sábado, 5 de agosto de 2017

Culpado por vencer

Valentina de Botas, na coluna de Augusto Nunes (Veja.com):


Quem são? Onde vivem? O que pensam?

Em 2010, o governo Lula alcançava taxa de popularidade de 80%, com sensação térmica-autoritária de 103%. Éramos estimados em 5% da população os resistentes ao sacerdote do primitivismo que, em lições diárias de ódio ao contraditório, separou o país na clivagem canalha nós X eles, apostando na divisão obscura para continuar reinando. O mensalão já se revelara, o petrolão jorrava no subterrâneo e a política externa se amasiava a facínoras internacionais. Havia um jornalista inconformado com a existência dos 5% de alienígenas: insatisfeitos com o governo Lula? como assim? quem era essa gente?

Sete anos depois: quem são? onde vivem? o que pensam?

A desaprovação ao governo Temer alcança 90%, com sensação térmica-janoesley de 101%. Brinco com o pseudônimo que uso para escrever, me revelo escondida nele, mas sou uma pessoa real, uma mulher comum que se atrapalha com problemas pequenos e hesita diante dos grandes; e a gente pode se topar de repente no metrô, na fila do banco para sacar o FGTS inativo, no supermercado, na Pinacoteca ou na fila do cinema, pois leiam meus lábios: integro os 5% que aprovam o governo Temer. Mesmo com defeitos sérios e excetuando-se a era FHC, este governo é o melhor desde a redemocratização. Enquanto a metafísica vigente nos governos petistas constrangia a dissidência, agora ela constrange quem aprova o atual. De tal forma que o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima disse que “muitas pessoas que apoiavam a Lava Jato só queriam o fim do governo Dilma, e não o fim da corrupção”; tese moralmente chantagista coincidente com a do PT. Ora, nem todo o apoio do mundo à LJ derrubaria Dilma já que a pior presidente do país – qualquer país – caiu por um crime de responsabilidade fora do cardápio da LJ e as tentativas da ex-presidente em obstruir a operação não deixaram enjoado o procurador-geral que até hoje não a denunciou; ademais, o fanatismo midiático de Carlos Fernando não o deixa ver que os brasileiros decentes continuamos a apoiar a LJ e exatamente por isso repudiamos o uso dela para que uns bandidos se lavem na sujeira dos outros e nos erros da operação, as falácias e a prolixidade indecorosa de alguns procuradores em busca de promoção em vez de provas, a politicagem e as vaidades que fazem a LJ perder o foco e as referências legais, dando chance à bandidagem e a oportunistas.

Reformas que não inocentam e acusação que não prova

No monólogo dialogado entre a porção fanática da LJ que se pretende a única voz legítima no debate e a maioria da imprensa, desde o evento Janoesley principalmente, apela-se à desinformação, à deformação de opiniões e ao pensamento aplainado. A imprensa é livre felizmente, por isso mesmo ficaria bonito dar alguma chance ao contraditório. Exemplos: informar que o empenho de emendas ao orçamento, liberadas antes de a denúncia de Janoesley ser votada na Câmara, é regulado por lei e a ela obedeceu ainda que tenha se concentrado nas vésperas da votação e que isso aponte mais um vício do funcionamento do Congresso; assinalar que o procurador-geral, num evento em Washington, admitiu não haver provas contra Temer (entre os poucos analistas que deram uma chance à verdade, José Nêumanne, num Roda Viva recente, disse que o fato enseja o impeachment de Janot); reconhecer o trecho da denúncia que faz a mesma admissão; repudiar que certas ilegalidades (como as cometidas por Janot no inquérito contra Temer) prevaleçam a pretexto do combate a outras. Isso substituiria torcidas tortas, profecias perecíveis, mistificações e demonizações pela crítica madura ao governo e pela discussão de problemas reais como as reformas. Quem as conduziria senão o presidente mais impopular e sem projeto eleitoral? Não sei se, mesmo quanto à da previdência por ser uma PEC – espécie legislativa que dispensa a sanção do presidente –, é certo dizer que elas já concernem somente ao Congresso e independem deste ou daquele presidente. Tenho a impressão de que o presidente sempre dá o tom da coisa. Claro, se houvesse provas contra Temer, reforma nenhuma poderia ser pretexto para mantê-lo na presidência, mesmo que sua queda rasgasse a nação em incertezas que a fariam presa de radicalismos. Mas só haveria provas se o procurador-geral se preocupasse com a legalidade e, se assim fosse, Joesley não estaria nem mais rico nem solto.

