domingo, 13 de agosto de 2017

O que é ser um humanista?

Otto Maria Carpeaux.
Do ponto de vista recente, isto é, idealista, ser humanista é acreditar que se possa mudar o homem, algo típico da "esquerda progressista". A história fornece exemplos trágicos dessa tentativa. Texto de Luiz Felipe Pondé, publicado na FSP:


O humanismo moderno é idealismo, o antigo é realidade. Define assim Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em seu monumental "História da Literatura Ocidental" (ed.LeYa/Livraria Cultura), a diferença entre o que seria o humanismo antigo e o moderno. E qual a importância disso, para além do "mero" repertório clássico?

Antes de tudo, o fato de que, em vez de a crítica literária ficar discutindo a relação entre literatura, banheiros e gênero, ou aquela entre literatura, classe e raça, ela deveria estudar mais gente como Otto Maria Carpeaux.

Sem nunca atuar de fato na academia e mantendo-se "fiel" à mídia impressa, ele já demonstrava que, muitas vezes, é o mundo "comum" que acolhe melhor o pensamento mais relevante.

A diferença que Carpeaux estabelece pode nos ajudar a entender o lugar que ocupam uma verdadeira empatia intelectual para com o sofrimento humano e suas produções culturais (entendido, grosso modo, como humanismo). O que é ser um humanista?

Do ponto de vista recente, parecem-me existir dois tipos básicos de humanismo. Por "recente", quero dizer o "moderno" ao qual se refere Carpeaux. Seguindo a intuição do grande crítico, eu arriscaria dizer que há um primeiro, mais associado à vocação realizadora burguesa, e um segundo, mais ligado ao que costumamos classificar de "esquerda".

Ambos idealistas, ainda que aparentemente opostos - só aparentemente, em parte.

A semelhança dos dois está exatamente na natureza idealista de ambos. "Idealista" aqui significa, em primeiro lugar, crer numa ideia de humano que não existe; em segundo lugar, imaginar que esse humano tem as rédeas do destino em suas mãos, seja pela gestão técnica dos processos que caracterizam a vida (engenharia, ciência), como no humanismo burguês, seja pela crença na capacidade política e social de criar "um novo humano", como no humanismo típico da "esquerda progressista".

O idealismo de ambos é traído pela vocação mútua à crença na perfectibilidade do homem.

O humanismo moderno, assim, revela-se antes mais como um "projeto de homem" do que propriamente como um olhar sobre o modo de a realidade humana se produzir.

O humanismo moderno é idealista, o antigo é realista. Eis a diferença contemplada por Carpeaux.

E onde Carpeaux encontra esse humanismo antigo, vocacionado a contemplar a realidade do humano? Entre outros lugares, na tragédia ática, conhecida como tragédia grega ateniense, que floresceu entre os séculos 6 a.C. e 5 a.C.. Entre os dramaturgos, Ésquilo (525 a.C. - 456 a.C.), Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.) e Eurípedes (480 a.C. - 406 a.C.).

No "diálogo" entre esses três fundadores do teatro ocidental, Carpeaux encontra a rota desse humanismo, de certa forma, superior ao moderno, na medida em que olha para a realidade a partir do ser humano tal como ele é, e não tal como achamos que ele deveria ser um dia.

A Atenas dessa época é uma Atenas "democrática", em transformação. Uma Atenas em agonia, imersa numa mudança de costumes, grosso modo, num conflito entre um mundo da tradição, dos deuses, e o mundo da pólis, ou da lei humana -agonia essa tão bem representada pela personagem Antígona de Sófocles.

Ésquilo coloca em ato o combate entre o destino esmagador traçado pelo deuses e o desejo humano de libertação desse destino ("Prometeu Acorrentado").

Sófocles desenha a beleza moral de homens e mulheres que são esmagados por esse destino, mas que tombam com dignidade ("Édipo Rei" e "Antígona").

Por fim, Eurípedes, "tragikotatos" ("o maior de todos os poetas") segundo Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), encontra diante de si o indivíduo sozinho, que enfrenta deuses, polis, família, emoções e obrigações sociais e perece no combate contra todos eles ("Medeia").

A luta contra o destino, mediante o avanço da técnica, e o desastre implícito nesse avanço, a derrota diante do que é sempre maior do que nós (a cidade, a religião, a lei, as obrigações e mentiras sociais), a infinita fúria presente na vida dos afetos, impermeáveis à razão.

Enfim, o que existe exatamente de novo embaixo do sol?

2 comentários:

Anônimo disse...

Onde a crítica literária ficou discutindo a relação entre literatura, banheiros e gênero? Em Parati? Ou nessas teses porraloucas e irrelevantes que financiamos todos? Realmente, ganha-se muito mais lendo um autor de raça como Carpeaux do que moderninhos politicamente corretos como Italo Moriconi.

Um belo embate de humanistas encontra-se também n'"A montanha mágica", de Thomas Mann.

Maria Gontijo disse...

E também em O Som e a Fúria, de Faulkner, romance em que o narrador é um retardado (oh, perdão, não é politicamente correto referir-se a um "portador de necessidades especiais", ainda que seja personagem de ficção, nesses termos!) e se pode ler, numa determinada passagem intertextual um trecho original de Shakespeare: A vida é uma história contada por um tolo, cheia de som e de fúria que não significa nada.
O homem é o mesmo desde que o mundo é mundo (em outras palavras, não existe evolução no plano ôntico) e todas as obras literárias dignas desse nome apontam para essa imutabilidade e, ao mesmo tempo, variedade e complexidade do humano.
O grande problema dos esquerdinhas convictos é que os babacóides acreditam ter posto o ovo em pé quando berram a plenos pulmões: O mundo é injusto!!!! Ora, palermas patéticos, sempre é! O embate entre Mefisto e o Fausto (uma obra goethiana que levou décadas - uma vida inteira - para ser composta) mostra com clareza que o Homem é um ser insatisfeito sempre. Mesmo se conquistar tudo o que seja possível ser conquistado. A estupidez de se crer que a Igualdade possa trazer felicidade é de um desconhecimento desmedido da natureza humana.
Maria do Espírito Santo Gontijo.