quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Esquerda e direita: patologias da sociedade.

Paulo Tunhas escreve sobre a dicotomia direita/esquerda, que conviria hoje definir, talvez, como oposição entre liberalismo e estatismo. Sua conclusão é certeira: "se quisermos recorrer ao vocabulário da “esquerda” e “direita”, como temos de o fazer no dia-a-dia, é muito verosímil que aquilo que se chama “direita” ofereça hoje em dia concepções menos patológicas da sociedade do que aquilo que se chama “esquerda”. A direita evoluiu, a esquerda, pelo contrário, regrediu". Ainda: "O estatismo (e, vá lá, o “amor pela cultura”) tornou-se quase a marca única da esquerda. A direita define-se de forma mais variada e matizada. Dito de outra maneira: faz menos mal à sociedade. Terá de ser sempre assim? Duvido. Mas no momento presente é, parece-me, assim". Eis o artigo completo, publicado no Observador:


Não digo que seja a chave para o que quer que seja, mas se quisermos reflectir um pouco sobre o estado presente da nossa sociedade não é inútil pensar um pouco nas infinitas formas que as sociedades tomaram ao longo dos tempos, nas várias crenças que adoptaram, nas instituições que criaram, na maneira como a si mesmas se imaginaram, nos símbolos que escolheram para si. O espectáculo que encontramos é um pouco o do botânico que atravessa uma selva luxuriante. Há o terrível e há o maravilhoso e há muitas vezes o terrível indistinguível do maravilhoso. Encontramos astecas e súbditos de faraós, senadores romanos e profetas armados, decências vitorianas e monstruosidades totalitárias. Uma coisa é certa: tudo isso é criação humana, algo que o filósofo francês de ascendência grega Cornelius Castoriadis pensou talvez melhor e mais radicalmente que ninguém.

Serei o último a recusar qualquer pertinência à distinção entre direita e esquerda. Precisamos de opor para pensar e para nos orientarmos no pensamento, como lembrava Fernando Gil, e o pensamento político, mesmo o mais imediato e circunstancial, não escapa a esta condição geral. Mas, ao mesmo tempo, é uma oposição que tende a recalcar algo de essencial. A verdadeira interrogação sobre a natureza da sociedade não é, não pode ser, nem de “esquerda” nem de “direita”, contrariamente à pretensão de muita gente. Os projectos políticos, esses sim, deixam-se em parte definir em tais termos. Mas os projectos políticos que não se alicerçam, de forma mais ou menos reflectida, numa interrogação filosófica sobre a criação humana da sociedade tendem declaradamente para a monstruosidade, ou, pelo menos, para uma pobreza e para uma rigidez esquemática que não se recomendam.

Olhando à nossa volta, encontramos gente que, para retomar a distinção célebre de Tocqueville, é dominada pela “paixão da liberdade” e gente em que a “paixão da igualdade” é dominante. É muito duvidoso que sejam paixões naturais e universais. São, com toda a probabilidade, paixões que nascem no contexto de uma certa tradição – a nossa, a ocidental – e que têm, assim, uma raiz comum. O que, à sua maneira, significa que não são incompatíveis uma com a outra. Pessoalmente, e sem querer cair em magias dialécticas, sempre me pareceu que a liberdade não sobrevive sem uma certa forma de igualdade e que a igualdade rapidamente desaparece se não se encontrar acompanhada de alguma figura de liberdade. Não creio, de resto, que seja um pensamento excessivamente original: a maior parte das pessoas pensa assim.

Resta que a instrumentalização política dessas paixões, aquela exactamente levada a cabo pelos projectos políticos que silenciam qualquer reflexão efectiva sobre a natureza da sociedade, conduz a uma sua absolutização que impede que entre elas se forme qualquer aliança. Resulta daí o nascimento de concepções de justiça radicalmente incompatíveis entre si que formam o núcleo mais duro da oposição entre direita e esquerda. As concepções da justiça são já de si naturalmente plurais e não há filósofo algum que subscreva, de Platão a Rawls, o pensamento de um outro nessa matéria, um fenómeno que não se encontra com um peso equivalente em matérias relativas ao conhecimento ou até em questões estéticas. Mas quando o problema da justiça se encontra absorvido pelos projectos políticos que silenciam a questão da origem da sociedade essa pluralidade transforma-se numa oposição rígida e esquemática. Para uns, a justiça coloca a liberdade no seu centro. Para outros, a igualdade.