Culpado por vencer

Para tristeza dos especuladores e vexame dos professores de Deus, o dólar caía e a Bolsa subia conforme se evidenciava a vitória de Temer, demonstrando que ele é culpado pela confiança na estabilidade que seu governo inspira. FHC disse que foi uma vitória pírrica; nosso único estadista vivo, exercitando o livre direito ao equívoco, recebeu merecida homenagem de certo blog do centro do submundo. Acha que a vitória de Temer custará muito ao país. Francamente. Custará infinitamente menos do que nos custaram o governo da “mulher honrada”, a oposição que a ele não se opôs e a fatura institucional, econômica, social e política de se afastar o presidente com base nos enjoos ideológicos de um arqueiro-parcial da república. Enquanto isso, a população incompreendida pela maioria das redações e estranha aos saraus de Caetano Veloso negou audiência à Rede Globo na cobertura da votação na Câmara. A mesma população que reprova o governo intriga analistas que a tomam por indiferente: é menos indiferença e mais apreensão e cansaço de quem não tem estabilidade no emprego ou mesmo um emprego, além do fastio com o espetáculo incessante de fim do mundo diário e o perigo de topar com “amantes espirituais de Che Guevara” (como dizia Nelson Rodrigues) numa eventual manifestação pela saída de Temer. Respeito os analistas que ponderam, mas os profetas do governo-temer-morreu precisam descobrir que uma acusação sem provas não destrói a autoridade moral de seu alvo, mas a de quem a apresentou e a de quem permanece gritando na escuridão do criticismo folclórico que denúncias bastam por si mesmas.

O silêncio das ruas

Alguns procuradores de inacreditável atuação midiática e outros tutores da indignação da população a interpelam todo dia pelo silêncio-das-ruas. Se você integra tal grupo, veja esta dica. Reserve a manhã ou a tarde de um domingo; você precisará de calçados e roupas confortáveis, uma cartolina de cor clara e um pincel atômico de cor escura. Está pronto? Abra a cartolina sobre uma superfície plana, limpa, seca e firme. Segure o pincel atômico com a mão esquerda se você for canhoto; com a mão direita, se destro; ou qualquer uma, se ambidestro. Destampe o pincel atômico e vire a ponta para a cartolina a aproximadamente um palmo das margens esquerda e superior. Posicionado? Então escreva: FORA, TEMER. Pronto! Agora, calçado e vestido confortavelmente, portando o próprio cartaz, vá para a rua fazer o que cobra de uma população exausta e apreensiva. Conspirar, especular ou brincar de derrubar presidente até parir um radical populista pode ser divertido; mas quem tem trabalho, precisa trabalhar e quem não tem, precisa batalhar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Valentina de Botas, você superou a si mesma nesse texto grandioso !!!
Uma mulher real, comum, como diz, superou todos, todos os jornalistas, analistas políticos e quem mais se aventure a emitir opiniões sobre o momento político atual : merece o maior prêmio de jornalismo existente no país e até do exterior !!
Esse texto, de uma anônima comentarista de Augusto Nunes, é a voz de milhões de brasileiros de bem que não possuem o dom da expressão vigorosa da verdade e nem espaço para emiti-lo. Agradeço em nome de todos por dizer tudo o que precisava ser dito !
Parabéns ! Aplausos em pé !!