segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Em defesa da aliança euro-americana

Vamos ser claros, conclama o professor João Carlos Espada no jornal Observador: "a ideia de substituir a aliança euro-atlântica por uma aliança euro-chinesa não é apenas uma completa loucura — seria uma submissão":


A semana passada começou com uma chocante primeira página do Telegraph de Londres, logo na segunda-feira de manhã: ‘Army can’t keep up with Russia’. Não se tratava da opinião de um comentador avulso. Era a declaração do chefe das Forças Armadas britânicas, General Sir Nick Carter, denunciando o gigantesco investimento militar russo e a actual incapacidade britânica de lhe fazer frente.

Na semana anterior, o Pentágono acabara de publicar uma nova ‘Estratégia de Defesa Nacional’. O documento define a Rússia e a China como as ameaças mais sérias para os EUA e o mundo ocidental — mais do que o terrorismo islâmico.

E a semana passada terminou com uma capa surpreendente de uma revista britânica: ‘The Next War’ era o título em letras garrafais de The Economist. No editorial de abertura, a revista alerta:
‘Se a América permitir que a China e a Rússia estabeleçam hegemonias regionais — quer inconscientemente, quer porque a política americana se tornou demasiado disfuncional para conseguir gerar uma resposta — então [a América] estará a dar-lhes [à China e à Rússia] luz verde para prosseguirem os seus interesses pela força bruta.’
Entretanto, nestas mesmas duas últimas semanas, nas capitais europeias — incluindo parcialmente em Davos — estes temas eram superiormente ignorados. As capitais europeias continuam magnamente ocupadas com a campanha contra o chamado ‘nacionalismo’.

O termo ‘nacionalismo’ tornou-se elástico: inclui justamente a condenação de atitudes xenófobas, racistas e proteccionistas; mas também inclui a gratuita condenação da inofensiva oposição patriótica de inúmeros eleitorados de nações europeias (sobretudo da Europa central e de Leste) contra maior integração supranacional da União Europeia — designadamente, contra a definição supranacional das políticas de imigração de cada país, que sempre foram matéria dos Parlamentos nacionais.

Precisamente a este propósito, também esta semana uma outra revista britânica alertou para a dissonância cognitiva que ameaça o debate europeu. John O’Sullivan (antigo conselheiro da Sra. Thatcher, que estará de novo entre nós no próximo dia 10 de Fevereiro), escreveu o artigo que deu a capa da Spectator.

Chama-se ‘The fight for Europe’. Ainda que eu não subscreva inteiramente as opiniões de John O’Sullivan (um frequente participante nas sessões do Estoril Political Forum do IEP-UCP, sempre obviamente ignorados pelos ‘media’ politicamente correctos nacionais), creio que os alertas dele devem pelo menos ser tidos em conta. Por exemplo:
‘Estes europeus do centro e do leste entendem-se a si próprios como a verdadeira Europa. Uma Europa que valoriza o estado-nação, a família, políticas prudentes, a religião cristã, e a democracia maioritária — e vêem estes padrões como ecos mais autênticos da tradição europeia. Por isso, os seus conflitos com Bruxelas não são acerca de eles serem anti-europeus, mas acerca do que significa ser europeu.’
Concordemos ou não com O’Sullivan, creio que o seu olhar recomenda pelo menos prudência. E a prudência recomenda que o projecto europeu não deve ambicionar desenhos utópicos supranacionais — sob pena de podermos ficar com ‘mais Europa e… com menos europeus’.

Mas receio que este nem sequer seja agora o problema principal. O problema principal é que a obsessão de alguns sectores euro-federalistas contra o chamado ‘nacionalismo’ pode estar a gerar uma tentação fatal: a tentação de substituir a aliança entre a Europa e os EUA pela aliança euro-asiática… se preciso for com a China comunista!

O argumento começa a surgir em várias vozes. Ouvi recentemente um alto funcionário europeu citar positivamente a China três vezes numa intervenção pública de 20 minutos — em que insistentemente condenou o ‘nacionalismo’ dentro da Europa e na América de Trump. Inúmeros jornais europeus citam frequentemente a China como um parceiro desejável, ou pelo menos possível — sobretudo contra o que designam por ‘nacionalismo’ da América de Trump.

Vamos ser claros: a ideia de substituir a aliança euro-atlântica por uma aliança euro-chinesa não é apenas uma completa loucura — seria uma submissão.

2 comentários:

Danir disse...

Já estive na China algumas vezes, e não só nas cidades mostruário, mas no interiorzão. Deu para perceber que eles são tremendamente nacionalistas e que sentem um tremendo orgulho de estarem disputando a hegemonia com os ocidentais. Eles nos vêm como fracos e manipuláveis. Só mesmo um europeu frouxo e sem objetivo na vida pode acreditar que estas idéias de confraternização e aliança são verdadeiras. Os russos e os chineses assim como os muçulmanos nunca entrariam nesta de multiculturalismo e politicamente correto. Eles inventaram estas doutrinas para nos dominar e nós estamos aceitando passivamente. A turma do leste europeu, que já conviveu com a dominação soviética não cai nesta; só mesmo aqueles que ainda acreditam em contos de fadas e boas intenções por parte destes lobos. Se você for à Arabia Saudita, preste atenção nas mensagens que estão por toda parte nos aeroportos em vários idiomas: Você esta´entrando na Arabia Saudita, e está sujeito às normass muçulmanas. A sua não obediência acarretará em prisão, multa e expulsão. Sem multiculturalismo, sem politicamente correto, sem respeito ás mulheres, aos homosexuais ou aos dissidentes de opinião. Acordem enquanto ainda é tempo; nós estamos em guerra. E estamos perdendo.

Anônimo disse...

O trágico é que houve um tempo em que a "verdadeira Europa" era considerada a Península Ibérica, já chamada de extremo Ocidente. Muitos dos valores que ali vigoravam passaram à América Latina, mas foram erodidos por forças como as mitologias da esquerda, inteiramente desmoralizadas e desacreditadas na economia e reduzidas à polícia do pensamento alheio, o tal de politicamente correto.