Nas nossas sociedades, essa oposição forte fornece o assento ao conflito entre liberalismo e estatismo, que é provavelmente a forma mais aparente da oposição entre direita e esquerda. Mais uma vez, trata-se de uma radicalização de algo que pode e deve ser pensado sem conduzir a posições extremas. Nem a liberdade individual é algo que se defina por oposição ao Estado, nem o Estado supõe a anulação desta. Acontece no entanto que os projectos políticos tendem a encaminhar-se para os extremos, conduzindo a situações patológicas. E há patologias da liberdade e patologias da igualdade.

Estas questões não se colocariam se fossemos astecas ou súbditos de Amenófis IV. Colocam-se (felizmente) a nós. E por isso o juízo político e a deliberação política devem buscar as soluções menos patológicas, que são aquelas que mantêm viva, por mais precária que seja essa vida, a interrogação sobre a natureza da sociedade como criação humana e a reflexão sobre a justiça. Com toda a probabilidade, o grau de nocividade das patologias varia com o tempo e a situação histórica. Em certas situações, aquilo que o filósofo conservador Roger Scruton chamou um desprezo quase nietzschiano pelos que são dependentes é mais nocivo. Noutras, é mais nocivo o projecto de uma sociedade constituída por uma massa de dependentes do Estado.

Se quisermos recorrer ao vocabulário da “esquerda” e “direita”, como temos de o fazer no dia-a-dia, é muito verosímil que aquilo que se chama “direita” ofereça hoje em dia concepções menos patológicas da sociedade do que aquilo que se chama “esquerda”. A direita evoluiu, a esquerda, pelo contrário, regrediu. A direita pensa de forma menos extremada a relação entre o indivíduo e o Estado do que a esquerda e a possibilidade de pensar a justiça social que a direita oferece encontra-se mais próxima de uma concepção pluralista desta do que aquela que a esquerda, mais rígida, permite. O estatismo (e, vá lá, o “amor pela cultura”) tornou-se quase a marca única da esquerda. A direita define-se de forma mais variada e matizada. Dito de outra maneira: faz menos mal à sociedade. Terá de ser sempre assim? Duvido. Mas no momento presente é, parece-me, assim.

3 comentários:

shamijacobus disse...

QUO VADIS.
Furando o tema...
Escutou daí os berros ?.:

http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/rafael-martini/noticia/2017/08/julgamento-no-tj-sc-e-suspenso-apos-advogado-acusar-desembargador-de-pedir-propina-9860276.html

eu não guento

shamijacobus disse...

QUO Vadis
Nova Faculdade de JORNALISMO ??.
Trabalhos científicos eu até duvido.

"Araçatuba
Faco trabalhos e dou assessoria academica.Não se aprende bem senão pela experiência. TRABALHOS DE FACULDADES, UNIVERSIDADES, CURSOS TECNICOS, ETC,FATEC,SENAI,SENAC: TENHO meu proprio escritorio onde faco TCC e Monografia 400,00. Slides 250,00. Portfólio 250,00. Projetos multidisciplinar 300,00. Desenhos gráficos 200,00. Planejamento de aula 100,00. Preenchimento de ficha de estágio 100,00. Artigos comuns e cientificos 150,00. Slides 90,00. Resumos 80,00. Resenhas críticas 130,00. Resolução de exercícios 90,00, Banner 120,00 entre outros. 25 anos no mercado, prestando assessoria acadêmica para todos os Estados do Brasil, sem PLÁGIO, trabalhos inéditos, exclusivos.
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eu não guento

Anônimo disse...

Artur Nogueira diz:
A esquerda, além de relativista e moralmente degenerada é, também, intelectualmente desonesta.
Vejamos o que está ocorrendo no país. Um enorme esforço , pela operação Lava-Jato no combate à corrupção.
Agora, inventaram um tal de "tribunal popular" para julgar a Lava-Jato.
Promovido por bizarrices intituladas "coletivo de advogados pela democracia e frente Brasil de juristas pela democracia".
Na acusação, Eugênio Aragão, sim , aquele mesmo- ministro de Dilma e , pasmem, na defesa, o indefectível "kakay", notório defensor das causas petistas e grande amigo de Zé Dirceu e Lula. (vide Gazeta do Povo).
Essa gente não desiste. Estão na verdade querendo legitimar a revolução pela corrupção.