terça-feira, 1 de agosto de 2017

Cobra criada por Jararaca

Assim como Palocci, Dida era o queridinho de Lula e Dilma e do mercado. Texto de José Nêumanne, publicado no Estadão:


O ex-presidente do Banco do Brasil (BB) e da Petrobrás Aldemir Bendine foi preso na semana passada num condomínio de luxo em Sorocaba, no interior de São Paulo, na Operação Cobra, 42ª fase da Lava Jato. A prisão deixa claro que a devassa continua e as origens e companhias de Temer não deixarão de assombrar as noites no Jaburu (terá sido por isso que a família real se assombrava no Alvorada?). E ainda que o papo da gerentona honestinha, a madama presidenta Dilma Rousseff, é completamente furado. Além disso, esclarece que padim Lula de Caetés é católico praticante, mas se esqueceu do princípio bíblico do “diz-me com quem andas e te direi quem és”. No caso, aliás, foi o ex-presidente petista quem fez de Dida, como chamava Aldemir carinhosamente, cobra criada.

Segundo as investigações realizadas até este momento, o ex-presidente das instituições mencionadas e pessoas a ele relacionadas teriam solicitado vantagem indevida em razão dos cargos exercidos para que a construtora Odebrecht não fosse prejudicada em futuras contratações da Petrobrás. Em troca, a empresa teria efetuado o pagamento em espécie de, no mínimo, R$ 3 milhões. O mais espantoso é que, pelo menos aparentemente, tais pagamentos somente foram interrompidos com a prisão do então presidente da Odebrecht, em junho de 2015.

O nome da 42.ª fase da Lava Jato (Cobra) é uma referência ao codinome dado ao principal investigado nas tabelas de pagamentos de propinas apreendidas no chamado Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht e revelado na 23.ª fase da mesma operação. Bendine foi levado para a companhia de Marcelo na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba, por determinação do juiz federal Sérgio Moro, titular da 13.ª Vara Criminal Federal da capital paranaense e responsável pelo julgamento dos acusados por procuradores e policiais federais da celebérrima operação.

O ponto de partida da Operação Cobra foi a delação de Marcelo Odebrecht. Este relatou que, primeiro, quando presidente do BB, Dida pediu R$ 17 milhões para facilitar a concessão de um empréstimo que a empreiteira tinha reivindicado. O então presidente da Odebrecht, entretanto, não aceitou fazer o pagamento, pois acreditava que a demanda da empresa seria julgada por técnicos do banco, e não pelo presidente. Só que o funcionário de carreira da instituição financeira foi nomeado por Dilma para presidir a Petrobrás, a pretexto de pôr fim às práticas de corrupção da petroleira, que chegaram a tal ponto que o maior escândalo da História recebeu a marca de “petrolão”. Além do mais, Bendine reduziu a pedida para R$ 3 milhões e a propina foi sendo paga em “suaves prestações” até Odebrecht ser preso e o pagamento, interrompido.

Bendine era o queridinho de Lula, que o nomeou presidente do BB em 2009. Dida tinha começado como office boy na instituição e foi mantido em sua presidência até 2015, quando Dilma Rousseff o nomeou para presidir a petroleira, substituindo sua amigona do peito Graça Forster. Sua tarefa seria moralizar e, em consequência, salvar a maior estatal brasileira. A prisão dele agora confirma, contudo, as desconfianças de parte dos críticos dos presidentes petistas de que sua missão era, de fato, eliminar provas da cumpanheirada comprometida na roubalheira. Depois da prisão e de suas consequências, que podem levar Bendine à delação premiada, a reputação de Lula e também a de Dilma estão sendo jogadas “na chón”, como diria Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian na novela global Rainha da Sucata, protagonizada por Regina Duarte. A verdade é que o que a tigrada petista tentou fazer todos os brasileiros de bestas não está no gibi. E pode ser, afinal, que tudo seja desvendado, se Sua Insolência o sinistro da Justiça, Torquato Jardim, permitir.

