas que permanecem na Venezuela. Alguns fizeram-nos chegar mensagens escritas e vídeos de reuniões entre patrões e empregados nos serviços públicos, que dependem dos subsídios do Estado para alimentação e habitação, onde se nota a pressão para irem votar.

O Presidente, entretanto, já votou. E bem cedo, por volta das 6 da manhã — 11h00 de Lisboa. No meio de uma condenação quase generalizada por parte da comunidade internacional, Nicolás Maduro pediu “aceitação global” a este voto. O local onde votou estava, contudo, vazio.

Segundo imagens divulgadas pelo diário venezuelano El Nacional, o Colégio Miguel Antonio Caro, situado na avenida Sucre de Catia, às oito da manha, quase duas horas depois de Maduro ter votado, estavam apenas dez pessoas presentes. Alguns venezuelanos no Twitter também vão dando contra daquilo que parece ser, para já, uma adesão aquém das expectativas de Maduro.

Mas Nicolás Maduro quis dar o exemplo. “Quis ser o primeiro a dar o voto para a paz, a soberania e a independência da Venezuela (…). Hoje é um dia histórico”, disse Maduro depois de votar diante de alguns convidados internacionais que foram convidados pelo Conselho Nacional de Eleições (CNE) para observar o sufrágio.

Maduro nega qualquer ligação do seu regime às mais de 100 mortes já registadas durante os protestos contra e a favor da sua presidência, dizendo que a Venezuela “aguenta, estoicamente, os ataques terroristas e a violência criminal”.

“Oxalá o mundo abra os seus olhos sobre a nossa amada Venezuela, apaguem toda a sua campanha imperial que se fez e estendam as suas mãos”, referiu Maduro, que vê na Assembleia Nacional Constituinte um “superpoder que vai poder reencontrar o espírito nacional”.

O Presidente declarou que a Venezuela é “um país em paz, exercendo o seu direito de voto”.

Chavistas “com esperança numa Venezuela melhor”

A agência de notícias português Lusa está na Venezuela, e tem falado com algumas das pessoas que decidiram ir votar este domingo.

“Onde há uma pessoa como o Presidente (Nicolás) Maduro, que quer trabalhar, não vão poder continuar metendo as mãos, e eles (os Estados Unidos) estão sempre pendentes do que estamos fazendo, quais são os problemas económicos, mas Maduro vai continuar a trabalhar e vai-nos dar paz e tudo o que os venezuelanos queremos”, disse um eleitor à Agência Lusa.

José António Hernández, 38 anos, oficial de segurança, explicou que levantou-se cedo para votar, porque com a Assembleia Constituinte “vai haver paz, abastecimento de alimentos, segurança para todos. Vamos viver tranquilos, não será como antes”.

“Com as Forças Armadas que temos, aqui não há medo, não há temor de que possam acabar connosco. Não. Estamos aqui, lutando diariamente. Com o ministro da Defesa que temos, Padrino López, que está no comando, fará todo o possível, para que os Estados Unidos não continuem ‘metendo as mãos'” no país, disse.

Do outro lado, explicou, “há uns (opositores) que não querem deixar trabalhar o Presidente Maduro e por isso com a Constituinte, vamos estar melhor”.

“Muitas coisas vão mudar na Constituição, no que respeita à justiça e à segurança do país para todos. O Clap (bolsa de géneros subsidiada pelo Governo) vai ter mais alimentos e isso é o que esperamos”, explicou.

Segundo José António, “tudo vai ser arranjado” e também vai terminar “a corrupção” que existe no país e que, no seu entender, é da responsabilidade da oposição.

“Mas, já tudo isto vai mudar, com a ajuda de Deus e do comandante supremo (Hugo Chávez, presidiu o país entre 1999 e 2013). Convido todos os venezuelanos para que venham votar, o processo é rápido e esta noite será de celebração de uma vitória que passará os dez milhões de votantes”, disse.

Em Caracas, pelas 08:00 horas locais (13:00 horas em Lisboa) alguns centros eleitorais registavam pessoas em fila para votar, no entanto em número bastante inferior ao que se registaram nas últimas eleições presidenciais e legislativas na Venezuela, inclusive em zonas como Cátia (oeste) onde existem bolsas eleitorais afetas ao ‘chavismo’.

Apesar de o Conselho Nacional Eleitoral ter dado instruções para limitar o acesso da imprensa a 500 metros dos centros eleitorais, as rádios e televisões estatais divulgaram imagens dos centros eleitorais, declarações, e do momento em que votaram vários políticos afetos à revolução, em diversas partes do país.

Ainda em Caracas, no leste da capital, havia algumas barricadas, principalmente em Altamira e Los Palos Grandes, que obrigavam os motoristas a procurar vias alternativas.

Em urbanizações como La Florida eram visíveis destroços de bloqueios parciais de ruas, que não impediam as pessoas de passar a pé.