A delação premiada de Bendine é tão esperada como a do ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma Antônio Palocci, porque, como o ex-prefeito de Ribeirão Preto, o bancário também mereceu a simpatia e as bênçãos do mercado.

O cinismo de Dida atingiu as raias do absurdo. Na presidência do BB, foi flagrado com um patrimônio inexplicável em espécie e teve a caradura de dizer que usou dinheiro guardado em casa para comprar um imóvel. A aparente competência com que presidia o banco, à época, evitou que Dilma o demitisse e que os magnatas da burguesia nacional reclamassem de ele ter desonrado uma instituição de crédito de mais de 200 anos, fundada no tempo da estada do rei português dom João VI no Rio. Ao confessar que entesourava o vil papel debaixo do colchão, o “cobra” de Lula, Dilma e da Fiesp se comportou como o dono de um restaurante chique que faz habitualmente suas refeições no boteco sujinho ao lado.

Mas, mesmo depois desse flagrante e da polêmica em torno do empréstimo para Val Marchiori, uma das Mulheres Ricas da Rede Bandeirantes de Televisão, comprar um Porsche enquanto os gestores petistas se jactavam de usar os bancos públicos para enriquecer os pobres, ele foi transferido para a Petrobrás. Com Dilma transformada em carta fora do baralho, ele ainda foi cotado para ficar no emprego, pois era tido como um grande gestor por alguns assessores próximos de Temer. Esse incidente mostra que o presidente pode até não ter muito juízo, mas sorte tem de sobra. E mais: Bendine ainda tentou ser o indicado do atual governo para presidir a Vale privatizada. São as delícias do Brasil…!

Além disso, as revelações sobre seu comportamento pelos procuradores da Lava Jato são, no mínimo, pitorescas. O primeiro executivo que presidiu uma poderosa estatal (na verdade, duas entre as maiores) foi preso por ter pedido um adjutório em plena efervescência da Lava Jato no noticiário. Os investigadores ainda descobriram que Dida – que tem o mesmo apelido do grande craque do Flamengo tricampeão carioca de 1953,1954 e 1955, formando a linha campeã com Joel, Moacir, Evaristo e Zagalo – declarou a referida esmola no Imposto de Renda. Além disso, apagou mensagens no aplicativo quatro horas depois de transmitidas, mas fez questão de manter algumas, sem pensar que ajudariam na investigação, negando sua reputação de cobra criada.

E esse cobra (não no sentido de venenoso, mas de craque) terá de esclarecer o dinheirão aplicado pelo fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, o Previ, por ordem dele numa obra da Odebrecht. Provavelmente, isso ainda vai dar muito pano pra mangas, embora sua prisão agora esteja relacionada ao alegado pedido de recursos para facilitar a situação da empreiteira na Petrobrás, origem de seu ousado, mas não atendido, pedido da propina quase seis vezes maior do que a que ele é acusado de ter recebido.

Segundo Murilo Ramos publicou no site da Época Expresso, há outro capítulo da ligação de Bendine com a Odebrecht que demanda investigação: o empréstimo de mais de R$ 800 milhões da Previ a empreendimento imobiliário da Odebrecht em São Paulo, em 2012. À época, ele comandava o BB. E o fundo de pensão – que, antes. havia tomado um prejuízo gigantesco com a Odebrecht pot yrt investido muito no complexo turístico da Costa do Sauípe – voltou a conceder empréstimo vultoso a outro projeto da empreiteira. A participação do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega no episódio também demanda investigação rigorosa.

Na gestão de Bendine na presidência do maior banco público do País, o Previ também se associou à construtora OAS na empesa Invepar. Ou seja, um novo alvo da Operação Cobra deveria ser o Banco do Brasil e a Previ, a depender das investigações da força-tarefa da Lava Jato e, quem sabe, de uma delação premiada do cobra que o soit-disant jararaca (Lula) criou.

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