A circulação de viaturas, nalgumas zonas da capital era bastante menor, mas eram visíveis vários autocarros a prestar serviço aos passageiros em várias zonas como La Candelária (centro), onde há registos de grande repressão policial, durante a última noite.

El Paraíso e Montalbán (sudoeste) registavam ainda menos trânsito que noutras zonas.

A oposição venezuelana, que decidiu não participar nas eleições, acusa Nicolás Maduro de pretender usar a reforma para instaurar no país um regime cubano, adiar as eleições e perseguir, deter e calar as vozes dissidentes.
O que pretende Maduro com esta “Constituyente” e quais os argumentos a favor?

O que pretende Maduro com essa Constituinte?

Não disse. Os seus apoiantes acreditam que, com um maior domínio sobre a oposição e uma mão mais dura sobre a violência que se alastra no país, Maduro consiga impor regras que permitam a toda a gente ter acesso a alimentos básicos, que têm escasseado no último ano. Quem o apoia acredita que a oposição tem criado fugas de alimentos para o mercado negro, onde são muito mais caros, e até há notícias de que largas quantidades de comida tenham sido queimadas.

Quando anunciou este voto, dia 1 de maio — não tendo primeiro realizado um referendo como exige a Constituição — Maduro falou em “paz”, “estabilidade”, “coerência”, “união” e todas essas palavras que, aos ouvidos dos 82% de venezuelanos que atualmente vivem na pobreza, soam como um bálsamo. “Estes grupos violentos não entendem que a violência não leva a lado nenhum e que temos que dialogar apesar das nossas diferenças”, disse ao New York Times Hermann Escarrá, conselheiro legal de Maduro que também garantiu não estarem previstas mudanças radicais à Constituição implementada por Hugo Chávez em 1999.

Nem toda a gente concorda com os protestos generalizados, que impedem os negócios de funcionar, fecham as ruas e barricam escolas e universidades. Há um risco de que este cerco acabe por afetar maioritariamente os mais pobres, que apesar de serem os que mais sofrem com a escassez de comida por estarem isolados dos maiores centros de abastecimento, são também aqueles que mais precisam de trabalhar — coisa que as greves generalizadas impedem. “Não é justo, o governo encarcera aqueles que protestam mas os que protestam estão a colocar-nos também numa espécie de jaula”, disse uma jovem de 27 anos à agência de notícias Associated Press, que tem estado no país a acompanhar o desenvolvimento dos protestos.

Esta violência pode ser a maior arma do regime, e a oposição está a fornecer munições na medida em que, em alguns bairros, há notícias do estabelecimento de “piquetes” que obrigam toda a gente que por ali passe a regressar a casa ou a participar nos protestos. Na página Caracas Chronicles, Astrid Cantor, analista política e médica, escreveu recentemente: “Temos que nos afastar deste espírito guarimba — a tal instalação de piquetes — porque se é preciso continuar a protestar também é preciso que cada venezuelano esteja consciente que isto é uma luta a longo prazo e, pelo caminho, é preciso que continuemos a construir a sociedade inclusiva, justa e democrática pela qual protestamos”.
Problemas com a admissão de jornalistas

Esta semana, os jornalistas da SIC foram impedidos de entrar na Venezuela, para onde tentaram viajar alegadamente utilizando visto de turistas. A controvérsia tomou conta das redes sociais: deveriam os jornalistas ter “respeitado” as regras de admissão a um país que permanentemente atenta contra a liberdade de imprensa, prendendo e agredindo membros da comunicação social, arriscando não poder cobrir a realização desta eleição? É uma discussão legítima mas o que parece ser certo, segundo as Organizações Não-Governamentais que têm exposto as dificuldades em cobrir de forma livre o que se passa no país.

A organização Repórteres Sem Fronteiras (Reporters Without Borders — RSF) publicou recentemente um relatório intitulado “Os correspondentes não são bem-vindos à Venezuela”, onde ficam claros vários exemplos de violência e intimidação.

Sobre dois jornalistas brasileiros, a RSF escreve: “Foram presos pelo Servicio Bolivariano de Inteligencia (SEBIN), os serviços de informações venezuelanos, detidos por mais de dez horas, submetidos a duros interrogatórios, chamados de “terroristas” e ameaçados com prisão “para sempre”.

Desde agosto do ano passado, quando os protestos começaram a fazer notícia de primeira página em vários meios de comunicação internacionais, mais de 20 equipas foram impedidas de entrar no país, lê-se ainda no mesmo texto, onde ficam também explícitos, em detalhe, alguns episódios de agressão. Em fevereiro, o sinal da CNN em espanhol foi cortado na Venezuela. (Observador).

Um comentário:

Anônimo disse...

Existe, ou existiu, uma importante colônia lusa na Venezuela. A essa altura, ou baixeza, da conflagração cocomunista, a maioria já deve ter picado a mula. Se vierem para Pindorama, será uma sorte grande para nós.